Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Perdoa-me por partires…

GE DIGITAL CAMERAFazia-me um profundo bem senti-la, no nascer e/ou no fim de cada dia, deitada entre os meus pés e repousando sua cabeça sobre eles, em momentos tão deliciosamente silenciosos e  prenhes de camaradagem. Adorava vê-la ao pé-da-porta da cozinha, ao amanhecer, aguardando-me e me presenteando com aquele olhar profundo, meigo e inocente de bom-dia. Abrir a porta do quintal, vê-la fiscalizar e demarcar o território com seus cheiros e resíduos, para depois descrever um longo círculo até a mim, sentado em meio às minhas fumaças de tabagista inveterado. Você era uma criança curiosa, mas tímida, impetuosa , mas obediente, ensimesmada mas também brincalhona. Passava horas vendo-a brigar com uma palhada de açaizeiro, descascar um coco com os dentes, comer lenta e cuidadosamente uma manga catada nos arredores. Em sua infância e adolescência, compartilhamos momentos indescritíveis de companheirismo e monólogos meus para os seus ouvidos atentos e seu olhar cúmplice… Algumas vezes brigávamos, mas tudo era rapidamente esquecido, como entre pais e filhos.

Então, você engravidou, e eu me enchi de mais cuidados e carinhos, curtindo antecipadamente os “netos” e sua postura mais sóbria e calma. Conversávamos sobre isto todos os dias, eu sentado em meu banquinho-filosofal e você descansando sobre as patas traseiras e me olhando, me olhando no fundo dos olhos, como se entendesse tudo…

Veio, enfim, o parto, nós dois juntos em meio a grama da madrugada úmida (que você teimosamente escolheu  para parir seus quatro filhos, pretinhos e esfomeados), trouxemos eles à luz.. Nunca fomos tão amorosos e parceiros como nestes dias. Como que adivinhando minha corujice de avô, você não esboçava qualquer defesa quando eu os pegava, apenas ficava do lado, cuidadosa e observadora. E eu passava horas observando seu comportamento materno equilibrado: amamentava-os e se postava longe do ninho, vigiando o sono interminável dos filhos, só se achegando na hora de novamente alimentá-los. E suas ações de higiene, hein? Comia integralmente as fezes dos pimpolhos e ainda lhes lambia a bunda, como uma mãe desvelada faria. Ninguém lhe ensinou isto, mas você sabia…

E veio o primeiro trauma. O meu carinho transferiu-se para os filhotes e eu ralhava quando você disputava com eles o espaço de afagos em meio às minhas pernas. Mas era só o começo: quando tirei-lhe o primeiro filhote para doar, você me seguiu sem alardes até à grade da porta, calada ficando quando parti no carro. Mas quando voltei, você havia escondido os três restantes e, deitada sobre eles, me fitava  silenciosamente. Era sua forma de demonstrar o seu medo e agonia de mãe espoliada. E, também silenciosamente, perdeu mais dois filhotes para o mundo, cuidando, desveladamente, do último que lhe restou…

E então, de repente, não mais que de repente, tudo mudou para ainda pior. Com a compra do terreno rural e com o acirramento das minhas ações profissionais, não tive mais tempo para ser o companheiro de antes. Os passeios diários tornaram-se ocasionais. Os banhos de igarapés acabaram, até mesmo os banhos semanais passaram a outras mãos. A varanda, antes um refúgio comum, tornou-se território proibido. Filhotes de pato ocuparam a sua área de passeio, confinando-a ao cárcere do abrigo coberto, mas restrito. Até mesmo as deliciosas comidas de panela foram negadas, em nome do excesso de peso e dos efeitos sobre os filhotes. Foi-se a liberdade, as caminhadas, os encontros à beira do lago, os bate-papos do banquinho filosofal. Foi-se o prazer da vida companheira…
E você passou a se fechar no escuro do abrigo, a não atender os meus chamados à beira-da-cerca, seus olhares passaram a ser mais tristes e mais indagativos… E eu, envolvido nas minhas coisas pragmáticas, percebi as suas mudanças, mas não fui capaz de retomar a postura original.

Até o blog perdeu a atenção minha, mas blog não sente, não chora, não fica deprimido…

E você não choromingou, não alardeou latidos indignados, mas começou a fugir para a rua e a desobedecer meus comandos durante os nossos raros passeios. Tornou-se uma fugitiva persistente e astuciosa. E nossa relação azedou de vez…

E eu cansei de procurá-la, trazê-la de volta e ralhar com você. Até que após sua última fuga (há três dias atrás), não mais a busquei e você não voltou. Passei três dias indignado, puto da vida com você… Mas os dias me fizeram refletir e eu pude ver, de forma cristalina, as minhas culpas.

Por isso estou me sentindo um nécio e entendo a sua fuga sem retorno. Você tem razão. Você era feliz e eu não fui capaz de mantê-la assim. E a rua tornou-se o espaço da sua nova busca da felicidade perdida. Eu entendo, Oyá. Entendo tanto que, se você voltasse, provavelmente eu não a aceitaria. Não por você, mas por minhas limitações em lhe devolver o paraíso perdido. Provavelmente, procuraria um novo e bom companheiro pra você, mas não conseguiria vê-la todos os dias deprimida e fujona.

Perdoe-me amiga. Embora você não acredite mais, eu a amo…

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terça-feira, 11 junho, 2013 - Posted by | Comentário | ,

1 Comentário »

  1. Que bom que você sacou o sofrimento de um ser destroçado. Pela metade da leitura, pensei em te dizer para usares novamente o rádio e assim poderes encontrá-la, porém ao avançar na leitura prefiro ficar calada e respeitar a tua decisão.

    Comentário por Mariceli Campos | quinta-feira, 13 junho, 2013


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