Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Uma breve Flor…

terra e flor 119

Minha Flor, pequenina e ensimesmada como sempre, vigiando o sona da irmãzinha Terra…

A noite que terminou, assim como o dia de ontem, não foi boa. Minha duas netinhas mais novas (Terra e Flor), adoeceram, aparentemente de Giárdia, este parasita maldito que já me levou o Exu (por desconhecimento meu) e que é capaz de matar um cachorro em três dias, independente de idade. E o pior: vacina contra a maldita, só a partir de quatro meses. Assim, quando a Terra apresentou os sintomas (fastio, depressão, emagrecimento rápido, carência afetiva exagerada) comecei a dar-lhe vermífugos semi-específicos e soro fisiológico (de forma preventiva, dei também à Flor). A Terra esteve muito mal, cheguei a dar-lhe remédio e soro a contragosto, de maneira forçada, tal a sua rejeição à ingestão de qualquer coisa. Felizmente, no quarto dia, ela, embora desinteressada nos alimentos corriqueiros, repentinamente comeu um pedaço da banana que eu consumia à porta da cozinha e que caiu à sua frente. Feliz, joguei-lhe quase uma banana inteira, que ela comeu devagarinho. Cada mastigada sua me alegrava a alma (bom salvar vidas, ainda mais de quem se ama). Na quarta-feira, amanheceu esfomeada, abanando o rabo de forma discreta. Devorou meio litro de leite, dois ovos cozidos e

Flor, poucos dias antes de partir, quando iniciava-se o seu gostar pelo Benvirá...

Flor, poucos dias antes de partir, quando iniciava-se o seu gostar pelo Benvirá…

um pouco de ração. Ficou redonda, com os olhos brilhantes me mirando e o rabinho acelerado. Alegria passageira, pois logo a seguir, a Flor apresentou os mesmos sintomas, apesar da medicação preventiva. Por dois dias, tentei o mesmo tratamento dado à Terra, sem sucesso. Tentei a acidentalidade do pedacinho de banana, ovo cru e cozido, até açaí, em total fracasso. Ontem, desconfiei que ela, que sempre apresentou uma maior fragilidade física, tivesse desenvolvido alguma infecção intestinal, pois começou a defecar sanguinolento. Dei um tempo, refleti e, quando fui comprar um antibiótico para dar-lhe e voltei, ela já estava morta, espichada no chão da varanda. Frustração doída, a Terra saltitando agoniada ao meu redor e ela inerte, no pé da parede… Pensei o quanto acertara ao dar-lhes os nomes: a Terra, mais encorpada, mais levada, mais corajosa; a Flor, mais quieta, mais medrosa, mais arredia, mais delicada fisicamente… E a Flor, com sua fragilidade de olhos esverdeados, não resistira ao primeiro vendaval da vida…

Fiquei algum tempo ali, sentado e olhando o seu corpo inerte. Estava tão arrasado que nem senti coragem de enterrá-la. Coloquei-a num saco grande fui para o fundo do grande quintal e joguei-a no local onde sabia que os urubus a devorariam. Quando o corpo dela caiu ao chão, tive a impressão de que seu corpo soprara um suspiro. Assustei-me, mas esperei e racionalizei como um barulho natural de um corpo ao chocar-se ao chão. De volta à casa, deixei a Terra e sua agonia carente fora da cozinha e me empanturrei com macarronada, entupindo a tristeza e a frustração. Custei a dormir e quando consegui, não deu outra: vi a Flor, sair do saco, cambaleante, gemer baixinho e arrastar-se até ao limite da cerca. Meu coração explodiu de remorso, pena e desespero, pois sabia que ela não sobreviveria e eu não teria coragem de matá-la. E assim ela ficaria penando ali, arfando a espera da morte que demorava em aliviá-la…

Felizmente acordei. Agonia no escuro da cama. Coração constrangido em imaginar que aquele barulho poderia ter sido mesmo um último suspiro da minha netinha. E a minha impotência em fugir do sonho, me levou à morte da cachorra Baleia do Graciliano Ramos (descrita em Vidas Secas), querendo acreditar que a Flor poderia ter morrido e encontrado um grande jardim para brincar, semelhante ao Cantinho da Zinha, onde já aprendia a curtição do Benvirá.

Que O Grande a recompense pelo seu sofrimento e pelos bons momentos que me propiciou. E perdoe-me a incompetência e falta de coragem…

domingo, 11 janeiro, 2015 - Posted by | Comentário, Reflexões | ,

3 Comentários »

  1. Sinto muito pela Flor! Que novas alegrias estejam para vir.

    Comentário por Linney Dias | domingo, 11 janeiro, 2015

  2. q triste…

    Comentário por Emília | domingo, 11 janeiro, 2015

  3. Henrique, quando me falaste ao telefone, eu já imaginava que a Flor não tinha resistido e já sabia que estavas arrasado, assim como ficaste com a perda do Exu. Como tudo é dialético e até pra te acalmar, lembra do teu enternecimento pelo meu Num É ( esse destrambelhado é o cara, hahaha!), tão educado, tão alegre, tão amigo e generoso que até te fez chorar emocionado pela sua grandeza. Olha que eu não esperava assistir uma cena dessa, tanta emoção pelo meu NUM É.
    Até breve, Mariceli

    Comentário por mariceli de campos paraense | terça-feira, 13 janeiro, 2015


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