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Morte de um Zumbi alienado e triste

BLOGUE MICHAEL 070903_blog.uncovering.org_roldan_jacksonSempre acompanhei de longe a carreira e vida de Michael Jackson, mas o suficiente para perceber o nascimento, cooptação e martirização de um jovem traumatizado, despreparado para o sucesso e em conflito com a sua etnia, em nome do lucro e da mídia sensacionalista do nosso planetinha.  Também, com um pai daquele e um sistema social e econômico como o nosso, não? Esperar o quê?

Ao longo desses anos todos ele corporificou o que de mais pós-moderno pôde ser visto, em termos de arte cênica-musical, o instrumento mais lamentável de manipulação de jovens que buscam no narcisismo e na auto-vitimização como “despossuídos de destino” a fuga do mundo real. Mas como não tinha uma base de dados amplas sobre esse jovem triste, preferi nada escrever sobre ele e sua morte, até que li a coluna abaixo e percebi o quanto ela representa o meu modo de ver. Por isso, repasso-a a vocês. Não como uma crítica moralista a ele, Michael, mas ao sistema que o engoliu e que hoje, mesmo com sua morte trágica, continua tendo em mãos uma promissora mercadoria midiática.

Deixemos de lado as lágrimas hipócritas

Sex, 26 Jun, 02h20

Por Regis Tadeu, colunista do Yahoo! Brasi

É claro que o mundo inteiro está chocado com a morte de Michael Jackson. Mas é preciso ter um pouco de coragem para escrever o óbvio: todos choram pelo “antigo” popstar, que gravou discos excepcionais, e não pela patética figura em que ele se transformou.

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  • Vamos lá, faça uma autocrítica e não esconda sequer uma ponta de morbidez: quantas vezes você não se pegou ridicularizando a figura do cara, suas esquisitices, seu gosto pelo bizarro, seu “nariz de massinha”, sua brancura artificial e o diabo a quatro?

    A maioria dos admiradores – e não os fãs patéticos, que agora estão se desmanchando em choros convulsivos, que não foram trabalhar porque estão deprimidos com a morte de seu ídolo – sabe que a importância de Jackson para o show business não pode sequer ser colocada em um patamar conhecido deste planeta. A maneira como ele revolucionou a indústria dos videoclipes, por exemplo, permitindo que diretores levassem suas ousadias a extremos em termos de efeitos especiais que só foram utilizados pelo cinema alguns anos depois é mais do que digna de aplausos. Isso sem contar a qualidade que ele apresentou em alguns de seus discos, como Off the Wall, o melhor de todos – não, Thriller foi o seu trabalho mais famoso, mas não o melhor em termos musicais.

    Mas para quem lida com música de uma maneira séria e racional, a pergunta neste exato momento é: por que ele não foi talentoso o suficiente para apagar o fracasso de seus últimos discos, principalmente do horrível e pretensioso Invencible? Por que ele não fez como todo mundo que se presta a construir uma carreira musical sólida em termos de qualidade até os dias de hoje, como fazem Paul McCartney, David Bowie e Bruce Springsteen?

    A resposta é muito simples: porque faltou a Jackson aquela centelha da genialidade musical que o acompanhou desde os tempos de Jackson 5 até o lançamento de Thriller, a mesma centelha que foi capengando e diminuindo gradativamente até o punhado de canções razoáveis que ele reuniu no irregular Dangerous. A partir de um determinado momento de sua conturbada vida, a música perdeu a importância. Jackson acreditou que seria eternamente adorado independente do que fizesse. E isso é uma sentença de morte – artística e até mesmo pessoal – para quem viveu a música com tamanha intensidade.

    Como não conseguia mais apresentar algum traço de criatividade, Jackson recorreu a factóides estapafúrdios, como a “agenda dos 50 shows” em Londres – chego a dar risadas quando encontro com alguém que realmente acreditou que ele faria tal pataquada -, mas isso pouco importa agora.

    Michael Jackson está morto. Fisicamente. Porque, em termos artísticos, nos últimos quinze anos ele foi apenas um zumbi do qual todo mundo ria e tirava sarro. E são essas pessoas que hoje se mostram comovidas com o seu falecimento.

    Mundo estranho este, não? Pense nisso…

    Regis Tadeu é editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo, Batera, Teclado & Piano e Studio. Diretor de redação da Editora HMP, crítico musical do Programa Raul Gil e apresenta/produz na Rádio USP (93,7) o programa Rock Brazuca.

    Domingo, 28 Junho, 2009 - Publicado por Henrique Miranda | Comentário, Repassando... | , | Sem comentários ainda

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