Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Os laboratórios “freuderam” o Freud…E a gente…

Desculpem o palavrão quase explícito do título, mas não resisti à oportunidade da ironia. De um tempo em que a psicologia transitou da esperança social de superação emocional, passando pelas farsas (em verdade, experiências em que fomos cobais) das receitas especializadas para criar filhos, para manter casamentos, ou para suportarmos a vida moderna em sua plenitude (?), chegamos agora à era da psiquiatria do comprimido. Pelo jeito, o autor de “Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley) já tinha informações privilegiadas sobre o tema, quando escreveu e publicou este livro quase profético em 1932. Na trama bibliográfica, o autor descrevia uma sociedade futura  onde as pessoas eram pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse “futuro” criado por Huxley não possuía a ética religiosa nem os valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada “soma” (destaque deste blogueiro).

Leiam a denúncia de um profissional da área e reflitam sobre a “coincidência” com a hipotética(?) sociedade do Huxley….

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29 de maio de 2011 às 22:57
Via viomundo.com.br

Freud vive, mas só para quem tem “cash”

Talk Doesn’t Pay, So Psychiatry Turns Instead to Drug Therapy

por GARDINER HARRIS, noNew York Times (Tradução parcial, siga o link para o conteúdo completo, em inglês)

Publicado em 5 de março de 2011

DOYLESTOWN, Pa. —Solitário com seu psiquiatra, o paciente confidenciou que o filho recém-nascido tinha sérios problemas de saúde, a mulher abalada gritava com ele e ele tinha voltado a beber. Com a vida e o segundo casamento desabando, o homem disse que precisava de ajuda.

Mas o psiquiatra, Dr. Donald Levin, fez o homem parar e disse: “Segura. Não sou seu terapeuta. Poderia ajustar suas medicações, mas não acho que seria apropriado”.

Como muitos dos 48 mil psiquiatras da nação [Estados Unidos], o Dr. Levin, em grande parte por causa das mudanças na forma de pagamento das companhias de seguro de saúde, não oferece mais terapia de fala, a forma de psiquiatria popularizada por Sigmund Freud que dominou a profissão por décadas. Em vez disso, ele receita drogas, normalmente depois de uma rápida consulta com cada paciente. E assim o Dr. Levin dispensou o paciente com uma indicação de um terapeuta mais barato e uma crise pessoal inexplorada e não resolvida.

A Medicina está mudando rapidamente nos Estados Unidos, de uma atividade pessoal para uma dominada por grandes grupos de hospitais e corporações, mas as novas eficiências são acompanhadas por uma perda de intimidade entre médicos e pacientes. E nenhuma especialidade perdeu mais profundamente que a psiquiatria.

Treinado como psiquiatra tradicional no Michael Reese Hospital, um centro médico de Chicago que desde então fechou, Dr. Levin, de 68 anos de idade, abriu seu primeiro consultório em 1972, quando a terapia de fala estava no ápice.

Então, como muitos psiquiatras, ele tratava de 50 a 60 pacientes em sessões de 45 minutos cada, uma ou duas vezes por semana. Agora, como muitos dos colegas, ele trata 1.200 pessoas, na maioria em visitas de 15 minutos para ajustes nas medicações, encontros que às vezes acontecem em intervalos de meses. Então, ele conhecia a vida pessoal dos pacientes melhor que o de sua própria esposa; agora, ele em geral nem consegue lembrar os nomes. Então, o objetivo do médico era tornar os pacientes felizes e completos; agora, é apenas mantê-los funcionais.

O Dr. Levin achou a transição difícil. Ele agora resiste a ajudar pacientes apenas a gerenciar melhor suas vidas. “Tive que me treinar para não se interessar pelos problemas deles”, ele disse, “sem derrapar para o caminho de me tornar um semi-terapeuta”.

Consultas rápidas se tornaram comuns na psiquiatria, disse o Dr. Steven S. Sharfstein, um ex-presidente da Associação Americana de Psiquiatria e agora presidente e executivo-chefe do Sheppard Pratt Health System, o maior sistema de saúde comportamental de Maryland.

“É uma prática que nos faz lembrar do atendimento primário”, disse o Dr. Sharfstein. “Checam as pessoas; sacam o talão de receitas; pedem exames”.

Com o cabelo ralo, a barba cinza e os óculos sem armação, o Dr. Levin se parece muito com os psiquiatras que apareceram durante décadas nos cartuns da [revista] New Yorker. O escritório dele, que fica acima do salão de cabeleireiro canino Dog Daze em um subúrbio da Filadélfia, tem um par de cadeiras de couro, máscaras africanas e a cabeça de uma alce na parede. Mas não há divã, nem sofá; o Dr. Levin não tem tempo nem espaço para que os pacientes se deitem.

Num dia recente, um homem de 50 anos visitou o Dr. Levin para renovar as receitas da medicação, um encontro que durou cerca de 12 minutos.

Dois anos atrás, o homem desenvolveu artrite reumatóide e ficou profundamente deprimido. O médico da família receitou um antidepressivo, sem efeito. O homem tirou licença do trabalho em uma companhia de seguros, se recolheu ao porão e raramente saia de casa.

“Eu fiquei como um urso, hibernando”, ele disse.

Missing the Intrigue

O homem procurou por um psiquiatra que fizesse terapia de fala, que receitasse se fosse necessário e que aceitasse seu plano de saúde. Não encontrou. Decidiu-se pelo Dr. Levin, que o persuadiu a fazer terapia de fala com um psicólogo e gastou meses ajustando um mix de medicações que agora inclui diferentes antidepressivos e um antipsicótico. O homem eventualmente retornou ao trabalho e agora sai de casa para ir ao cinema e visitar amigos.

A recuperação do paciente foi gratificante para o Dr. Levin, mas a brevidade das consultas — como as de todos os pacientes — deixa o médico se sentindo incompleto.

“Tenho saudade do mistério e do enredo da psicoterapia”, ele disse. “Agora me sinto com um mecânico de Volkswagen”.

“Sou bom nisso”, o Dr. Levin disse “mas não há muito a aprender sobre as drogas. É como [o filme] ‘2001, Odisseia no Espaço’, onde você tinha Hal, o supercomputador, sobreposto ao macaco com o osso. Sinto agora que sou o macaco com o osso”.

A mudança, das terapias de fala para as drogas, varreu os consultórios e os hospitais, deixando muito psiquiatras mais velhos se sentindo infelizes e inadequados. Um pesquisa governamental de 2005 indica que apenas 11% dos psiquiatras oferecem terapia de fala para todos os pacientes, um número que vem caindo há muitos anos e caiu ainda mais desde então. Hospitais psiquiátricos que no passado ofereciam meses de terapia de fala agora dispensam os pacientes dias depois da internação, apenas com as pílulas.

Estudos recentes sugerem que a terapia de fala pode ser tão boa ou melhor que as drogas no tratamento da depressão, mas menos da metade dos pacientes deprimidos hoje recebe esse tipo de terapia, quando a vasta maioria tinha acesso 20 anos atrás. As políticas de reembolso das companhias de seguro, que desencorajam as terapias de fala, são parte da razão. Um psiquiatra pode receber 150 dólares por três visitas de 15 minutos apenas para prescrever medicação, comparados com 90 dólares por uma consulta de 45 minutos envolvendo a terapia de fala.

A competição que vem de psicólogos e assistentes sociais — que, ao contrário dos psiquiatras, não estudam Medicina, portanto podem cobrar mais barato — é a razão pela qual a terapia de fala tem um valor menor na tabela das seguradoras. Não existem provas de que os psiquiatras ofereçam uma terapia de fala de melhor qualidade que psicólogos ou assistentes sociais.

Naturalmente, existem milhares de psiquiatras que ainda oferecem terapia de fala para todos os pacientes, mas eles cuidam mais dos ricos, que pagam em dinheiro. Em Nova York, por exemplo, um seleto grupo de psiquiatras cobra 600 dólares por hora para tratar banqueiros de investimento e os psiquiatras pediátricos cobram 2 mil dólares ou mais apenas na avaliação inicial do paciente.

Quando começou na psiquiatria, o Dr. Levin fazia sua própria agenda e pagava a estudantes universitários para enviar as cobranças pelo correio. Mas, em 1985, ele começou em uma série de empregos em hospitais e não voltou a ter um consultório até 2000, quando ele e mais de uma dúzia de psiquiatras com os quais trabalhava ficaram chocados ao descobrir que as companhias de seguro não pagariam mais o que eles pretendiam receber por sessões de terapia de fala.

“De início, todos nós seguramos firme, alegando que tinhamos passado anos aprendendo o ofício da psicoterapia e que não abriríamos mão dele por causa da política de pagamento das seguradoras”, o Dr. Levin disse. “Mas, um a um, nós aceitamos que o ofício não era mais economicamente viável. A maioria de nós tinha filhos na universidade. E ter a renda reduzida dramaticamente foi um choque para nós. Levei pelo menos cinco anos para aceitar emocionalmente que eu nunca voltaria a fazer o que tinha feito antes, o que eu amava”.

Ele poderia ter aceito viver com menos dinheiro ou poderia ter dado tempo aos pacientes mesmo sem receber reembolso da seguradora mas, diz, “eu queria me aposentar com o mesmo estilo de vida que eu e minha mulher tinhamos tido pelos últimos 40 anos”.

“Ninguém quer ganhar menos ao evoluir em sua carreira”, ele disse, “você toparia?”.

O Dr. Levin não revelou qual é sua renda. Em 2009, a compensação média anual para psiquiatras foi de cerca de 190 mil dólares, de acordo com pesquisas de grupos médicos. Para manter a renda, os médicos geralmente respondem aos cortes impostos pelas seguradoras aumentando o volume dos serviços, mas os psiquiatras raramente recebem compensação pelo treinamento adicional que tiveram na escola. A maioria se daria melhor financeiramente escolhendo outras especialidades médicas.

A Dr. Louisa Lance, uma ex-colega do Dr. Levin, pratica a velha forma de psiquiatria em um consultório ao lado de casa, a 20 quilômetros do Dr. Levin. Ela gasta 90 minutos com novos pacientes e marca as consultas de retorno para durar 45 minutos. Todos recebem terapia de fala. Cortar a relação com as seguradoras foi ameaçador, já que significa depender apenas da propaganda boca-a-boca, em vez das indicações da rede de médicos da seguradora, disse a Dra. Lance, mas ela não consegue imaginar uma consulta de 15 minutos. Ela cobra 200 dólares pela maioria das consulta e vê menos pacientes em uma semana que o Dr. Levin em um dia.

“A medicação é importante”, ela disse, “mas é o relacionamento que faz as pessoas melhorarem”.

As tentativas iniciais do Dr. Levin de conseguir reembolso das seguradoras ou persuadir os clientes a cobrir a parte que lhes cabe do valor da consulta não foram bem sucedidas. As assistentes do consultório simpatizavam com o choro dos pacientes e não recebiam os pagamentos. Então, em 2004, ele pediu à esposa, Laura Levin — uma terapeuta de fala licenciada, por ser assistente social — que assumisse o lado “negócio” do consultório.

A senhora Levin criou um sistema de contabilidade, comprou poderosos computadores, pagou licença de uso de um programa de agendamento de um hospital próximo e contratou uma empresa de cobrança para lidar com as seguradoras e ligar para os pacientes, lembrando-os das consultas. Ela impôs uma série de taxas nos pacientes: 50 dólares por uma consulta perdida, 25 dólares pelo fax de uma nova receita e 10 dólares extras por não pagar em dia o que é devido.

Assim que o paciente chega, a senhora Levin pede o co-pagamento [parte que cabe ao paciente, acima do pago pela seguradora], que pode ser de até 50 dólares. Ela marca as consultas seguintes sem perguntar por datas e horários preferidos, ganhando os minutos preciosos que os pacientes usariam para consultar seus calendários. Se os pacientes disserem mais tarde que não podem comparecer às consultas marcadas, pagam por isso.

“O segredo é o volume”, ela disse, “se gastamos dois ou cinco minutos extras com cada um dos 40 pacientes do dia, isso significa que vamos ter mais duas horas de trabalho por dia. E não temos como fazê-lo”.

Ela diz que gostaria de dar mais de si, particularmente aos pacientes que claramente enfrentam problemas. Mas ela se disciplinou para manter as interações restritas às questões presentes. “A realidade é que não sou mais terapeuta, ela disse, em palavras que ecoaram as do marido.

PS do Viomundo: Dá uma ideia do que se tornou, hoje, nos Estados Unidos, a “Medicina de mercado”. E vamos pelo mesmo caminho, especialmente se detonarem o SUS.

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segunda-feira, 30 maio, 2011 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | Deixe um comentário

Tucanóides: abraçados e afogados na cachoeira do poder imoral…

segunda-feira, 30 maio, 2011 Posted by | Repassando... | , | Deixe um comentário

E os “sábios” daqui continuam se dando bem…

No post anterior, mostrou-se a indignação dos civis europeus frente ao arrocho salarial popular e os altos ganhos da elite dominante, principalmente da elite política. Agora, leiam o artigo abaixo e indignem-se em casa, com a ganância  legalmente legitimida, mas moralmente vergonhosal…
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29 May
Por Brizola Neto

Gente fina é outra coisa…

O Globo publica hoje uma interessante matéria sobre a “indenização trabalhista” embolsada por executivos ao deixarem as empresas que comandaram.

“Ao deixarem a empresa, presidentes e diretores recebem uma espécie de  reconhecimento pelo trabalho, o chamado bônus de saída, que, na maioria  dos casos, fica na casa dos milhões de reais”, diz o jornal.

E narra que, além de um salário por ano, os superexecutivos embolsam o período de “quarentena” (?) antes de assumirem outros postos.

Veja o que diz o jornal:

“Considerando essas práticas, a estimativa de consultores é que o  ex-presidente da Vale Roger Agnelli – que deixou a empresa no último dia  20 – tenha acertado uma quantia que beira os R$ 30 milhões. O cálculo  se baseia no salário anual estimado em R$ 15 milhões e no tempo de casa,  de dez anos. No caso de Roberto Lima, que deixa o comando da Vivo no  próximo mês, estima-se que os ganhos possam ser superiores a R$ 6  milhões.”

Se forem empresas privadas, ok. Mas estas aí são concessionárias, que exploram minério e telecomunicações por delegação do poder público, não é?

Curioso é que, á menor dificuldade eles mandam embora, como fez a Vale, milhares de trabalhadores humildes e, além do mais, vivem reclamando da carga tributária. Você acha que eles pagam Imposto de Renda em cima destas remunerações todas?

E os executivos brasileiros, aliás, ganham mais do que os seus “colegas” americanos ou europeus, como você pode ler aqui.

Por isso, coloco aí em baixo um texto do presidente do Ipea, Márcio Pochman, feito a partir de uma pesquisa do instituto, em 2006, que mostra que as diferenças entre os maiores e menores salários praticados aqui já chegava, então, a 1.714 vezes. Se a gente considerar o cálculo de O Globo sobre o salário de Agnelli, ele recebia, todo mês, algo como 2.120 salários-mínimos.

Nada mau, não?

O Brasil e a desigualdade salarial

Dizer que o Brasil encontra-se entre os países de maior desigualdade do mundo não mais representa uma novidade. Mas perceber que a distância da separação entre o menor e o maior salário no país chega a atingir quase 2 mil vezes parece inacreditável neste início de terceiro milênio. E é isso que parece ocorrer no Brasil, cuja desigualdade salarial constatada no interior do setor estruturado do mercado de trabalho atinge 1.714,3 vezes no ano de 2006. Isso porque a menor remuneração paga recebida pelo trabalhador foi de R$ 70 mensais, enquanto o maior salário capturado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) do IBGE foi de R$ 120 mil por mês. A desigualdade salarial no interior do mercado de trabalho pode ser ainda maior, uma vez que o estudo considerou tão somente o setor estruturado do mercado de trabalho, responsável por 7,7 milhões de trabalhadores.

No setor estruturado encontram-se os postos de trabalho ocupados por empregados formalmente contratados e que possuem, em geral, maior grau de escolaridade e maior tempo de serviço no mesmo local de trabalho, e têm entre 25 e 59 anos de idade. Caso fosse incluída também a remuneração praticada no setor informal, possivelmente a desigualdade de remuneração dos trabalhadores poderia alcançar níveis ainda mais expressivos. Se analisar o grau de desigualdade salarial entre o setor privado e a administração pública, verifica-se que a maior desigualdade decorre das remunerações pagas pela iniciativa privada. Enquanto no setor público a desigualdade salarial entre o menor e o maior salário alcança quase 190 vezes, no setor privado ela chega a ultrapassar 1.700 vezes. Mesmo sendo nove vezes menor, não parece haver justificativas para a enorme desigualdade salarial na administração pública brasileira. No setor privado, a injustiça é indescritível. Como pode alguém ser tão mais importante que o outro para justificar uma diferença de remuneração de quase 2 mil vezes?

Uma das características do desenvolvimento de uma nação é a justiça social. É por isso que as diferenças entre remunerações superam, em geral, mais de 30 vezes. Com a desigualdade salarial nesse patamar verificada no Brasil, percebe-se o quanto o país precisa avançar. Isso parece ser mais necessário justamente nas regiões onde o nível de desenvolvimento econômico encontra-se mais avançado, especialmente no setor privado. A região Sudeste, por exemplo, apresenta uma desigualdade entre o maior e menor salário equivalente a quase 343 vezes, enquanto a região Norte possui a menor desigualdade de remuneração (28,2 vezes). No caso da administração pública, a menor desigualdade salarial encontra-se na região Sul. Já a maior distância que separa o maior do menor salário no setor público localiza-se na região Centro-Oeste.

Frente a isso, caberia uma reflexão mais aprofundada a respeito das causas de tamanha desigualdade. Parte da responsabilidade pode ser identificada na contida remuneração dos trabalhadores de salário de base. Em outras palavras, a desigualdade é alta não porque os salários são muito altos, mas porque na base da pirâmide as remunerações são extremamente reduzidas. Embora existam salários altos para dirigentes de empresas e postos de maior responsabilidade na administração pública, sabe-se que o grosso dos trabalhadores ocupados percebe mensalmente remunerações de fome.

Por conta disso, uma das principais medidas de contenção da desigualdade na remuneração do trabalho diz respeito à elevação dos salários de base da pirâmide salarial. O salário mínimo, nesse sentido, possui um papel de inegável contribuição para reduzir a desigualdade, pois não se trata de reduzir os altos salários, mas subir os de menor poder aquisitivo.

De outra parte, o país precisaria reinventar a atual estrutura de tributação. Além de alta, a carga tributária termina se concentrando justamente nas menores remunerações. De acordo com a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, o trabalhador que recebe mensalmente até dois salários mínimos tem uma carga tributária de até 48% de seu rendimento. Por força dos impostos indiretos (que se encontram incluídos nos preços de bens e serviços básicos), quem recebe dois salários mínimos mensais deixa quase um salário mínimo com a Receita Federal. Já o trabalhador com remuneração superior a 30 salários mínimos mensais deixa para os impostos somente 26% de sua renda.

Em síntese, quem ganha mais paga menos impostos. Ao contrário de quem recebe menos, cuja carga tributária é quase o dobro da que incide sobre os salários maiores. Frente a isso, parece não haver outra solução para o caso da vergonhosa desigualdade salarial no Brasil que não seja a completa inversão da carga tributária. Com a progressividade na tributação (quem ganha mais paga mais impostos e vice-versa), a desigualdade salarial seria bem menor que a atual.

segunda-feira, 30 maio, 2011 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | Deixe um comentário

A justa ira civil demorou, mas bateu à porta dos “sábios” da dominação…

Vocês se lembram do tempo em que o FMI, com o apoio das grandes nações, impunham aos países que, segundo eles, compunham o Terceiro Mundo, ou os Países em Desenvolvimento? Vocês se lembram das receitas recessivas que eles “sabiamente” nos impunham como o caminho necessário para crescer (sopa de desemprego, caldo de inflação, osso de arrocho salarial, dieta de direitos trabalhistas e outras “cositas mas”)? Pois é… A partir do Nunca Dantes, o Brasil contrariou todas as lições da cartilha, livrou-se dos “sábios” históricos, superou facimente as crises geradas exatamente pelos países hegemônicos e seus “professores” e comandou a rebelião político-econômica na América Latina. E eles se enrolaram em seus “saberes”, perderam a dominação econômica e política sobre nós e estão provando do próprio “remédio” que nos impuseram por décadas. Pior: enfrentam as rebeliões civis cotidianas que antigamente justificaram, entre nós, os golpes de estado fomentados por eles, em conluio com os entreguistas e oportunistas reacionários existentes entre nós. E agora? Vão massacrar civis, implantar ditaduras? O que farão, se os países que parasitavam para alimentarem os seus desenvolvimentos também se libertaram ou estão se libertando do jugo histórico? Externamente, estão tentando a solução de sempre (ações “humanitárias” para manterem e ampliarem as ditaduras amigas) mas, e internamente? Estou pagando pra ver os próximos capítulos desta novela…

Claro que a esfera civil destes países, hoje rebelados, têm culpa no cartório da história, pois legitimiram durante séculos o parasitismo e o saque das nações não-hegemônicas, mas agora elas deverão aprender, a duras penas, o quanto custa sobreviver em condições adversas. Dormiram democratas e acordaram subversivos. E não poderão culpar ninguém, a não ser aos seus “sábios’ e às suas elites, que geraram a atual tragédia sócioeconômica. Acordaram esbofeteados por aqueles que legitimaram e sem a passividade solidária dos pobres rebelados pelo mundo à fora.

Leiam abaixo as últimas notícias linkadas e que são apenas a ponta do iceberg…

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Os “indignados” gregos contra o plano de ajuste do FMI

Via cartamaior.com.br
“Se nós temos que viver com 500 euros mensais, que os políticos, sem exceção, também o façam”. Essa foi uma das frases que marcaram a manifestação reunindo mais de 40 mil pessoas neste domingo, em Atenas, contra os planos de austeridade econômico impostos pela União Europeia e
pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para enfrentar a grave crise econômica que se abateu sobre o país. A convocação para os protestos foi feita principalmente pelo movimento “Cidadãos indignados”, organizado em redes sociais pela internet.
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29/05/2011

Repressão em Barcelona: a limpeza de praças na Espanha

Apesar do fato de as elites políticas da Espanha, nesta nova era de dominância da direita, estarem mostrando seu uso em massa da força, eles têm encontrado um movimento não-violento bem organizado.
Se o movimento mantiver os seus princípios, e outros países europeus juntarem-se na luta, vai ser a União Europeia que será forçada a conter essa brutalidade policial, e acabará por ter de fazer concessões a essa luta democrática e não-violenta dos cidadãos. Se o movimento se espalhar, como já muitos sinais parecem indicar, as elites políticas e econômicas da Europa terão que decidir entre reforma e revolução. O artigo é de Pablo Ouziel.
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29/05/2011

Direto de Barcelona: Democracia em construção

• Eduardo Galeano: Há um divórcio entre as novas gerações e o sistema político
• 15-M prepara grande manifestação em Madri
• Cresce na Espanha a revolução dos indignados

segunda-feira, 30 maio, 2011 Posted by | Comentário, Repassando... | , , , | Deixe um comentário

Por mais que escondam, a primavera política não ocorre apenas no Oriente Médio…

21  May
Por Brizola Neto

Rebelião jovem faz Madri sumir do mapa

Há dias venho registrando aqui o que só – perdoem – mal e porcamente a imprensa brasileira vem mostrando: a força das rebeliões jovens que, partindo da Espanha, estão se espalhando pela Europa.

Leia aqui porque Não há lugar para os jovens no Velho Mundo.

Hoje é a BBC que divulga – e só a Folha reproduz, os outros jornais nem chamadinha da página de noticiário internacional – que “cerca de 25 mil manifestantes desafiaram uma  proibição do governo da Espanha e continuaram acampados durante a noite  desta sexta-feira em uma praça da capital, Madri”.

A proibição decretada pela Justiça entrou em vigor à meia-noite, mas as  multidões continuaram no local, e a polícia não entrou em ação para  desmobilizar o protesto, diz

A manifestação começou há seis dias na praça  Puerta del Sol, de Madri, com jovens espanhóis sentando-se e preparando  acampamento no local, para protestar contra o indice de 45% de  desemprego entre a população jovem do país.

O pior cego não é o que não quer ver. É o que não quer que vejam.

domingo, 22 maio, 2011 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

O Titio estrebucha e fala grosso, mas não tá ganhando uma…

Estudo põe trabalhador brasileiro em vantagem sobre EUA

Agência Estado

Um estudo realizado em parceria entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA) abrangendo 70% dos trabalhadores formais urbanos do Brasil (55 milhões de pessoas) e dos Estados Unidos (116 milhões) causou surpresa, entre os próprios pesquisadores, ao atestar que, no Brasil, os assalariados têm mais proteção social e os empregos gerados têm sido de melhor qualidade do que nos Estados Unidos – mesmo antes da eclosão da crise financeira mundial, em 2008.

No ensaio “Os sentidos das precariedades em dois mercados nacionais de trabalho: Brasil e Estados Unidos”, os pesquisadores Claudio Salvadori Dedecca e Wilson Menezes, professores, respectivamente, da Unicamp e da UFBA, levam em consideração dados oficiais dos países e fatores como remuneração, desigualdade da massa salarial e perfil do contrato de trabalho, de acordo com a segurança oferecida ao trabalhador.

De acordo com os pesquisadores, os resultados contestam teses que relacionam melhorias na remuneração média e na proteção social dos assalariados com menos regulação nos contratos de trabalho.

Segundo o estudo, enquanto houve, na última década, no Brasil, expansão na absorção de trabalhadores pelo mercado formal – com mais proteção social -, com aumento real na média de salários (13% entre 2001 e 2009), nos Estados Unidos ocorreu fenômeno inverso: a ampliação de vagas ocorre principalmente em áreas de remuneração mais baixa, como em grandes redes varejistas, e é seguida por constante diminuição na proteção social. Além disso, não resulta em aumento salarial médio real (3% entre 2001 e 2009).

Hoje, mostra a pesquisa, o trabalhador norte-americano não conta com diversos direitos legais com os quais os empregadores brasileiros têm de arcar, como férias e feriados remunerados, pagamento de horas extras e licença-maternidade.

“Os resultados apontam para uma redução das precariedades dos contratos de trabalho no mercado brasileiro, (…) situação que não encontra sinalização para o mercado de trabalho americano”, conclui o estudo. “A constatação não confirma a tese que associa um menor desemprego e maior proteção a uma menor regulação dos contratos de trabalho, independentemente da efetividade das matrizes institucionais.”

O levantamento integra um projeto maior, que inclui pesquisadores e universidades da Europa e dos Estados Unidos. A próxima etapa será comparar as realidades dos mercados de trabalho brasileiro e norte-americano com o mexicano.

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PS: Imagem do Titio não consta da reportagem original do Estadão, é da WEB.

domingo, 22 maio, 2011 Posted by | Repassando... | , , , | Deixe um comentário

Relembrando as ações “humanitárias” do Titio e seus conchavos ambientalistas…

19 May
por Brizola Neto

Base militar tornou “sem ilha” o povo chagassiano

Um drama ocupa hoje espaço de destaque na edição de hoje do jornal inglês The Guardian.

É o sofrimento do chagassianos, antigos habitantes do Arquipélago de Chagos, a leste da costa africana, a meio caminho da Ásia.

Mais de duas mil pessoas foram “removidas” das ilhas, entre 1967 e 1973 para as ilhas Maurício. A finalidade foi usar a maior de suas ilhas, Diego Garcia, como base aérea e naval  dos EUA , com estruturas de apoio inglesas nas demais ilhas. Quem não aceitou a “remoção” foi embarcado à força e aprisionado nas Ilhas Seychelles, hoje um famoso paraíso fiscal.

A desocupação das ilhas incluiu até um sui generis “fuzilamento de cachorros”, matando os animais de estimação dos moradores para intimidá-los

De lá, partiram bombardeiros para a guerra do Iraque.

Os tribunais ingleses reconheceram a posse indevida das ilhas, mas recusaram a devolução de Diego Garcia, sob o argumento que o arrendamento da ilha aos EUA era válido.

A base é estratégica e, para mantê-la, vale até uma aliança com os ambientalistas.

Um telegrama vazado pela Wikileaks mostra que a  transformação das  ilhas em “área marinha protegida”, que encantou os ambientalistas,  revelou que um alto funcionário do  Ministério dos Negócios Estrangeiros britânicos tinha dito a seus colegas  americanos a criação da reserva “poria fim aos pedidos de reinstalação dos  antigos moradores do arquipélago”.

O  funcionário, identificado como Colin Roberts, diretor de territórios  ultramarinos, observou que o  “lobby ambiental   é muito mais  poderoso do que o dos defenores dos chagossianos “, e acrescentou que o  governo britânico não queria “nenhum Sexta-Feira (o personagem de Robinson Crusoé) nas ilhas.

Alguns dos chagassianos voltaram, de visita, às suas ilhas, e encontraram ruínas de suas antigas casas.

Em pleno século 21, as chagas do colonialismo, por vezes, aparecem de forma impressionante

quinta-feira, 19 maio, 2011 Posted by | Repassando... | , , | Comentários desativados em Relembrando as ações “humanitárias” do Titio e seus conchavos ambientalistas…

O sacerdote da Dona Caolha instalou uma fábrica de cordas…

quinta-feira, 19 maio, 2011 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

EUA: o falso discurso e a prática criminosa de um Estado Terrorista…

Via cartamaior.com.br

DEBATE ABERTO

Fez-se vingança, não justiça

Não se fez justiça com a morte de Bin Laden. Praticou-se a vingança, sempre condenável.”Minha é a vingança” diz o Deus das escrituras das três religiões abraâmicas. Agora estaremos sob o poder de um Imperador sobre quem pesa a acusação de assassinato. E a necrofilia das multidões nos diminui e nos envergonha a todos.

Leonardo Boff

Alguém precisa ser inimigo de si mesmo e contrário aos valores humanitários mínimos se aprovasse o nefasto crime do terrorismo da Al Qaeda do 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque. Mas é por todos os títulos inaceitável que um Estado, militarmente o mais poderoso do mundo, para responder ao terrorismo se tenha transformado ele mesmo num Estado terrorista. Foi o que fez Bush, limitando a democracia e suspendendo a vigência incondicional de alguns direitos, que eram apanágio do pais. Fez mais, conduziu duas guerras, contra o Afeganistão e contra o Irã, onde devastou uma das culturas mais antigas da humanidade nas qual foram mortos mais de cem mil pessoas e mais de um milhão de deslocados. Cabe renovar a pergunta que quase a ninguém interessa colocar: por que se produziram tais atos terroristas? O bispo Robert Bowman de Melbourne Beach da Flórida que fora anteriormente piloto de caças militares durante a guerra do Vietnã respondeu, claramente, no National Catholic Reporter, numa carta aberta ao Presidente:“Somos alvo de terroristas porque, em boa parte no mundo, nosso Governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque nos odeiam. E nos odeiam porque nosso Governo faz coisas odiosas”. Não disse outra coisa Richard Clarke, responsável contra o terrorismo da Casa Branca numa entrevista a Jorge Pontual emitida pela Globonews de 28/02/2010 e repetida no dia 03/05/2011. Havia advertido à CIA e ao Presidente Bush que um ataque da Al Qaeda era iminente em Nova York. Não lhe deram ouvidos. Logo em seguida ocorreu, o que o encheu de raiva. Essa raiva aumentou contra o Governo quando viu que com mentiras e falsidades Bush, por pura vontade imperial de manter a hegemonia mundial, decretou uma guerra contra o Iraque que não tinha conexão nenhuma com o 11 de setembro. A raiva chegou a um ponto que por saúde e decência se demitiu do cargo. Mais contundente foi Chalmers Johnson, um dos principais analistas da CIA também numa entrevista ao mesmo jornalista no dia 2 de maio do corrente ano na Globonews. Conheceu por dentro os malefícios que as mais de 800 bases militares norte-americanas produzem, espalhadas pelo mundo todo, pois evocam raiva e revolta nas populações, caldo para o terrorismo. Cita o livro de Eduardo Galeano, “As veias abertas da América Latina”, para ilustrar as barbaridades que os órgãos de Inteligência norte-americanos por aqui fizeram. Denuncia o caráter imperial dos Governos, fundado no uso da inteligiência que recomenda golpes de Estado, organiza assassinato de líderes e ensina a torturar. Em protesto, se demitiu e foi ser professor de história na Universidade da Califórnia. Escreveu três tomos “Blowback” (retaliação) onde previa, por poucos meses de antecedência, as retaliações contra a prepotência norte-americana no mundo. Foi tido como o profeta de 11 de setembro. Este é o pano de fundo para entendermos a atual situação que culminou com a execução criminosa de Osama Bin Laden. Os órgãos de inteligência norte-americanos são uns fracassados. Por dez anos vasculharam o mundo para caçar Bin Laden. Nada conseguiram. Só usando um método imoral, a tortura de um mensageiro de Bin Laden, conseguiram chegar ao seu esconderijo. Portanto, não tiveram mérito próprio nenhum. Tudo nessa caçada está sob o signo da imoralidade, da vergonha e do crime. Primeiramente, o Presidente Barak Obama, como se fosse um “deus” determinou a execução/matança de Bin Laden. Isso vai contra o princípio ético universal de “não matar” e dos acordos internacionais que prescrevem a prisão, o julgamento e a punição do acusado. Assim se fez com Hussein do Iraque,com os criminosos nazistas em Nürenberg, com Eichmann em Israel e com outros acusados. Com Bin Laden se preferiu a execução intencionada, crime pelo qual Barak Obama deverá um dia responder. Depois se invadiu território do Paquistão, sem qualquer aviso prévio da operação. Em seguida, se sequestrou o cadáver e o lançaram ao mar, crime contra a piedade familiar, direito que cada família tem de enterrar seus mortos, criminosos ou não, pois por piores que sejam, nunca deixam de ser humanos. Não se fez justiça. Praticou-se a vingança, sempre condenável.”Minha é a vingança” diz o Deus das escrituras das três religiões abraâmicas. Agora estaremos sob o poder de um Imperador sobre quem pesa a acusação de assassinato. E a necrofilia das multidões nos diminui e nos envergonha a todos.
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Leonardo Boff é teólogo e escritor.
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PS: os negritos são deste blogueiro, para enfatizar as imoralidades ianques que sempre foram citadas aqui.
A imagem do titio não consta do artigo original, é da Web.

quinta-feira, 19 maio, 2011 Posted by | Repassando... | , , , | Deixe um comentário

A barbárie criminosa da luta de classes…

Amanheço lendo a notícia que repasso abaixo e me vieram à mente os inúmeros momentos da vida nacional que tenho conhecido e/ou vivenciado ao longo da minha vida: o massacre de Canudos, os massacres de quilombos, os índios assassinados com açucar envenenado jogado de avião sobre a aldeia, o extermínio de mendigos no Rio, durante a ditadura, o massacre da Candelária, a queima de mendigos e os espancamentos de pobres nas madrugadas… E por aí vai. E pelo jeito, quando na campanha presidencial última, os canalhas virtuais ameaçaram nordestinos de morte, não estavam brincando. Este fato relatado abaixo eu não vi na grande mídia (o que é natural no contexto da hegemonia das classes dominantes), mas é mais um capítulo maldito de uma realidade selvagem da luta de classes que muitos ainda tentam negar na vida nacional.

Leiam e vomitem…
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16 de maio de 2011 às 18:08

Luana Santos: Quando homens e mulheres são tratados como ratos

por Luana Diana dos Santos

Domingo. Final do campeonato estadual entre o Galo Mineiro, meu time do coração, e o Cruzeiro, nosso maior rival. Enquanto almoçava, acompanhava pelo rádio os últimos detalhes do clássico. A transmissão foi interrompida com a notícia de que moradores de rua do Santa Amélia, bairro de classe média de Belo Horizonte, haviam sido envenenados. Sem acreditar no que acabara de ouvir, acessei a  internet na tentativa de descobrir o que realmente havia acontecido. Para minha tristeza, era tudo verdade.

As notícias davam conta de que nove mendigos, entre eles uma mulher,  haviam bebido cachaça misturada com chumbinho. Felizmente todos foram socorridos a tempo e não correm risco de morte. Segundo testemunhas, no mês anterior houvera outra tentativa de extermínio. Foi oferecido aos moradores de rua comida envenenada, mas desconfiados, não chegaram a consumir o alimento. No dia seguinte, um cachorro apareceu morto após ingerir a refeição.

Num ano marcado pelas declarações absurdas de Bolsonaro e Rafael Bastos, nenhum fato causou-me tanta consternação quanto o episódio envolvendo os moradores de rua. Alguns podem citar o massacre de Realengo, mas na escola do Rio, ficou comprovado que Wellington de Oliveira, autor dos disparos, possuía distúrbios mentais. O algoz da do Santa Amélia agiu em sã consciência e de forma premeditada.

Não me restam dúvidas de que o autor do crime sabia que o vício de álcool e drogas acomete boa parte daqueles que fazem das ruas sua morada. Um estudo realizado no ano passado pela  FIPE – Fundação Instituto Pesquisas Econômicas de São Paulo revelou que 3 em cada 4 moradores de rua consomem entorpecentes. Por muito pouco, não foi um crime perfeito. Até o momento, ninguém foi preso.

Vale lembrar que “caçar” mendigos é uma prática antiga no Brasil. Nos anos de 1930, sob a ideologia do “movimento higienista”, a população de rua foi duramente perseguida. Era preciso dar ao paísl ares europeus, e uma das formas de alcançar tal intento seria confinar a classe pobre em regiões distantes dos centros urbanos. Trazendo a questão para a contemporaneidade,  quem não se lembra do índio Galdino, queimado por  jovens em Brasília em 1997?  Recorri a minha caixa de recortes de jornais, e encontrei uma reportagem da Folha de fevereiro de 2007, onde lia-se: “Praça da República tem bancos antimendingos”. Coisas do Kassab. Serra criou medidas com a mesma finalidade. Somente no ano passado, 32 moradores de rua foram assassinados em Maceió.

Em Belo Horizonte, a população de rua aumenta a cada ano. Pouco se tem feito para solucionar o problema. Não faz muito tempo o jornal Estado de Minas estampou na capa que “os moradores de rua estavam tomando conta da Savassi”. Explico. A Savassi é uma das regiões mais nobres de Belo Horizonte. Daí a preocupação do jornal. Com a proximidade da Copa do Mundo, estejamos preparados para mais faxina nas ruas. As cidades precisarão estar livres dessa gente diferenciada.

A final do campeonato mineiro perdeu toda importância. Passei o dia remoendo esse caso. Fiquei imaginando como uma pessoa oferece veneno à outra, como se estivesse partilhando água ou comida.  À noite, ao passar pelas ruas do centro de BH, avistei do ônibus uma fila imensa de mendigos. Recebi um alento. Um casal distribuía sopa para homens, mulheres e crianças. Agora, não me interessa saber se essa atitude é a mais acertada. Fiquei um pouco mais aliviada ao perceber que ainda existem pessoas capazes de enxergar o outro como um semelhante, e não como ratos que precisam ser exterminados.

Luana Diana dos Santos é professora e historiadora da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais

terça-feira, 17 maio, 2011 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | 3 Comentários