Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Da Caatinga ao Saara, boas raízes são fundamentais à Vida…

ariano SuassunaDesde a morte do Ariano Suassuna, tenho me lembrado muito da vida nordestina sertaneja à qual ele sempre me remetia quando de suas entrevistas. Aquele sotaque, aquela ironia galhofeira, aquelas histórias de beira-de-fogueiras e varandas, sempre me ressuscitavam a infância desapercebidamente feliz no ambiente tão polarizado da caatinga: hora verde e cheia de cantos e perfumes, hora tão seca, escaldante e silenciosa. Vida minha cuja adversidade ambiental nunca me animou a regressar em definitivo, mas que também nunca se desgrudou das minhas saudades, dos desejos intermitentes de regressar para passeios e revivências da minha alma.
E neste estado de espírito, recebi do meu velho amigo Germer, relato de uma entrevista de um Tuareg, habitante do deserto, revivendo sua história no Saara, suas lembranças, mudanças e saudades, agora que é uma estudante na França.
Sei lá, mas lendo o relato e guardadas as devidas proporções, foi como se eu vestisse o seu turbante azul. Tudo muito parecido… Senti-me sentado com ele na sombra da saudade e no calor das revivências, resgatando a alma que teima em não se perder nas modernidades.
Por isso, resolvi repassar o relato a vocês. E como é anônimo (tanto o entrevistado quanto o entrevistador e o relato) tomei a liberdade de condensar o relato ao meu modo, ordenando-o ao meu gosto literário, embora respeitando o texto original.
Espero que gostem…
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 TUAREGNão sei ao certo a  minha idade. Nasci no deserto do Saara, sem documentos. Nasci num acampamento de nômades entre Timbuctu e Gao, ao norte de Mali. Sou da etnia Amasigh (berbere) e do grupo Tuareg, palavra que significa “abandonados“, por sermos um velho povo nômade do deserto, solitário e orgulhoso. Ao todo e espalhados, somos uns três milhões de pessoas e a maioria permanece nômade. Senhores do Deserto, é como nos chamam. Ou Homens Azuis, graças à cor azul dos nossos turbantes, que representa para nós a cor do mundo, a cor do céu, do teto da nossa casa. Além disso, os turbantes são tingidos com uma planta chamada índigo, mesclada com outros pigmentos naturais e como o tecido solta alguma tinta, a nossa pele adquire tons azulados, reforçando a denominação de Homens Azuis.

Aos sete anos, já permitiam afastar-me do acampamento, para que aprendesse coisas importantes: farejar o ar, escutar, apurar a vista, orientar-me pelo sol e pelas estrelas, deixar-me levar pelo camelo (pois se te perderes, ele te levará onde há água). Despertava com a luz do sol e ali estavam as cabras do meu pai. Elas nos davam leite e carne. Nós as levávamos onde havia água e pasto, assim como fizeram meus avós. Não havia outra coisa no mundo além disso. E eu era feliz assim… Guardávamos rebanhos de camelos, cabras, cordeiros, vacas e asnos, num reino de imensidão e silêncios. Quando se estava sozinho naquele silêncio, ouvia-se o batimento do próprio coração. Não havia lugar melhor para se estar sozinho… Existiam muito poucas coisas e cada uma tinha um valor enorme. Cada pequena coisa te proporcionava felicidade. Cada toque era valorizado. Sentíamos uma enorme alegria pelo simples fato de nps tocarmos e estarmos juntos. Ali, ninguém sonhava com chegar a ser, porque cada um já era.

Algum tempo após, passou pelo nosso acampamento o Rally Paris-Dakar e uma jornalista deixou cair um livro de sua mochila. Eu o apanhei, devolvi-o, mas ela me deu de volta. Era um exemplar do Pequeno Príncipe e eu prometi a mim mesmo que um dia conseguiria lê-lo. Convenci meu pai a me deixar ir à escola. Quase todo dia caminhava 15 quilômetros. Até que um dia o professor me arranjou um lugar para dormir e uma senhora me dava de comer, quando eu passava em frente à sua casa. Entendi que essa ajuda vinha da minha mãe, que era tudo para mim. Ela morreu quando eu tinha 12 anos, mas contava-me histórias e ensinou-me a contá-las muito bem, ensinou-me a ser eu mesmo. E foi assim que consegui uma bolsa de estudos na França. Hoje estudo gestão na Universidade de Montpelier, sou solteiro, muçulmano (sem fanatismo) e defendo os pastores Tuaregs.

Em minha primeira viagem à Europa, o que mais me chocou foi ver as pessoas correndo pelo aeroporto. Assustei-me, claro, pois no deserto só se corre quando vem uma tempestade de areia. Também vi cartazes de mulheres nuas e me perguntei: _ Porque essa falta de respeito para com a mulher? Vi no Hotel Íbis  a primeira torneira da minha vida, vi a água correndo e senti vontade de chorar… Todos os dias da minha vida consistiam em procurar água e, quando vejo as fontes ornamentais aqui e acolá, continuo sentindo uma dor muito intensa…

Do que mais sinto falta é do leite de camela, do calor da fogueira e de andar com os pés descalços na areia quente. E de olhar as estrelas todas as noites e cada estrela diferente das outras, como cada cabra é diferente.

Aqui, à noite, vocês vêm TV. Vocês têm tudo, mas não acham nada suficiente. Vocês queixam-se de tudo, Na França,, passam o dia reclamando! Aprisionam-se para o resto da vida a uma dívida bancária, num desejo de possuir tudo rapidamente…

No deserto não há congestionamento, sabe porquê? Porque lá ninguém quer ultrapassar ninguém! Todo dia, duas horas antes do por-do-sol, a temperatura baixa, mas antes que chegue o frio, os homens e animais, lentamente, voltam ao acampamento. Entram todos na cabana, colocam o chá a ferver e sentam-se em silêncio a ouvir a ebulição. A calma invade a todos e os corações batem ao ritmo do barulho da fervura.

Aqui, vocês têm relógio. Lá, nós temos tempo

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segunda-feira, 4 agosto, 2014 - Posted by | Comentário, Repassando... | , , ,

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