Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Estrelas do mundo…

Pela navegante Heloísa Miranda

Viajar pra um país que fala outro idioma, por mais que você o conheça, é um desafio. Ir para um lugar em que se fala algo que não se parece com NADA, é coisa de doido, como dizem meus amigos.

Desde o começo, quando não falava nada de turco, eu já gostava de sair para lugares bem aleatórios, e numa dessas resolvi ir a uma galeria, que era do outro lado da cidade, motivo pelo qual nenhum dos meus doze companheiros que dividiam o apê não quiseram ir comigo…

Não me deixei abalar e peguei o metrô em Beşevler, trocando de estação em Kızılay e descendo em Akköpru. Saindo da estação, eu pegaria um ônibus que me deixaria bem perto. Deu tudo certo, cheguei lá. O problema foi a volta…

Fui andando pra descobrir aonde pegava o ônibus para voltar e, quando cansei, resolvi perguntar. Tinha muita gente passando e todo mundo ficava me olhando, mas absolutamente ninguém parava, talvez porque eu era só uma yabancı (estrangeira, em turco) louca falando em inglês num bairro nada turístico.

Até que eu vejo uma mão segurando com força meu braço, pensei logo “fodeu, fiz algo errado”. Quando eu olhei, era uma senhora de uns 50 anos, gordinha, daquelas que se cobrem e usam véu mesmo no calor de 45ºC. Quando fui perguntar se ela podia me informar aonde era o ponto de ônibus, a turca começou a falar tanto, mas tanto, que deu vontade de chorar de desespero, por não entender nada. De repente, ela sacou o celular e começou a falar. Eu só entendi o Oi e ela falando “Allah” milhões de vezes. De repente ela me passou o celular e do outro lado foi como se Alá estivesse falando comigo, minha salvação! Um rapaz com um inglês perfeito, falando bem tranquilo, perguntou para onde eu queria ir.

Eu disse que queria ir para o metrô e pegar o trem até minha casa, em Beşevler. Ele só disse “ok, vou instruir minha irmã” e mandou eu passar para a turca, que começou a falar sem parar, de novo.

Quando desligou o telefone, ela olhou pra mim, disse algo, parou um taxi e mandou eu entrar com ela. Como pior do que estava minha situação não ia dar pra ficar, eu entrei. Ela foi “conversando” comigo o trajeto todo, de uns 20 minutos. Quando eu percebi, estava no meio do meu caminho, em Kızılay! Tentei dar umas 15 liras pra ajudar, mas ela não quis.  Ela abriu minha porta e eu anotei o som que ela disse: “Allah sizi korumak!”, que descobri depois que era “Alá te proteja”. E protegeu mesmo…

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NOTA: A Heloísa é minha neta, aprendiz de jornalista em Recife e que parece ter herdado o instinto andarilho do avô. Ela viveu a experiência relatada acima no ano passado, quando optou por um intercâmbio estudantil na Turquia, desconhecendo o idioma nacional. Conheci o fato durante minha estadia no último Carnaval pernanbucano e, por admirar a solidariedade em todas as suas formas, por sempre ter defendido os povos árabes em sua luta contra a dominação e os preconceitos ocidentais imperialistas e por me comover com a atitude da mulher árabe, pedi a ela que me enviasse um relato para compartilhar com vocês. Valeu a pena. Valeu por demonstrar que os pretensos povos “selvagens terroristas”, são tão ou mais humanos que os “democráticos e civilizados”. Valeu pelo aprendizado da minha neta sobre o lado bom da humanidade, mesmos nos espaços mais inesperados e em culturas ideologicamente estigmatizadas.

Na vida da minha neta, apareceu uma estrela-guia no momento em que ela precisou. Uma estrela gordinha, conversadeira e de turbante. Adoro pensar que Alá, sabendo do que sou e do que faço, retribuiu-me a singela (mas sincera) defesa que sempre faço do seu povo. Obrigado, Alá… E que o Deus Universal a proteja sempre, gordinha estrela de turbante…

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quarta-feira, 6 março, 2013 - Posted by | Comentário, Repassando... | , ,

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