Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

As contradições do belo…

Amigos, há quatro horas, ainda no lusco-fusco deste dia ensolarado, fui molhar e curtir as minhas plantas, andar no meu pomar e dar comida aos peixes, em companhia da Oiá, minha fiel escudeira. Fiscalizamos o choco da pata em seu ninho escondido, descobrimos a outra pata botando ovos amoitada na vegetação (ela se fingiu de “morta”, estática para passar despercebida) e voltamos à casa. Só então tomei café e vim conectar-me com o mundo, abrir emails e o nosso blogue. E então recebi email da navegante Maria Luiza (PE), com um vídeo acessado pelo link http://www.youtube.com/watch_popup?v=GBaHPND2QJg&feature=youtu.be. Belo, vale a pena assistir. Uma comunidade atraída pela arte musical instalada na praça San Roc (Sabadel, Espanha), gente feliz, bem vestida e alimentada, crianças a rodo, escutando e curtindo música de qualidade. No estado bucólico em que me encontrava, me emocionou ver arte, povo, cultura, pertencimento, reunidos naquele espaço tão bonito.

Mas (há sempre um mas nas coisas da vida), assistindo e pensando (porque temos sempre que pensar?), não consegui evitar de desnudar aquela paisagem e imaginar coisas menos atraentes. Pra começar, a orquestra tocava em frente ao Banco de Sabadel, patrocinador do evento. Logo um banco, um daqueles que de há muito esqueceram a sua função social e tornaram-se predadores econômicos. Logo um membro do sistema financeiro global que hoje, mais do que nunca, domina a economia e a política, destruindo nações, mantendo ou destituindo governantes e ditadores que contrariem os seus lucros (inclusive na própria Europa). E que, naquele momento, patrocinava arte para o povo, muito possivelmente para melhorar sua imagem (descontando os custos na declaração de renda anual).

Bem, esqueci os bancos e passei a observar as pessoas. A imagem de bem estar deles me lembrou: quantas nações e povos agredidos e colonizados pelo mundo afora, foram necessários para construir historicamente esta qualidade de vida?  Quantas nações e povos permanecem agredidos e colonizados para manter este bem estar? Quantos pais, mães e filhos do mundo espoliado, estão vegetando na miséria material e cultural, para que estas pessoas da praça possam sorrir e deliciar-se em momento tão belo? Quantos africanos, indígenas e pobres do mundo, estão impedidos de viver e de estar ali naquela praça, admirando o belo?

Lembrei-me da Grécia Antiga que tanto admiramos e que, para que o seu povo participasse democraticamente e tivesse o ócio criativo para filosofar, escondia em suas entranhas a escravidão que alimentava este ócio e democracia… A mesma Grécia que hoje, sem escravidão e sem colônias, sufoca hoje sobre as penas de uma crise capitalista sem precedentes.

Refleti sobre o próprio povo reuni9do naquela praça e que, a exemplo da Grécia, passa por dificuldaddes nunca dantes imagináveis na era moderna. Lembrei-me da América Espanhola, de Cortez e Pizarro trucidando Incas e Astecas… Cervantes e sua cria Dom Quixote deverão estar tremendo no túmula da História…

Alguns rostos asiáticos presentes na população da praça não deixaram de me lembrar os imigrantes que, à força ou atraídos pela esperança, saíram de seus territórios e estão na Europa de hoje, oprimidos pelo sectarismo e pelo racismo agravado pela atual crise financeira e econômica…

Não pude de evitar a ironia do fato que, os mesmos bancos que enterraram a Europa Maravilha, patrocinam encontros artísticos nas praças, para o mesmo povo que apunhalam cotidianamente na política e na economia.

Não pude evitar de lembrar a constatação marxiana de que, por trás de toda grande fortuna, há sempre um caso de polícia

Desculpe, amiga Luiza, mas, como refletiu o escorpião: não pude fugir à minha natureza. Mesmo em momento tão belo. E, replicando as contradições que observei no evento (cultura/bem estar e dominação/violência), perdi-me em emoção e razão, em deslumbre e tristeza. Desculpe, deve ser este meu coração depressivo de socialista impotente diante das coisas do mundo. Deve ser a minha impossibilidade de ser feliz sozinho, indiferente à felicidade dos demais…

Ter iniciado tão bem o meu dia no quintal, não me impediu de esquecer as contradições deste mundo louco…

Bom feriado a todos…

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sexta-feira, 7 setembro, 2012 - Posted by | Comentário | , ,

1 Comentário »

  1. Assino embaixo meu amigo…
    Quisera que todos aqueles que não leem seus comentários tivessem a mesma consciência conjuntural. Especialmente neste dia dedicado à Independência da nossa Nação.
    Pois certamente os que freqüentam este blogue a tem ou a pretendem!
    Bom feriado para todos

    Comentário por Carlos | sexta-feira, 7 setembro, 2012


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