Do homem para o coração do homem..
Hoje, acordei meio ensimesmado, meio carente de motivações, e recorri ao meu remédio preferido e infalível: abrir ao acaso o livro “Vento Geral” do meu poeta caboclo preferido (Thiago de Mello) e ler um de seus poemas. E meus dedos casuais levaram-me aos “Estatutos do Homem”, sua obra mais conhecida. Após lê-lo, senti-me tão esperançoso novamente, que resolvi postá-lo para vocês. Embora pouco divulgado atualmente, Thiago de Mello é um dos maiores poetas brasileiros, ainda vivo. Caboclo amazônida nascido no coração da mata (Barreirinha – AM), sempre defendeu a liberdade, a democracia e uma sociedade mais justa. E por causa disso teve que exilar-se no exterior, durante o período da ditadura militar implantada em 1964. Orgulhoso de sua cultura amazônica, sensível às imperfeições e qualidades da espécie humana, tem como sua obra mais conhecida o poema transcrito abaixo. Quem quiser, gostar e puder, compre o seu livro “Vento Geral” (que possuo, com dedicatória dele, e que de tão manipulado já está rasgando). Por favor, leiam:
Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
Thiago de Mello
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade,
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


Tinha por certo, ao ler as suas palavras iniciais, que o escape infalível a ser mencionado seria a Bíblia; sem desmerecer é claro o Thiago de Mello, meu conterrâneo (nasci em Macapuru-AM). Se efetivamente conhecesses as Escrituras do Senhor, certamente terias a mesma opinião.
Por exemplo, note o Salmo 91:
“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.
Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.
Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.
Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas estarás seguro: a sua verdade é escudo e broquel.
Não temerás espanto noturno, nem seta que voe de dia.
Nem peste que ande na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia.
Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido,
Somente com os teus olhos olharás, e verás as recompensas dos ímpios.
Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio! O altíssimo é a tua habitação.
Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.
Porque aos seus anjos dará ordem ao teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.
Eles te sutentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.
Pisarás o leão e o áspide; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.
Pois que tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei num alto retiro, porque conheceu o meu nome.
Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; livra-lo-ei e o glorificarei.
Dar-lhe-ei abundância de dias, e lhe mostrarei a minha salvação.”
Parabéns Henrique
Pela postagem dêsses “Estatutos…”.
O poeta, todo poeta, é com certeza um construtor do futuro, quase um profeta, a procura da realização do mesmo.
E Thiago de Mello, neste poema como em “Morte e Vida Severina”, é um mestre!
Além de denunciar às nossas consciências a crueldade da condição dos brasileiros.
Obrigado pela “indicação” do ‘Vento Geral’.
Como falei um dia desses para Ricardo… o mundo seria muito diferente se visemos a alma humana!!!!
É isso ai mano nesse mundo louco o que tá faltando é poesia e vc mandou bem.