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Para não desligar os neurônios

Cirurgia preventiva: coragem ou medo, consciência ou loucura?

Decididamente, fiquei confuso com o conteúdo da reportagem abaixo. Em uma sociedade em que a beleza física e a integridade orgânica é tão valorizada, como uma pessoa assume uma cirurgia que lhe mutilará orgãos importantes biológica e esteticamente?  Para mim, que considero que o ato de viver só vale a pena se dentro de determinadas condições de integridade e dignidade física e mental, é uma decisão bastante problemática. Mas, cabeças são cabeças. Leiam e tirem suas próprias conclusões…

25/01/200910h21

Economista retira seios sem tumores para evitar doença causada por mutação genética

CLÁUDIA COLLUCCI
da Folha de S.Paulo

Após ver a mãe e a irmã sucumbirem ao câncer de ovário, ter retirado um pequeno tumor no seio e acompanhado outros dois casos do mesmo tipo de câncer na família, a economista Maria Paula Merlotti tomou uma decisão radical: aos 40 anos, solteira e sem filhos, extirpou os seios há um ano e, até dezembro, retirará os ovários.

O fator decisivo para as cirurgias preventivas foi um teste genético que apontou que Maria Paula havia herdado da família da mãe uma alteração no gene BRCA-1, que a predispõe a tumores na mama e no ovário.

A retirada preventiva dos seios (mastectomia bilateral) e dos ovários (ooforectomia, que pode incluir a retirada do útero) em mulheres com alto risco de câncer, tem sido uma prática comum nos EUA e começa a se estabelecer também no Brasil.

No caso de Maria Paula, 41, o sinal vermelho se acendeu em 1986, quando a mãe descobriu, aos 54 anos, um câncer de ovário e morreu cinco anos depois, com metástase em outros órgãos. A vítima seguinte foi uma prima da economista, que teve câncer de mama há dez anos.

Em 2006, no período de um mês, Maria Paula e sua irmã mais velha, Maria Cristina, que vivia em Londres, tiveram o diagnóstico de câncer -no seio e no ovário, respectivamente.

“Eu fazia exames [entre eles, mamografia e ultrassonografia] anualmente. A sorte foi ter descoberto o tumor numa fase muito inicial, tinha menos de um milímetro. Fiz a quadrantectomia [cirurgia em que é removido um quarto da mama] e 40 sessões de radioterapia. Não precisei fazer quimio”, conta.

A economista diz que, na época, encarou seu tumor como um aviso de que deveria mudar o seu estilo de vida.

“Estava muito estressada, trabalhando demais. Quando descobri [o câncer], chorei, fiquei mal. Mas hoje vejo que a doença foi um sinal para eu mudar um pouco o foco das coisas. Depois da doença, o resto perde a importância porque você está preocupada em se curar, em ter saúde. Sinto-me melhor hoje.”

A irmã de Maria Paula não teve a mesma sorte. O câncer de ovário é o tumor ginecológico mais difícil de ser diagnosticado e de maior letalidade: 70% dos casos são diagnosticados em estágio avançado e 80% das mulheres morrem em até cinco anos. Cristina morreu no mês passado, aos 51 anos, após dois anos de luta contra a doença.

O mau prognóstico da irmã, a morte da mãe e o teste genético positivo –feito em Londres, gratuitamente-, revelando que tinha a mutação do gene BRCA1, reforçaram a opção de Maria Paula pela mastectomia bilateral preventiva.

A cirurgia, em janeiro de 2008, envolveu o esvaziamento das mamas e a imediata reconstrução com próteses de silicone.

“No começo foi muito difícil. No primeiro mês, sentia muita dor. Tinha dois drenos, que pareciam duas facas. Tive que diminuir o ritmo do trabalho. Mas eu não tinha outra opção. Ou encarava isso, com todos os riscos, ou ficava sempre com o fantasma do medo [de o câncer voltar] me assombrando.”

Volta ao trabalho

Professora universitária e dona de um escritório de prestação de serviço, Maria Paula voltou ao trabalho um mês após a cirurgia. “Foi a melhor coisa. Até o exercício de escrever na lousa foi benéfico.”

Ao retirar as duas mamas, a economista diz ter conseguido reduzir em 90% as chances de retorno do câncer. “Após perder a minha mãe e a minha irmã para o câncer, eu não iria ficar esperando para ver o que iria acontecer.” No ano passado, outra prima da economista, da linhagem materna, teve câncer de mama aos 28 anos.

Agora, Maria Paula diz estar se preparando para retirar os ovários -a cirurgia ainda envolve a retirada do útero, também preventivamente. “Essa decisão está sendo mais difícil. Mas não vejo outra opção. O médico me disse que tenho 50% de chances de desenvolver o tumor ovariano”, afirma ela, católica e devota de Nossa Senhora Aparecida.

Maria Paula é a única sobrevivente de uma família formada por pai, mãe e cinco filhos. O pai, três irmãos e uma irmã morreram em dois acidentes de carro, durante a infância e a adolescência da economista.

“De uma certa forma eu me sinto a última dos moicanos. Tenho tios, primos, amigos, mas, quando olho o porta-retrato, vejo que eu sou a última. Mesmo assim, eu mantenho acesa a chama da família, e a cirurgia foi uma forma de viabilizar isso, de me manter viva.”

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u494219.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u494220.shtml

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terça-feira, 27 janeiro, 2009 - Posted by | Comentário, Repassando... | , ,

3 Comentários »

  1. […] biológica e esteticamente? Para mim, que considero que o ato de … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

    Pingback por Fique por dentro Cirurgia » Blog Archive » Cirurgia preventiva: coragem ou medo, consciência ou loucura … | sexta-feira, 30 janeiro, 2009

  2. Hi, cool site, good writing 😉

    Comentário por Dereatode | segunda-feira, 9 fevereiro, 2009

  3. […] Imagine que um médico lhe dissesse que você, que tem peso normal, teria 97% de chance de virar um obeso mórbido e que, caso você fizesse uma cirurgia de redução de estômago, essa chance caísse para 5%, você faria? E se um médico lhe dissesse que você, homem, tinha uma mutação genética que lhe dava 90% de chance de desenvolver um câncer de testículo, você os removeria? Pois é. Nesta semana, a tal da medicina preventiva chegou ao seu limite. A premiada atriz Angelina Jolie, de apenas 37 anos, sabendo de um risco enorme que tinha de desenvolver câncer de mama, decidiu, por ela mesma, realizar uma mastectomia, retirando os seios. (*) O Comitê de Diretores da Sociedade Americana de Câncer declarou que“somente indicações patológicas e/ou clínicas muito fortes asseguram a realização desse tipo de operação preventiva.” Cirurgias preventivas para tal caso já vinham sendo realizadas, porém, muito raramente, e nunca com alguém tão influente e que logo as tomasse como bandeira, como a própria Angelina Jolie diz: “Se escrevo agora sobre isto é porque espero que outras mulheres possam beneficiar-se de minha experiência”. As conseqüências jurídicas dessa novidade são tantas e tamanhas que merecem um debate sério sobre o que a ditadura da medicina – emagreça, um pouco de sobrepeso é bom, faça exercícios, mas cuidado para não infartar correndo, não coma ovo, coma ovo, menos sal, menos açúcar, mais sal, essa mutação dá 90% de chance de desenvolver câncer, (…) dois anos depois (…), não é nesse gene, é em outro – vem fazendo com as mentes das pessoas. Afinal, vale a pena se mutilar porque um médico disse que você tinha chance de desenvolver uma doença, no futuro, não se sabe quando, nem se ela realmente virá? Não existem outras opções para essas mulheres que não seja se mutilar para evitar uma doença? Cirurgias são operações complicadíssimas e todas envolvem um risco de morte, seja ele pequeno ou não. Elas devem ser performadas não preventivamente, mas como último caso, quando não há nada mais a se fazer em termos médicos. “Você levanta com tubos de drenagem e extensores nos peitos. Parece uma cena de um filme de ficção científica. Mas alguns dias depois da operação, você pode voltar à vida normal”, recorda a atriz. Que onisciência é essa que faz um médico cravar que uma pessoa tem 97% de chance de desenvolver um câncer? Uma pessoa sadia, atlética, que nunca teve qualquer doença grave, de repente tem risco de se acometer por uma neoplasia por causa de uma mutação genética – no caso, o BRCA-1 ou BRCA-2? O fato é que ela, apesar da mastectomia, ainda pode desenvolver o câncer e, se não tivesse realizado a operação, podia ser também que não desenvolvesse. Sim, as estatísticas indicavam um risco grande, mas será que tais estatísticas estavam corretas? Quantos profissionais se envolveram para calculá-las? Eles têm mesmo esse poder de definir a chance real de alguém vir a ter uma doença no futuro? A partir de qual porcentagem é indicada uma cirurgia preventiva? É importante atentar para a reflexão que traz o autor do Blog Livre Pensar, Henrique Miranda: “Em uma sociedade em que a beleza física e a integridade orgânica é tão valorizada, como uma pessoa assume uma cirurgia que lhe mutilará órgãos importantes biológica e esteticamente?  Para mim, que considero que o ato de viver só vale a pena se dentro de determinadas condições de integridade e dignidade física e mental, é uma decisão bastante problemática. Mas, cabeças são cabeças.” (**) Cabeças são cabeças, mas é importante frisar que essa decisão não é de responsabilidade apenas da paciente que quer fazer a mastectomia preventiva. Ela deve ser decidida em conjunto com o médico que fez o prognóstico – um prognóstico sui generis já que feito sem diagnóstico visto que não há doença – e com o seu cirurgião. Ambos os médicos têm responsabilidade civil sobre a operação, podendo responder processualmente tanto em caso de erro durante a cirurgia, como de arrependimento posterior da paciente (o que não é raro de acontecer). Por ser muito recente no campo médico, a classificação deste tipo de cirurgia ainda não foi pacificada pela doutrina ou jurisprudência, mas ela deve equivaler, juridicamente, a uma plástica, pois não é, analogamente, um remédio, mas sim, uma vacina, desnecessária como tratamento. Assim, a cirurgia preventiva deve ser analisada como uma obrigação de resultado, em que o médico tem a necessidade premente de conseguir realizar exatamente o que prometeu ao paciente – posto que este se encontra saudável no momento da cirurgia -, e não como obrigação de meio, em que lhe é exigido apenas que se esforce para alcançar um resultado, não importando qual seja este. (*)http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2013/05/14/angelina-jolie-revela-que-passou-por-dupla-mastectomia.htm (**)https://livrepensar.wordpress.com/2009/01/27/cirurgia-preventiva-coragem-ou-medo-consciencia-ou-loucu… […]

    Pingback por Raul Gerolimich » Angelina Jolie, a Cirurgia Preventiva e a Responsabilidade Civil | terça-feira, 14 maio, 2013


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