As lágrimas da dignidade
Em meio ao delírio que foi a comemoração da vitória do Obama (dentro e fora dos EUA), uma imagem me comoveu profundamente: a do pastor-político e negro Jesse Jackson, em meio ao povo e com a cara lavada de lágrimas. Ele, que sempre foi um defensor dos negros e dos direitos civis, que tentou mas sequer chegou perto da presidência nacional, estava ali, em meio a milhares de americanos de todas as orígens, chorando copiosa e desavergonhadamente, envolvido pelo profundo significado daquele momento. Outras imagens me comoveram (brancos e negros se abraçando, palestinos, chineses, iraquianos e africanos comemorando), mas a dignidade emocionada daquele negro de cabelos grisalhos, tomou-me a mente e o coração. Lembrei-me dele ainda jovem, ao lado de Luther King e de outras lidaranças negras lutando democraticamente numa democracia elitista (onde os votos populares elegem delegados ao invés do candidato), que escolhe o presidente por via indireta (colegiada) e sofrendo toda a repressão branca da época. Naqueles olhos e naquele choro, eu vi toda a felicidade diante de um sonho que até há poucos meses parecia impossível.
Sei que nada foi ainda conquistado, tudo está por construir. Mas o povo americano, nestas eleições, conseguiu superar a maldita herança do preconceito racial e dar poder a um cara que parece ter decisão política correta, poder de negociação e convencimento para as difíceis tarefas que estão à espera: a derrubada do bloqueio à Cuba, os acordos ambientais, a retirada do Iraque e do Afeganistão e a questão palestina. Talvez por isso, Jackson, tenha valido a pena esperar tanto tempo. Talvez por isso seu choro tenha sido tão consistente e contagiante.
Sei não, mas depois de toda uma vida de antipatia pelos americanos, Obama e aqueles que o elegeram poderão mudar minha posição antiamericana. Torço que isso aconteça. Para o mundo, a minha mudança nada significará, mas será menos um anti-ianque no mundo…
Obrigado, Jackson, pelo seu choro público, copioso e escondido em meio ao povo. Não quero esquecer nunca este momento e o seu rosto na multidão.
Creditos pela imagem: Spiegel Online



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Obrigado, filho, pela foto do Jackson. Deu mais ênfase ao comentário, fala por mil palavras.