Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

A ética marginal…

Vi hoje a reportagem sobre um ladrão de carros que roubou um veículo ontem e logo após, descobriu que dentro do carro havia um menino de cinco anos. Desesperado, ligou pra polícia, pediu para que viessem pegar o carro e a criança, desculpando-se pelo incidente.

Este fato lembrou-me a uma experiência vivida na década de 80, quando mandei o meu razoável padrão de vida para o ar e vim morar na periferia de Belém, próximo à Universidade Federal, para cursar Administração. Morando nos limites de uma boca-de-fumo de um traficante chamado de Baiá, sem muros ou qualquer outro obstáculo, dinheiro contado, me segurando ao extremo pra não ter de vender minha Brasília Branca (último troféu da vida antiga).

Naquela noite, voltando de uma ronda pelos botecos do bairro, às quatro da matina estacionei a Brasília em frente à casa (garagem, nem pensar!) e resolvi fumar um último cigarro dentro do veículo, ouvindo uma musiquinha legal que rolava. Vidro da janela aberto, rua deserta, fumaça na cuca, a cuca viajando na vida, de repente uma voz gutural ao meu lado:

_ Barão, me arranje um cigarro aí!…

Como não sou filho de pai assustado nem nasci de sete meses, me virei lentamente, olhei o negão forte a minha frente, respondi “pois não” e dei-lhe o cigarro acompanhado do isqueiro. Ele acendeu calmamente sua dosezinha de câncer, olhou-me e falou pausadamente, naquele sotaque arrastado de malandro:

_ Obrigado Barão. O senhor sabe com quem tá falando?

_ Não, companheiro, não sei, sou novo no pedaço.

_ Eu sou o Baiá, seu vizinho aí de trás…

_ Ah! Prazer…

_ E pode ficar tranqüilo que aqui, com o senhor ninguém mexe, certo?

_ Ah! Obrigado. É bom saber disso…

O silêncio nos envolveu por alguns segundos e eu já me sentia novamente tranqüilo, desligando o toca-fitas para sair do carro.

_ E o senhor sabe porque?

_ Não, não sei. Porque?

_ Porque o senhor tratou bem o meu filho…

Parei atônito. Como? Quem era o filho dele? Procurei lembrar-me de alguns rostos percebidos na vizinhança, mas não encontrava nada compatível com a afirmativa dele.

_ Seu filho?

_ É, ele me contou que o senhor deu banana pra ele…

Lembrei! Cerca de dois meses antes, estava tomando café com a porta da cozinha aberta, quando vi encostado no portal uma criança negra, olhando comprido para a penca de bananas sobre a mesa. Não se mexeu quando o mirei, não pediu nada, só olhava para as bananas. E quando lhe perguntei se ele queria banana, ele apenas balançou afirmativamente a cabeça. Chamei-o para sentar-se, ele veio. Dei-lhe bananas, ele comeu. Mudo e olhando a toalha. Quando acabou, levantou-se e foi embora, silencioso como veio. Pensei um pouco sobre as desigualdades do mundo e esqueci o fato. Agora, aquela manhã voltava nítida à mente e encheu-me de tranqüilidade.

_ Ah! Agora me lembro! Nem sabia que era seu filho!

_ Pois é…É o meu caçula.

Conversamos mais um pouco, disse-lhe que estava ali no bairro para poder estudar na universidade e nos despedimos amigavelmente.

Morei cinco anos no bairro e a única coisa que mudou na nossa amizade foi que ele, a partir daquela noite, passou a chamar-me de professor… Dez anos depois da minha mudança para o centro da cidade, cruzava a praça da Basílica de Nazaré, quando ouvi chamados gritados e repetidos: _ Professor, professor! Parei e olhei já sabendo quem era, e vi à minha frente um Baiá de cabelos semi-grisalhos e sorridente:

_Eras, professor agora virou barão e nunca mais visitou os pobres!

Conversamos um pouco sobre as nossas vidas, ele me levou até à esquina, onde um pilha de jornais descansava sobre um caixote.

_ Taí, professor, agora to vendendo jornal, larguei aquela vida. Tava muito dura, sendo preso toda hora, os cana querendo sempre dinheiro, larguei… Não dá muito, mas eu vivo mais tranqüilo…Ah! O meu caçula, lembra? Já tá homem feito, já tem até família!

Despedimo-nos e eu segui pra casa, pensando mais uma vez nas desigualdades do mundo.

E hoje, vendo a notícia sobre o ladrão de carros, lembrei-me do Baiá, o traficante ético que virou jornaleiro…

quarta-feira, 17 setembro, 2008 - Posted by | Comentário | ,

2 Comentários »

  1. Henrique

    Lendo seu artigo lembrei…

    Ontem quando fui colocar o lixo na frente do condominio tinha lá ums enhor de idade iguais a todos os que vão catar latinhas, papelão e outras coisas reciclavéis.

    Sempre converso com eles, comprimento e pergunto o que estão procurando.

    O senhor me respondeu:

    Não cato latas, estou procurando papéis em brancos e revistas.

    Tenho um netinho de cinco anos que que desenha apartir das imagens que vê, e é no lixo que busco material para ele desenhar.

    Os de senhos que le faz eu vendo por 0,50 centavos,sempre tem um amigo meu que compra.

    Abri um sorriso pra ele e perguntei:

    – O senhor tem algum pra mim ver.

    Ele disse:

    – tenho esta aqui, desenrolou algumas folhas que trazia no bolso.

    O desenho era de um robô, infantil, mas bem feito.

    Depois de adquirir um disse a o senhor:

    -Seu netinho tem futuro garantido.

    É impressionante como certas atitudes nos comove…

    Comentário por Maria Elena | quarta-feira, 17 setembro, 2008

  2. Fala Henricão!

    Sabe, acho que todas as pessoas que começaram “por baixo” como você e eu, teve um Baiá na vida.
    Eu mesmo conheci uns dois ou três… casei cedo, morei em bairros periféricos também… e sempre preguei a política da boa vizinhança… até como uma forma de sobrevivência, pois, temos que ter jogo-de-cintura para levar a vida.
    Os Baiás da vida são a prova que o povo brasileiro, por essência, é um povo bondoso e justo. O abismo que nos separa é quase sempre financeiro e social… eu e você saimos da periferia e estamos relativamente bem, mas, os Baiás continuam lá… de um modo ou de outro não tiveram a chance que nós tivemos.
    Enfim, a vida nem sempre é justa…
    Um abraço!

    Comentário por Wendell Lima | quinta-feira, 18 setembro, 2008


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