Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Felicidade: um portal sem porta.

BLOGUE LOBO - imagesDiários da Barreira do Mar (VI)
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Ando meio sem tempo e sem inspiração para continuar construindo o nosso blogue. De certa forma a vida real interiorana e solitária, além do vivenciar coisas simples e primárias que pouco têm a ver com a intelectualidade como a conhecemos no mundo “civilizado”, nos coloca numa certa letargia espiritual que a maioria chama de acomodação e que eu denomino de plenitude da simplicidade. Mais do que nunca, encontro-me em meio à dialética do lobo, conceito que desenvolvi para explicar a minha aparente contradição em ir-e-vir como lobo solitário e lobo solidário (outra hora eu explico melhor!). Seja lá o que for, passei o fim de semana dormindo e pescando e, em meio à gostosa leseira que me tomou o corpo e a mente, achei entre os meus alfarrábios a reflexão abaixo, de alguém cujo nome não anotei e que por isso apresento como de fonte anônima. E como o texto tem muito a ver com a indivisibilidade do estar só e do estar junto, no contexto da felicidade pessoal, optei por repassá-lo a vocês. Se alguém conhecer o autor, por favor me repasse, para que eu possa corrigir o meu vacilo.

Boa semana a todos…

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A Felicidade é um portal sem porta. Como toda experiência de grande impacto em nossa saúde espiritual, a capacidade de viver feliz pertence à classe mais maravilhosa de vivências plenas e conscientes da mente humana. Sendo uma coisa tão abrangente e vital, a felicidade também pode ser definida através deste maravilhoso koan zen: um portal sem porta, algo generosamente aberto e pronto para ser atravessado por todos.

Mas como tudo o que nos espera por trás daquele portal sem porta, a felicidade só pode ser experimentada em sua plenitude se atravessarmos a fronteiras de mãos e coração vazios de posses, apegos, perdas ou ganhos. Aprender a abrir mão daquilo que nossos egos mais valorizam é uma lição dura para a alma, e um longo processo de aprendizagem.

Às vezes fico em minha casa, tarde da noite, olhando de minha janela as luzes dos lares espalhados nos vários edifícios de minha cidade; fico ali quieto e solitário, contemplando ao longe o desenrolar indefinido de tantas estórias, o desfecho de tantos caminhos humanos. Mesmo sem poder olhar nada em detalhes, sem ouvir o que é dito, apreender o que é pensado, sei que naquelas janelas distantes homens e mulheres vivem um mito pessoal, um roteiro íntimo e particular de risos e sonhos, choros e desesperos, virtudes e vícios. Todos são espelho de meu próprio mito. Eu pertenço a esta cadeia de ações e forças desenfreadas e poderosíssimas chamada “Vida”.

Fico ali, pasmo, observando o implacável curso do rio samsárico. Às vezes quase posso ver seu movimento caudaloso atravessando tudo o que existe, e temo o momento em que serei engolido por ele. O temor é maior por saber que eu já me encontro sendo levado, e assim é que deve ser. Mas o temor não impede minha resolução de continuar a tecer meus caminhos e dias, mantendo a confiança em finalmente conhecer aquilo que ainda não sei, e atingir a paz em meio ao caos. Esta é uma paz completamente possível, e a única que realmente nos faz superar o medo.

Falar das misérias e maravilhas humanas é repetir uma crônica antiga, repassada por muitos visionários, escritores, poetas e filósofos ao longo do tempo quase infinito (para a consciência humana) da história do Homem. Mas para falar da felicidade, eu preciso relembrar nossas realidades íntimas… Preciso encarar os temores.

Quem jamais buscou a felicidade? Ninguém. Não existe ou existiu um único ser humano, uma única mente que, mesmo por tortuosos caminhos, não tenha buscado ou esteja buscando agora mesmo para si o êxtase do contentamento, o alívio da harmonia interna, o prazer do sentimento de realização. Você mesmo está fazendo isso agora, não há como escapar desta busca. Se o resultado final for saudável ou não – se for a real felicidade ou apenas uma alegria passageira -, isso é uma outra estória…

É uma busca inusitada, pois ela não possui uma forma e não pode ser exercitada através de um único método. É também uma busca labiríntica, e que leva a muitos de nós a um desfecho falso, ilusório. Uma busca que também pode levar à solidão. Aquela solidão derivada dos erros cometidos, dos laços desfeitos, dos afetos mal-interpretados. E quando nos sentimos sozinhos, fracassados, perdidos, para onde vai a felicidade? Porque, para todos nós, felicidade é estar preenchido. É possuir algo, ter alguém, atingir um objetivo. Ser feliz é encher nossos reservatórios de expectativas e sonhos até a borda, de tal forma que nos sentimos fartos de realizações pessoais. Mas pode ser que este reservatório seja feito de muitas concepções errôneas de nós mesmos e do mundo. Pode ser que aquilo que imaginamos ser felicidade não passe de simples e momentânea euforia.

Não sabemos que a felicidade é um ato de esvaziamento, de despojamento, de reciclagem das nossas aparentes certezas. Na verdade, a felicidade — justamente por ser vazia de excessos — nunca se afasta de nenhum de nós, até mesmo do miserável que, desesperançado, está neste momento sofrendo a fome, a solidão e o frio nas ruas do mundo; ou do moribundo em um leito de hospital ou em qualquer lugar, sem ninguém para lhe confortar. Todos, invariavelmente todos os seres, têm a felicidade disponível e aberta diante de seus corações. Mas, é claro, este fato tão importante não retira de nós o dever de nos esforçarmos para que possamos ser mais solidários e atentos ao sofrimento dos seres vivos; temos de saber que, mesmo sem conhecer o gosto curador da felicidade, todos nós precisamos de carinho e compreensão (na verdade, precisamos disso justamente porque não somos capazes de vivenciar a felicidade em sua real natureza).

Estar só é um sentimento terrível. É uma sensação pungente, que nos faz crianças de novo. Procure observar seus sentimentos. Quando você estiver em vias de se sentir deprimido e solitário, observe atentamente como este sentimento lhe transforma de novo em uma criança (na verdade, jamais deixamos de sê-la). E esta sensação é absolutamente igual àquela que tínhamos quando, na infância, nos sentíamos abandonados e sem referência. Se você não consegue acessar esta realização, procure respirar fundo e fechar o olhos quando estiver em um momento de medo e solidão. Observe a si mesmo, e procure em seu coração esta criança. Se fizer esta prática com cuidado e honestidade, um dia você verá a criança que existe em você, e que se manifesta claramente nestes momentos de abandono e isolamento.

Não é possível ser feliz estando solitário. Mas para atingir a felicidade, devemos ser sós. Um absurdo? Na verdade, falo de duas condições completamente distintas. Na primeira, temos a condição que fundamenta toda a miséria humana, toda a crueldade e injustiça: quando o individuo é incapaz de reconhecer a si mesmo, superar suas neuroses e discernir corretamente, ele vive uma condição absolutamente solitária, mesmo se estiver envolvido por muitos amigos, parentes e conhecidos; mesmo se ele for alguém alegre e comunicativo, mesmo se for completamente associado ao aspecto mundano das coisas, ainda assim se ele não exercitar sua auto-regulação através da sabedoria de si mesmo, viverá só. Um dia, de alguma forma, esta solidão irá se manifestar e este indivíduo terá uma dimensão de toda sua frustração. E sofrerá, ou fará sofrer, deliberada ou inadvertidamente. É assim com a maioria de nós, apesar da enorme diversidade de situações e comportamentos humanos.

A segunda condição é a que sustenta a sabedoria que conduz a paz e a felicidade: estar só significa viver livre em si mesmo. Livre do medo, da raiva e do apego. Livre de nossas neuroses, conectados com o mundo e não com a mundanidade. Ser só significa viver sem conflitos, agir com a paciência típica de quem é capaz de compreender os “porquês” e “comos”, e não se sentir ameaçado por eles. Assim é que um praticante no buddhismo deve estar: só em si mesmo, mas unido a todos os seres e coisas do mundo.

Quando passamos pela vida aprendendo a correta experiência de viver só, conseguimos uma leveza tão grande de espírito que até mesmo a solidão não nos atinge. Sabemos lutar, e jamais desanimamos diante de nossas inabilidades em agir com mais amor no mundo. E como podemos começar a trilhar o caminho da liberdade? Fazemos isso quando aprendemos a praticar a contemplação constante de nossas possibilidades. Diz o mestre zen Thich Nhat Hanh: sempre existe uma saída. É possível – e extremamente urgente – mudar nossa visão do mundo. Quando você se sentir sozinho, procure vivenciar sua liberdade: saiba superar a autopiedade, não se prenda a recriminações e culpas. Aprenda a assumir a responsabilidade pelos seus atos, sabendo que por mais terríveis que eles possam ter sido, ainda assim a condição real do espírito humano é de ser passível de transformação e cura.

Podemos curar a nós mesmos, com a ajuda do mundo. Para sermos sós, temos que buscar apoio. Temos que aprender com as pessoas, com os seres, com todas as coisas. Nenhuma criatura ou objeto no universo existe por si; todos estamos ligados à lei do condicionamento existencial: nada pode existir sem depender de outra coisa. A solitude do espírito representa a interconexão dos seres associada ao fato de que, em essência, podemos ser livres de todas as amarras que nos prendem ao mundo, às pessoas. Estamos juntos, mas não estamos presos entre nós.

Disse o monge ao velho mestre:
- O que tu aprendeste ao longo de tua virtuosa existência?
- Aprendi a ser só – replicou o mestre.
- Então, viver em sabedoria significa não se envolver com o mundo?
- Muito ao contrário! Viver só significa estar completamente envolvido na existência, como um homem que não teme mergulhar fundo em um caudaloso rio.
- Mas… – perguntou o monge, confuso – como posso ser só e viver com as coisas e pessoas? Ao fazer isso, estarei simplesmente sucumbindo mais uma vez ao samsara vicioso e viciante da existência condicionada!
- Ah, mas aquele mergulho implica em um verdadeiro milagre: o mergulhador está livre de si mesmo, e a nada se apega. Assim, mesmo mergulhando fundo no rio, sai dele completamente seco, intocado: ele sabe que viver plenamente o mergulho é saber tocar a água apenas com seu corpo, e jamais com seu espírito… eis o verdadeiro modo de viver só.
- Mergulhando assim, jamais serei atingido?
O mestre olhou suavemente para o monge, e disse:
- Mergulhando assim, serás atingido naquilo que realmente importa: teu coração (tua mente). Eis o segredo da correta felicidade

(Busca-se o autor)

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PS: Nossa leitora Benedita, através de comentario enviado, identificou o autor procurado:

(página 57 – “Viver só”)
Livro: O Hóspede da Caverna
Tam Huyen Van
Coletânea de Ensaios Zen Buddhistas
1a. Edição Revisada
Cláudio Miklos
Rio de Janeiro 2007

Entendi que Tam Huyen Van é o nome budista de Cláudio Miklos.
Para ver mais: Google Livros=
http://books.google.com/books?id=HkVpjflSTXcC&pg=PA1&dq=felicidade+e+um+portal+sem+porta&hl=pt-BR&source=gbs_selected_pages&cad=3#v=onepage&q=felicidade%20e%20um%20portal%20sem%20porta&f=false

Segunda-feira, 26 Outubro, 2009 - Publicado por Henrique Miranda | Comentário, Repassando... | , , , | 4 Comentários

4 Comentários »

  1. Sr. Henrique Miranda
    Excelente a matéria Felicidade: um portal sem porta.
    Penso que muitos de nós não conseguem aprender e usufruir da experiência de viver só (“viver livre em si mesmo”).Acho que são poucos os felizardos, até porque não é fácil viver livre do medo, do apego, do sentimento de posse, da raiva e outras coisas mais. Outros pensam que sabem, mas não sabem. E outros estão tentando…

    Vamos começar e ou continuar tentando?
    Atenciosamente, Mariceli

    Comment por Mariceli | Quinta-feira, 29 Outubro, 2009

  2. Prezada Mariceli,
    Acho que tentando, já estamos há muito tempo, buscando a superação dos nossos medos e inseguranças em prol do encontro maior entre as pessoas e nós mesmos, na complementaridade dialética do lobo solitário e do lobo solidário. Em assim sendo, mesmo porque este tentar apresentou frutos promissores, temos mais é de continuar tentando.Abraço fraterno e continue conosco.
    Henrique

    Comment por Henrique Miranda | Quinta-feira, 29 Outubro, 2009

  3. Achei o texto muuuito interessante!
    Gostei tanto que procurei o autor e gostaria de compartilhar com todos, já que os ensinamentos zen são tão … “zens” :) (página 57 – “Viver só”)
    Livro: O Hóspede da Caverna
    Tam Huyen Van
    Coletânea de Ensaios Zen Buddhistas
    1a. Edição Revisada
    Cláudio Miklos
    Rio de Janeiro 2007

    Entendi que Tam Huyen Van é o nome budista de Cláudio Miklos.
    Para ver mais: Google Livros= http://books.google.com/books?id=HkVpjflSTXcC&pg=PA1&dq=felicidade+e+um+portal+sem+porta&hl=pt-BR&source=gbs_selected_pages&cad=3#v=onepage&q=felicidade%20e%20um%20portal%20sem%20porta&f=false

    Bom Proveito!

    Comment por Benedita | Quinta-feira, 5 Novembro, 2009

  4. Prezada Benedita,
    Obrigado por nos ajudar a identificar o autor. No fim de semana farei as citações necessárias, ok? Obrigado mais uma vez. Abraço fraterno e continue conosco.
    Henrique

    Comment por Henrique Miranda | Quinta-feira, 5 Novembro, 2009


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