Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Amor bandido

Geraldina, a prostituta miúda, jovem e alegre o abraçava carinhosamente, sem medo de contágio. Apesar disso, Jonas sentia-se triste e só no mundo, na certeza de estar tuberculoso, desde que escarrara sangue ao amanhecer. Olhos fitos no telhado precário, revia os meses vividos naquela cidade suja e poeirenta atrelada ao imenso canteiro de obras do delírio nacional: a nova Capital Federal. Naquele formigueiro humano, menor de idade e sem documentos, se refugiara nos últimos meses do conflito permanente com os pais. Por conjunturas racionalmente inexplicáveis, conseguira um emprego como apontador-de-horas em uma obra, mantendo-se razoavelmente e curtindo noitadas nos prostíbulos da Cidade Livre, onde iniciara o estranho romance com Geraldina – dois adolescentes perdidos no mundo. Até que agrediu um conterrâneo que o insultara e perdera o emprego, mudando-se definitivamente para o puteiro e sustentando-se com o dinheiro da indenização. Sem sonhos. Sem perspectivas. Sem vontade de voltar pra casa. Apenas se deixando amar por Geraldina, entre um intervalo e outro da sua labuta sexual. Até que o dinheiro acabou e ela passou a sustentá-lo, feliz por ter o seu homem, feliz por ter a quem proteger. Até que veio a doença pulmonar de muitos dias, o emagrecimento apesar dos cuidados, culminando com o escarrar sanguinolento da manhã.

Agora ela, que se levantara silenciosa e saíra – labuta sexual, pensou Jonas-, colocava á frente dele Expedito, o amigo comum, para levá-lo ao hospital público. Jonas não opôs resistência e nada falou. Estava fraco demais para lutar. Triste demais para alegrar-se com a atitude amorosa de ambos. Resignado a ouvir dos médicos sua sentença de morte e voltar para definhar naquele quarto suburbano. Levantou-se e partiu amparado por aquela dupla silenciosa.

Sentado no corredor do hospital, com Expedito ao lado, observava com ternura a estranha cena de Geraldina, seminua e exageradamente pintada, andar de uma sala a outra, em meio aos olhares escandalizados do público, buscando atendimento para o seu homem. Finalmente encaminhado a uma sala, interrogado, examinado, apalpado e auscultado veio a sentença:

__ Você não tem sintomas de tuberculose. Parece mais uma pneumonia muito forte e mal tratada.

Jonas olhou para a mulher e riu do brilho dos seus olhos que diziam: eu sabia…

De volta ao quarto, entre um cliente e outro, ela voltou a rir e a fazer planos de montar casa com ele, trabalhar e deixar aquela vida. Jonas escutava e pensava. Ela sonhava com família e ele pensava em fugir daquela miséria que o adoecera. Ela construía sonhos comuns e ele, já que não morreria, sonhava com outros caminhos e novas buscas. Sozinho.

Dias depois, Geraldina lhe deu dinheiro para alugar o lar. E Jonas embarcou em um ônibus, para bem longe.

Terça-feira, 1 Abril, 2008 - Publicado por Henrique Miranda | Pequenas histórias | , , , | Sem comentários ainda

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