Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Ser ou não Ser?… Que questão…

Em minhas madrugadas insones, muitas vezes descubro coisas interessantes. Não só por estar acordado, mas porque os canais televisivos escolhem estes períodos de menor audiência para veicular temas, personagens e fatos carentes de IBOPE, por fugirem da mesmice imbecilizante dos Encontro, Mais Você, Xou da Xuxa, Caldeirão, Brasil Urgente e outros que tais. Daí que tenho visto ótimas entrevistas e documentários profundos de intelectuais variados como Leandro Karnal, Domenico De Masi, Luis Felipe Pondé, entre tantos outros.

Nesta madrugada, foquei-me no Pondé, em uma entrevista antiga do Canal Livre, veiculada pelo Canal Terra, pela segunda ou terceira vez. Só esta veiculação insistente por um canal do agronegócio já é suspeita de um pretenso conservadorismo do filósofo pernambucano. Mas entendo a insistência valorativa: Pondé, por ser crítico livre, quase anárquico, das coisas do mundo, vagueia pelos extremos ideológicos das sociedades contemporâneas, atirando certeiramente nos flancos vulneráveis dos sistemas sociais de qualquer natureza. E, por sua profundidade filosófica radical, muitas vezes não é lido (ou ouvido) corretamente, sofrendo por isto enquadramentos pejorativos (e/ou oportunistas) dos extremos ideológicos vigentes e persistentes. No caso da entrevista citada, tudo leva a crer que o apoio insistente do Canal Terra deve-se ao fato de sua abordagem central ter sido o “coitadismo“, conceito hoje predominante nos movimentos sociais e que transforma em vítimas inocentes do sistema hegemônico todos aqueles que não conseguem ascender socialmente. E vai mais fundo: desanca o argumento dos intelectuais de esquerda  de que há uma dívida histórica a ser resgatada e que justifica todas as vitimizações, incluindo aí até mesmo a criminalidade reinante.

Bem, em relação ao interessante conceito do coitadismo, há um radicalismo divergente (ambivalente?) de leitura entre a esquerda e a direita política: os conservadores gostaram por ver nos seus argumentos o que sempre sibilaram: pobre se faz de coitadinho para viver a custa dos outros; a esquerda odiou por culpar os pobres pela miséria, justificando à direita o preconceito oportunista para combater políticas públicas de natureza social.

Em verdade, cabe uma leitura bem menos radical ideologicamente. Ele discorda do coitadismo radical que prega a inocência integral dos marginalizados e da tal da dívida histórica que, pelo jeito, nunca será paga. Discorda ainda dos argumentos de inocência do capitalismo selvagem. Mas concorda com as políticas sociais de resgate da pobreza (como os atuais programas federais), desde que elas sejam finitas, através da criação de oportunidades objetivas e emancipatórias de educação, trabalho e renda. Diz mais: até mesmo em países desenvolvidos, como a Inglaterra, há famílias que não trabalham há três gerações, acomodando-se nas políticas de bem-estar social do Estado. E vai mais fundo: políticas puramente assistencialistas, não só não resolvem o problema como podem reduzir a auto-estima dos beneficiários, criando um estado letárgico de impotência pessoal e social.

Em assim enxergando, o Pondé entra na minha lista de autores a curtir, começando por seu último livro, recém-lançado, “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” (2012). E como aperitivo, degusto uma reflexão profunda e atual dele: “Sem   hipocrisia não há civilização, e isso é a prova de que somos desgraçados:   precisamos da falta de caráter como cimento da vida coletiva”.

E para vocês que ainda não conhecem este cara polêmico  e quase anárquico (por que livre pensador), deixo abaixo uma de suas reflexões publicadas em colunas jornalísticas.

Boa leitura…
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O terror da ambivalência (27.05.2013)

                       

Você esconderia judeus em sua casa durante a França ocupada pelos nazistas? Não, não precisa responder em voz alta. Melhor assim, para não passarmos a vergonha de ouvirmos nossas mentiras quando na realidade a janta, o bom emprego e a normalidade do cotidiano sempre valeram mais do que qualquer vida humana. Passado o terror, todos viramos corajosos e éticos.

Anos atrás, enquanto eu esperava um trem na estação de Lille, na França, para voltar para Paris, onde morava na época -ainda bem que tinha minha família comigo porque Paris é uma cidade hostil-, li a resenha de um livro inesquecível na revista “Nouvel Observateur”. Nunca li esse livro, nem lembro seu nome, mas a resenha era promissora. Entrevistas com filhos e filhas de pessoas que esconderam judeus em casa durante a Segunda Guerra davam depoimentos de como se sentiram quando crianças diante dos atos de coragem de seus pais e suas mães.

A verdade é que essas crianças detestavam o ato de bravura de seus pais. Sentiam (com razão?) que não eram amados pelos pais, que preferiam pôr em risco a vida deles a protegê-los, recusando-se a obedecer a ordem: quem salvar judeus morre com eles. Podemos “desculpar” as crianças dizendo que eram crianças. Nem tanto. Adolescentes também sentiam o mesmo abandono por parte dos pais corajosos. Cônjuges idem.

Está justificada a covardia em nome do amor familiar? Nem tanto, mas deve-se escolher um estranho em detrimento de um filho assustado? Tampouco dizer que os covardes também seriam vítimas vale, porque o que caracteriza a coragem é exatamente não se deixar fazer de vítima — coisa hoje na moda, isto é, se fazer de vítima.

Não foi muito diferente aqui no Brasil durante a ditadura, guardando-se, claro, as diferenças de dimensão do massacre. No entanto, não me interessa hoje essa questão da falsa ética quando o risco já passou — a moral de bravatas. Mas sim a ambivalência insuportável que uma situação como essa desvela, na sua forma mais aguda.

Ou meu pai me ama ou ama o judeu escondido em minha casa, ou, ele me ama, mas não consegue dormir com a ideia de que não salvou alguém que considerava vítima de uma injustiça, e por isso me põe em risco. Eis a razão mais comum dada por esses pais, quando indagados, da razão de pôr em risco sua vida e família: “Não conseguia fazer diferente”. Mas a ambivalência da vida não se resume a casos agudos como esses.

Freud descreveu os sentimentos ambivalentes da criança para com o pai no complexo de Édipo: amo meu pai, mas quero também me livrar dele, e também sinto culpa por sentir vontade de me livrar dele. Independente de crer ou não em Freud plenamente (sou bastante freudiano no modo de ver o mundo, e Freud foi o primeiro objeto de estudo sistemático em minha vida), a ambivalência aí descrita serve como matriz para o resto da vida.

Os pais amam os filhos (nem sempre), mas ao mesmo tempo ter filhos limita a vida num tanto de coisas (e hoje em dia muita mulher deixa para ser mãe aos 40 por conta deste medo, o que é péssimo porque a mulher biologicamente deve ser mãe antes dos 35). Apesar dos gastos intermináveis, no horizonte jaz o possível abandono na velhice por parte destes mesmos filhos “tão” amados.

Mas, ao mesmo tempo, não ter filhos pode ser uma chance enorme para você envelhecer como um adulto infantil que tem toda sua vida ao redor de suas pequenas misérias narcísicas.

Casamento é a melhor forma de deixar de querer transar com alguém devido ao esmagamento do desejo pela lista infinita de obrigações que assola homens e mulheres, dissolvendo a libido nos cálculos da previdência privada.

Mas, ao mesmo tempo, a liberdade deliciosa de transar com quem quiser (ficar solteiro), com o tempo, facilmente fará de você uma paquita velha ridícula sozinha que confunde pagar por sexo com um homem mais jovem com emancipação feminina. E, no caso do homem, o tiozão babão espreita a porta.

E, também, terá razão quem disser que mesmo casando você poderá vir a ser uma paquita velha ou um tiozão babão.

Quantas ambivalências espera você nessa semana?

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 27.05.2012)

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quarta-feira, 29 maio, 2013 - Posted by | Comentário, Repassando... | , , ,

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