Anita Catarina Malfatti
Carlos Eurico Augusto Germer
Eng. Agrônomo
Colaborador do Blog
kgermer@uol.com.br
Anita Malfatti nasceu em São Paulo em 02 de dezembro de 1889. Nasceu com um problema congênito que lhe limitava movimentos do braço e da mão, no lado direito.
Logo pequena teve contato com a arte, pois, sua mãe era professora de pintura. Incentivada pela família foi, em 1910, para a Alemanha, onde freqüentou, por três anos, a Academia Real de Berlim. Estudou gravura, desenho e pintura, além de conhecer os principais mestres do expressionismo alemão.
“Quando cheguei à Europa, vi pela primeira vez a pintura. Quando visitei os museus fiquei tonta. Comecei a querer descobrir no que os grandes santos das escolas italianas eram diferentes dos santinhos dos colégios. Tanto me encantavam uns quanto os outros. Fiquei infeliz porque a emoção não era de deslumbramento, mas de perturbação e de infinito cansaço diante do desconhecido. Assim passei semanas voltando diariamente ao Museu de Dresde. Em Berlim continuei a busca e comecei a desenhar. Desenhei seis meses dia e noite. Um belo dia fui com uma colega ver uma grande exposição de pintura moderna. Eram quadros grandes. Havia emprego de quilos de tinta e de todas as cores. Um jogo formidável. Uma confusão, um arrebatamento, cada acidente de forma pintado com todas as cores. O artista não havia tomado tempo para misturar as cores, o que para mim foi uma revelação e minha primeira descoberta. Pensei, o artista está certo. A luz do sol é composta de três cores primárias e quatro derivadas. Os objetos se acusam só quando saem da sombra, isto é, quando envolvidos na luz. Tudo é resultado da luz que os acusa, participando de todas as cores. Comecei a ver tudo acusado por todas as cores. Nada nesse mundo é incolor ou sem luz. Procurei o homem de todas as cores, Lovis Corinth, e dentro de uma semana comecei a trabalhar na aula desse professor. Comprei incontinente uma porção de tintas, e a festa começou. Continuava a ter medo da grande pintura como se tem medo de um cálculo integral”. [BATISTA, Marta Rossetti (Org. ); LOPEZ, Telé Ancona (Org. ); LIMA, Yvone Soares de (Org. ). Brasil: 1º tempo modernista 1917/25: documentação. São Paulo: IEB: USP, 1972, p. 41].
De volta ao Brasil, em 1914, realizou sua primeira exposição individual.
Foi a seguir para Nova York estudar na Independent School of Art, experiência marcante em sua obra. Teve contato com artistas e intelectuais. Anita iniciou uma obra de tendência claramente expressionista, longe dos padrões acadêmicos vigentes até então no Brasil. Sua exposição em 1917, em São Paulo, recebeu crítica ferrenha de Monteiro Lobato.
Anita é considerada precursora do modernismo nas artes plásticas brasileiras. As obras A Boba e Torso fazem parte dos trabalhos expostos em 1917, considerados o climax de sua produção.
Foi o período mais marcante de sua criação, no qual pintou O homem amarelo, Mulher de cabelos verdes, O japonês, e vários outros quadros.
De características cubista e expressionista, no quadro a figura humana é o personagem principal, torna-se secundário perante a explosão de cores, pinceladas firmes, o principal acontecimento deste quadro e a operação cromática, bem diferente do naturismo que predominava no Brasil. “O homem amarelo”, que tanto encantou Mário de Andrade, o modelo é um pobre imigrante da Itália que segundo a pintora, ao entrar para posar, tinha “uma expressão tão desesperada!” No quadro, é outro que surge: um “homem de cor” a serviço da pintura e glorificado por ela. A relação de hierarquia entre os elementos se inverte, ao contrário da era clássica: o referente torna-se secundário e a operação cromática o principal acontecimento da obra. Não se representa na tela um imigrante. O homem do quadro não é propriamente um homem, ou sua caricatura, mas ato potencializado em cor sob máscara humana, levemente sóbria, quase indiferente a si mesma, e uma das figuras mais expressivas de Anita Malfatti. Se a obra desta artista não causa o mesmo impacto em suas fases posteriores, ela nos deixa, sobretudo em seu período expressionista, um legado de grande força e invenção.
A tela “O Homem Amarelo”, a operação cromática é o principal acontecimento, ato potencializado em cor sob máscara humana, levemente sóbria, quase indiferente á si mesmo.
O Expressionismo tem suas origens no final do Século 19 e começo do Século 20, principalmente através de artistas como Van Gogh e Gauguin.
Em 1916, com 27 anos, a pintora estava de volta ao Brasil, adulta e madura, sentindo-se suficientemente segura para expor sua nova concepção de arte, voltada para o Expressionismo.
Confiando nos comentários e palavras de incentivos de amigos, não hesitou em alocar um espaço do Mappin Stores onde em 12 de dezembro de 1917, realizou uma única apresentação.
No entanto o Brasil não estava preparado para suas obras, o Brasil atravessava um momento de premência nacionalista não aceitou sua nova maneira de pintar, até mesmo porque o estilo da pintora fugia aos padrões vigentes no país.
E Anita até sua exposição em 1917 se mostrou claramente decidida nesta direção.
Os trabalhos expostos [...] são considerados o climax de sua produção.
A mais violenta crítica à exposição de Anita Malfatti foi a de Monteiro Lobato, publicada em dezembro de 1917, em O Estado de São Paulo, intitulada Paranóia ou mistificação?
Veja um trecho:
“Há duas espécies de artista. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. (…) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-se à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. Embora eles se dêem como novos, precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranóia e com a mistificação. De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura“.
Neste “artigo “Paranóia ou Mistificação?”, no qual criticou [a] exposição de Anita Malfatti e a influência dos “futurismos” nas obras da artista. Para ele, cada arte, como as ciências, tem suas leis (proporção, simetria etc.), e Malfatti era excelente artista quando as cumpria, tinha um “talento vigoroso, fora do comum”, porém, o escritor não gostava quando a artista se deixava seduzir pelas vanguardas européias, assumindo, segundo ele, “uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso & Cia.”.
Porém, as críticas de Monteiro Lobato ao Modernismo lhe causaram um impacto muito grande, fazendo-a abandonar a pintura por um ano inteiro.
A esse respeito Mário de Andrade disse: “Ela fraquejou, sua mão, indecisa, se perdeu”.
Contra todos, Anita lutou sozinha tendo a seu lado um único, fiel amigo, confidente, companheiro, defensor e – agora se sabe – sua paixão nem tão secreta assim: Mário de Andrade.
Monteiro Lobato mais tarde no mesmo ano, ao que parece tentou se retratar, mas de pouco adiantou:
LOBATO, Monteiro. [A propósito da exposição Malfatti]. Apud. BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti e o início da arte moderna no Brasil: vida e obra. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP. v. 1. p.165. [Texto extraído do artigo A propósito da exposição Malfatti, escrito em 1917]
“Possuidora de uma alta consciência do que faz, levada por um notável instinto para a apaixonada eleição dos seus assuntos e da sua maneira, a vibrante artista não temeu levantar com os seus cinqüenta trabalhos as mais irritadas opiniões e as mais contrariantes hostilidades. Era natural que elas surgissem no acanhamento da nossa vida artística. A impressão inicial que produzem os seus quadros é de originalidade e de diferente visão. As suas telas chocam o preconceito fotográfico que geralmente se leva no espírito para as nossas exposições de pintura. A sua arte é a negação da cópia, a ojeriza da oleografia“.
Anita caiu em forte depressão, vivendo um período de desorientação, um sentimento que carregou para o resto da vida.
Sua primeira reação foi o abandono total à arte.
Depois, passado um ano, dando uma guinada de 180 graus, foi tomar aulas de natureza-morta com o mestre Pedro Alexandrino Borges (1856-1942), onde conheceu Tarsila do Amaral, início de uma longa e proveitosa amizade.
Tarsila foi para a Europa.
Anita passou a estudar com outro mestre conservador, Jorge Fischer Elpons (1865-1939), também especialista em naturezas-mortas.
Sua arte, a partir daí virou uma salada russa.
Participou da Semana de Arte Moderna de 1922.
Nos seus quadros ‘Auto-Retrato’, ‘Mário de Andrade’ e ‘O Toureiro’, ela parece retomar um pouco das cores e formas de pintura que praticava por ocasião da Exposição de 1917. O mesmo acontece com o seu quadro o ’O Poeta’, entre aqueles aos quais tive acesso.
Com bolsa do governo de São Paulo foi para Paris, em 1923, onde se encontrou com Tarsila, Oswaldo, Brecheret e Di Cavalcanti, além de pintores europeus.
Em 1923, Anita conquista finalmente a bolsa do Pensionato Artístico do Estado, patrocinada pelo do governo de São Paulo – que não havia conseguido com a exposição de 1914 – e segue para Paris, onde permanece por cinco anos. Lá se encontrou com Tarsila, Oswaldo, Brecheret e Di Cavalcanti, além de pintores europeus.
Em sua estada, ela toma distância de posições polêmicas da vanguarda. Pinta cenas de interiores como Interior de Mônaco e La Rentrée, e se aproxima do fauvismo e da simplicidade da pintura primitiva. A artista não nega o modernismo, mas evita o que ele tem de ruptura. Ao voltar para o Brasil, em 1928, interessa-se por temas regionalistas e se volta às formas tradicionais, como a pintura renascentista e a arte naïf. (V. no final desse trabalho).
Voltou mais confiante, mas disposta a não se atirar a novas aventuras.
Ao retornar, em 1928, organizou várias mostras de arte e deu aulas de pintura. Em 1937 integrou-se à Família Artística Paulista. Foi diretora do Sindicato de Artistas Plásticos. Depois da Segunda Guerra, seu trabalho tornou-se mais espontâneo do que intelectual, com uma carga maior de fantasia.
Já com idade madura, Anita mudou-se para uma chácara em Diadema (SP), onde faleceu em 06 de novembro de 1964, alienada do mundo, cuidando do jardim e vivendo seus próprios devaneios.
Participou das I e VII Bienais de São Paulo.
Saiba mais:
http://www.mac.usp.br/projetos/percursos/modernistas/malfati.html
http://www.pitoresco.com.br/brasil/anita/anita.htm

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