Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Meu sábado de contemplação…

DEZEMBRO PATOS 053

Até as galinhas vieram mariscar na “praia”, pegando uma canja na ração servida.

Você já curtiu, às quatro da madrugada, preparar uma farofa com os restos de duas picotes (Galinhas d´Angola) do fundo do caldeirão, com farinha oriunda do seu sítio e café? Nããããão? Então não sabe o que está perdendo. Principalmente depois vivenciar as coisas que compartilhei nas últimas vinte e quatro horas…

Há dias, planejava a nossa confraternização do Benvirá (eu e os cinco amigos que trabalham comigo). Coisa simples (pequeno almoço sentados pelos bancos, baldes e cantos da maloca, cerveja e banho de lago), mas com grande significado para todos nós: sorrir, conversar coisas sérias e abobrinhas, compartilhar as pequenas conquistas do ano. Sem discursos, gincanas ou bingos, apenas com a presença etérea da amizade sem apresentação verbal explicita.

Pois é: mas, o que fazer? A primeira decisão foi a óbvia: cerveja, paixão de todos. A segunda, comida, E o que parecia mais difícil, tornou-se extremamente fácil: num rápido julgamento (ao melhor estilo de Che no pós-revolução) condenamos à panela as duas picotes que de há muito infernizavam suas colegas de terreiro, agredindo patos e galinhas, destruindo ninhadas de ovos, em verdadeiro gangsterismo emplumado. E apesar da capacidade de fuga das “marginais”, foi só divulgar-se a finalidade do julgamento e elas foram rapidamente encurraladas e presas pelos juízes do “tribunal”.

DEZEMBRO PATOS 065

Ao fundo, os patos veteranos. No primeiro plano os patos recém-chegados, ainda receosos de tanto espaço e mordomia…

Levei-as ao cadafalso (o depenador comercial de aves) e, enquanto esperava, um dos trabalhadores do abatedouro contou-me que sua sogra estava desesperada para vender 23 patos que criava no pequeno quintal urbano. Patos de todas as idades e sexo, que estavam atazanando a sua vida e os quais estava vendendo a preço de banana (cem reais). Não vacilei e fiz um dos melhores negócios da minha vida. Peguei-os no pequeno e lamacento quintal, sujos e pouco alimentados e levei-os ao Benvirá, soltando-os à beira do lago. Fascinante, amigos, a imobilidade contemplativa das aves diante do espaço amplo e bucólico. Como criança boquiaberta diante das surpresas da vida. Como escravos que de repente são libertos e não atinam no que fazer com a liberdade. Não correram para a água, como eu esperava. Ficaram á beira, deitados e bicando o mato rasteiro à volta. Vim embora, comprei ração e vermífugo para dar-lhes no domingo, entrei na NET para escolher a receita para as picotes, comprei os ingredientes e preparamos as ditas para o dia seguinte. Complementei a tarde construindo dois cochos flutuantes para alimentar os patos no lago e permitir que os peixes aproveitem os restos que eles sempre jogam ao redor.

De manhã cedo, ao entrar na garagem, dei de cara, pela quarta vez consecutiva, com a frangota-de-rua (aquelas aves que criam os seus donos se virando pela vizinhança), furtando a ração com que alimento os pintos e patinhos nos viveiros pré-Benvirá. Não tive dúvidas. Sem sentimento de culpa, peguei-a e prendi na camioneta para levá-la ao sítio. Sabia que ela iria adorar, embora os seus pretensos donos fossem estranhar a perda. E sendo ela comum (sem raça definida), ela choca (diferentemente das galinhas mestiças que crio) e assim assumirá a nobre missão de chocar os pintos das galinhas sem espírito maternal.

DEZEMBRO PATOS 075

O patriarca Negão, com duas de suas mulheres e os dois patinhos sobreviventes da chacina das picotes, curtindo a liberdade conhecida…

No sábado, cheguei cedo ao sítio e a galera dos patos já estava muito louca, mergulhando e balançando as penas, barulhando no lago. Coisa divina. Botei ração nos dois cochos construídos (ainda no seco) e eles não se aproximaram, ficaram “cercando o frango”, desconfiados. Acho que eles nunca viram ração e estavam desconfiados da mordomia. Mas a franga-de-rua, experiente, avançou e eles, devagarinho foram se chegando enquanto eu, já mergulhado na água e mandando uma gelada, contemplava aquela expressão alegre de vida. E enquanto os amigos se esbaldavam na cerveja e nas picotes, lá na maloca, eu me esbaldava naquele fascinante vai-e-vem das aves explicitamente felizes. E apesar das minhas muitas limitações, nunca me senti tão objetivamente ambientalista, diante de tanta alegria e bem-estar.

Mais uma vez acreditei que a verdadeira avaliação da nossa consciência não é a crítica das nossas muitas deficiências, mas o reconhecimento das poucas coisas boas que conseguimos realizar…

E agora, na varanda do meu sítio urbano, comendo farofa de picote com café, sob a lua minguante e vendo o dia nascer com as minhas netinhas Terra e Flor chafurdando nos meus pés, decidi iniciar o dia compartilhando minha alma com vocês.

Bom domingo a todos…

domingo, 14 dezembro, 2014 - Posted by | Comentário, Reflexões | , ,

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