Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

E o dia nasceu feliz…

Uma hora da madruga, acordo preocupado com a Oiá. Ela passara o dia inquieta, ciscando no mato e escolhendo lugar para parir. Embora tendo um abrigo coberto, buscava a vegetação do quintal. Embora tendo a varanda da minha casa, na qual adora ficar dias e dias, buscava o mato. Coisas de bicho e de mães extremadas, que buscam lugares escondidos para parir em paz e esconder os filhos… Trazia-a para a varanda e ela regressava ao quintal. Na minha última tentativa, trouxe-a para a varanda, fechei o portão e ela pulou a mureta alta, coisa que nunca fez antes e que me deixou preocupado com os efeitos físicos do pulo. Larguei de mão…

Ao acordar na madrugada, desci com a lanterna para procurá-la. E embora tivesse deixado o portão da varanda aberto, não a encontrei. Vagando pelo quintal ela se aproximou de mim, pelo foco da lanterna. Não parira, mas permanecia inquieta e com aquele seu olhar carente que conheço tão bem. Atrai-a para a varanda, fiquei conversando sobre filhos e partos com ela e acariciando-a. Ela se chegava mas, de vez em quando, circulava pela varanda, agachando-se e espremendo-se como se fosse urinar. Nada. Eram as contrações. E nesse seu vai-e-vem, entre afagos, papos e contrações, levamos mais de uma hora. Coloquei panos no chão para ela se aninhar e nada. Mais uma vez larguei de mão e, preocupado com o quintal úmido e a friagem da noite, fui tentar dormir. Que nada. Fiquei rolando na cama, sem querer fazer café e fumar tão cedo…

Quatro horas, me levantei e encontrei-a em baixo de uma touceira de capim Citronela (que ela escolhera durante o dia), no pé do muro, já com um filhote choromingando em busca de peito e sendo suavemente lambido. Que sensação gostosa… Mas o chão estava úmido e corri para buscar os panos rejeitados, colocando-os por baixo dela. Não reclamou, deitando-se no ninho mais enxuto. Busquei meus insumos de parteiro e o meu banquinho, molhei o umbigo do filhote com solução de alcool e tabaco (neto de fumante começa cedo!) e devolvi-o aos seus cuidados. Acendi um cigarro e antes de acabá-lo, veio o segundo. Ela curvou-se sobre o próprio corpo e, suavemente, foi lambendo o cordão umbilical do filho até que ele se libertasse da placenta, limpou-o todinho e depois o trouxe, com o focinho e a pata, para o meio das suas pernas. Incrível… Chorei na madrugada, diante de tanta sapiência instintiva. Tratei-lhe o umbigo e devolvi-o, focando de vez em quando para ver a sua busca chorosa por alimento. De repente, os dois se calaram (haviam encontrado o que buscavam) e eu, permaneci ali, tabageando no escuro e esperando mais. Nada. Apalpei-lhe a barriga e senti perfeitamento que havia um retardatário. Ela não veio e, mais tranquilo, fui fazer café e comer. Quando voltei, o atrazadinho nascera e já chorava atrás de peito. Ao me sentar no banquinho, Oiá se deitou de comprido e colocou a cabeça sobre o meu pé, como sempre fazia quando era pequena. E eu fiquei lá, até nascer o dia, acariciando-a e curtindo o seu descanso de parturiente exausta.

Subi para elaborar este post e, quando desci, já eram quatro, nascera mais um atrazadinho. Todos quatro machos. Todos negrinhos como a mãe, embora as patas e peitos brancos lembrem o pai. Inclusive um com o rabo cotó, igualzinho ao pai (quem puxa aos seus não degenera!). Fiquei lá corujando os netos, até que eles dormiram e a Oiá levantou-se e foi passear nos arredores, me olhando de vez em quando, como quem espera algo. Lembrei-me da sua fome e sede e acertei: comeu e bebeu à farta e então deitou-se nos arredores da ninhada…

Engraçado: ela, que tem nome afro, por pouco não pariu no dia de Iemanjá (questão de quatro horas à mais). Mas é domingo, e domingo é um bom dia para ganhar netos.

Bom fim de semana a todos…

Anúncios

domingo, 3 fevereiro, 2013 - Posted by | Comentário | , ,

6 Comentários »

  1. Fico feliz que deu tudo certo! E a ninhada foi pouca pra Labrador, normalmente são 6! 🙂
    Só não peço um porque não tenho mais espaço! rsrs

    Comentário por Ricardo Henrique de Miranda | segunda-feira, 4 fevereiro, 2013

  2. Que legal!!! Muito bom o post.
    Estamos lhe aguardando para ‘papearmos’ sobre este e outros assuntos. Bjs

    Comentário por emilia | segunda-feira, 4 fevereiro, 2013

  3. Até que enfim, os pretinhos nasceram e eu errei na conta, achei que eram 5. Que bom que está tudo bem.

    Comentário por Mariceli Campos | terça-feira, 5 fevereiro, 2013

  4. E eu acertei. Portanto, ganhei a aposta.

    ________________________________

    Comentário por Henrique Miranda | quarta-feira, 6 fevereiro, 2013

  5. Que aposta?????

    Comentário por Mariceli Campos | quinta-feira, 7 fevereiro, 2013

  6. Se vc no se lembra, porque no vale a pena…

    ________________________________

    Comentário por Henrique Miranda | domingo, 10 fevereiro, 2013


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: