Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Celular x Câncer: essa eu já sabia!

BLOGUE CELULAR telepiercingDe há muito as suspeitas sobre os efeitos nocivos do celular já vinham sendo apontados, principalmente na Inglaterra. Inclusive aqui no blogue cheguei a postar alertas sobre esses alertas. Agora, estudos da Organização Mundial de Saúde relevantam a questão e não vejo grandes entusiasmos da mídia empresarial em discutir essa questão pois, claro, mexe com um dos maiores vícios dos brasileiros e uma das maiores fontes de lucros da área de serviços e da própria mídia, que vem associando cada vez mais o uso de celulares como forma de interação TV/Telespectadores. Se há estes riscos em países que usam moderadamente este equipamento, imaginem no Brasil, onde o uso virou mania, vício. Só pra vocês terem uma idéia: conheço uma mulher com mais de 40 anos, professora universitária, mãe de 3 filhos adolescentes e que me declarou ter cinco celulares! E quando perguntei-lhe pra que cinco celulares se ela só tinha dois ouvidos, ela me respondeu candidamente:

_ Ah! Henrique! A gente não pode perder as promoções!

Imaginem: se ela, mãe, pensa isso, o que pensarão os seus filhos?

Leiam a reportagem e, por favor, reflitam sobre essa praga moderna da mesma forma que refletiram sobre o cigarro, certo? Ou só são mortais os vícios antigos? Aonde estão os governos com suas lupas de defensores da saúde pública? Onde estão os legisladores paladinos oportunistas da saúde nacional? Aonde estão os médicos socialmente terroristas para alardear os riscos da nova doença de consumo? Aonde estão os chatos obsessivos de plantão que não criam os exércitos de tele-chatos para fomentarem o novo terrorismo social (o tele-terrorismo)? Já sei: vão esperar resultados conclusivos da pesquisa! Vinte, trinta anos de pesquisa que com certeza serão adiadas e boicotadas pelos grupos interessados nesse filão de ouro da telefonia celular, até que algumas gerações de viciados sejam mortas. Tudo bem, espero estar vivo até lá pra ver o fim dessa historinha macabra.

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Estudo da OMS relaciona uso do celular com câncer

Sáb, 24 Out, 11h01

Londres, 24 out (EFE).- O uso do telefone celular pode ter relação com vários tipos de câncer, segundo um estudo internacional supervisionado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), cujos resultados preliminares foram publica dos hoje pelo jornal “The Daily Telegraph”.

Com um orçamento de 20 milhões de libras (22 milhões de euros), a pesquisa – que durou uma década e será divulgada até o fim do ano – oferece provas de que as pessoas que abusam do celular se arriscam a sofrer tumores cerebrais a longo prazo.

As conclusões preliminares indicam que existe “um risco significativamente maior” de ter um tumor cerebral “relacionado ao uso de telefones celulares durante um período de dez anos ou mais”, afirma o jornal.

De acordo com o “Daily Telegraph”, o estudo Interphone questionará as garantias que os Governos costumam dar sobre a segurança desses aparelhos e aumentará a pressão para que as autoridades de saúde divulguem conselhos mais claros.

A diretora da pesquisa, a doutora Elisabeth Cardis, professora do Centro de Pesquisa em Epidemiologia Ambiental (Creal) de Barcelona, disse que, apesar da “falta de resultados definitivos, vários estudos, embora sejam limitados, sugerem um possível efeito de radiação de radiofrequência” gerada pelos celulares.

“Portanto, estou de acordo, em geral, com a ideia de restringir o uso (de celulares) a crianças, embora não iria tão longe em proibir os telefones celulares, já que podem ser uma ferramenta muito importante (…)”, disse Cardis, citada pelo jornal.

A especialista também defende “meios para reduzir a exposição” aos celulares, como a utilização de dispositivos handset – que permitem usar o telefone sem as mãos – e o uso moderado do aparelho.

Uma porta-voz da Creal em Barcelona afirmou à Agência Efe que o estudo coordenado por Cardis inclui vários dados de cidadãos de vários países, e acrescentou que é um trabalho muito complexo que “só será divulgado no final deste ano”.

O estudo Interphone realizou pesquisas em 13 países e entrevistou a 12,8 mil pessoas – entre saudáveis e pacientes com tumores -, a fim de investigar se a exposição aos celulares está vinculada a três tipos de tumores cerebrais e um tumor da glândula salivar.

Pesquisas anteriores sobre os efeitos dos celulares na saúde foram pouco conclusivas, mas o projeto supervisionado pela OMS indica, por exemplo, que seis em oito estudos Interphone revelam um maior risco de sofrer de glioma (o tumor cerebral mais comum).

Um porta-voz da Agência de Proteção da Saúde (HPA) do Reino Unido disse que, “por enquanto, não há provas sólidas” sobre os efeitos nocivos do uso de celulares.

Já um porta-voz da associação de operadores de telefonia celular indicou que mais de 30% dos estudos científicos sobre esse assunto não encontraram nenhum impacto negativo para a saúde. EFE

Imagemhttp://charges.uol.com.br/

segunda-feira, 26 outubro, 2009 Posted by | Comentário, Repassando... | , , , | Deixe um comentário

Felicidade: um portal sem porta.

BLOGUE LOBO - imagesDiários da Barreira do Mar (VI)
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Ando meio sem tempo e sem inspiração para continuar construindo o nosso blogue. De certa forma a vida real interiorana e solitária, além do vivenciar coisas simples e primárias que pouco têm a ver com a intelectualidade como a conhecemos no mundo “civilizado”, nos coloca numa certa letargia espiritual que a maioria chama de acomodação e que eu denomino de plenitude da simplicidade. Mais do que nunca, encontro-me em meio à dialética do lobo, conceito que desenvolvi para explicar a minha aparente contradição em ir-e-vir como lobo solitário e lobo solidário (outra hora eu explico melhor!). Seja lá o que for, passei o fim de semana dormindo e pescando e, em meio à gostosa leseira que me tomou o corpo e a mente, achei entre os meus alfarrábios a reflexão abaixo, de alguém cujo nome não anotei e que por isso apresento como de fonte anônima. E como o texto tem muito a ver com a indivisibilidade do estar só e do estar junto, no contexto da felicidade pessoal, optei por repassá-lo a vocês. Se alguém conhecer o autor, por favor me repasse, para que eu possa corrigir o meu vacilo.

Boa semana a todos…

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A Felicidade é um portal sem porta. Como toda experiência de grande impacto em nossa saúde espiritual, a capacidade de viver feliz pertence à classe mais maravilhosa de vivências plenas e conscientes da mente humana. Sendo uma coisa tão abrangente e vital, a felicidade também pode ser definida através deste maravilhoso koan zen: um portal sem porta, algo generosamente aberto e pronto para ser atravessado por todos.

Mas como tudo o que nos espera por trás daquele portal sem porta, a felicidade só pode ser experimentada em sua plenitude se atravessarmos a fronteiras de mãos e coração vazios de posses, apegos, perdas ou ganhos. Aprender a abrir mão daquilo que nossos egos mais valorizam é uma lição dura para a alma, e um longo processo de aprendizagem.

Às vezes fico em minha casa, tarde da noite, olhando de minha janela as luzes dos lares espalhados nos vários edifícios de minha cidade; fico ali quieto e solitário, contemplando ao longe o desenrolar indefinido de tantas estórias, o desfecho de tantos caminhos humanos. Mesmo sem poder olhar nada em detalhes, sem ouvir o que é dito, apreender o que é pensado, sei que naquelas janelas distantes homens e mulheres vivem um mito pessoal, um roteiro íntimo e particular de risos e sonhos, choros e desesperos, virtudes e vícios. Todos são espelho de meu próprio mito. Eu pertenço a esta cadeia de ações e forças desenfreadas e poderosíssimas chamada “Vida”.

Fico ali, pasmo, observando o implacável curso do rio samsárico. Às vezes quase posso ver seu movimento caudaloso atravessando tudo o que existe, e temo o momento em que serei engolido por ele. O temor é maior por saber que eu já me encontro sendo levado, e assim é que deve ser. Mas o temor não impede minha resolução de continuar a tecer meus caminhos e dias, mantendo a confiança em finalmente conhecer aquilo que ainda não sei, e atingir a paz em meio ao caos. Esta é uma paz completamente possível, e a única que realmente nos faz superar o medo.

Falar das misérias e maravilhas humanas é repetir uma crônica antiga, repassada por muitos visionários, escritores, poetas e filósofos ao longo do tempo quase infinito (para a consciência humana) da história do Homem. Mas para falar da felicidade, eu preciso relembrar nossas realidades íntimas… Preciso encarar os temores.

Quem jamais buscou a felicidade? Ninguém. Não existe ou existiu um único ser humano, uma única mente que, mesmo por tortuosos caminhos, não tenha buscado ou esteja buscando agora mesmo para si o êxtase do contentamento, o alívio da harmonia interna, o prazer do sentimento de realização. Você mesmo está fazendo isso agora, não há como escapar desta busca. Se o resultado final for saudável ou não – se for a real felicidade ou apenas uma alegria passageira -, isso é uma outra estória…

É uma busca inusitada, pois ela não possui uma forma e não pode ser exercitada através de um único método. É também uma busca labiríntica, e que leva a muitos de nós a um desfecho falso, ilusório. Uma busca que também pode levar à solidão. Aquela solidão derivada dos erros cometidos, dos laços desfeitos, dos afetos mal-interpretados. E quando nos sentimos sozinhos, fracassados, perdidos, para onde vai a felicidade? Porque, para todos nós, felicidade é estar preenchido. É possuir algo, ter alguém, atingir um objetivo. Ser feliz é encher nossos reservatórios de expectativas e sonhos até a borda, de tal forma que nos sentimos fartos de realizações pessoais. Mas pode ser que este reservatório seja feito de muitas concepções errôneas de nós mesmos e do mundo. Pode ser que aquilo que imaginamos ser felicidade não passe de simples e momentânea euforia.

Não sabemos que a felicidade é um ato de esvaziamento, de despojamento, de reciclagem das nossas aparentes certezas. Na verdade, a felicidade — justamente por ser vazia de excessos — nunca se afasta de nenhum de nós, até mesmo do miserável que, desesperançado, está neste momento sofrendo a fome, a solidão e o frio nas ruas do mundo; ou do moribundo em um leito de hospital ou em qualquer lugar, sem ninguém para lhe confortar. Todos, invariavelmente todos os seres, têm a felicidade disponível e aberta diante de seus corações. Mas, é claro, este fato tão importante não retira de nós o dever de nos esforçarmos para que possamos ser mais solidários e atentos ao sofrimento dos seres vivos; temos de saber que, mesmo sem conhecer o gosto curador da felicidade, todos nós precisamos de carinho e compreensão (na verdade, precisamos disso justamente porque não somos capazes de vivenciar a felicidade em sua real natureza).

Estar só é um sentimento terrível. É uma sensação pungente, que nos faz crianças de novo. Procure observar seus sentimentos. Quando você estiver em vias de se sentir deprimido e solitário, observe atentamente como este sentimento lhe transforma de novo em uma criança (na verdade, jamais deixamos de sê-la). E esta sensação é absolutamente igual àquela que tínhamos quando, na infância, nos sentíamos abandonados e sem referência. Se você não consegue acessar esta realização, procure respirar fundo e fechar o olhos quando estiver em um momento de medo e solidão. Observe a si mesmo, e procure em seu coração esta criança. Se fizer esta prática com cuidado e honestidade, um dia você verá a criança que existe em você, e que se manifesta claramente nestes momentos de abandono e isolamento.

Não é possível ser feliz estando solitário. Mas para atingir a felicidade, devemos ser sós. Um absurdo? Na verdade, falo de duas condições completamente distintas. Na primeira, temos a condição que fundamenta toda a miséria humana, toda a crueldade e injustiça: quando o individuo é incapaz de reconhecer a si mesmo, superar suas neuroses e discernir corretamente, ele vive uma condição absolutamente solitária, mesmo se estiver envolvido por muitos amigos, parentes e conhecidos; mesmo se ele for alguém alegre e comunicativo, mesmo se for completamente associado ao aspecto mundano das coisas, ainda assim se ele não exercitar sua auto-regulação através da sabedoria de si mesmo, viverá só. Um dia, de alguma forma, esta solidão irá se manifestar e este indivíduo terá uma dimensão de toda sua frustração. E sofrerá, ou fará sofrer, deliberada ou inadvertidamente. É assim com a maioria de nós, apesar da enorme diversidade de situações e comportamentos humanos.

A segunda condição é a que sustenta a sabedoria que conduz a paz e a felicidade: estar só significa viver livre em si mesmo. Livre do medo, da raiva e do apego. Livre de nossas neuroses, conectados com o mundo e não com a mundanidade. Ser só significa viver sem conflitos, agir com a paciência típica de quem é capaz de compreender os “porquês” e “comos”, e não se sentir ameaçado por eles. Assim é que um praticante no buddhismo deve estar: só em si mesmo, mas unido a todos os seres e coisas do mundo.

Quando passamos pela vida aprendendo a correta experiência de viver só, conseguimos uma leveza tão grande de espírito que até mesmo a solidão não nos atinge. Sabemos lutar, e jamais desanimamos diante de nossas inabilidades em agir com mais amor no mundo. E como podemos começar a trilhar o caminho da liberdade? Fazemos isso quando aprendemos a praticar a contemplação constante de nossas possibilidades. Diz o mestre zen Thich Nhat Hanh: sempre existe uma saída. É possível – e extremamente urgente – mudar nossa visão do mundo. Quando você se sentir sozinho, procure vivenciar sua liberdade: saiba superar a autopiedade, não se prenda a recriminações e culpas. Aprenda a assumir a responsabilidade pelos seus atos, sabendo que por mais terríveis que eles possam ter sido, ainda assim a condição real do espírito humano é de ser passível de transformação e cura.

Podemos curar a nós mesmos, com a ajuda do mundo. Para sermos sós, temos que buscar apoio. Temos que aprender com as pessoas, com os seres, com todas as coisas. Nenhuma criatura ou objeto no universo existe por si; todos estamos ligados à lei do condicionamento existencial: nada pode existir sem depender de outra coisa. A solitude do espírito representa a interconexão dos seres associada ao fato de que, em essência, podemos ser livres de todas as amarras que nos prendem ao mundo, às pessoas. Estamos juntos, mas não estamos presos entre nós.

Disse o monge ao velho mestre:
– O que tu aprendeste ao longo de tua virtuosa existência?
– Aprendi a ser só – replicou o mestre.
– Então, viver em sabedoria significa não se envolver com o mundo?
– Muito ao contrário! Viver só significa estar completamente envolvido na existência, como um homem que não teme mergulhar fundo em um caudaloso rio.
– Mas… – perguntou o monge, confuso – como posso ser só e viver com as coisas e pessoas? Ao fazer isso, estarei simplesmente sucumbindo mais uma vez ao samsara vicioso e viciante da existência condicionada!
– Ah, mas aquele mergulho implica em um verdadeiro milagre: o mergulhador está livre de si mesmo, e a nada se apega. Assim, mesmo mergulhando fundo no rio, sai dele completamente seco, intocado: ele sabe que viver plenamente o mergulho é saber tocar a água apenas com seu corpo, e jamais com seu espírito… eis o verdadeiro modo de viver só.
– Mergulhando assim, jamais serei atingido?
O mestre olhou suavemente para o monge, e disse:
– Mergulhando assim, serás atingido naquilo que realmente importa: teu coração (tua mente). Eis o segredo da correta felicidade

(Busca-se o autor)

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PS: Nossa leitora Benedita, através de comentario enviado, identificou o autor procurado:

(página 57 – “Viver só”)
Livro: O Hóspede da Caverna
Tam Huyen Van
Coletânea de Ensaios Zen Buddhistas
1a. Edição Revisada
Cláudio Miklos
Rio de Janeiro 2007

Entendi que Tam Huyen Van é o nome budista de Cláudio Miklos.
Para ver mais: Google Livros=
http://books.google.com/books?id=HkVpjflSTXcC&pg=PA1&dq=felicidade+e+um+portal+sem+porta&hl=pt-BR&source=gbs_selected_pages&cad=3#v=onepage&q=felicidade%20e%20um%20portal%20sem%20porta&f=false

segunda-feira, 26 outubro, 2009 Posted by | Comentário, Repassando... | , , , | 4 Comentários

Psicologia e infância: “Eles” estão aprendendo!!!

Imagem 076Diários da Barreira do Mar (V)
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Enquanto vejo no meu cotidiano marajoara bandos de crianças pobres, mas com a presença dos pais e a liberdade (sob vigilância compartilhada dos moradores) de ir e vir pelos campos e lagos, além de receberem limites à moda antiga (já que a globalização não chegou explicitamente por aqui), leio na NET a matéria que repasso abaixo sobre os (re)posicionamentos dos psicólogos sobre a criação de filhos. Eles não assumem como reposicionamento (jamais assumirão!) mas, para quem tem acompanhado durante todas estas décadas os vacilos experimentais destes especialistas, parece que as tragédias contemporâneas (pessoais e familiares) estão surtindo um efeito salutar nesta corporação que pretende controlar a saúde mental de todos nós. O decantado direito absoluto dos filhos à privacidade deu espaço para o direito de controle dos pais sobre as atividades e coisas das suas crias. A pedagogia do amor ilimitado cedeu lugar para os controles e limites dos pais. O sim absoluto e permanente encolheu-se para o não necessário.  A busca da plenitude infantil e individualista, foi forçada a dar espaço às frustrações e seus aspectos pedagógicos na formação da personalidade. E assim vai… Fico feliz por isso, mas ao mesmo tempo revoltado pelas gerações de pais e filhos que foram desestruturados pelas teorias experimentais destes pretensos profissionais, sepultando toda a experiência tradicional de criar filhos com o manto da “modernidade” que tantos males tem provocado. E eu, que fui criado no sistema antigo (e agradeço por assim ter sido), que fui antigo na criação dos meus filhos, passo hoje todos os dias perto da comunidade de Valentim (lugarzinho mínimo, pobre e perdido nos campos do Marajó), onde as crianças (vejam acima, no meu clic) correm em bandos pelas fruteiras, gritam pra mim e mergulham no lago pra se esconder e vingam, apesar da pobreza, sob os olhos amorosos, severos e únicos dos seus pais, parentes e aderentes (até uma escolinha improvisada têm!) Aqui não se houve falar de pais matando filhos e vice-versa, até as músicas ainda são antigas, no melhor estilo melodramático sertanejo! São crianças fisicamente saudáveis, emocionalmente travessas, coletivamente solidárias nas traquinagens cotidianas. Carentes materialmente, com educação precária, com habitação sem saneamento, mas que têm amor e tratamento afetivo autêntico e tradicional, ainda sem globalização, sem psicólogos e sem os “protetores da infância e da adolescência”.

Amigos, acho que descobri um núcleo humano interessante para descortinar em minhas horas livres. Não, não se preocupem! Não pretendo modernizá-los! Vou tentar apenas ouvir suas histórias, suas percepções, dificuldades, sonhos e realizações, para poder falar a vocês com mais ênfase sobre o novo e o antigo na vida de todos nós.

Enquanto isso, vão se distraindo aí com as idas e vindas dos psicólogos desvairados em busca de um caminho certo para os caminhos antigos que destruíram…

Imagem: Crianças de Valentim, Marajó, outubro 2009 (Henrique Miranda)

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A importância de ser criança

Seg, 19 Out, 12h53

Por Ana Paula Galli, especial para o Yahoo! Brasil

Nascer, crescer, reproduzir, morrer. Cada momento do ciclo da vida tem uma importância definida. Mas, sem dúvida, a infância é o período mais representativo da formação do ser humano. “É nessa fase que o futuro adulto se constitui. Viver uma boa infância significa passar de forma saudável física e mentalmente para a fase adulta”, explica a psicoterapeuta infantil Ana Olmos.

Brincar, fazer amizades, se divertir mas também ter obrigações; Ana conta que até deixar o filho passar por frustrações é importante. “É esse aprendizado que faz com que o adulto aprenda a lidar com vitórias, mas também com derrotas”

Conviver com os pais no dia a dia também é um importante fator de formação, mas que, por causa da correria e da falta de tempo comum aos moradores dos centros urbanos, se torna uma atividade cada vez mais rara.

“Muitas vezes os pais não conhecem os próprios filhos, que são formados principalmente pela cultura de massa”, conta Solange Jobim, professora do departamento de Psicologia da PUC do Rio de Janeiro. Apesar de não existir uma fórmula milagrosa, a professora explica que a presença dos pais, entre outras ações como o acesso à diversidade cultural e aos diferentes ambientes lúdicos, incentivam o desenvolvimento da criatividade e, consequentemente, da personalidade da criança.

“A fantasia é indispensável à formação, mas ela tem que ser estimulada. Não basta ligar a televisão e colocar o filho para assistir. Tem que haver um diálogo direto com a criança. E, mais importante, os pais têm de filtrar o que é bom e o que é ruim”, afirma Solange.

Infância dura

E se uma criança não tiver uma infância propriamente dita? Se por causa das intempéries da vida ela tenha sido obrigada a passar seus dias em sinais de trânsito vendendo balas ou em uma carvoaria no interior do país, trabalhando desde pequena? Essa realidade não é difícil de ser encontrada. Basta sair de casa para ver pequenos zanzando pelas ruas sem a supervisão de um adulto, em busca de um “trocado” ou vendendo algo.

Nesse caso, a fantasia de ser criança dá lugar ao excesso de responsabilidades, o medo de não ter o que comer, o receio de não ter onde dormir. “A infância se torna uma batalha a ser vencida. E a mente, em vez de ser ocupada por brincadeiras e fantasias, é inundada por preocupações que normalmente pertenceriam apenas à mente de adultos”, explica Ana.

De acordo com a psicoterapeuta, ser responsável pela própria sobrevivência não é algo que deveria fazer parte do universo infantil, e o resultado pode ser desastroso. “O caminho natural da privação é a deliquência. E nesse caso, não só a criança perde. Aí toda a sociedade acaba vítima da falta de infância de uma criança de rua. O resultado é um mundo cada vez mais violento”, conta Ana.

Um outro mundo possível

“Só quem sentiu na própria pele entende o que é passar frio, estar à mercê do perigo e não ter o que comer por dias”. O relato é de Airton da Costa, advogado da prefeitura de Diadema (SP) que viveu boa parte da vida nas ruas.

Nascido em uma família pobre de Lins (SP), apesar de ter uma casa, Airton e seus irmãos preferiam desde pequenos passar os dias e as noites nas ruas. “Passávamos meses fora de casa. Era melhor por causa do meu pai, que era alcoólatra”, explica. “Infância eu não tive. A cabeça nunca estava ocupada com coisas de criança. Em vez de fantasias, eu me preocupava em catar papelão e pedir esmola para sobreviver. Isso não é ter infância”.

Mesmo com todas as dificuldades, diferentemente de seus irmãos, que se envolveram com drogas e sofrem hoje com sequelas, Airton frequentou a escola. Em busca de comida nos lixos, ele aproveitava para procurar cadernos com folhas em branco, que usava na sala de aula. “Enquanto meus amigos brincavam de bola eu sonhava em ser advogado. Desde pequeno eu sabia o que queria”.

Aos 37 anos, com a ajuda do financiamento estudantil, Airton conseguiu entrar na faculdade de Direito. Hoje, aos 44 anos, casado com Maria Minervina e pai de duas meninas – Natália, 15 e Taís, 17 – ele faz questão de que suas filhas não passem necessidade. “Dei tudo para que elas tivessem uma infância saudável e continuo dando. Não só amor, carinho, diversão e comida mas também obrigações. Elas têm que aprender a dar valor à vida”.

Como os pais devem agir para os filhos terem uma infância mais saudável
Não basta colocar na escola ou pagar uma babá para vigiar os filhos. Uma infância bem vivida depende muito mais das atitudes dos pais do que de qualquer outro fator
Diga não à super-proteção. Dentro dos limites, garanta a seus filhos liberdade de ir e vir e de tomar decisões.
Varie nas brincadeiras. Em vez de fornecer apenas brinquedos fabricados, incentive brincadeiras ao ar livre ou com brinquedos artesanais. Isso contribuirá para o desenvolvimento da fantasia e da criatividade do seu filho.
Participe. Estar presente e ser ativo na vida dos pequenos faz uma grande diferença na formação do ser. Dar atenção, jogar conversa fora, ter momentos simples e duradouros no dia-a-dia são formas de se aproximar.
Deixe a frustração acontecer. Assim como aprender a lidar com vitórias e conquistas, é indispensável para a criança aprender a lidar com frustrações e perdas.
Diminua o acesso à televisão e ao computador. Em vez de um joguinho de computador ou um desenho animado na televisão, incentive a leitura, o teatro, o cinema, fortes aliados na formação cultural e criativa da criança.

terça-feira, 20 outubro, 2009 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | 1 Comentário

A vida de cada um de nós: tente, invente, faça diferente

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Diários da Barreira do Mar (IV)

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Interessantes as vivências da minha jornada pessoal no planetinha: desde o dia 2 passado, por razões profissionais mudei toda a minha rotina dos últimos vinte anos. Deixei o contexto urbano, passei a lidar com animais, a ter que observar melhor o clima, o ambiente natural, as pessoas… E por ter-me autocomprometido com essa mudança, esses dias têm sido extremamente vivos, dinâmicos e prazeirosos, apesar das jornadas ao ar livre em um sol escaldante e em meio a animais vitimizados pela seca anual local que vai até dezembro. Porquê prazeirosos? Simplesmente por ter rompido a rotina sedentária das duas últimas décadas (e olha que esta rotina era bem mais dinâmica do que a da maioria das pessoas!). De certa forma, voltei às minhas raízes rurais nordestinas, às práticas pastoris da minha infância/adolescência, além de morar sozinho em uma casa que tenho de cuidar e abastecer. E tem me parecido que cada jornada é mais instigante para as reflexões que faço ao fim de cada dia, mergulhado nas águas frescas do rio ou no chuveiro morno pela água aquecida pelo sol, ou na rede onde adormeço sem sentir.

Ontem foi um desses dias: depois de ser acordado por este amanhecer que vocês vêm (na foto acima e clicada  da minha janela), calculei alimentos para alimentar rebanhos magros, dirigi trator para desatolar búfalos de um lago que virou lama, controlei experimentos com os quelônios que chamamos de “muçuã”, enfrentei sol aberto e poeira de monte, para chegar em casa ao crepúsculo, fisicamente exausto, mas psicologicamente pleno e já curtindo antecipadamente o banho de rio. Ver as garças agasalhando-se no ninhal da ilhota em frente à minha janela, olhar as luzes do dia partindo, pensar na companheira e nos filhos distantes, fazer e comer o jantar, completaram a plenitude do meu dia.

E hoje de manhã, por extrema coincidência, recebo do meu amigo Germer, via email, a matéria que repasso abaixo e que tem tudo a ver com a minha e a sua vida e com tudo que estou vivenciando atualmente (obrigado Germer, por sua sensibilidade sempre oportuna).

Leiam, amigos. É uma excelente massa crítica para a reflexão de cada um de nós…

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Por Airton Luiz Mendonça
(Artigo do jornal O Estado de São Paulo)

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio… você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.

Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processarconscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo.

Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e ‘apagando’ as experiências duplicadas. Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente. Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo.

Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa , no lugar de repetir realmente a experiência). Ou seja, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa são apagados de sua noção de passagem do tempo. Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida.

Conforme envelhecemos as coisas começam a se repetir – as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações, -… enfim… as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo. Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década. Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a…

ROTINA

A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos. Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M (Mude e Marque). Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia). Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo. Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente. Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes.

Seja diferente.

Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos.. … em outras palavras…. .. V-I-V-A. !!! Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o… do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.

Cerque-se de amigos. Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes.

Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é?

Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

E S CR EVA em
tAmaNhosdiFeRenTes e em CorES
di f E rEn tEs !
CRIE, RECORTE, PINTE, RASGUE, MOLHE, DOBRE, PICOTE, INVENTE, REINVENTE… .

V I V A !!!!!!!!

Imagem: alvorada no rio Paracauary, Arquipélago do Marajó, Salvaterra, outubro 2009 (Henrique Miranda)

sábado, 17 outubro, 2009 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | Deixe um comentário

A devastação ambiental e as defesas naturais marajoaras

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Diários da Barreira do Mar (III)
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Para quem não o conhece adequadamente, o arquipélago do Marajó impressiona por sua incrível resistência ecossistêmica contra as devastações históricas dos seus recursos naturais. Por ter sido um dos primeiros cenários da invasão colonizadora de espanhóis, franceses, ingleses e portugueses, inclusive tornando-se centro catequético dos Jesuítas para arregimentação dos indígenas pela fé (substituindo em parte a submissão violenta dos nativos pelos senhores da guerra) para exploração das drogas-do-sertão, ainda hoje apresenta razoável presença de recursos florestais e faunísticos. A pesca predatória secular não acabou com seus cardumes de rios e lagos. A exploração madeireira desordenada não acabou com suas matas. A globalização da economia e dos mercados e a massificação cultural pouco influenciaram além de alguns contextos urbanos mais dinâmicos. Porque isso, se trinta quilômetros ao sul, na margem direita do Amazonas, encontram-se as áreas mais devastadas do Estado do Pará e as populações mais vulneráveis de toda a região Nordeste do Estado? Aparentemente, fenômeno de difícil explicação, mas facilmente entendível se se observa com cuidado a história e o ecossistema marajoara.

Inicialmente, cabe destacar o seu isolamento geográfico propiciado pela imensidão das águas do Amazonas que o envolvem. Não é um simples rio, é um imenso rio, mar de água doce, sujeito a ventanias, marés, maresias e pororocas. Sequer energia hidrelétrica lá chegou até hoje (pois as redes tradicionais de distribuição não permitem ultrapassar essa barreira de águas barrentas), limitando-se ao uso da eletricidade termoelétrica à diesel. Além disso, a insalubridade crônica de algumas regiões (malária, principalmente), a distância dos atendimentos em saúde (criaram recentemente um sistema de resgate por helicóptero) e a precariedade dos meios de comunicação, desanimam as invasões territoriais. As distâncias a percorrer tornam-se infinitas, por sua ampliação através dos inúmeros e sinuosos “furos” e pequenos braços-de-rio, associadas a baixa navegabilidade interior na época das secas anuais (julho a dezembro).

E o mais interessante: vítima maior da pesca predatória, tanto a nível artesanal como industrial, continua mantendo os seus estoques naturais de cardume. Sabem por quê? Por dois motivos: as características particulares da piracema (movimento de reprodução anual dos cardumes) e de alguns rios, como o Paracaray.

Na época chuvosa, os rios e lagos transbordam e inundam os campos naturais e matas de igapó, coincidindo com a época da reprodução dos cardumes. Em assim sendo, os peixes invadem os campos e matas, escondendo-se nos capinzais, troncos e galhos, ficando inacessíveis aos pescadores e reproduzindo-se em paz. Quando finalmente vem a nova estiagem, estes cardumes ficam novamente expostos à matança indiscriminada, mas pelo menos renovaram-se pela reprodução. E assim, ano à ano, a pesca tem-se mantido viável (embora precariamente), graças a este fenômeno natural.

Além disso, alguns rios que se mantém navegáveis (como o Paracaray), por terem muitas pedras no seu leito, tornam-se impraticáveis para a criminosa pesca de arrasto que é feita pelas companhias pesqueiras empresariais.

E assim, pelas dificuldades ambientais, o Marajó ainda sobrevive ecológica e culturalmente, com suas populações ainda livres da pobreza absoluta. Em alguns casos ainda presas ao escambo e ao extrativismo inadequado, mas ainda tendo o que comer a cada dia. Em muitos casos em riscos crescentes de cooptação pela sociedade mais urbanizada do entorno, mas ainda com possibilidades de permanecer no território com um mínimo de dignidade. Ainda preservando o modo de vida tradicional, ainda usando búfalos como transporte, ainda sem os riscos da violência desbragada, com belas praias e belas histórias, esperando a remota possibilidade de políticas públicas promotoras do desenvolvimento sustentável. E como o pedreiro do Chico Buarque, “esperando o trem, que não vem, que não vem, que não vem….”

segunda-feira, 12 outubro, 2009 Posted by | Comentário | , , , , | Deixe um comentário

Sem NET, sem telefone, sem TV, sem barulho e sem Mercedes Sosa…

bLOGUE MARAJO s2020310hi3 - igarapé-ilha de Marajó

Diários da Barreira do Mar (II)
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Estou há sete dias no sertão do Marajó, a dez quilômetros da cidade mais próxima, estabelecido às margens do rio Paracauary, que me recebeu de lua cheia e maré-de-lance em plena sete horas da noite, sem internet, sem telefone e sem TV. De meu, trouxe uma bronquite urbana iniciante para curar não sei como, o desejo de recolhimento e observação que comentei dias atrás, e a serenidade fatalística que sempre me envolveu nos momentos decisivos (seja o que Deus quiser!) e a coragem maior que o medo: Que vienga el toro (ou búfalo?)!

Durante a semana, busquei me ambientar no território: trocar papos de pescarias com o caboclo que pegou um bagre de 20 quilos ao amanhecer, percorrer os campos naturais estiolados pela seca natural deste período, contar búfalos, cavalos marajoaras e purucas, caminhar nos fins de tardes, tomar banho de rio e os chás milagreiros da dona Val pra aliviar a maldita bronquite. E dormir de rede ouvindo o vento assobiando pelos cantos, de portas e janelas escancaradas, sem riscos e sem ruídos.

Lógico que vem aqui e ali, o banzo pela família, pelos amigos, o futebol na TV, o noticiário. Soube hoje da morte da maravilhosa guerreira Mercedes Sosa. Como gostaria de ter comentado no blogue esta incomensurável vida artística e corretíssima existência política! Mas não pude, soube tarde demais. Agora, por tardio, prefiro conversar espiritualmente com ela em qualquer noite dessas nas barrancas do meu rio. Com certeza ela encherá os meus ouvidos com “Gracias a la Vida” e com aquele maravilhoso dueto com Carlos Portela em “Se se calla el cantor”… E inevitavelmente eu chorarei no seu ombro, não no lago  azul de Ipacaray, mas às margens do Paracaray. Será legal… Os banzos são inevitáveis, mas superáveis, pois meu rio tem os seus encantos: quarta-feira, por exemplo, no exato momento em que escrevia a parte inicial deste texto, me chamaram à porta e era o caboclinho João (companheiro de trabalho) me presenteando com quatro mangas lindas e quatro carambolas enormes. Elas foram o meu jantar, com o quente sabor da ternura e da fraternidade.

Em termos do trabalho formal, nada muito desafiador: apenas a organização administrativa de uma unidade de pesquisa em busca de eficiência (muito mais apelo cognitivo do que esforço físico). Mas tenho ajudado a eliminar verminoses dos rebanhos e a curar ferimentos, pois também gosto disso e ajuda na empatia com aqueles que me ajudarão a alcançar resultados.

Por hoje é só, amigos. Tô providenciando modem para NET via celular e câmara, para postar imagens locais pra vocês. Acho que na semana que entra nossos contatos voltarão ao normal.

Aos paraenses, um maravilhoso Círio de Nazaré.

A todos, um grande, saudoso, forte e amazônico abraço.

sexta-feira, 9 outubro, 2009 Posted by | Comentário | , , , , | Deixe um comentário