Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Sob o céu que nos protege…

Sempre encarei minhas insônias como oportunidades de enriquecer a vida, nunca como um empecilho ao descanso. Se meu cérebro decide acordar muito cedo e o meu corpo não reclama, porque me perturbar com o silêncio sonolento do mundo? Há mil coisas a serem feitas nas madrugadas: ler um livro, ouvir o silêncio e pensar no mundo adormecido a sua volta, assistir entrevistas e documentários interessantes (na madrugada a TV é bem menos ruim), rever um filme, abraçar a companheira para velar-lhe o sono (quem sabe uma transadinha?) Enfim: um mundaréu de coisas a serem feitas quando a maioria está fazendo uma coisa só (dormir). E nesta lógica existencial (meio ilógica para os dorminhocos) vivenciei, na última semana, duas experiências maravilhosas: acampar com meu filho caçula no Benvirá e o parto da Preta. Dois seres profundamente arraigados em mim e cujos amores enfeitam a minha vida…

fogoNa segunda-feira, durante o banho matutino no Laguinho do Exu, meu caçula sugeriu dormirmos na maloca, com direito a cerveja, um churrasquinho e a companhia da Preta e do Num É. Claro que topei e, à noitinha, lá fomos nós… No escuro, acendemos a fogueira, dividimos a janta com os dois convidados caninos (meu filho usando o pretexto para ganhar a amizade da Preta) e lá fomos nós, no escuro da noite, mergulhar nas águas do laguinho. Cachacinha no copo, papo amigo, brincadeiras com os dois acompanhantes, com a Preta sentada solenemente sobre sua imensa barriga de gestante. Troca de roupa, redes armadas e conversas esparsas até o sono chegar. Na madrugada, como sempre, acordei mergulhado em silêncio e na noite órfã de lua. Botei-me a pensar no filho adormecido no entorno, nos seus esforços para encontrar sentidos para a sua vida, caminhos para seus sonhos e, no meu coração emocionado e apertado de pai, pedi ao Grande que esta noite possa marcar com felicidade as suas memórias, as suas lutas e desesperanças. Deixei a emoção escorrer solta no meu espírito ancião, lavando as angustias da minha alma com o bálsamo do silêncio, até que escutei, crescente, aquele barulhinho inconfundível de chuva. Custei a acreditar, pois há mais de mês eu e minhas plantas esperávamos por ela, em vão. Mas era verdade e ela veio mansa, caindo lentamente, regando tudo à minha volta. Feliz, levantei-me envolvido no lençol e fiquei em pé a apreciá-la, como um fantasma encostado no escuro. E meu filho acordou (coisa rara em sua vida de dorminhoco matutino), para retomarmos as conversas e ver o sol nascer. Mais uma vez, abençoei minhas insônias…

Preta fevereiro 2015 779Na outra madrugada, acordei às três da matina e meu instinto avisou sobre a possibilidade da Preta parir. Passara o dia anterior inquieta, enfastiada, se roçando pelos cantos… Desci e localizei-a no quintal, no mesmo buraco em que a Oyá pariu anteriormente. Chameia-a para a varanda, acendi as luzes e percebi que sua bolsa placentária já havia estourado. Ela encostou-se na parede, eu peguei o álcool iodado e a tesoura e ficamos conversando (eu falava sobre filhos e elas me respondia com pequenos uivos, cortados aqui e ali por sinais de dor). De repente, ela envergou o lombo, se espremeu e começou a sair o primeiro filhote. Azar: veio de traseiro, posição de difícil nascimento, principalmente para uma primípara. Tentei ajudar e ela gritou alto tentando evitar que eu puxasse o nascituro. Falei com ela para acalmar e fui ajudando, até que ele saiu. Ela se deitou e sequer olhou para o filhote. Limpei-o com um pano, já que ela não o fizera, e o coloquei junto às tetas. E ela, cheirando-o, rosnou ameaçadoramente, como já fizera com outros filhotes que eu trouxera para criar, por ciúmes. Fiquei tenso, reclamei com ela e me mantive em alerta (provavelmente as dores tinham sido muito fortes, daí a rejeição). Nasceu o segundo e ela manteve-se indiferente ao  mesmo, obrigando-me a limpar o filhote outra vez. Preocupei-me, pois a possibilidade de rejeição da ninhada estava clara. O que faria, se ela se negasse a amamentá-los? Fiquei a matutar, acariciando sua cabeça e os filhotes até que veio o terceiro. Aí, aconteceu o milagre da maternidade: ela se virou, limpou a placenta, cortou-lhe o umbigo com os dentes e o puxou para junto da barriga (igualzinho à Oyá). Pronto. Daí em diante foi´filhotes jorrando e sendo agasalhados, dez ao todo, cinco machos e cinco fêmeas. E quem não sabia sobre o pai, ficou sabendo a partir do terceiro… Quem? Quem? O Num É!!! Embora a maioria fosse de cor preta, como a mãe, três eram da mesma pelagem amarela daquele que ninguém imaginava ser capaz de emprenhar a parturiente. Ri sozinho na madrugada, imaginando como aquele aparente abestado “acertara” a Preta sem que ninguém soubesse… Pelas contas, havia sido entre o Natal e o Ano Novo (quer dizer: a Preta viu o saco do Papai Num É).

A partir daí, a Preta foi de uma perfeição materna a toda prova. Dia e noite atracada com aquele bando de filhotes em suas tetas, só se levantando para ir no quintal fazer suas necessidades. Até para comer e beber, eu tinha que servi-la próximo à boca, pois não queria levantar para não atrapalhar a mamada da tropa. Cinco dias nestas condições, amamentando e lambendo bunda de filhote vinte e quatro horas por dia (como são muitos, eles mamam por turnos, tendo sempre alguns agarrados às tetas), com leite à farta. Uma mãe como poucas…

E na madrugada de hoje, quando abri a porta, a surpresa: a Preta de pé, ganindo alegre, remexendo-se mais que a mulata globeleza, explodindo de entusiasmo! Olhei do lado e lá estavam os filhotes, amontoados uns sobre os outros, dormindo… Entendi a Preta: ela conseguira superar a fase inicial da maternidade e estava querendo compartilhar comigo aquele tempinho livre. Sentamo-nos então na soleira do portão e ficamos juntos, olhando a lua crescente ainda no horizonte.

Benditas madrugadas, benditas insônias…

sábado, 28 fevereiro, 2015 - Posted by | Comentário, Crônica | ,

1 Comentário »

  1. Esta é a 3ª vez que tento escrever um comentário e sem querer apago, mas enfim, estava dizendo que foi legal estes dois momentos de encontro, reencontro, de deslumbramento diante da nova vida de 10 netos, filhos do meu Num É fujão, viu só? Para o teu filho Henrique também foi especial os dias contigo,achando que agora é o momento de inversão de papéis, ou seja, que é a vez dele de cuidar do pai, olha só! Bem sabes que a vida é constituída de momentos de felicidade, que podem ser muitos ou poucos, dependendo da nossa capacidade de criá-los, de inventá-los, de captá-los no ar existencial, gostou?
    Chega por hoje, perdi tempo com o 1º comentário que fugiu, igual o Num É, hahahha! Então inté, bonitão!

    Comentário por mariceli camposo | domingo, 1 março, 2015


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