Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Quixote em depressão…

Hoje, eu acordei melancólico. Não com saudades do que fui, mas com a tristeza e receio do que eu, provavelmente, não poderei ser. Com a tristeza de olhar o ninho vazio do sabiá, na minha varanda, sentir que nunca mais o verei alimentar os filhotes que voaram e que nunca mais ouvirei seu cantos nas madrugadas. Com a melancolia de  quem está no leito de morte, sentindo que nunca mais terá tempo de falar do seu amor a quem deveria, ou ouvir dele as coisas que quase nunca foram ditas. Sem mais nem menos, no silêncio da madrugada, esperando o amanhecer para ir ao sítio, senti a inutilidade do meu sonho de construir o recanto natural que talvez nunca veja produzindo e pleno de beleza. Olhando a barra do dia pela janela, escondido do frio em meus lençóis, senti a finitude das minhas madrugadas futuras me tocaiando no silêncio da noite. Senti a inutilidade do plantar que não verei produzir em maturidade, das árvores que não sombrearão minha velhice, das águas que não me banharão em fins de tarde. Senti aflorar na alma a angústia de já ser muito velho para alimentar sonhos longevos…
A Preta chorou lá embaixo a minha presença e fiquei a imaginar como será a sua vida sem mim, ou a minha vida sem ela e os seus ciumes…
Enfim, uma madrugada barra-pesada a chafurdar meu quixotismo atávico.

Não tenho filhos de natureza cabocla e suas vocações urbanas não lhes permitirá manter o sítio herdado. Tenho uma mulher urbana que indica a mesma dificuldade. E fico a imaginar as minha árvores sem meus familiares, sem meus netos, bisnetos e etc., esquecidas ou deitadas pelos interesses do mercado. E, provavelmente, morrerei antes que surja um neto rebelde que resolva ser um camponês.

Enfim, passei o resto da madrugada e do dia nesta melancolia, à espera de que Sancho e Dulcinéia voltem a sussurrar nos meus ouvidos:

“Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.”

J. Darion – M. Leigh – Versão Chico Buarque e Ruy Guerra/1972
Para o musical para O Homem de La Mancha de Ruy Guerra

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sábado, 22 fevereiro, 2014 - Posted by | Comentário, Crônica | , ,

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