O caso do italiano em Fortaleza: o que há por trás das aparências?

Ando encafifado com esta história da prisão do italiano em Fortaleza, acusado de assediar a filha de 8 anos na piscina da barraca de praia Croco Beach, em Fortaleza! Várias facetas do caso me deixaram crescentemente curioso nos fatos relatados e suspeitando de mais uma das porralouquices do moralismo doentio e exacerbado que assola o cenário legislativo nacional e a cabeça de viciados em vigiar os vícios alheios (e com olhos predispostos a enxergar o pior em tudo). Começo com uma perguntinha que até agora ninguém fez: porque um pai, se realmente fosse um pedófilo incestuoso, iria praticar atos libidinosos com sua filha em público (expondo-se perigosamente), quando teria toda a privacidade do mundo no seu quarto? Depois de assistir vários noticiários sobre o caso, uma outra perguntinha aflorou em minha mente curiosa: porque, em meio àquela multidão toda, apenas um casal enxergou e denunciou a libidinosidade do referido pai? O dono da barraca e os garçons disseram nada ter visto! Nenhum outro casal ou indivíduo presente no local denunciou ou confirmou a acusação, nem mesmo sob anonimato! E o dito casal acusador escondeu-se sob o manto da proteção de suas identidades. Porque? Que razão leva um casal revoltado com uma situação de pedofilia e incesto, a denunciar sem dar as caras? Detalhe importante: o casal denunciante tem 70 e 75 anos de idade, respectivamente. Aí cabem outras perguntinhas: teria a formação moral antiga e rígida (vigente à época da formação social dos dois idosos) influenciado na interpretação do fato presenciado? A capacidade visual do casal é plena, ou apresenta deficiências operacionais à distância, viabilizando má interpretação? Desculpem-me, mas acho todas esta indagações pertinentes e necessárias à caracterização do acontecimento real.
Além disso, ninguém parece considerar o decompasso cultural e religioso na interpretação dos fatos. Por exemplo: uma atriz global, em visita ao Oriente Médio, perguntou a uma mulher árabe se ela não se sentia desrespeitada em seus direitos, por ser obrigada a usar a burka e ela respondeu que não, que se sentiria desrespeitada se tivesse que se expor desnuda em público, como fazem as mulheres ocidentais! Sacaram a diferença cultural de interpretação de fatos? Outros lances semelhantes exemplificam estas dessintonias interculturais:
Perguntem às mulheres equatorianas sobre a forma provocante das braslileiras se vestirem e de saírem desacompanhadas na noite!
Perguntem aos indianos o que eles acham de nós comermos carne bovina!
Perguntem aos muçulmanos o que eles acham de nós consumirmos carne de porco e bebidas alcóolicas, e sobre o uso do biquini!
Perguntem aos evangélicos radicais brasileiros o que eles acham de mini-saia, cabelos femininos curtos, selinhos em filhos, noitadas em botecos, etc!
Amigos, não sei se o italiano é culpado ou inocente. Mas sei que os fatos até agora não têm correspondido à violência legal do tratamento dado ao acusado. A delegada Ivana Timbó tomou o depoimento da criança (de nacionalidade italiana) e segunda a delegada, a menina estava tranquila. Foi ouvida na companhia da mãe (brasileira) e na presença de uma psicóloga e de uma assistente social: _ Foi uma conversa rápida e a criança não acrescenta nada que possa incriminar o pai, afirma Ivana. A mulher do acusado declarou estarem sendo vítimas de racismo (um gringo italiano se aproveitando de uma criança nordestina e morena!). Ele está preso há sete dias e teve uma crise de pressão alta após ser informado de que o Tribunal de Justiça (TJ) negou, no sábado, o pedido de habeas corpus feito pelo advogado Flávio Jacinto. Hoje, a juíza Maria Ilna de Castro, da 12ª Vara Criminal do Ceará, deve se posicionar sobre o pedido de anulação do flagrante apresentado na sexta-feira pela defesa do italiano. O quarto dele no hospital é vigiado por policiais e Ivana Timbó, titular da Delegacia de Combate à Exploração de Crianças e Adolescentes, ouviu hoje mais três testemunhas do caso, funcionários da barraca onde a denúncia foi feita. Até agora cinco foram ouvidas, entre elas a garota e a mãe e o inquérito deve ser concluído na quinta-feira.
E enquanto isso a cruzada nacional da CPI da Pedofilia continua rodando o país, servindo de palanque eleitoral para parlamentares desmoralizados politicamente e sem nenhum grande culpado preso (pelo menos que eu saiba!), lembrando mais uma nova Inquisição do que uma postura jurídico-política consistente. A única diferença parece ser que a Igreja Católica (que na Santa Inquisição escondia no movimento seus interesses de controle social amplo) foi substituída pelos legisladores, juízes, delegados e cidadãos moralistas, sacerdotes cegos e furiosos da Justiça cega (ou caolha?) desse país. Lamentavelmente, a história das sociedades humanas demonstram oscilações libertinas e moralistas extremas, uma verdadeira montanha-russa de excessos e de intolerâncias e que, pelo jeito, não serviu para nada em termos de aprendizado social.
Bem, vamos acompanhar mais essa novela escabrosa e sensacionalista da mídia e do nosso moralismo exacerbado…
Imagem: da NET, capturada via Google.
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PS: Descobri que a WordPress listou um conjunto de posts sobre a questão de Fortaleza e sobre a atual histeria nacional anti-pedófila, incluindo este de minha autoria. Logicamente, a maioria destas postagens limita-se a reproduzir a histeria geral exacerbada pela imprensa e pelos oportunistas de plantão. Mas mesmo assim, descobri além do meu comentário, três outras postagens que analisam mais criticamente a questão. A quem interessar possa, os links:
http://ghiraldelli.wordpress.com/2009/09/04/antipedofilia/
http://frestadajanela.wordpress.com/2009/09/04/afeto-e-hipocrisia/
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PS 2 (10/09/2009: Como durante todo o dia, não vi os jornais televisivos falarem sobre o italiano preso em Fortaleza, desconfiei que ele havia sido solto. Tiro e queda! Fui no Googles e descolei a notícia abaixo. Começam a desmanchar a arapuca nojenta de radicalismo e histeria moral e, para não darem a cara a tapa, simplesmente “esquecem” a notícia! Podres poderes! Dêm uma lida e vomitem na mídia sensacionalista e irresponsável, com direito a sobras para os histéricos de plantão e as autoridades com excesso de zelo.
Mas ainda deverão ter alguns capítulos a serem “esquecidos”, com certeza!
A juíza Cristiane Maria Martins Pinto de Faria, da 10ª Vara Criminal do Fórum de Fortaleza, concedeu hoje (10) liberdade provisória ao italiano preso em Fortaleza sob suspeita de ter abusado sexualmente da filha de 8 anos. De acordo com o advogado do italiano, Flávio Jacinto, a juíza mandou soltar o italiano, mas ainda não decidiu sobre o pedido de anulação do flagrante apresentado na semana passada à 12ª Vara Criminal do Ceará. Como a titular a 12ª Vara Criminal está de férias, a juíza Cristiane decidiu sobre o processo. O italiano tem 48 anos e está preso desde 1º de setembro, depois de ter sido denunciado por um casal de turistas brasilienses que se sentiram incomodados ao verem o pai beijar a filha na boca, enquanto brincava com a menina dentro da piscina de uma das barracas na Praia do Futuro. A decisão permite que o italiano possa voltar com a família para a Itália. No entanto, ele não poderá se mudar da casa onde mora na cidade de Goidonia, província de Roma, sem prévia comunicação á Justiça. Ele também não poderá se ausentar por mais de oito dias da comarca italiana sem avisar à Justiça brasileira. A juíza também estabeleceu a obrigatoriedade da presença dele em todos os atos processuais até o fim do julgamento. Caso algum ponto seja desobedecido, o benefício será revogação. O italiano é um empresário do ramo da construção e depois de ter apresentado um quadro de hipertensão quando estava na prisão foi transferido para o Hospital Gênesis, na tarde de domingo (6). Ele é acusado de ter cometido estupro vulnerável, previsto no Artigo 217-A, da Lei 12.015, que entrou em vigor em agosto último. Caso fique comprovado o abuso, a lei prevê pena de 8 a 15 anos de prisão. Oito testemunhas foram ouvidas no inquérito. A menina também foi ouvida na companhia da mãe, de uma psicóloga e de uma assistente social. A delegada Ivana Timbó, da Delegacia de Combate à Exploração de Crianças e Adolescentes (Dceca), pretende concluir o inquérito até amanhã.


Interessante perceber como é fácil destruir vidas! Se eu não gosto da atitude de outrem, ligo 190, informo um crime qualquer, me escondo no anonimato, não provo nada e simplesmente a minha palavra vale mais que a do acusado. Ninguém viu nada, somente eu, ninguém prova nada, nem eu e mesmo assim a pessoa é presa, execrada, humilhada e ainda corre o risco de ser condenada a cadeia num país hipócrita como este.Nesse caso do italiano, a acusação sem provas deveria também trazer prejuízos a quem fez, uma vez que destruiu moralmente um ser humano que ao que tudo indica, não fez nada. Por outro lado, a interpretação do agente da lei que pegou o caso e fez a prisão, também deveria ser questionada. O despreparo na minha opinião foi geral. A quem cabe o ônus da prova? E as câmeras de segurança da barraca não pegaram nada? Por que só agora, após dias preso, que funcionários foram dizer que o italiano não fez nada? Por que não impediram a prisão na ocasião? Este italiano deveria processar seus acusadores, o Estado por ter sido muito infantil no cumprimento do seu trabalho, a barraca por não ter impedido essa prisão na ocasião, enfim, vergonha de um país que só é primeiro mundo nos sonhos dos mais otimistas!!
Concordo com vc em gênero, número e grau, Cézanne. Como devem ter se sentido esse pai, a filha desse pai, a mulher desse pai, colocado no foco sensacionalista e moralista do noticiário pela denúncia vazia de um casal de velhos septuagenários (com certeza moralistas ao extremo). E os danos à imagem do casal aquie lá fora? É uma vergonha! Lamentavelmente, a sociedade brasileira está cadea vez mais apelando para ações sencionalistas para esconder a ineficiência das suas instituições.
Obrigado pela visita e continue conosco. Abraço Fraterno.
O que é possível constatar, sem a menor sombra de dúvida, é que forças intransigentes, cruéis e retrógadas vem perpetrando uma campanha sórdida e doentia contra a tal “pedofilia”…
Quando o interesse é fomentar o terror, o medo e a intolerância junto ao povo brasileiro.
Esse câncer mental é tamanho que não poupa nem os agentes da Lei que deveriam zelar pela Sociedade mas, contaminados, agem de acordo com a histeria moralista, pisando nos direitos alheios e jogando no lixo a Razão.
Nessa onda, leva-se à cadeia justos e pecadores, certos e errados, bandidos e pessoas de bem…
Culpados e inocentes.
É isso o que se chama de “Estado de Direito”?
Aprisiona-se sem julgamento, condena-se sem prova e destroi-se vidas apenas porque um certo senador, cuja legislatura em nada contribuiu para a Nação, faz campanha pelo país numa caça as bruxas…
Enquanto é apoiado por apresentadores de TVs sem ética, sem honra e sem caráter?
Esse não é o Brasil que merecemos.
Ele com certeza se livrou de uma boa, com certeza ele é culpado; o que faltou foi testemunhas que afirmassem com veemência o que viram. A menina é claro que mentiu para proteger o pai e a frieza com que a mae dela se referia a ela sempre como ” a criança”, é de se suspeitar. È claro que aqui no Brasil só vai preso quem é pego em flagrante nos mínimos detalhes e se for rico e estrangeiro aí que nao acontece nada mesmo.
Prezada Flávia,
Claro que vc pode ter a sua opinião formada e diferente sobre o assunto, mas eu e outras pessoas não temos tanta certeza, exatamente por causa das questões levantadas na matéria.De qualquer forma, não lhe pareceu estranho que psicólogas tenham acompanhado os interrogatórios e declarado que a criança parecia equilibrada e normal em seu comportamento?
E que em meio a tanta gente, apenas um casal de idosos tenha visto tudo e acusado usando o anonimato?
Abraço fraterno.