Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Por quem meus sinos dobram…

Diários da Barreira do Mar (Epílogo)
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Foi apenas mais um sonho de verão, rápido e de morte súbita. As relações desiguais de poder, a individualidade da visão de mundo em grupo de trabalho internamente diverso (sem as afinidades culturais que consolidam a convivência coletiva), a força informal dos grupos de interesses e a ideologia dominante da hierarquia administrativa, afastaram-me de ti. E embora eu possa sonhar e lutar em outros territórios, me seguirá sempre o gosto amargo e triste da minha irrealização contigo.

Nunca mais dormirei com os seus ventos ou acordarei à tua margem iluminada pela alvorada. Nunca mais caminharei por tuas estradas poeirentas, mas tranqüilas, sonhando com o verde que pintaria suas margens, após dezembro. Nunca mais filosofarei no seu porto, envolvido pelo silêncio e pelas luzes das suas noites. Nunca mais, ao fim do dia, deitarei meu corpo nas tuas águas, para lavar o cansaço do trabalho. Nunca mais tirarei de suas águas o peixe generoso para o meu comer.

Sequer pude esquecer, nos tempos mais generosos que virão no novo ano, a tristeza de resgatar animais enfraquecidos pela seca, de ver rebanhos trôpegos diante da sua adversidade climática sazonal. Sequer pude conhecer o prazer das suas chuvas, do burburinho natural dos bichos com as brotações novas. Sequer pude desfrutar o prazer de ver o nascimento de seus búfalos, ou pelo menos fotografar o Orvalho, seu primeiro filho vindo às minhas vistas. Sequer pude me aproximar suficientemente da arredia comunidade de Valentim.

E atualmente, a cada amanhecer, vou ao meu quintal urbano para tentar preencher minhas saudades de ti. E hoje, em mais uma dessas sublimações matutinas, lembrei-me do que escreveu o poeta ribeirinho Thiago de Mello:

O vento do mundo sopra
e quando sopra, separa.

De onde vem? Será do Mar?
Vem da planície deserta?
Apenas sei que ele vem
carregando solidão.

O vento, com seus tentáculos,
esgarça a vela do barco
que se aproxima da margem,
arranca a luz da candeia,
deixando escuro o caminho.
(Perdido está quem na treva
não traz luz dentro de si.)

O vento varre o soalho
sujo de esperança limpa,
leva o beijo e fica a boca
rolando na rua plana,
leva a mão, deixa a carícia
queimando-se em solidão.

O vento do mundo sopra,
e quando sopra, separa.”

E o teu território, que compartilhamos e que muito sugestivamente é conhecido por Paraíso, me deslumbrou tanto que eu não fui capaz de perceber que além dos seus ventos que me acariciavam, rolavam também os ventos do mundo que nos separaria.

Que outros o amem e respeitem como eu fiz…

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segunda-feira, 28 dezembro, 2009 Posted by | Comentário | , , , | 2 Comentários

A Wikipédia precisa da nossa ajuda…

Aprendi, ao longo do meu tempo de andarilho virtual, a respeitar a WIKIPÉDIA, por sua proposta interativa de construção do conhecimento e por seu desatrelamento das influências diretas do mercado (não aceitando patrocínios comerciais). Um site extremamente útil para consultas rapidas e para obtenção de pistas para o aprofundamento de temas, facilitando a vida de muitos e alimentando uma rede social imensa para a construção cognitiva. Por tudo isso, fiquei surpreso por saber que o site passa por dificuldades financeiras, ficando assim vulnerável à ditadura de patrocinadores, aos quais não interessa a circulação livre da informação e do conhecimento. Por tudo isso, repasso abaixo o apelo do seu fundador, para aqueles que ainda não o leram.  Lembrem-se, amigos: se queremos uma WEB livre das amarras do Estado e do Mercado, temos que apoiar iniciativas como essa. Reflitam sobre isso e ajam… Quem desejar doar, entre na Wikipédia, clic no apelo do fundador e lá encontra-se o espaço para a doações.

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“Imagine se todas as pessoas do mundo pudessem ter livre acesso a todo conhecimento humano.”
— Jimmy Wales, Fundador da Wikipédia

Um apelo do fundador da Wikipédia, Jimmy Wales

Hoje, eu estou a pedir uma doação para a ajudar a Wikipédia

Iniciei a Wikipédia em 2001, e nestes oito anos, tenho ficado humildemente surpreso ao ver centenas de milhares de voluntários se unirem a mim para construir a maior enciclopédia da história humana.

A Wikipédia não é um site comercial. É uma criação comunitária, inteiramente escrita e fundada por pessoas como você. Mais de 340 milhões de pessoas usam a Wikipédia todos os meses, quase um terço da população mundial com acesso à Internet. Você faz parte da nossa comunidade.

Eu acredito em nós. Eu acredito que a Wikipédia continua melhorando. Essa é a ideia-chave. Uma pessoa escreve algo, outra pessoa melhora um pouco, e torna-se cada vez melhor, ao longo do tempo. Se você acha útil hoje, imagine o quanto poderem atingir juntos daqui a 5, 10, 20 anos.

A Wikipédia mostra o poder de pessoas como nós que conseguem fazer coisas extraordinárias. Pessoas como nós escrevem a Wikipédia, palavra a palavra. Pessoas como nós a mantêm. É a prova que temos o potencial colectivo para mudar o mundo.

Necessitamos proteger o espaço onde este trabalho importante é desenvolvido. Necessitamos proteger a Wikipédia. Queremos mantê-la grátis e livre de publicidade. Queremos mantê-la aberta – você pode usar a informação da Wikipédia para qualquer coisa que queira. Queremos que ela continue crescendo, espalhando o conhecimento por todos lugares, convidando à participação de todos.

A Wikimedia Foundation é a organização sem fins lucrativos que eu criei em 2003 para gerir, fazer crescer, cuidar e proteger a Wikipédia. Com dez milhões de dólares americanos por ano e uma equipe de menos que 35 pessoas, opera o quinto site mais visto em todo o mundo. Estou pedindo sua ajuda para que possamos continuar nosso trabalho.

Imagine um mundo onde cada pessoa do planeta tem acesso livre à soma de todo o conhecimento humano. É para onde estamos indo. E com a sua ajuda, nós conseguiremos.

Obrigado por usar a Wikipédia. Você faz parte desta história: por favor, faça uma doação hoje.

Jimmy Wales

quinta-feira, 24 dezembro, 2009 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | Deixe um comentário

Os limites emocionais do espírito natalino…

Eu, que falo tanto do espírito solidário e pacifista do Natal, não pude deixar de dar razão ao Chef do restaurante da piada que repasso abaixo, enviada pelo nosso leitor Osmail Dias. E isso mostra os limites reais entre as nossas boas intenções e os nossos gestos diante da problemática da vida. Talvez por isso os bons fluidos natalinos perdurem tão pouco…

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O TROCO

Um milionário, de passagem por São Paulo no período natalino, entra no luxuosíssimo restaurante e senta no piano bar.

Chama o Chef, pede uma dose de uísque Royal Salute e reserva uma mesa para jantar.

Após a quarta dose indica ao Chef que irá para a mesa, sendo atendido prontamente.

Sentado, consultando o Menu sem preços, se surpreende quando o Chef, em pé ao seu lado diz:

– Doutor, é política da casa informar aos clientes o valor das contas separadas da mesa, no seu caso a do piano bar: sua despesa foi de R$ 0,60.

– Acho que houve um engano. Eu tomei quatro doses de Royal Salute.

– Com todo o respeito, nós nunca nos enganamos: quatro doses a 0,15 centavos cada dá exatamente 0,60 centavos.

– Tudo bem, não quero discutir, vamos à comida, anote, por favor:

– Pois não…

– De entrada eu quero caviar da Ucrânia com lentilhas finlandesas; depois Salmão da Escandinávia com recheio de gengibre sul-africano e batatas inglesas douradas em queijo de cabras francesas. Ah! E para beber, um Rotchilld safra 1891.

– Ótima escolha Doutor, mas cabe a mim como chef, alertá-lo que isso ficará um pouco caro.

– Olha amigo primeiro eu não perguntei o preço e, segundo, estou achando que isso aqui é uma casa de malucos, mas já que você quer, fale.

– Pois não Doutor, o seu pedido vai ficar em R$ 18,00.

– Você está querendo me sacanear? Cadê o dono dessa merda?

– Está lá em cima com a minha mulher.

– E o que é que ele está fazendo lá em cima com a sua mulher?

– O mesmo que eu estou fazendo aqui embaixo com o restaurante dele…

quarta-feira, 23 dezembro, 2009 Posted by | Comentário, Humor, Repassando... | , , | Deixe um comentário

Guerra e Paz, a eterna contradição humana…

No ano passado, a essa mesma época, comentei o quanto seria socialmente proativo, se o espírito natalino vigorasse além do mês de dezembro. Como sempre tem sido através dos séculos, parece mais um momento social para relaxarmos da selvagem competição cotidiana de todo o ano, para readquirirmos forças para continuar competindo a partir do janeiro seguinte. Como o desestressar do Carnaval, das micaretas, dos feriados e dias santos, festas de São João, Círio de Nazaré, Oktober Fest, etc. Talvez, para a nossa cultura cristã, o Natal seja a mais disseminada e a mais importante festividade, mas nem por isso consegue ter influência temporal superior a trinta dias, logo voltamos ao ramerrão de sempre. Mas a sua essência espiritual é inegável e sua capacidade de mobilização daquilo que temos de melhor é impressionante.  Por isso, hoje ao invés de parábolas edificantes (mas sempre simples parábolas!), resolvi recontar uma história natalina real de 1914, ocorrida em plena primeira guerra mundial, em meio às trincheiras da luta e entre os inimigos que até então se matavam. Selecionando e juntando os retalhos descritivos dos documentos disponíveis a respeito (ver fontes, ao final), procurei resumir esta história esperançosa, mas ao mesmo tempo triste, como vocês verão. Provavelmente muitos a conheçam, mas sei que a maioria não, pois guerras e histórias antigas não são as preferidas na modernidade, onde se mata milhares à distância, sem olhar nos olhos do adversário e sem presenciar a dor e o sofrimento da selvageria.  E o mais triste é sentir a contradição dos aspectos globalizantes dos fatos: a cultura natalina ocidental que a viabilizou a trégua e a cultura da guerra que impediu a consolidação da paz imediata entre os homens envolvidos.

Eis a história…

“Estamos em algum lugar de Flandres, na Bélgica, em 24 de dezembro de 1914. E esta história faz parte de um dos mais surpreendentes e esquecidos capítulos da Primeira Guerra Mundial: as confraternizações entre soldados inimigos no Natal daquele ano. Ao longo de toda a frente ocidental – que se estendia do mar do Norte aos Alpes suíços, cruzando a França –, soldados cessaram fogo e deixaram por alguns dias as diferenças para trás. A paz não havia sido acertada nos gabinetes dos generais; ela surgiu ali mesmo nas trincheiras, de forma espontânea. Jamais acontecera algo igual antes.

Nos primeiros meses, a propaganda militar conseguira inflar o orgulho dos soldados – de lado a lado. O fervor patriótico crescera paralelamente ao ódio pelos inimigos. Entretanto, em dezembro o moral das tropas já despencara. A guerra se arrastava havia quase um semestre. Os britânicos haviam perdido 160 mil homens até então; Alemanha e França, 300 mil cada. Para piorar, as condições nas trincheiras eram péssimas. O odor beirava o insuportável, devido às latrinas descobertas e aos corpos em decomposição. Estirados pela terra de ninguém, cadáveres atraíam ratazanas aos milhares. Era um verdadeiro banquete. Com tanta carne, elas engordavam tanto que algumas eram confundidas com gatos. Pior que as ratazanas, só os piolhos. Milhões deles, nos cabelos, barbas, uniformes. Em toda parte.

O cotidiano de horrores fora minando a vontade de lutar. Uma semana antes do Natal já havia sinais disso. Foi assim em Armentières, na França, perto da fronteira com a Bélgica. Soldados alemães arremessaram um pacote para a trincheira britânica. Cuidadosamente embalado, trazia um bolo de chocolate e dentro, escondido, um bilhete. Os alemães pediam um cessar-fogo naquela noite, entre 19h30 e 20h30. Era aniversário do capitão deles e queriam surpreendê-lo com uma serenata. O bolo era uma demonstração de boa vontade. Os britânicos concordaram e, na hora da festa inimiga, sentaram no parapeito para apreciar a música. Aplaudidos pelos rivais, os alemães anunciaram o encerramento da serenata – e da trégua – com tiros para cima. Em meio à barbárie, esses pequenos gestos de cordialidade significavam muito.

Naquela noite pré-natalina, finalmente parara de chover. A noite estava clara, com céu limpo, estrelado, como os soldados não viam há muito tempo. Ao contrário da chuva, porém, o frio seguia sem dar trégua. Normal nesta época do ano. O que não seria normal em outros anos é o fedor no ar. Cheiro de morte, que invade as narinas e mexe com a cabeça dos vivos – alemães e britânicos, inimigos separados por 80, 100 metros no máximo. Entre eles está a “terra de ninguém”, assim chamada porque não se sobreviveria ali muito tempo. Cadáveres de combatentes de ambos os lados compunham a paisagem com cercas de arame farpado, troncos de árvores calcinadas e crateras abertas pelas explosões de granadas. O barulho delas era ensurdecedor, mas no momento não se ouvia nada. Nenhuma explosão, nenhum tiro. Nenhum recruta agonizante gritando por socorro ou chamando pela mãe. Nada.

E de repente o silêncio é quebrado. Das trincheiras alemãs, ouve-se alguém cantando. Os companheiros fazem coro e logo há dezenas, talvez centenas de vozes no escuro. Cantam “Stille Nacht, Heilige Nacht”. Atônitos, os britânicos escutam a melodia sem compreender o que diz a letra. Mas nem precisam: mesmo quem jamais a tivesse escutado descobriria que a música fala de paz. Em inglês, ela é conhecida como “Silent Night”; em português, foi batizada de “Noite Feliz”. Quando a música acaba, o silêncio retorna. Por pouco tempo.

“Good, old Fritz!”, gritam os britânicos. Os “Fritz” respondem com “Merry Christmas, Englishmen!”, seguido de palavras num inglês arrastado: “We not shoot, you not shoot!”(“Nós não atiramos, vocês também não”).

Ainda assim, era difícil imaginar o que estava por vir. Na noite do dia 24, em Fleurbaix, na França, uma visão deixou os britânicos intrigados: iluminadas por velas, pequenas árvores de Natal enfeitavam as trincheiras inimigas. A surpresa aumentou quando um tenente alemão gritou em inglês perfeito: “Senhores, minha vida está em suas mãos. Estou caminhando na direção de vocês. Algum oficial poderia me encontrar no meio do caminho?” Silêncio. Seria uma armadilha? Ele prosseguiu: “Estou sozinho e desarmado. Trinta de seus homens estão mortos perto das nossas trincheiras. Gostaria de providenciar o enterro”. Dezenas de armas estavam apontadas para ele. Mas, antes que disparassem, um sargento inglês, contrariando ordens, foi ao seu encontro. Após minutos de conversa, combinaram de se reunir no dia seguinte, às 9 horas da manhã.

No dia seguinte, 25 de dezembro, ao longo de toda a frente ocidental, soldados armados apenas com pás escalaram suas trincheiras e encontraram os inimigos no meio da terra de ninguém. Era hora de enterrar os companheiros, mostrar respeito por eles – ainda que a morte ali fosse um acontecimento banal. O capelão escocês J. Esslemont Adams organizou um funeral coletivo para mais de 100 vítimas. Os corpos foram divididos por nacionalidade, mas a separação acabou aí: na hora de cavar, todos se ajudaram. O capelão abriu a cerimônia recitando o salmo 23. “O senhor é meu pastor, nada me faltará”, disse. Depois, um soldado alemão, ex-seminarista, repetiu tudo em seu idioma. No fim, acompanhado pelos soldados dos dois países, Adams rezou o pai-nosso. Outros enterros semelhantes foram realizados naquele dia, mas o de Fleurbaix foi o maior de todos.

Aquela situação por si só já era inusitada: alemães e britânicos cavando e rezando juntos. Mas o que se viu depois foi um desfile de cenas surreais. Em Wez Macquart, França, um britânico cortava os cabelos de qualquer um – aliado ou inimigo – em troca de alguns cigarros. Em Neuve Chapelle, também na França, os soldados indicavam discretamente para seus novos amigos a localização das minas subterrâneas. Em Pervize, na Bélgica, homens que na véspera tentavam se matar agora trocavam presentes: tabaco, vinho, carne enlatada, sabonete. Uns disputavam corridas de bicicleta, outros caçavam coelhos. Uma luta de boxe entre um escocês e um alemão foi interrompida antes que os dois se matassem. Alguém sugeriu um duelo de pistolas entre um alemão e um inglês, mas a idéia foi rechaçada – afinal, aquilo era um cessar-fogo.

Porém, o melhor estava por vir. Nos dias 25 e 26, foram organizadas animadas partidas de futebol. Centenas jogaram bola nos campos de batalha. “Bola” em muitos casos era força de expressão; podia ser apenas um monte de palha amarrado com arame, ou uma lata de conserva vazia. E, no lugar de traves, capacetes, tocos de madeira ou o que estivesse à mão. Foi assim em Wulvergem, na Bélgica, onde o jogo foi só pelo prazer da brincadeira, ninguém prestou atenção no resultado. Mas houve também partidas “sérias”, com direito a juiz e a troca de campo depois do intervalo. Numa delas, que se tornou lendária, os alemães derrotaram os britânicos por 3 a 2. A vitória suada foi cercada de polêmica: o terceiro gol alemão teria sido marcado em posição irregular (o atacante estava impedido) e a partida, encerrada depois que a bola – esta de verdade, feita de couro – furou ao cair no arame farpado.

Essa surreal trégua se prolongou por dias. Os soldados de ambos os exércitos trocaram presentes, cartões de natal e cartões postais, trocaram cartas que deveriam ser entregues a entes queridos que estavam morando no país inimigo e fizeram amizades.

Estranhamente as balas de ambos os lados não passavam nem perto do “inimigo”. Todos estavam desperdiçando munição, atirando acima do “inimigo” para não acertá-lo.
Entretanto, os homens que davam as cartas não estavam nem um pouco felizes. Dos quartéis-generais, os senhores da guerra mandaram ordens contra qualquer tipo de confraternização. Quem desrespeitasse se arriscava a ir à corte marcial. A ameaça fez os soldados voltarem para as trincheiras. Durante os dias seguintes, muitos ainda se recusavam a matar os adversários. Para manter as aparências, continuavam atirando, mas sempre longe do alvo. Na noite do dia 31, em La Boutillerie, na França, o fuzileiro britânico W.A. Quinton e mais dois homens transportavam sua metralhadora para um novo local, quando de repente ouviram disparos da trincheira alemã. Os três se jogaram no chão, até perceberem que os tiros eram para o alto: os alemães comemoravam a virada do ano.

A trégua velada resistiu ainda por um tempo. Até março de 1915, alemães e britânicos entrincheirados em Festubert, na França, faziam de conta que a guerra não existia – ficava cada um na sua. Mas a lembrança das confraternizações foi aos poucos cedendo espaço para o ódio. O alto comando chegou a conclusão que aquela batalha jamais iria acabar se aqueles soldados continuassem ali. Ambos os exércitos substituíram os soldados ali e só assim a batalha pôde ter continuidade. A carnificina recrudesceu, prosseguindo até a rendição da Alemanha, em novembro de 1918, arrasando a Europa e deixando cerca de 10 milhões de mortos. Hoje, existe um marco nesse local, para lembrar a emocionante “Trégua de Natal” que houve em 1914.”
Feliz Natal! Que o espírito natalino de 1914 reine entre nós!
Fontes:

Der Kleine Frieden im Grossen Krieg, de Michael Jürgs, Ed. Bertelsmann, 2003 351 páginas, 23 euros

View Full Version : A maior trégua da historia das guerras – Natal de 1914

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e3/Khaki-chums-xmas-truce-1914-1999.redvers.jpg/738px-Khaki-chums-xmas-truce-1914-1999.redvers.jpg
A cross, left near Ypres in Belgium in 1999, to commemorate the site of the Christmas Truce in 1914. The text reads 1914
The Khaki Chum’s Christmas Truce
1999
85 Years
Lest We Forget.

http://historia.abril.com.br/guerra/noite-feliz-terra-ninguem-natal…

terça-feira, 22 dezembro, 2009 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | Deixe um comentário

E por falar em fim de ano…

2009 – 2010

RECEITA DE ANO NOVO

(Carlos Drummond de Andrade)

Para você ganhar belíssimo Ano Novo…
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.


Não precisa chorar de arrependimento
pelas besteiras consumadas nem
parvamente acreditar que por decreto

da esperança a partir de Janeiro
as coisas mudem e seja claridade,
recompensa, justiça entre os homens e as nações,


liberdade com cheiro e
gosto de pão matinal, direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um ano-novo que mereça
este nome, você, meu caro, tem de
merecê-lo, tem de fazê-lo novo,


Eu sei que não é fácil mas tente,
experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

A todos, um maravilhoso NATAL, um 2010 com melhores condições de vida…

Fonte: http://www.orizamartins.com/ref-oriza-feliz-2006.htm

domingo, 20 dezembro, 2009 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

A águia reprimida de cada um de nós…

Nas minhas andanças pelas trilhas da WEB, dei de cara com um texto de Affonso Romano de Sant’Anna, intelectual mineiro da melhor qualidade, daqueles que usam a palavra como forma de ação político-social, e que caiu como uma luva para esta transição de anos que estamos vivenciando, quando sempre estamos envolvidos pelos sentimentos de avaliação e transformação.
Como ansiamos por transformações no mundo e em nós, mas, como fugimos da luta por essas transformações, esperando que elas ocorram por obra do Divino e caiam, prontas e acabadas, no nosso colo… E assim, entra ano e sai ano, permanecemos praticamente os mesmos, limitados pela força da dominação social que nos amestrou desde criancinhas, reprimindo nossos sonhos e desejos no ninho mais interno dos nossos medos e reflexos adestrados. E por saber o que é ser assim, achei ótima a crônica do Romano, razão pela qual a repasso a vocês.

Leiam e, nem que seja para calar mais uma vez, joguem este alimento diferente para alimentar os que estão acorrentados naquele ninho secreto… Quem sabe alguns deles gostem da refeição e se rebelem…

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O vôo da águia

Affonso Romano de Sant’Anna

Já que estamos nesse clima de recomeçar, com a alma limpa para novas coisas, vou iniciar transcrevendo algo que recebi. Havia pensado em outra crônica, coisa tipo “propostas para um novo milênio”, como o fez Ítalo Calvino. Mas à$ vezes um texto parabólico, elíptico, pode nos dizer mais que outros pretensamente objetivos. Ei-lo:

“A águia é a única ave que chega a viver 70 anos. Mas para isso acontecer, por volta dos 40, ela precisa tomar uma séria e difícil decisão.

Nessa idade, suas unhas estão compridas e flexíveis. Não conseguem mais agarrar as presas das quais se alimenta. Seu bico, alongado e pontiagudo, curva-se. As asas, envelhecidas e pesadas em função da espessura das penas, apontam contra o peito. Voar já é difícil.

Nesse momento crucial de sua vida a águia tem duas alternativas: não fazer nada e morrer, ou enfrentar um dolorido processo de renovação que se estenderá por 150 dias.

A nossa águia decidiu enfrentar o desafio. Ela voa para o alto de uma montanha e recolhe-se em um ninho próximo a um paredão, onde não precisará voar. Aí, ela começa a bater com o bico na rocha até conseguir arrancá-lo. Depois, a águia espera nascer um novo bico, com o qual vai arrancar as velhas unhas. Quando as novas unhas começarem a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. Só após cinco meses ela pode sair para o vôo de renovação e viver mais 30 anos.”

Esse texto foi mandado como um cartão de fim de ano pela Rose Saldiva, da Saldiva Propaganda. Tem mais um parágrafo explicitando, comentando essa parábola e o titulo geral é “Renovação”.

Achei que você ia gostar de tomar conhecimento disto, sobretudo quando janeiro nos inunda com sua luz.

Este texto vale mais que mil ilustrações.

Sei como é difícil uma nova ou surpreendente idéia para cartão de fim de ano. Mas esse, além de bater fortemente em nosso imaginário, dispara em nós uma série de correlações e desdobramentos.

A: abertura é seca e forte. Não há uma palavra sobrando. Parece as batidas do destino na Quinta Sinfonia de Beethoven. Releiam. “A águia é a única ave que chega a viver 70 anos. Mas para isso acontecer, por volta dos 40, ela precisa tomar uma séria e difícil decisão.” ·
Já li em algum lugar que Jung dizia que, em torno dos 40, alguma coisa subterrânea começa a ocorrer com a gente e os seres humanos sentem que estão no auge de sua força criativa. É quando podem (ou não) entrar em contato com forças profundas de sua personalidade.

Já ouvi de especialistas em administração de empresas que tem uma hora em que elas começam a crescer e seus dirigentes têm que tomar uma decisão — ou fazem com que cresçam de vez assumindo mais pesados desafios ou, então, fecham, porque ficar estagnado é apenas adiar a morte.

Já mencionei em outras crônicas o personagem Jean Barois (de Roger Martin du Gard) que fez um testamento aos 40 anos, quando achava que estava no auge de sua potência intelectual, temendo que na velhice, carcomido e alquebrado, fizesse outro testamento que negasse tudo aquilo em que acreditava quando jovem. Com efeito, envelhecendo, fez realmente outro testamento que desautorizava e desmentia o anterior. É que sua perspectiva na trajetória da vida mudara, como muda a de um viajante ou a do observador de um fenômeno.

O ano está começando.

Mais grave ainda: um século está se iniciando.

Gravíssimo: mais que um ano, mais que um século, um novo milênio está se inaugurando.

Três vezes Sísifo: o ano, o século, o milênio.

Sísifo — aquele que foi condenado a rolar uma pedra montanha acima, sabendo que quando estivesse quase chegando no topo — cataprum!… a pedra despencaria e ele teria que empurrá-la, de novo, lá para o alto.

Pois bem: “A águia é a única ave que chega a viver 70 anos. Mas para isso acontecer, por volta dos 40 anos, ela precisa tomar uma séria e difícil decisão. Nesta idade suas unhas estão compridas. Não conseguem mais agarrar as presas das quais alimenta. Seu bico, alongado e pontiagudo, curva-se. As asas, envelhecidas e pesadas em função da espessura das penas, apontam contra o peito. Voar já é difícil.” ·

Nossa sociedade pensou ter inventado uma maneira de resolver, nos seres humanos, o drama da águia: a cirurgia plástica. Silicone aqui e acolá, repuxar a pele acolá e aqui, pintar e implantar cabelos. Isto feito, a águia sai flanando pelos salões, praias, telas, ruas, escritórios e passarelas.

Mas aquela outra águia prefere uma solução que veio de dentro. Talvez mais dolorosa. Recolher-se a um paredão, destruir o velho e inútil bico, esperar que outro surja e com ele arrancar as penas, num rito de reiniciação de 150 dias.

Então a águia, digamos, acabou de descasar.

(Tem que redimensionar seu corpo e seus desejos, desmontar casa e sentimentos, realocar objetos e sensações, reassumir filhos.)

Então a águia, digamos, acabou de perder o emprego.

(Tem que descobrir outro trajeto diário, outras aptidões, enfrentar a humilhação.)

Então, a águia,digamos, acabou de mudar de país.

(A crise ou o amor levou-a a outras paragens, tem que reaprender a linguagem de tudo e reinventar sua imagem em outro espelho.)

Então, a águia, digamos, acabou de perder alguém querido.

(É como se uma parte do corpo lhe tivessem sido arrancada, sente que não poderá mais voar como antes, que o azul lhe é inútil.)

Então, a águia, digamos, está numa nova situação em que está sendo desafiada a mostrar sua competência.

(Tem medo do fracasso, acha que não terá garras nem asas para voar mais alto.)

Então, a águia, digamos, andou olhando sua pele, sua resistência física, certos achaques de velhice.

Pois bem. Há que jogar fora o bico velho, arrancar as velhas penas, e recomeçar.

Época de metamorfose.

Os estudiosos da metamorfose dizem que não apenas larvas se transformam em borboletas. Para nosso espanto as próprias pedras passam também por silenciosas metamorfoses.

Enfim, parece que estamos condenados à metamorfose. Morrer várias vezes e várias vezes renascer. Até que, enfim, cheguemos à metamorfose final, onde o que era sonho e carne se converte em pó.

Mas que fique sempre no azul o imponderável vôo da águia.

Texto extraído do jornal “O Globo”, Segundo Caderno, edição de 03/01/2001, pág. 8.

Imagem: da WEB, capturada via Googles

sexta-feira, 18 dezembro, 2009 Posted by | Comentário, Repassando... | , , , | Deixe um comentário

Controle externo do Judiciário: pegadinha de Natal?

As posturas ética, moral e operacional do sistema público brasileiro seriam uma fonte inesgotável de risos, se suas estrepolias ilegais e seus truques de impunidade não fossem de fazer chorar qualquer cidadão com um mínimo de dignidade. E “eles” não perdoam sequer a época natalina! Hoje, noticiaram mais uma “preciosidade” jurídica destinada a entulhar o cemitério das boas intenções: os tribunais do país, obrigados a publicarem seus gastos na WEB, acessíveis a qualquer cidadão! Me belisca pra eu parar de rir, galera! Sinceramente… Quem ainda acredita em controle externo aqui no Brasil? Brincadeira, né? Ministro Gilmar Mendes, podia ter livrado a nossa esperança teimosa pelo menos nesse período, certo?

Leiam a notícia abaixo e depois peguem uma merendinha com panetone do Arruda, pessoal…

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Terça-feira, 15 de dezembro de 2009, 19:45 | Online

CNJ determina que tribunais divulguem gastos na internet

MARIÂNGELA GALLUCCI – Agencia Estado

BRASÍLIA – O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão que exerce o controle externo do Judiciário, baixou hoje uma resolução determinando a todos os tribunais do País que divulguem na internet os seus gastos. A novidade foi batizada informalmente de Siafi do Judiciário, numa alusão ao Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi). Presidente do conselho, Gilmar Mendes disse que “esse talvez seja um dos passos mais importantes do CNJ, pois disciplina um modelo de transparência no que diz respeito à execução orçamentária do Judiciário”. Até pouco tempo, o Judiciário era conhecido por ser uma “caixa preta” na administração pública.

De acordo com a resolução, os tribunais terão de publicar em seus sites as despesas com pessoal, gratificações, aluguel, diárias, serviços de comunicação, limpeza, conservação e também os recursos consumidos com a construção e reforma de imóveis. Para o presidente do CNJ, a novidade tornará possível um melhor controle dos gastos do Judiciário.

Gilmar Mendes afirmou que durante inspeções realizadas em tribunais do País pelo CNJ ficou clara a necessidade de serem criados mecanismos de controle dos gastos do Judiciário. “As inspeções identificaram assimetrias e revelaram problemas nessa área e no processo de controle das despesas”, disse o ministro. As informações deverão ser publicadas num link denominado “transparência”.

A intenção do conselho é que qualquer pessoa tenha acesso aos dados. Segundo o CNJ, os tribunais deverão atualizar os dados até o vigésimo dia de cada mês a partir de fevereiro de 2010. Eles terão até 31 de março de 2010 para divulgar os demonstrativos detalhados dos anos de 2007, 2008 e 2009.

Imagem: Millôr Fernandes

terça-feira, 15 dezembro, 2009 Posted by | Comentário, Repassando... | , | 6 Comentários

Pesquisa séria é outra coisa!!!

ENFIM UMA ÓTIMA NOTÍCIA!

Um estudo recente conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (UniFeSP) mostrou que cada brasileiro caminha em média 1.440 km ao ano.


Outro estudo feito pela Associação Médica Brasileira (AMB) mostrou que o brasileiro consome, em média, 86 litros de cerveja ao ano.

A conclusão é animadora:

O brasileiro faz 16,7 km por litro  !!!


terça-feira, 15 dezembro, 2009 Posted by | Repassando... | | Deixe um comentário

Sobre Natal, compartilhamentos e exclusão social…


Diários da Barreira do Mar (X)
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Pela primeira vez em minha vida, agi com o espírito presenteador do Papai Noel, fora do meu circulo familiar e de amizades consolidadas. Talvez pelo desvirtuamento político-partidário ou meramente caritativo que se vê desta prática, nesta época do ano, sempre achei melhor ficar fora dessa ciranda de Papais Noéis de ocasião, sentindo-me melhor em lembrar o meu trabalho cotidiano com as pequenas comunidades em busca do desenvolvimento local e suas decorrências mais consistentes. Mas esse ano fui convencido, silenciosamente, a assumir esta atitude, embora sem aquela roupa ridícula do velhinho famoso (desculpem, mas para mim, o símbolo do Natal é a solidariedade coletiva, universal e permanente, que infelizmente, para a imensa maioria das pessoas, só dura os trinta dias de dezembro). Convencido pelos olhos sérios, tímidos e arredios das crianças e adultos da comunidade de Valentim (sobre a qual já escrevi em minha postagem “Psicologia e Infância: “Eles” estão aprendendo!!!”). Convencido pela história (que ainda não conheço suficientemente, mas que intuo marginalizada, excludente, desesperançada), daqueles que sobrevivem à margem da sociedade atual (dita desenvolvida) e da qual recebem os piores restos da não-cidadania. Por uma coletividade pequenina (apenas dez casas) que consegue se manter por seus laços inter-familiares e parentais e suas estratégias próprias em meio a terras já degradadas pelo uso constante da agricultura de roçados, e praticando “bicos” eventuais como diaristas no entorno imediato ou algum mal-pago emprego público municipal. Sem sequer uma associação formal, sem nunca ter sido assistida por instituições civis, sem nunca ter tido acesso ao crédito produtivo, longe do rio onde poderiam pescar, em casas de taipas e palhas, sem saneamento e educação escolar apenas até à quarta série do Ensino Fundamental. Lembrada apenas pelos políticos, de dois em dois anos, nos períodos eleitorais. Enfim, pessoas de um mundo invisível aos olhos de todos nós.

Como já disse em minha postagem anterior, o meu namoro com a comunidade começou através das crianças que gritavam pra mim quando eu passava na estrada e mergulhavam no lago lamacento, pra se esconderem. Depois, casualmente as fotografei, imprimi em papel cartão e mandei uma cópia para elas através do Mutuca (Aílton), jovem de lá que de vez em quando presta serviços diaristas por aqui. Dias depois, um dos idosos de lá (seu Boró) foi apresentado a mim e comentou:

_ Gostei muito da foto que o senhor tirou das crianças.

Tomou um café comigo, conversamos amenidades caboclas e foi só. Mas naquele momento, naquele comentário, decidi virar Papai Noel. Se uma foto era uma coisa tão importante, como seria o Natal das crianças e adolescentes sem presentes? Um Natal com pais sem renda pra presentear seus filhos, pra fazer um jantar diferente? Um Natal como qualquer outro dia… Não lhe disse nada, mas o “velhinho presenteiro” já se instalara em mim.

Mobilizei por telefone minhas bases familiares e de amizade e, dias depois, vi o Mutuca e perguntei-lhe quantas crianças existiam na comunidade. Descobri que eram vinte e calei-me. Mas no dia deguinte, o Mutuca, com seu jeito tímido, me entregou uma lista que a professora mandou: a relação nominal das crianças e jovens, com as respectivas idades! Pronto, ele desconfiara do que eu queria: presentear…

Fui a Belém, coletei os presentes e junto com minha companheira, montamos os presentes por pacote nominal, mais um panetone por casa e mais três brindes para sorteio. E hoje, fui a pé entregar os presentes, com a ajuda do Mutuca, que chegou cedo para me ajudar a transportá-los. E chegando lá, surpresa! Não havia nenhum grupo em festa, nenhuma patota de crianças ansiosas e frenéticas! Alguns jovens, algumas crianças, algumas mães, uma avó e o seu Boró. Os homens tinham ido trabalhar como em qualquer outro dia. Era feriado e a professora não tinha vindo. A maioria das mães cuidava de suas casas. E o resto das crianças estava espalhado pelo mato do entorno, brincando como em qualquer outro dia… Se não fosse a minha vivência profissional, teria sentido bem mais que uma simples surpresa: para um Papai Noel debutante, a recepção não era das mais promissoras…

Mas me lembrei que, em verdade, eu e eles ainda não somos amigos! Sou apenas mais um estranho que, embora agindo de forma transparente, traz nas costas o peso de todas as atitudes negativas da minha sociedade em relação a eles. Ainda não sou o Henrique, sou apenas mais um agente externo que potencialmente pode ser apenas mais um “daqueles”… Refletir isso me tranqüilizou e pude esperar o grupo ir crescendo lentamente, pela chegada das crianças que se sentavam, compenetradamente e sem bulha, nas cadeiras da escolinha.

Resolvi ser breve: expliquei rapidamente os meus motivos, ganhei alguns acenos de cabeça aprovadores e comecei a distribuição. Foi legal, apesar de tudo… No encerramento, bati a foto que vocês vêm acima e não pude ter uma foto minha com eles porque nenhum dos moradores conseguiu clicar a máquina fotográfica (imaginem o desconhecimento e/ou receio tecnológico!)

De volta à minha casa, passei a foto para o computador (que vocês vêem acima) e fiquei analisando-a:

  • o gestual do grupo dizendo tudo sobre ele: nenhuma pose glamurosa, nenhum sorriso escancarado…
  • apesar da entrega dos presentes infantis e juvenis terem sido feito em primeiro lugar (meia hora antes!) nenhuma criança ou jovem com o presente aberto…
  • nenhum homem presente…
  • várias crianças ausentes, com os seus presentes repassado aos parentes que lá se encontravam…
  • aqueles braços arriados ao longo do corpo, denunciando abandono frente ao mundo…

E apesar dos beijos silenciosamente calorosos que ganhei das crianças, senti a tragédia social da exclusão, do desencanto precoce, da dificuldade de alegrar-se por alguma coisa. E, muito longe de me sentir magoado, senti uma tristeza intensa de ainda não ser amigo deles, de saber que chegar a sê-lo será uma tarefa longa e cuidadosa. Olhando-os, comparei-os aos grupos indígenas atuais e ainda arredios ao contato branco: as más experiências deixaram marcas profundas, sepultaram a ingenuidade nativa do contato aberto com a sociedade dominante. E esta é a pior situação para o compartilhamento, por mais bem intencionado que seja. Como bem disse o velho barbudo (e que não é o Papai Noel!), há quase dois séculos: “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência”. Ou ainda, como refletiu complementarmente outro barbudo (Paulo Freire), esse genuinamente nacional e conhecedor dessas tragédias nossas de cada dia: “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão“. Portanto, não se pode esperar flores exuberantes brotando espontaneamente de um jardim sempre maltratado.

Mas, no fundo, sei que o que fiz com a ajuda dos meus amigos e da minha mulher, vai gerar alguns sorrisos, algumas lembranças boas do nosso compartilhamento. E flores, embora tristonhas e tímidas, já são suficientes para o meu coração socialista e sonhador.

Por enquanto

Imagem: Moradores do Valentim (clicados por Henrique Miranda)

terça-feira, 8 dezembro, 2009 Posted by | Comentário | , , , , | 2 Comentários

Pedro: um estranho caso clínico infantil…

Recebi por email enviado por uma amiga o relato abaixo, de um casal, sobre a desconhecida doença de seu filho, hoje com 15 anos, e que busca casos semelhantes para a troca de informações e possibilidades de identificação e tratamento. A qualidade do relato e o fato do casal ter endereço conhecido, me convenceram da realidade do fato (já que a NET é perigosa em termos de verdade), razão pela qual repasso a vocês o relato citado. Quem sabe alguns de vocês não tenham informações a repassar a esses pais em sofrimento (o endereço do casal encontra-se no final).

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O parto foi através de cesariana, pois até a data prevista 31/3 não houve sinais, então optamos pela cirurgia.

Pedro nasceu muito bem. Chorou logo e teve nota 9 de Apgar. Nasceu com 48 cm e pesou 3,430kg. Seu primeiro ano de vida foi ótimo, com desenvolvimento perfeito e nenhuma doença. Sentou com cinco meses, andou com 11 meses, disse as primeiras palavras com 7 meses e antes disso já emitia sons naturais de um bebê. Com um ano e dois meses, certa tarde durante o sono, Pedro acordou assustado como estivesse se engasgando. Isso se repetiu por mais alguns dias até que fomos ao médico. Este viu uma crise, suspeitou de refluxo-gastresofágico e solicitou alguns exames. Nesta época, estas crises aconteciam mais ou menos 10 vezes ao dia e duravam aproximadamente 15 segundos. Como os exames não acusaram nada, por indicação do médico, procuramos um neurologista infantil que disse tratar-se de crises convulsivas. Fizemos um primeiro eletro encefalograma que foi normal. Procuramos o Dr.Salomão Schwartzmam, que o avaliou e considerou-o logicamente perfeito. Nesse período, as crises aumentavam em quantidade e intensidade.

Assim, em agosto de 90 ele foi internado na UTI pela primeira vez com aproximadamente uma crise a cada 3 minutos. Ficou no Hospital 20 dias e saiu com as crises mais controladas. Fez uma Tomografia Computadorizada que foi normal. O segundo eletro acusou foco irritadiço do lado direito cérebro. Apesar de tudo isso, seu desenvolvimento continuava normal, porém mostrava-se mais sonolento.

As crises continuavam; eram crises mistas.

Em outubro de 90, percebemos que ele estava sorrindo menos, chorando menos e que quando sorria, o lado esquerdo de seu rosto parecia paralisado. Em novembro de 90, percebi que ele usava menos o braço esquerdo. Os médicos chamaram de seqüelas. Em dezembro de 90, fizemos uma ressonância magnética de crânio, um exame de Fundo de Olho alguns exames para detectar erros inatos do metabolismo. Todos os exames foram normais. Nessa época, ele já apresentava dificuldade para caminhar e falava menos. Mantinha uma média de mais ou menos 20 crises por dia. No decorrer de sete meses mudamos de médicos por diversas vezes vários anticonvulsivantes foram testados. Porém o efeito nunca era totalmente satisfatório. E esteve internado mais duas vezes para controlar crises mais frequêntes Em janeiro de 91, Pedro foi internado mais uma vez e saiu do hospital sem andar, sentar ou falar.

Em fevereiro, novamente foi internado com crises muito fortes, ficou 20 dias no Hospital. As crises já duravam 1 min, manifestando-se a cada 10 min. Nessa ocasião, foi medicado com cortisona e fez vários exames de Metabolismo, porém nada foi encontrado… A habilidade motora dele ficou debilitada. Quando teve alta, não segurava a cabeça, não sentava sozinho e parecia não reconhecer ninguém, além de não fixar o olhar em nada. O tempo foi passando, e com seções de fisioterapia e muito carinho Pedro foi conseguindo alguns pequenos progressos.

Continuávamos nossa maratona em médicos e exames, porém nada acontecia.

Suas crises ficaram um pouco mais controladas, manifestando-se somente durante o sono, aproximadamente 8 episódios por noite, com duração de cerca de 1 min. No final de 95, ele ficou alguns dias consecutivos sem apresentar crises.

Nestes últimos anos, repetiu alguns exames, porém nada de novo foi encontrado. Teve complicações pulmonares e tomou muito antibiótico. Nos últimos meses de 95, Pedro readquiriu o controle da cabeça e ganhou maior firmeza no tronco. Passou a fixar o olhar nas pessoas e objetos, porém ainda não manifestando desejo de pegá-los. Seu rosto ficou mais expressivo, apesar de ainda não rir ou chorar.

Em janeiro de 96, repetimos a Ressonância Magnética que se apresentou tal e qual a anterior, segundo o médico que assinou o laudo. O Dr. Fernando Arita, seu médico atual, diagnosticou que Pedro tem um cérebro um pouco menos denso do que uma criança de 7 anos. Repetimos também o eletro encefalograma, que se apresentou bem melhor que o anterior, com crises mais localizadas. Fizemos também, um estudo de Cariótipo (pai, mãe e filho) com a Dra.Rita de Cássia Stoco e nada foi encontrado. Disse suspeitar de Doenças Mitocondriais e sugeriu que fizéssemos um estudo de DNA. Foi feita também, uma dosagem de aminoácidos no sangue e cromatografia de açúcares na urina.

Atualmente, Pedro mantém cerca de 4 crises convulsivas durante o sono, principalmente a partir das horas da madrugada. Em suas crises estica braços e pernas, gira a cabeça para a esquerda e chora.. Duram cerca de 45 segundos. Sua atenção continua fixa nas pessoas e objetos, porém não se movimenta espontaneamente. Readquiriu razoável controle de tronco, porém não senta, não fica em pé, não fala, não sorri ou chora.

De dois anos para cá, desenvolveu uma escoliose bastante preocupante. Está medicado com Rivotril, Valpakine e Tryleptal.

Pedro, atualmente, está com 15 anos. Durante todos estes anos, não encontramos uma resposta para o que acontece com Pedro, e, também nunca encontramos alguém com problema semelhante para trocar experiências. Se você puder ajudar, se for médico ou já conheceu alguma criança com o mesmo problema, por favor, nos escreva. Se não, passe essa mensagem para frente para que encontre o destino certo.

Muito Obrigado,

Liane e Manoel.

Nosso endereço: Rua Conselheiro Brotero, 1559 apto 134 CEP 01232-011 São
Paulo – SP – BRASIL

Fone: (11) 3662.4826

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PS: Recebi o comentário abaixo do nosso leitor Wendel Lima, atualizando este post, e que repassso a vcs:

Realmente vc tem razão, em internet é melhor duvidar de tudo.
Pesquisei o assunto e descobri que a história é real. Porém, o texto publicado por vc está defasado.
Pedro tem 20 anos hoje, e tem um site na web.

http://www.sitelogo.com.br/pedro/

Visite o site dele que tem informações atuais.

Um abraço!

Wendell Lima

quinta-feira, 3 dezembro, 2009 Posted by | Comentário, Repassando... | , | 2 Comentários