Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Zinha no tamanho, gigante na alma…

Quem se lembra da primeira metade do século passado, quando jovens ruricolas pobres iam morar na cidade, em casas de pessoas melhor aquinhoadas, ajudando nas atividades da moradia em troca de casa, comida e estudo? Pois então: a Zinha, que conheci já madura, casada e mãe de filhos, era uma destas jovens. Chegou meninota (sete anos), ajudou a criar os filhos do casal e o fez com tanto desvelo e carinho que se tornou uma pessoa da família, inclusive recebendo o sobrenome do chefe da casa. Só saiu para se casar e formar sua própria família, mas sempre manteve a relação com as crianças que ajudou a criar e desde sempre, foi considerada por eles como uma segunda mãe. Sempre visitada e querida. Tão querida que ganhou uma casa da família, além dos mimos e amizade. E ela se sentia tão da família que se envolvia com os filhos dos seus “filhos”. Eu a conheci nesta época e aprendi a respeitá-la por sua profunda capacidade de amar as pessoas e sua coragem diante da vida e da viuvez, criando três filhos próprios bem criados, apesar das inseguranças do bairro perigoso onde morava. Miudinha, sem muitas palavras, sem muitos sorrisos, mas sempre ali, contando histórias de vida e convivendo à antiga, normalmente em lanches compartilhados na mesa de jantar…

Pois é. Há cerca de dois meses, uma doença avassaladora e incurável lhe foi anunciada, entristecendo a todos. Nada a fazer, senão poupar-lhe sofrimentos e proporcionar as suas últimas vontades. E assim ela veio me visitar com “filhas” e neto, visitamos o sítio, ela foi rever o irmão que não via há tempos e, apesar de desenganada, quis fazer o tratamento médico. Em vão. Na madrugada de hoje, minha amiga Zinha se foi. Lúcida e sem querer morrer… Não vou estar no velório, mas meu coração está apertado, pensando naqueles 79 anos de solidariedade, persistência e coragem silenciosa, que agora se foi para o outro lado do caminho.

Zinha: no dia da sua visita ao meu sítio, eu lhe dei uma flor de Titônia (um pequeno girassol). Girassol que neste momento me lembrou um caboclo gito que nem você e com uma alma tão grande quanto a sua e que disse:

“Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito 
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.”

Você foi, em vida, um luminoso girassol para aqueles que a rodeavam. E eu, um amigo tardio, hoje só posso lhe ofertar as flores do pequeno jardim que estou formando lá no sítio, e que passo hoje a chamar de Cantinho da Zinha. Sempre que olhá-lo, me lembrarei de você, amiga.

Vá em paz, parceira. Descanse muito, para compensar toda a sua vida de trabalho e entrega. Deus a abençoe…

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sexta-feira, 2 maio, 2014 - Posted by | Comentário, Obituário | ,

3 Comentários »

  1. Muito linda essa história.

    Comentário por Emília | sexta-feira, 2 maio, 2014

  2. Muito lindo! Amo sua sensibilidade. Só os grandes corações conseguem perceber as sutilezas humanas!
    Um abraço
    Linney

    Comentário por Linney Dias | sexta-feira, 2 maio, 2014

  3. Linney e Emília,
    Obrigado por terem gostado. Quando escrevo essas coisas,, nestes momentos de tristeza ou angústia, é como lavar minha alma da angústia, expurgar a as amarguras e resilienciar o espírito para as tristezas vindouras. E me sinto menos triste quando pessoas como vcs se identificam com meus desabafos existenciais,
    Bom domingo, um grande e fraterno abraço e continuem conosco.

    Comentário por Henrique Miranda | domingo, 4 maio, 2014


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