Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Sobre o equilíbrio entre saber, crer, conviver e criar…

Sempre fui um fanático pelas orígens, histórias e lendas ligadas à diversificada trajetória humana, neste nosso mundo velho sem porteira. Não para garimpar informações que reforçassem as minhas convicções neófitas, mas para engordar as prateleiras cognitivas do meu cérebro rebelde e curioso, em busca de um equilíbrio interior que ainda não atingi (mas que continuo perseguindo). Iniciei-me nas noturnas beiras de fogueiras, devorando as  lendas e histórias dos mais velhos e ruminando-as horas e horas nas minhas constantes introspecções de criança, filtrando e decantando percepções a sedimentar na minha curiosidade incansável. Ao longo das minha sete décadas incompletas, encantei-me em imaginar como as coisas do meu tempo surgiram ao longo dos séculos. Em imaginar o homem primitivo que cuspiu no solo a primeira semente do fruto natural, percebeu-a germinando e descobriu a agricultura; o primeiro homem que domesticou algum filhote selvagem e descobriu a pecuária; o primeiro homem que, vendo raios e intempéries climáticas, pensou em deuses; a primeira mulher prenha a tentar entender o fato e as dores criativas da cria primogênita; as lutas, guerras, migrações e outras tragédias decorrentes e recorrentes destes seres maravilhosos e terríveis que fomos e somos. Intelectualmente, e independente da minha trajetória profissional, esta curiosidade devastadora que me habita sempre foi o pano-de-fundo dos meus dias. Provavelmente por isto, nunca acreditei nas abordagens especialísticas e fechadas à holística visão da realidade, preferindo jogá-las na centrífuga do meu cérebro, espreme-las, coar e beber o caldo da diversa e complexa realidade, embora ele às vezes me deixasse meio doidão. A minha vida já se foi em mais da metade, já dobrou o Cabo da Boa Esperança, mas a minha cuíra nunca arrefeceu. Inclusive estou relendo “Uma breve história do mundo” (Geoffrey Blainey) e assisti pela quarta vez  “A guerra do fogo” ( Jean-Jacques Annaud. Anthony Burgess e Desmond Morris.[2]), continuando as milhares de viagens por centenas de livros, documentários, palestras e conversas-de-fogueira.
E em assim sendo, não pude resistir em ler e repassar a vocês (em muito iguais a mim), o lançamento literário abaixo: uma releitura da Biblia, um dos livros mais famosos do mundo, embora polêmico e controverso em suas informações. E feita por um intelectual que, além de filosóficamente preparado , possui a profundidade da isenção, a ironia e o bom humor necessários ao destrinchamento das polêmicas históricas. Com certeza, ler o livro será uma das minhas próximas tarefas.
Em tempo: voltou-me à mente, enquanto escrevia esta postagem, um diálogo que tive com meu filho caçula (há duas décadas atrás), quando jogávamos conversa fora, sentados na horta do quintal. E ele, que já me pedia pra contar histórias fantásticas que o matavam de rir, então com apenas cinco anos, olhou pensativamente para o céu e comentou: _ Pai, a gente mora no esgoto, né?
_ Porque você acha isso, meu filho?
_ Olha, se papai-do-céu mora lá em cima, a gente mora no esgoto…
_ Ihhh! Meu filho!  Não te aprofunda nesta história! Deixa isso pra quando você for maior…
E o meu sorriso interior pelo meu filho curioso, não me impediu de pensar com os meus botões: ô sina!!!
Bom fim de semana à todos…
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Arte & Cultura| 30/11/2012:

A Bíblia segundo Beliel

Em tom de paródia, mas solidamente ancorada nas tradições bíblicas – que Flávio Aguiar, pesquisador e professor de literatura da USP, conhece como poucos –, “A Bíblia segundo Beliel – da Criação ao Fim do Mundo: como tudo de fato aconteceu e vai acontecer” (Boitempo) combina a leveza da chanchada com reflexões profundas e ousadas sobre temas como a religião, o fanatismo, a crença e a descrença, a opressão e a liberdade, a desigualdade e a justiça e, “last but not least”, o amor, como objetivo e possibilidade de redenção da humanidade.

Redação

São Paulo – Um anjo desgarrado decide reunir narrativas bíblicas perdidas. Mas os narradores são, na maioria, como ele: desgarrados. São os coadjuvantes da história, como a pomba que Noé soltou da arca para ver se as águas do dilúvio tinham baixado; ou o demônio Misgodeu, que trabalha como porteiro do Inferno, um faz-tudo que toca os mecanismos daquele fim de mundo, sem o qual nada funciona no reino de Lúcifer; ou ainda o escravo de Jó, que assiste, completamente surpreso, à desgraça e às tentações de seu amo. Lemos também sobre a luxúria e a hecatombe de Sodoma e Gomorra contada por um dos anjos enviados para averiguar o que por lá se passava (e como se passavam coisas!). Assim como fala do passado, a narrativa de Beliel, ele mesmo um faz-tudo nos céus, se dirige ao futuro, nos levando a uma versão absolutamente fantástica do fim dos tempos e do destino da Criação. A Bíblia segundo Beliel glosa as teorias e previsões sobre a proximidade do fim do mundo, como acontece no Apocalipse de São João Evangelista. Só que com alguns detalhes que São João não previu nem talvez pudesse prever. Afinal, o autor leva uma vantagem: está quase dois mil anos mais perto do fim do mundo do que ele estava. No livro, Flávio traça não apenas as previsões de origem religiosa, mas também aquelas de natureza científica ou histórica. Sua geração cresceu sob o temor de que a Guerra Fria – depois das hecatombes da Segunda e da Primeira Guerra Mundial – os levasse diretamente ao fim do mundo. O risco de uma catástrofe atômica diminuiu, mas não está descartado. Agora se fala também no aquecimento global, no efeito estufa, e vive-se em meio a furacões tropicais que invadem as regiões mais temperadas. A Bíblia segundo Beliel, portanto, é um livro perfeitamente realista: uma leitura do nosso tempo. Em tom de paródia, mas solidamente ancorada nas tradições bíblicas – que Flávio Aguiar, pesquisador e professor de literatura da USP, conhece como poucos –, A Bíblia segundo Beliel combina a leveza da chanchada com reflexões profundas e ousadas sobre temas como a religião, o fanatismo, a crença e a descrença, a opressão e a liberdade, a desigualdade e a justiça e, last but not least, o amor, como objetivo e possibilidade de redenção da humanidade. Sobre o surgimento do livro, o escritor é enfático: “Foi uma possessão. Passei muitos anos estudando as Bíblias como fontes literárias e das demais artes. Mais da metade das literaturas e das artes que estudamos e curtimos são incompreensíveis sem um conhecimento mínimo das diversas Bíblias. Até um autor declaradamente ateu, como Machado de Assis, é profundamente bíblico. Acho que de repente isso se materializou numa reescritura do que eu lera e me inspirara na minha vida de professor e crítico literário. Como se todo esse mundo acumulado pegasse um desvio da linha e saísse em busca de um caminho próprio. Por isso não consigo dizer, por exemplo, que o livro é meu. Ele é mesmo do Beliel, esse anjo torto que se materializou em mim. Eu fui apenas seu porta-voz”. Trecho do livro “No passar das claridades e escuridões (ninguém ainda inventara as horas) Adão se entediava. Depois de contar interminavelmente as folhas das palmeiras, começou a contar grãos de areia. Nessa altura o arcanjo Gabriel, que de vez em quando vinha dar uma espiada, resolveu levar o caso a Jeová, Que ficou preocupado. – Preciso fazer algo, Ele disse a Gabriel. E fez. Esperou que Adão adormecesse, e praticou a primeira cirurgia da história ocidental. Extraiu do peito de Adão uma costela a mais que ali pusera just in case e, a partir dela, moldou uma mulher. – Agora ele vai ter com que se ocupar, exclamou Jeová num tom vingativo, que Gabriel não entendeu.” Sobre o autor Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre, em 1947. É professor aposentado de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofi a, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/ USP), na qual fundou e dirigiu o Centro Ángel Rama. Atualmente, é pesquisador do programa de pós-graduação em Literatura Brasileira da mesma instituição. Orientou mais de quarenta teses e dissertações de doutorado e mestrado. Foi professor convidado e conferencista em universidades no Brasil, Uruguai, Argentina, Canadá, Alemanha, Costa do Marfim e Cuba. Tem mais de trinta livros publicados, entre os de autoria própria, organizados, editados ou antologias. São obras de crítica literária, ficção e poesia. Participou de várias antologias de poemas e contos no Brasil e no exterior (França, Itália e Canadá). Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro: em 1984, na categoria “Ensaio”, com sua tese de doutorado A comédia nacional no teatro de José de Alencar (Ática, 1984); em 2000, com o romance Anita (Boitempo, 1999); e, em 2007, coletivamente, como responsável pela área de literatura da Latinoamericana: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Boitempo, 2006), na categoria “Ciências Humanas” e também como “Livro do Ano de Não Ficção”. Reside atualmente em Berlim, na Alemanha, onde é correspondente para publicações brasileiras, entre elas a Carta Maior, da qual já foi editor.

sábado, 1 dezembro, 2012 - Posted by | Comentário, Repassando... | , ,

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