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Para refrescar memórias frágeis e consciências inconsequentes…

A intervenção militar e o amor de Lígia

Estadão Conteúdo
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Lígia ouviu quando o neto chegou em casa. Conhecia muito bem aquele jeito estabanado de bater a porta, fazer alarde, tocar trombetas e anunciar a própria presença como se fosse algo extraordinário.

Se ainda pudesse falar, Lígia aconselharia o menino, diria que entrar e sair dos lugares em silêncio sempre foi um talento importante, uma questão de inteligência e sobrevivência.

Mas Bruno era de outra geração, muito mais ruidosa, muito mais “pra fora” do que “pra dentro”.

Estranho.

Embora também não enxergasse direito, Lígia era capaz de apostar que o neto estava enrolado em uma bandeira brasileira. Que orgulho! Finalmente, Bruno estaria despertando para uma consciência política, herança do avô e, sem falsa modéstia, dela própria.

Qual é a causa dos meninos de hoje? – perguntou-se Lígia.

E neste deleite de pensar no neto como uma continuação natural da sua própria alma, fechou os olhos e voltou no tempo. Voltou para um tempo em que a memória ainda é um filme em preto e branco.

Voltou para o dia em que conheceu Pedro.

Foi numa passeata da Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo. Lígia, tímida, carregava um cartaz simples, sem muita frescura, dizendo o básico: “abaixo a ditadura”.

Os policiais acompanhavam a manifestação de perto, meio que cercado, meio que intimidando os estudantes. Era um jogo de xadrez em que os dois lados estavam sedentos por chutar o tabuleiro.

E foi Pedro quem deu o primeiro chute.

Como uma maratonista olímpico, Pedro cruzou a barreira dos milicos e, sorrateiramente, deu um “pedala” no capacete de “um polícia”. Os estudantes foram ao delírio, aplausos e gritos de aprovação. Pedro tinha um troféu: o capacete do agente repressor.

A ação maluca de Pedro fez com um corre-corre caótico começasse naquela rua. Bombas de efeito moral, pedras e pedaços de pau cruzaram o céu daquela tarde quente. A cavalaria avançava sem dó – mas era engraçado ver os cavalos escorregando nas bolinhas de gude que a molecada atirava na via.

A polícia queria o menino com o capacete branco. Era uma questão de honra. Mas pedro corria demais. Um atleta nato. E foi nesta corrida que o destino operou um “atropelamento”.

Pedro tropeçou em Lígia e seu cartaz naïf.

Atordoada, Lígia ajudou Pedro a se recompor. Tudo muito rápido, tudo muito instintivo. Lígia sentiu o bafo quente dos homens da lei, mas aproveitou a aglomeração para puxar o garoto de capacete pelo braço e escapar com ele para dentro do bar do Zé.

Ficaram escondidos no banheiro. O dono do bar era amigo. Ali, eles estavam em segurança. Ali, puderam se olhar, se reconhecer e, quase que imediatamente, se apaixonar. A rua pegando fogo, o País em ebulição, o mundo virado no capeta e, vejam só, aquele casal encontrando uma brecha, um espaço de beleza e paz. Transaram. E nunca uma transa de banheiro foi tão intensa e bonita.

Lígia acordou do sonho com o neto enfiando um copo de leite frio em sua cara.

– Toma – disse seco.

Ela agradeceu com a cabeça, mas Bruno já estava entretido com o seu iPhone 6.

Lígia voltou para dentro dela e continuou assistindo o filme da própria vida.

Ela e Pedro não se largaram mais. No cotidiano universitário, nas festas animadas e, principalmente na luta contra a ditadura.

Primeiro, eles militaram no movimento estudantil, organizavam centros acadêmicos, shows de música brasileira e manifestações.

Não concordavam em tudo. Tinham formas diferentes de enxergar o futuro do País. A revolução começaria pelo campo ou pela cidade? Luta armada ou convencimento político? Maoismo? Cuba? Partidão? Beatles ou Rolling Stones? Ele tinha vaiado “Sabiá” no Festival. Ela achou “Sabiá” a música mais linda do mundo.

Eles ainda não haviam decidido pela luta armada quando um agente da polícia bateu na porta do apartamento em que moravam…

O som que Lígia ouvia agora não era do policial batendo na porta, mas seu neto gritando no celular.

– Você viu que a passeata bombou! Saiu em tudo o que é televisão. Cara, a gente tá foda. Vamos botar pra quebrar.

Lígia se distraiu mas sabia que precisava voltar para suas próprias memórias.

Ela e Pedro tinham “caído”. Sem muita conversa, foram levados para uma delegacia – mais especificamente para um porão escuro e úmido. Tapas na cara e chutes na barriga foram apenas um aperitivo macabro.

Quando Lígia acordou de um desmaio, Pedro já estava pendurado de cabeça pra baixo, com as mãos e os pés amarrados.

Lígia foi obrigada a assistir o namorado tomando uma sequência inacreditável de choques elétricos na língua e no pau. Pedro não gritava. Os olhos encarnavam o medo, mas ele não gritava, não entregava os companheiros, não dava um pio.

Foi quando seis agentes, SEIS, cercaram Lígia. Um dos homens contou para Pedro o que ele e seus amigos iriam fazer com ela, fazer ali, no chão, com força e ódio. Sincronizadamente, os seis homens abriram os zíperes de suas calças…

Só agora Pedro gritou. Pedro chorou. Pedro pediu pelo amor de Deus.

Não adiantou.
Não adiantou.

De novo, o pensamento de Lígia foi interrompido pelo neto ao telefone:

– Sim, mano, vamos lutar por uma intervenção militar imediata. A gente não pode mais aguentar essa situação. No tempo dos militares não tinha tanta bagunça, tanta corrupção… Minha turma da facu tá fechada, tá convencida que a única solução pro nosso País é a volta da ditadura. Aqui não é Cuba, mano!!!

E Lígia sentiu uma dor muito parecida com aquela que havia sentido nos porões da delegacia. De certa forma, a dor que estava sentindo agora era ainda pior.

Ela resmungou. Chamou a atenção do neto que contrariado desligou o telefone:

– O que foi vó?

Lígia continuou resmungando até que o neto se aproximou – ficando cara a cara com ela.

– O que foi vó?

Tremendo, Lígia jogou o leite na cara do netinho.

E com uma força que deve ter tirado sabe-se lá de onde, gritou:

“BABACA”.

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segunda-feira, 10 novembro, 2014 - Posted by | Repassando... | , ,

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