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Desenvolvimento Endógeno e Arranjos Produtivos Locais – APL’s

DESENVOLVIMENTO ENDÓGENO E ARRANJOS PRODUTIVOS LOCAIS: UMA POSSIBILIDADE PARA A AMAZÔNIA?

Henrique Rodrigues de Miranda[1]
henriquermiranda@yahoo.com.br

RESUMO

A atual crise ambiental, que mobiliza as sociedades do planeta em busca de soluções sustentáveis para as questões sociais e econômicas, foi construída historicamente pelo etnocentrismo pragmático-utilitarista, com base no uso irresponsável dos recursos naturais e na lógica capitalista da concentração e da centralização. Nas últimas décadas, a aceleração dos processos de globalização agravou estes efeitos negativos, por tentar-se agrupar, na concepção de “aldeia global” (MC LUHAN, 1969), realidades territoriais profundamente desiguais em termos de desenvolvimento, promovendo uma visão de “desterritorialização” que agravou mais ainda as crises ambientais, sociais e econômicas nos cenários das coletividades menos desenvolvidas. Estas crises alimentaram rediscussões da visão desenvolvimentista local, acrescentando-lhe os ingredientes do desenvolvimento territorial e endógeno e da sustentabilidade ambiental, econômica e social, e consolidando-se no conceito de desenvolvimento territorial sustentável, uma concepção atualizada e mais qualificada do termo desenvolvimento local utilizado até recentemente. E dentro desta lógica, surgiu na última década a abordagem dos Arranjos Produtivos Locais – APL’s, como modelo de integração econômica territorial e de sua inserção na economia globalizada, considerando os interesses e demandas das economias locais. Na Amazônia Brasileira, todavia, tanto o conceito de desenvolvimento endógeno como dos APL’s, encontram-se limitados em suas perspectivas concretas, pela centralização e natureza classista do Estado (em qualquer de suas instâncias), pela incipiente organização social (notadamente nos seus segmentos mais fragilizados social, econômica e politicamente) e pela ausência objetiva de modelos sustentáveis para a exploração de suas riquezas naturais. Em face disso, as experiências locais de desenvolvimento sustentável, na região amazônica, têm apresentado resultados limitados, o que justifica uma análise específica dos tópicos relativos aos conceitos e ao modelo citados, e às características e possibilidades desta estratégia territorial de desenvolvimento nas paisagens sociais da Amazônia Brasileira, notadamente em sua parcela situada no Estado do Pará.
No presente artigo, o autor procura descrever inicialmente os conteúdos dos principais conceitos, associando-os posteriormente, a guisa de conclusão, no cenário regional amazônico, onde se encontram em fase de discussões acadêmicas e esparsas experimentações empíricas.

Palavras chave: Desenvolvimento; Desenvolvimento endógeno; Arranjos Produtivos Locais.

INTRODUÇÃO

Contemporaneamente, o fenômeno da globalização tem sido explicado em meio a controvérsias acadêmicas: definido como “processo historicamente construído” (CASTELS, 1996; SCOTT, 1998; WATERMAN, 1998, apud BARQUERO, 2002), como “mundo sem fronteiras” (OHMAE, 1990; 1995), como “fantasia alijada da realidade” (VESETH, 1998; WADE, 1998, apud BARQUERO, 2002), ou “forma atualizada do Liberalismo” (FUKUYAMA, 1992, apud BARQUERO, 2002), ou ainda como “mundialização dos intercâmbios de bens e serviços, do capital e da produção” (OMAN, 1994; FERRER, 1996; CHAISNAIS, 1994, apud BARQUERO, 2002). Porém, acima destas controvérsias conceituais, há relativo consenso em considerar-se a globalização como fenômeno constituído ao longo dos séculos, com base nos intercâmbios econômicos, culturais, políticos, ideológicos (e até mesmo religiosos), ocorridos entre os países, regiões e localidades. E que se ampliou e consolidou-se, notadamente nas últimas três décadas, dinamizado pelo desenvolvimento das tecnologias da informação e dos meios de transportes. Estes dois fatores, associados aos processos acelerados de inovação tecnológica, geraram a resultante denominada de globalização e que viabilizou forte integração da economia planetária e das empresas, em um cenário de permanente competitividade, inovação e mercados internacionalizados (BARQUERO, 2002). Este processo histórico, porém, embora tenha ampliado a acumulação econômica nos países mais desenvolvidos correspondeu, nos países mais pobres, ao enfraquecimento dos estados nacionais, regionais e locais, com ajustes e transformações problemáticos em suas economias (à divisão internacional do trabalho, à integração de blocos continentais específicos e mudanças culturais), com dificuldades de acumulação nas economias mais frágeis (id ibid). Assim, a universalização do mercado gerou a marginalização dos mercados internos; as políticas públicas macro-empresariais de cada nação e/ou região assumiram caráter casuístico e externamente influenciado; ao avanço inovador das grandes empresas correspondeu a estagnação tecnológica microempresarial; e as teorias econômicas tradicionais, tratando marginalmente o universo das pequenas empresas, reforçaram este contexto adverso às economias locais (LIMA e LOPES, 2003).

Porém, em contraposição à afirmada capacidade determinadora da globalização na “desterritorialização” das nações, regiões e localidades, Barquero (2002) argumenta que, embora este fenômeno afete as nações, regiões e locais, a sua dinâmica econômica depende das decisões de inversão e localização dos atores econômicos e dos fatores de atração de cada território. Assim, ao mesmo tempo em que condiciona a dinâmica econômica das cidades e regiões, é afetado pelo comportamento dos atores locais. Para ele, globalização é um processo que se caracteriza pelo aumento de competitividade nos mercados (o que implica na continuação dos ajustes do sistema produtivo dos países, das regiões e das cidades inseridas na globalização), mas que as empresas competem conjuntamente com os seus entornos produtivos e institucionais. E que este fato permite aos territórios nacionais, regionais e/ou locais, se devidamente organizados, assimilarem as transformações organizacionais de acordo com a nova divisão internacional do trabalho, sem perder de vista os seus interesses e potencialidades. E neste contexto de competitividade crescente entre empresas e territórios, os processos de acumulação de capital e desenvolvimento estão condicionados por um conjunto de fatores que atuam sinergicamente: a difusão das inovações e do conhecimento entre as empresas e organizações, a adoção de formas mais flexíveis de organização da produção, o desenvolvimento das economias, da urbanização e da densidade do tecido institucional. Assim, as cidades e regiões respondem às influências da globalização mediante ações que incidem sobre os fatores que determinam os processos de acumulação de capital, buscando um caminho de desenvolvimento duradouro.

Esta argumentação de Barquero (2002), então, inserida na recente discussão sobre “desterritorialização” versus “multiterritorialidade” (HAESBERT, 2004), encaminha a questão da internacionalização e seus efeitos danosos às economias mais frágeis, para a teoria do desenvolvimento endógeno, que ele delineia da seguinte forma:

a) cada território (nacional e/ou regional e/ou local) pode e deve, a partir da utilização combinada das influências/demandas globais e suas específicas potencialidades e interesses, desenvolver suas instituições e seus capitais social, humano e produtivo;

b) este desenvolvimento interno, se devidamente realizado, deverá afluir para uma organização flexível da produção, com base na diversificação produtiva e na produção de escala, gerando reduções de custos e efeitos modernizadores (internos e externos) em termos de eficiência e eficácia;

c) estes efeitos, por decorrência, poderão gerar crescimento econômico (base do desenvolvimento territorial), com afirmação e ampliação da acumulação local.

Para sua viabilização empírica, porém, Barquero apresenta como implicações necessárias, respostas a algumas indagações básicas:

a) qual o papel predominante da interação entre tecnologia, organização da produção, desenvolvimento urbano e instituições, na dinâmica econômica?

b) que fatores explicam os processos de acumulação de capital e desenvolvimento, em tempos de globalização?

c) quais as relações que se estabelecem entre estes fatores?

d) que papel desempenha o Estado nos processos de acumulação e desenvolvimento?

e) em que medida as iniciativas locais permitem estimular os processos de acumulação de capital e de desenvolvimento das cidades e regiões?

f) quais são os aspectos específicos do desenvolvimento endógeno?

Dentro desta teoria, Barquero deixa implícita a necessidade da aglomeração produtiva, processo que tem como uma de suas alternativas os Arranjos Produtivos Locais – APL’s, que Lima e Lopes (2003) conceituaram como um aglomerado de empresas (constituído por unidades de pequeno e médio porte, com ou sem a presença de uma grande empresa), localizado em um território, com foco em um conjunto específico de atividades econômicas e que mantém vínculos de articulação entre as unidades participantes entre si e com outros atores institucionais (governo, associações, estabelecimentos de crédito, etc). Nesse cenário, procurar-se-á, no presente artigo, relacionar os dois temas (desenvolvimento endógeno e APL’s), que a nosso ver são complementares e inter-decorrentes no contexto regional amazônico, onde ainda se busca modelos sustentáveis de exploração dos recursos naturais, considerando seus interesses internos e as suas potencialidades produtivas. Este exercício cognitivo se dará tendo como base principal os textos de Antonio Vasquez Barquero (Desenvolvimento Endógeno, 2002) e Adelaide Motta Lima/Vítor Lopes (Arranjos Produtivos Locais: conceito e experiências em discussão, 2003), com abordagens complementares de outros autores (ver bibliografia).

No primeiro momento, abordar-se-á a teoria do desenvolvimento endógeno, priorizando as características, fatores, processos e interações da mesma e suas perspectivas sócio-econômicas. Após, apresentar-se-á o modelo econômico dos Arranjos Produtivos Locais – APL’s, suas características e possibilidades. Por último, a guisa de conclusão, o autor comentará suas percepções pessoais sobre os temas abordados e suas possibilidades e implicações no desenvolvimento regional.

1. desenvolvimento endógeno: a resistência local necessária e possível às determinações da “Aldeia global”.

Vasquez Barquero, ao abordar a teoria do desenvolvimento endógeno, considera que a acumulação de capital e o desenvolvimento tecnológico são fundamentais no crescimento econômico, e que este crescimento se produz como decorrência dos processos que viabilizam a acumulação de capital (criação e difusão de inovações no sistema produtivo, organização flexível da produção, geração de economias de aglomeração, diversificação nas cidades e o desenvolvimento das instituições). Além disso, afirma um caminho de desenvolvimento sustentável, de caráter endógeno, ao argumentar que a acumulação de capital (gerada pelas variáveis citadas anteriormente), viabiliza economias de escalas (externas e internas), com base na redução de custos totais e de transações, favorecendo as economias diversificadas. E comenta, detalhadamente, as principais variáveis desta forma de desenvolvimento e suas respectivas influências nos processos de acumulação e crescimento econômico em territórios específicos.

1. 1. A difusão das inovações e do conhecimento

O desenvolvimento econômico e a sua dinâmica produtiva dependem da introdução e difusão das inovações do conhecimento. São estas duas variáveis básicas que fomentam a transformação e a renovação do sistema produtivo, pois a acumulação de capital, em síntese, é a acumulação de tecnologia e conhecimento. E para viabilizá-la, torna-se necessária a inserção dos atores e agentes do sistema produtivo local nos processos decisórios sobre as inversões adequadas em tecnologia e organização (MAILLAT,1995; FREEMAN e SOETE, 1997, apud BARQUERO, 2002). Isso implica na existência local de capital social proativo (laços sociais que possibilitam vantagens e oportunidades a indivíduos e comunidades, como resultante da participação coletiva (SANTOS, 1997; COSTA, 2003; BARQUERO, 2003; FARIAS, 2004), capaz de gerar agregados de recursos reais ou potenciais, ligados ao domínio de uma rede permanente de conexões institucionais de habilidades ou reconhecimento mútuo (id ibid).

1. 2. A organização flexível da produção

A organização do sistema produtivo local e do seu entorno (relações entre as empresas, provedores e clientes) é que condiciona a produtividade e capacidade competitiva das economias locais, e não o tamanho das empresas nele inseridas. Assim, fica claro que uma determinada economia local ou regional pode apresentar bons resultados, mesmo abrigando no seu bojo apenas empresas de pequeno e médio porte.

1. 3. O desenvolvimento urbano do território

As demandas da produção globalizada, mesmo sob a ótica endógena, implicam em intercâmbios produtivos, informativos e de serviços que por sua vez, carecem de infraestruturas somente existentes nos contextos urbanos (energia, insumos, meios de comunicação, crédito, fontes de conhecimento, etc.). Assim, as cidades tendem a aglutinar, em seu cerne ou no seu entorno, os aglomerados econômicos, tornado-se dessa forma os espaços preferenciais do desenvolvimento, já que nelas situam-se os focos do crescimento econômico, onde ocorrem as decisões de inversão produtiva. Ao mesmo tempo, estes contextos urbanos tornam-se centros irradiadores dos efeitos dos conteúdos do desenvolvimento (no fenômeno que se denomina de externalidades) e reforçando as suas relações com outras cidades. Neste sentido, inclusive, (Campanhola e Graziano (2000) detectaram, nas áreas em processo mais efetivo de desenvolvimento, a tendência de indefinição crescente entre o rural e o urbano, onde os espaços interioranos tradicionais passam, em função da modificação dos processos produtivos e sua interação com as cidades, a áreas transitivas. A agroindustrialização, as cooperativas, a comercialização e/ou exportações diretas, as tecnologias avançadas e outros fatores, aproximaram estes dois espaços sócio-geográficos para uma caracterização mais contemporânea, definida como território.

1. 4. A flexibilidade e complexidade do tecido institucional

Os processos de desenvolvimento “têm profundas raízes institucionais e culturais” (LEWIS, 1955; NORTH, 1981 e 1994, apud BARQUERO, 2002). Os atores sociais têm cultura, formas e mecanismos próprios de associação, que geram formas específicas de organização e institucionalização que podem influenciar, positiva ou negativamente, no arranjo e gestão do cenário econômico do território (BARQUERO, 2002). Em face disso, mais uma vez se reforça a necessidade de utilizar, na configuração das alternativas produtivas territoriais, das instituições necessárias e da gestão, as experiências das redes sociais locais, como forma de legitimação político-social da organização sócio-econômica e de promoção do capital social.

Finalizando, Barquero, em suas considerações, considera possível e necessário contrapor-se aos efeitos entrópicos da globalização, aproveitando suas externalidades positivas na estruturação de modelos econômicos territoriais que levem em conta os interesses e potencialidades locais. Alerta, porém, que a permanência e consolidação dos processos locais de acumulação de capital requerem a ação combinada de todos os seus fatores determinantes, gerando efeitos multiplicadores. A sinergia entre esses fatores é que poderá levar as economias das cidades e territórios a um patamar de desenvolvimento sustentável.

2. Arranjos Produtivos Locais – ApL’s: uma alternativa endógena em discussão.

Segundo Adelaide Motta Lima e Vítor Lopes (2003), “a idéia de se estudar APL’s surgiu em meio a uma crise de sobrevivência das micros e pequenas empresas no Brasil, dada a situação conjuntural do país, e do reconhecimento da importância dessas unidades produtivas.” O tema passou a ser citado nas políticas públicas, inicialmente, no Plano Plurianual de Investimentos 2004 – 2007 do governo federal e, a partir daí, passou a constar de políticas públicas nas três instâncias do Estado Nacional, embora de forma desarticulada entre elas e apesar dos APL’s não possuírem ainda um conceito completamente delineado. A preocupação acadêmica com esta inserção precoce do tema na esfera pública provocou a organização do Workshop sobre Arranjos Produtivos Locais (APL’s), promovido pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA, em 26 e 27 de agosto de 2003. E o artigo dos dois autores inicialmente citados representa uma síntese das discussões e consensos ocorridos neste evento.

Partindo de uma conceituação preliminar e consensualizada entre as instâncias governamentais e acadêmicas, considerou-se como variáveis componentes de um APL o território, o mercado e as unidades de produção. Nessa concepção inicial, o conceito seria “[...] um aglomerado de empresas (constituído por unidades de pequeno e médio porte, com ou sem a presença de uma grande empresa), localizado em um território, com o foco em um conjunto específico de atividades econômicas e que mantém vínculos de articulação entre as unidades participantes entre si e com outros atores institucionais (governo, associações, estabelecimentos de crédito etc.)” (LIMA e LOPES, 2003). A partir daí, as discussões do tema conduziram à introdução consensual de novas variáveis ou complementaridades à visão inicial, destacando-se entre elas:

a) o território não somente como espaço geográfico, mas também como dimensão econômica, social e política, historicamente construído e vivenciado, por isso ultrapassando os limites jurídico-políticos tradicionais (fronteiras municipais, regionais e nacionais, por exemplo);

b) o dinamismo das fronteiras, intercâmbios e parcerias, por serem construções políticas (LOCKE, Richard, Apud BARQUERO,2002);

c) os tipos de ligação existentes no APL (hierárquica, policêntrica e outras formas a estudar), ocorrentes em função das especificidades locais e suas imbricações externas (LOCKE, Richard, idi ibid);

d) o Capital Social, ou seja, as redes de relações existentes e formadas pelos atores locais, capazes de influenciar as tomadas de decisão e os processos de gestão das economias aglomeradas em APL;

e) os mercados específicos, diretamente relacionados com produção local, seja em termos de produtos acabados, de matérias primas e outros insumos, e que representam intercâmbios indispensáveis entre produtores, fornecedores e clientes;

f) as vantagens competitivas, vocações e oportunidades, pontos de partida destes intercâmbios e que têm de considerar, nas duas pontas do processo produtivo, as potencialidades externas e internas, compatibilizando interesses mútuos;

g) a horizontalidade e/ou verticalidade produtiva dos APL’s, que caracterizam os mesmos ou são necessariamente implementadas localmente, de forma dinâmica, em função das especificidades locais e suas possibilidades em determinado momento, em relação a agregação de valor e suas relações com fornecedores e compradores, além produção em escala;

h) a especialização tecnológica e produtiva, fundamental para o avanço da acumulação econômica com base na escala, na qualidade, nos baixos custos e na competitividade;

i) as tecnologias, eixos principais do sucesso empresarial e que podem trazer em si conhecimentos tradicionais, inovadores ou conhecimentos de ponta, dependendo das circunstâncias do contexto econômico considerado.


Com essas considerações, novos elementos inserem-se na conceituação original de APL, exigindo a ampliação do conceito. Definido o conceito, as discussões do Workshop inicialmente citado foram encaminhadas para a identificação dos principais gargalos que podem limitar a implantação e a consolidação dos arranjos produtivos locais. Dentre eles foram destacados:

a) insuficiências de fomento, crédito, capacitação e infraestrutura

A ausência ou insuficiência destes fatores (diretamente relacionados ao Estado e suas políticas públicas) podem estrangular o desenvolvimento produtivo, principalmente em territórios pouco desenvolvidos, onde a carência de capital próprio para investimentos reflete-se em infraestruturas incipientes, e práticas inadequadas de produção, com decorrências perniciosas nos resultados econômicos.

b) marginalização do capital social

Por suas características associativas que incluem um amplo leque de parcerias entre os atores sociais, agentes econômicos e institucionais (empresas, universidades, poder público e organizações não-governamentais), torna-se intangível a presença das relações sociais, já que as parcerias são decididas entre pessoas (produtores, empresários, funcionários públicos e institucionais, etc.). Neste cenário, as redes sociais existentes tornam-se fundamentais para o sucesso dos APL’s, e sua marginalização nos processos de organização e gestão implicará em processos decisórios sem legitimidade e desagregadores do tecido social que, em primeira instância, é o fato gerador e o beneficiário final dos resultados.

c) omissões e/ou inadequações legais e normativas do Estado

Os processos produtivos formais dependem das normatizações e adequações legais estabelecidas pelo Estado para as atividades econômicas e a qualidade desta atuação estatal pode tornar o território atrativo ou não a investimentos externos e ao estímulo local à associação de empresas.

d) não inclusão da estratégia de APL´s em políticas públicas diferenciadas

Por serem mais limitados para atender as normas e exigências legais emanadas do Estado (em função do reduzido tamanho das empresas e pela maior vulnerabilidade às incertezas de custos e de mercado), os APL’s, necessariamente, devem ser amparadas (pelo menos em termos iniciais), por incentivos e/ou subsídios públicos diferenciados. E as políticas públicas estabelecidas neste sentido, têm que considerar que estas micros e médias empresas, exatamente por suas pequenas dimensões e por suas fragilidades que limitam a adoção de tecnologias altamente poupadoras de mão de obra, são muito mais capazes de gerar empregos diretos, aspecto importantíssimo na questão do desenvolvimento socialmente inclusivo.

e) insuficiências de conhecimentos tecnológicos e acadêmicos específicos

Tendo na inovação tecnológica um dos principais fatores de crescimento da acumulação de capital, a ausência ou insuficiência de pólos aliados e geradores de conhecimento, inevitavelmente comprometerá o desenvolvimento do arranjo produtivo.

f) desarticulação na intervenção pelos atores envolvidos no APL

Qualquer fator entrópico, se não devidamente controlado, pode gerar a desarticulação entre os vários atores envolvidos, com reflexos comprometedores nos processos de gestão do arranjo local. E esta problemática envia a questão para a qualidade do capital social e o permanente conhecimento, acompanhamento e aperfeiçoamento das redes sociais existentes.

Ao final de tudo, as discussões afunilaram para três conclusões principais: primeiro, que o APL pode ser definido como um aglomerado dinâmico e solidário de pequenas empresas (associativas ou não), em um determinado território (geográfico, político, econômico e sócio-cultural), articulado com instituições públicas e/ou civis (e às vezes organizações macro-empresariais), gerando bens e/ou serviços especializados, mediante tecnologias tradicionais ou inovadas, para mercados específicos; segundo, que este modelo produtivo pode constituir-se em estratégia promissora em áreas menos dinâmicas, para uma maior inclusão sócio-econômica. E, por último, face ao seu surgimento recente, os APL’s precisam ser mais bem estudados e estruturados, como estratégia de desenvolvimento territorial sustentável.

3. Conclusão

O modelo histórico de desenvolvimento aplicado no Brasil e na Amazônia insere-se em um contexto mais amplo, onde os grandes projetos de infra-estrutura e produção de escala – bases necessárias para o avanço tecnológico da produção para um mercado globalizado – viabilizam a concentração do capital, os danos ambientais e as desigualdades sociais, com efeitos que ocorrem cada vez mais rapidamente e se fazem sentir cada vez mais intensamente nas esferas locais. Este contexto adverso tem alimentado, nas últimas décadas, discussões e ações que alimentam uma nova sociedade, com formas diferentes de organização e de representação dos diversos interesses, em função do próprio desenvolvimento organizacional e político das diversas camadas sociais. Esta nova sociedade, por sua vez, exige novos comportamentos da esfera pública, dos técnicos e das organizações civis, exigindo posturas mais dialógicas e consultivas em relação às necessidades de mudança e a escolha dos melhores caminhos para mudar. Concomitantemente, o espaço político passa a ser ocupado por grupos distintos e novas maneiras de atuação, que buscam substituir as formas antigas de representação dos diversos interesses de diferentes coletivos. Além disso, as circunstâncias da pobreza regional associada à devastação dos recursos naturais, necessariamente induz à discussão participativa do desenvolvimento local em bases ambiental, econômica e social sustentáveis (MIRANDA, 2007).

Considerar a imperatividade de posturas inovadoras diante da atual paisagem social planetária, mas em especial na Amazônia (por ser ela o último grande reduto de recursos naturais e de função ambiental globalmente importante), é um forte sinal de bom-senso coletivo, em qualquer contexto territorial da região. E nesta percepção necessária, o desenvolvimento endógeno (conforme inicialmente conceituado) surge como estratégia importante de correção das distorções econômicas, sociais e ambientais construídas através dos séculos pelos modelos desenvolvimentistas tradicionais. E os Arranjos Produtivos Locais – APL’s, enquanto estratégia de aplicação empírica do desenvolvimento territorial e endógeno tem que ser seriamente considerada, por suas características associativas e inclusivas dos pequenos produtores.

Apesar dessa constatação, não se pode ignorar as inúmeras dificuldades existentes na sociedade regional atual, originadas e perpetuadas na lógica da estratificação social e do Estado centralizador e classista, que carregam no seu âmago as profundas contradições inerentes a esta lógica. Na Amazônia Brasileira ainda predomina um ambiente desfavorável à sustentação política, social e institucional da prática do desenvolvimento territorial endógeno e sustentável: a dispersão social e o poder centralizado – historicamente constituído na predominância dos interesses individuais sobre os coletivos e na fragilidade organizacional dos segmentos produtivos tradicionais mergulhados em relações de clientelismo e dependência – e o imediatismo econômico que ameaça cada vez mais os recursos naturais ainda disponíveis. E compondo estes produtores tradicionais a fatia maior do universo produtivo, mas sobrevivendo predominantemente na informalidade (plena ou relativa), marginalizados pelos pólos regionais de conhecimento e inovação tecnológica, com restrita experiência associativa e de gestão, descrentes em relação ao Estado e à esfera política, as possibilidades mediatas de mudança econômica sustentável, sob qualquer ótica, apresentam-se como problemáticas. Analisada à luz dos pressupostos e gargalos apresentados pelos dois artigos analisados, a realidade sócio-econômica amazônica encontra-se em estágio muito aquém do necessário ao sucesso visibilizado pelos conteúdos revistos.

Finalizando, deve-se considerar, dentro da proposta dos autores de estudar-se e estruturar-se mais sistematicamente os APL´s, a possibilidade de investigar-se a adequação dos mesmos à realidade das pequenas comunidades agroextrativistas, em uma iniciativa que poderia denominar-se como Arranjos Produtivos Locais de Subsistência. Esta iniciativa, a nosso ver, poderia tornar-se caminho adequado para viabilizar-se não somente resultados econômicos mediatos, como também promover a adequação da cultura sócio-produtiva regional ao cenário globalizado e o desenvolvimento do capital social existente para uma inserção promissora na lógica da acumulação econômica internacionalizada. A superação da informalidade econômica e organizacional, do distanciamento entre Estado e produtores, do individualismo e da desconfiança que minam o capital social, dos oportunismos políticos e econômicos, e da fragilidade das instituições civis, constituem tarefas difíceis e de realização em longo prazo. Entretanto, elas nos parecem mais facilmente superáveis, se iniciativas restritas a territórios específicos (mais integrados em termos sociais, políticos e econômicos), agrupando pequenos produtores locais em torno de processos produtivos potencialmente promissores em projetos-piloto que poderão, se bem sucedidos, serem replicados e inseridos nas políticas públicas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(principais)

BAQUERO, Antonio Vázquez. Desarollo endogeno. Universidad Autónoma de Madrid, Endogenous Development. Networking, innovation, institutions and cities. Routledge, Londres, 2002.

LIMA, Adelaide Motta e LOPES, Vítor. Arranjos produtivos locais: conceito e experiências em discussão. Conj. & Planej., Salvador: SEI, n.114, p.26-30, novembro, 2003.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(complementares)

CAMPANHOLA, Clayton e GRAZIANO, José da Silva. Desenvolvimento local e a democratização dos espaços rurais. Cadernos de Ciência e Tecnologia, Brasília, v.17, n.1, p.11-40, jan/abr 2000.

HAESBAERT, R. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” a multiterritoria-lidade. Rio de Janeiro, Bertand Brasil, 2004.

MC LUHAN, Marshall. O meio é a mensagem. Rio de Janeiro, Record,1969.

MIRANDA, Henrique e all. Diagnóstico Rápido Participativo das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Alcobaça e Pucuruí-Ararão. Belém, convênio SECTAM / ELETRONORTE / POEMA, 2007.

SANTOS, Maria Helena de Castro. Governabilidade, governança e democracia: criação de capacidade governativa e relações Executivo-Legislativo no Brasil pós-Constituinte. Brasília, UFPB/CIRAD/EMBRAPA, p. 113 – 128, 2002.

COSTA, Maria Alice Nunes. Sinergia e Capital Social na construção de políticas sociais: A favela da Mangueira no Rio de Janeiro. Sociologia Política, Curitiba, n. 21, p. 147 – 163, nov. 2003.

FARIAS, Regina Cláudia Gondim Bezerra. Controle social na regulação do setor elétrico. Instituto Serzedelo Corrêa, Brasília, set. 2004.


[1] Especialista em Gestão Sustentável de Recursos Naturais, mestrando do PPGEDAM
henriquermiranda@yahoo.com.br

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segunda-feira, 12 maio, 2008 - Posted by | Academia livre | , , , , ,

3 Comentários »

  1. É a primeira vez que ouvi falar em APL´s e fiquei extremamente intrigada. Estou finalizando meu projeto de pós-graduação e irei incluir alguns tópicos sobre tais arranjos. Gostaria de saber onde posso encontrar mais material, gostaria também de trocar idéias com o pessoal que trabalha com isso e saber se existe algo parecido no Paraná. Moro em Curitiba.
    Muito obrigada pela atenção e informações.
    Isabel

    Comentário por Isabel Lacerda | segunda-feira, 3 novembro, 2008

  2. Muito bom,
    O artigo sobre desenvolvimento endogeno e arranjos produtivos locais: uma saida para a amazonia é ótimo grandiosamente vai contribuir com o meu curso de desenvolvimento e integração regional que estou fazendo na ufpa.

    Comentário por Ailton Farias das Chagas | domingo, 14 dezembro, 2008

  3. Prezado Ailton.
    Obrigado pela visita e ficamos felizes por poder contribuir com aqueles que buscam formar conhecimentos que possam ajudar a nossa região a se desenvolver de forma sustentável. Continue conosco. Abraço fraterno e amazônico.

    Comentário por Henrique Miranda | domingo, 14 dezembro, 2008


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