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Para não desligar os neurônios

Xuxa, a cadela: nome inadequado para uma heroína “irracional”

Vi ontem a reportagem sobre a cadela Xuxa (não tinham um nome mais decente para dar a ela?), que resgatou o recém-nascido abandonado em um terreno baldio e consumi um bom tempo imaginando o ocorrido. Primeiro, fiquei pensando naquele pequeno animal, no meio da noite, latindo desesperadamente para chamar a atenção das pessoas para a caixa que arrastara para a calçada, com a criança dentro: que motivações perpassaram a sua mente para praticar tal ato, já que, segundo nós humanos, as demais espécies não pensam, são irracionais? Depois, imaginei a irracionalidade da espécie humana (que se diz a única portadora de racionalidade), em abandonar recém-nascidos ao relento e riscos de uma noite urbana e selvagem, em mais um fato que já está se tornando corriqueiro no noticiário. Passei então a meditar sobre as contradições existentes entre a nossa dita Razão e a determinada selvageria dos animais, em especial os nossos amigos pré-históricos, os cães. Enquanto eles conseguiram se apegar inexoravelmente a nós pelos laços do carinho, nós conseguimos transformá-los  em nossos escravos, servindo-nos como vigia, como caçador, como meio de transporte, como meio de agredir e matar. Tudo isso em troca de migalhas, maus tratos ou carinhos restritos. Na melhor das hipóteses, os transformamos em objetos lúdicos, para vestir com roupas ridículas, desfilar nas praças, carregar no colo e trancafiar em apartamentos, para acarinhar quando estamos de bom humor, ou xingá-los quando estamos “naqueles dias”. E eles ali, sempre, século a século, com sua irracionalidade a serviço do homem sábio, com sua dedicação extrema, com sua motivação amorosa permanente, dando sempre demonstrações de sua bendita “falta de Razão”. Quem de nós não tem uma história comovente de cachorro para contar? Quantas vezes já não vimos ou ouvimos fatos em que eles agiram como nós agiríamos ou deveriamos ter agido (“parecendo gente”, como costumamos dizer)? Só que nós nos esquecemos de dizer que eles, sem a interferência amestradora dos homens, agem sempre “parecendo gente” em relação à nossa “banda boa”. Se agride ou mata, é porque foi produzido e treinado com esta finalidade (esquecemos sempre este detalhe, porque será?). E mais: quando queremos ofender alguém, chamamo-o de cachorro! Quando queremos desmerecer a dedicação extrema de alguém, denominamos de “dedicação canina” de alguém que “parece um cachorrinho”.

Há poucos dias, andava na praça em plena madrugada e fui surpreendido com os rosnados agressivos de um cão grande e peludo, amarrado por uma corrente à perna de um dos bancos. Enfrentei-o com gritos e ele parou no extremo da corrente, mantendo os rosnados. Olhei-o nos olhos (é uma boa tática para enfrentar cães agressores) e para meu espanto, vi medo neles. Não raiva, medo. Continuei circulando e nas duas próximas voltas, ele rosnava a cada passada minha. Da terceira  circulada em diante, a sua agressividade foi diminuindo, diminuindo… A cada volta eu pensava naqueles olhos medrosos, no fato de que não havia mais ninguém na praça e concluí: ou ele fugira de casa e se enganchara no banco com a própria corrente, ou fora abandonado pelo dono, amarrado ao banco para não segui-lo. E aí entendi o seu medo extravasado em rosnados agressivos… Às minhas últimas passadas à sua frente, ele, espichado no chão e com a cabeça sobre as patas, torturou-me com longos e silenciosos olhares de tristeza e abandono. Acho que se o tivesse tocado, ele se enrolaria amorosamente nas minhas pernas, ou me lamberia a cara. Mas não o fiz, pois a minha racionalidade não permitiria que eu o levasse para casa…

Ontem, vendo a cadela Xuxa no noticiário, lembrei-me do cão desconhecido da praça. Lembrei-me de que, enquanto o meu raciocínio lógico impediu-me de resgatar aquele animal perdido, a cadela, em sua irracionalidade, resgatou uma criança abandonada.

Lembrei-me também que, enquanto a Xuxa televisiva aliena crianças para a vida, a Xuxa vira-lata salva vidas rejeitadas.

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quinta-feira, 24 julho, 2008 - Posted by | Comentário, Reflexões | ,

1 Comentário »

  1. faço das minhas as suas palavras..o chamado ser humano nao foi,nao e, e jamais sera merecedor do amor desses animais que ao contrario desse ser chamado humano..e docil amavel leal,companheiro…o ser humano e mesquinho egoista invejoso…e maltrador de animais..por isso digo e repito quanto mais conheço o ser humano mais amo os animais…

    Comentário por humberto castro | quinta-feira, 24 julho, 2008


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