Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Médicos: o que falta é vergonha corporativa e engajamento social…

Em meio à desfaçatez moral da classe médica nacional, em boicotar as propostas do plano governamental para a saúde nos cafundós, assisti ontem, no telejornal da Bandeirantes, uma bem sucedida experiência médica voluntária (via ONG, empresariado, FAB e governos locais), para atendimento à população ribeirinha e pobre, espalhada em inúmeros rios e igarapés da Amazônia Brasileira. Instalações? Rústicas, simples e funcionais, com espaços e médicos para atendimentos em pediatria, clínica geral, odontologia e cirurgias (inclusive de catarata). Remédios e aparelhos médicos básicos? O necessário, com transporte assegurado pela Força Aérea Brasileira. Deslocamentos no interior? Barcos e lanchas eficientes e sem luxo. Clientela? Aos montes, chegando em pequenas embarcações por todos os lados. Caboclos, indígenas, brancos e negros, pessoas que nunca, ou quase nunca, tiveram a oportunidade de realizar uma consulta. Motivação? Idealismo, comprometimento social, vontade de servir e aprender.

Ver um jovem odontólogo, sorrindo, mostrar o papel em que tinha anotado as palavras indígenas abre a boca, fecha a boca (e outras mais) para poder atender os índios locais, mostrou que médico não precisa ser poliglota para clinicar em qualquer lugar.

Ver cirurgias em galpões improvisados (o que não significa falta de higiene), no meio da mata, lembrou-me porque a medicina cubana é tão boa, por ter-se iniciado em plena guerrilha de Sierra Maestra (com o velho Che), operando e curando nas piores condições: as da guerra.

Vendo os atendimentos preventivos em saúde (coisas simples, cuidados do dia-a-dia), lembrou-me também porque a medicina cubana seria tão importante nos nossos cafundós: a ênfase na saúde preventiva para minimizar a medicina curativa.  Além da visão social que desmercantiliza o atendimento médico.

Ouvir de um dos médicos mais velhos da equipe que “aqui estamos aprendendo medicina em condições naturais“, ouvir e perceber dos moradores a satisfação com os serviços, deixou-me a profunda impressão de que ainda resta uma esperança na questão da saúde nacional. Ver profissionais já veteranos, junto com jovens médicos em formação, tão perto dos amazõnidas desvalidos e tão longe da modernidade de vida obssessivamente perseguida pelos doutores deste país, reforça a minha fé de que é possível melhorar a saúde nacional, a saúde de todos e para todos.

Com a palavra, os doutos que exigem condições de vida e trabalho de primeiro mundo, em um país que está longe de sê-lo e que não o será se eles, entre tantos outros profissionais, não criarem vergonha na cara e ouvirem as ruas e os desvalidos históricos.

Bem à caráter neste momento, repasso a reflexão que Fidel Castro fêz a 16 anos atrás:

Nós mal havíamos começado a pensar na Revolução e ainda no Moncada já estávamos falando dos serviços de saúde, e quando estávamos na Serra Maestra já prestávamos serviços de saúde a toda população com que tínhamos contato, desde os médicos, dentistas e enfermeiros que se incorporavam ao movimento. Isso deve ser uma convicção, um dever elementar dos revolucionários. Mas não somente do ponto de vista moral, também na prática política. Devemos dedicar mais atenção, mais recursos materiais e humanos aos serviços de saúde.”

Discurso pronunciado por Fidel Castro

no encerramento do VI Seminário internacional de Atenção Primária em Saúde,

em 28 de Novembro de 1997.

Toda esta introdução, amigos, foi apenas para apresentar o post abaixo, sobre o aberto e vergonhoso boicote que a classe médica brasileira está articulando contra o plano de contratar médicos estrangeiros para os cafundós e contra a ampliação da duração do curso de Medicina, a partir de 2015.

Boa leitura e boa reflexão a todos vocês…
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Publicado em 17/07/2013

PML: os médicos, o veneno e a doença

Depois de envenenar o debate, os médicos dizem que o plano está doente.

O Conversa Afiada reproduz artigo do Paulo Moreira Leite, do Blog do Miro.

Os médicos, o veneno e a doença

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:
Já escrevi aqui que o debate sobre o projeto Mais Médicos tem sido embaralhado por dados falsos e visões preconceituosas.
Nestas horas, o melhor a fazer é procurar informações consolidadas.
Muitos desses dados podem ser encontrados num levantamento conhecido como demografia médica, atualizado todos os anos pelo Conselho Federal de Medicina.
Este link contém dados que se referem a dezembro de 2011. Você pode encontrar o levantamento de 2012 na internet.
Mas o de 2011 é mais instrutivo porque traça um levantamento completo dos médicos brasileiros. Fala das formaturas, ano após ano. Fala de sua distribuição, estado por estado.
O levantamento mostra que o número de médicos no setor privado cresce numa velocidade maior do que no setor público. Você sabe quais são as implicações disso num país onde a maioria da população se utiliza de serviços públicos. É matemática traduzida para o comportamento: filas enormes, mau atendimento, equipamento sucateado.
Em regiões mais pobres, o contraste é ainda maior. O próprio levantamento do Conselho Federal de Medicina se encarrega de mostrar o tamanho dessa diferença, comparando Rio de Janeiro e Bahia.
No Rio, o serviço privado oferece 5,9 médicos por 1.000 habitantes. Já o setor público oferece 3,6 por 1.000. Na Bahia, o setor privado oferece 15,1 postos por 1.000. Já o setor público oferece 1,2 por 1.000.
Em outra comparação, o Conselho Federal mostra o tamanho dos gastos públicos nos países com sistemas universais consolidados. No Reino Unido, os gastos públicos respondem por 83%. Na França, por 76%. Na Alemanha, 75% e assim por diante.
No Brasil, o serviço público, que precisa cobrir perto de dois terços da população, recebe 45% do total destinado à saúde. A outra parcela, destinada àquele um terço que reside no topo da pirâmide, recebe mais da metade dos recursos de saúde. Os gastos privados com saúde, como se sabe, são 100% dedutíveis do imposto de renda.
Isso explica – agora é minha opinião – dois problemas conhecidos: o estrangulamento progressivo do serviço público e a asfixia do orçamento da classe media com seus planos de saúde, que vão se tornando impagáveis na medida em que o cliente necessita deles de verdade.
Quem presta atenção nos dados globais pode concluir que se aplica ao Brasil uma situação semelhante à que ocorre no debate sobre o plano de saúde de Barack Obama nos Estados Unidos. Claro que há diferenças imensas entre os dois casos. Mas, no plano das ideias políticas, ocorreu, lá, um confronto semelhante ao que se passa aqui.
Comentando o conflito político entre Barack Obama e a oposição republicana, o jornal US Today afirmou em editorial: “Depois de envenenar o debate, os republicanos dizem que o plano está doente.”
O jornal se refere ao comportamento republicano de denunciar o intervencionismo estatal – chamado de fascismo, segundo línguas mais delirantes – para combater a proposta de Obama. Criaram vários problemas para impedir o sucesso do plano nas votações no Congresso e, depois, argumentam que não pode funcionar – por causa dessas modificações.
O veneno destilado no Brasil teve origem na oposição e também envolvia o papel do Estado.
Começou em 2007, na campanha pelo fim da CPMF, taxa que privou a saúde pública de algo como R$ 20 bilhões anuais. (A CPMF arrecadava o dobro disso, mas pelo menos a metade era destinada aos fins devidos).
Mais tarde, quando ficou claro que faltava dinheiro para equipar hospitais e postos de atendimento, para equipamentos de exame e outras benfeitorias, os sábios de plantão lançaram a teoria de que o problema não era falta de dinheiro – mas falta de boa gestão.
Em 2013, seis anos depois do fim da CPMF, quando se verificou que a gestão até pode produzir resultados mas não faz milagres, o debate mudou.
Diante da proposta de contratar milhares de médicos, inclusive no exterior, para levar aos pontos pobres do país, aqueles onde a média da rede pública é menos que 10% da privada, a oposição reclama: cadê os equipamentos? Cadê os hospitais?
É muito veneno, vamos combinar.

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quinta-feira, 18 julho, 2013 - Posted by | Comentário, Repassando... | , ,

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