Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

“Como fica forte uma pessoa segura de ser amada”…

preta junho 2015 006

A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.

Sigmund Freud

A cada dia me encanto mais com a liberdade e qualidade de vida da Preta e suas filhotas Bole e Bela, lá no Benvirá. Desde sempre, acreditava neste resultado, a cada passeio que fazíamos por lá, eu e ela. Mas nunca imaginei que pudesse ser tão pleno o cotidiano delas e o meu prazer de vê-las cada vez mais felizes e amigas. Em primeiro lugar, temia que presas na boa casa que fiz para elas teriam apenas uma prisão melhorada de vinte metros quadrados, onde ficariam isoladas do território do sítio, a ser compartilhado apenas quando eu e/ou os trabalhadores lá estivessem. Em oposição, temia deixá-las soltas e vê-las fugirem para as vizinhanças, por estarem sozinhas. E resguardando-as de fugas, perderia a maior função delas, a vigilância do território. Dúvida atroz…

Mas como dizia meu velho pai, “quem tem medo não amarra cachorro”. Os riscos são inevitáveis para quem busca a plenitude e comecei então a operacionalizar uma estratégia intuitiva. Primeiro, deixei-as presas na casinha durante três dias. Do quarto dia em diante, deixei-as soltas o dia todo, sendo presas à noite ou a cada partida minha (durante cerca de meia hora), para evitar que a Preta, inevitavelmente, saísse desabalada atrás da caminhonete. Vencido satisfatoriamente o primeiro mês, arrisquei deixá-las soltas dia e noite (só mantendo as retenções nas minhas partidas) e foi um sucesso. Mantiveram-se no território amplo do sítio e passaram a vigiar eficientemente o acesso de pessoas ou animais estranhos. A minha segurança final me veio no primeiro amanhecer em que elas ficaram soltas a noite inteira: chego sempre primeiro que os trabalhadores e, ao chegar próximo à maloca, quem aponta a cabeça na beira da estrada, naquele sua postura majestosa? A Preta, cabeça erguida em alerta e cauda balançante ao reconhecer o carro. Logo após, surgem as duas pequeninas (apenas dois meses de idade), fazendo festas e se postando na frente do veículo. Tive que frear, avançar lentamente e buzinando, para que elas se postassem do lado da estrada. E a festa, quando saí do carro? Estava já com a roupa do trabalho profissional e elas sujaram as minhas calças, aos pulos com as patas sujas de terra. Um pandemônio canino para o meu coração feliz…

De lá para cá, tudo tranquilo, mas sem deixar de ocorrerem fatos imprevistos e interessantes…

Totalmente soltas, elas, capitaneadas pela mãe, foram ampliando o domínio sobre o território. E uma bela manhã em que me atrasei, na entrada do sítio o Flávio me comunicou: _ Seu Henrique, quando nós chegamos na maloca, as três não estavam por lá. Logo depois chegou a Preta, cansada e sedenta, se meteu no lago pra se refrescar e das duas pequenas, nem notícia… Eu acho que elas tão na mata, aqui pra cima. Desci do carro preocupado com o fato da Preta ter deixado as filhas na mata e voltado sozinha: _ Mas Flávio, a Preta não quis voltar atrás das filhas? _ Pode ate ser que ela quisesse voltar, seu Henrique, só que nós prendemos ela, com medo dela fugir de vez.

Pensei rápido, gritei os nomes das duas, assobiei alto e dei duas buzinadas no carro. Imediatamente as duas iniciaram o chorororô na mata próxima. Estavam perdidas e respondiam pedindo socorro. Fiquei puto com elas, largarem a segurança da maloca pra se meterem no mato. Anotei, mentalmente, até a Preta no meu caderninho negro, por carregar as filhas pro mato e deixá-las lá… Os trabalhadores foram buscá-las enquanto eu assobiava e elas choravam e, de repente elas deram as caras: felizes e aliviadas, correndo para as minhas pernas, barulhando… Tem raiva que resista??? Não tem, gente. Só pude fingir raiva e xingá-las amorosamente, enquanto acariciava as suas cabeças. Pensei: foi a primeira grande aventura das suas vidas, e só aventurando se aprende… E em discussão com a turma do trabalho, concluímos: algum animal silvestre assanhou a Preta, ela correu atrás do bicho sozinha e em velocidade. As pequenas, provavelmente, tentaram acompanhar a mãe (que não percebera) e se perderam. Daí, ela voltou sozinha e sem saber das filhas…

Após isto, sossegaram uns dois dias e retomaram as caminhadas matutinas na floresta sem maiores problemas. E a cada manhã, quando ouvem o carro, correm para a estrada para me receber. Ou ficam zoando em um monte de areia que acumulei à beira da estrada, até que eu apareça na curva e elas corram desabaladas e felizes para mim.

Mas ontem, tive a maior demonstração do aprendizado das pequenas e do trauma ainda não superado da Preta em relação a águas profundas. Elas estavam em seu passeio florestal, atravessaram o leito da fonte onde ele á bem raso e voltaram pela margem oposta do curso d’água. Assim, quando chegaram no Laguinho do Exu, estavam do outro lado, separadas por quinze metros de água profunda de onde eu e a Mariceli estávamos. E agora? Voltar pelo caminho da vinda ou enfrentar as águas frias e fundas do lago? A Preta parecia totalmente incapacitada para a travessia, já que tem pavor de águas acima do peito. Pois não é que a Bola, com menos de quatro meses de idade, encarou o desafio, entrou sozinha na água e nadou em linha reta e ágil até à margem em que eu estava? Vendo isso, a Bela se encorajou, pulou também na água e repetiu o trajeto. E a Preta lá, cabeça alta e inerte, mirando as águas com cara de japonês jogando pôquer. Ficou uns dois minutos quetona e começou uma travessia alternativa e menos perigosa, mais compatível com os seus medos e sua posição de mãe “desafiada”. Andando pelas partes rasas, com água no peito, chegou a um canal de apenas dois metros de largura e se jogou, nadando desesperadamente até à margem onde as filhas estavam. Ri interiormente da saída estratégica da Preta, da coragem da Bola e da adesão da Bela à coragem da irmã.

Só sei que estou cada vez mais feliz com as três, lá no Benvirá. Tenho estranhado o silêncio da casa urbana, mas sei que lá elas estão muito mais alegres. Noite dessas passei a noite sonhando que elas haviam sumido do sítio e que eu as procurava desesperadamente. Mas são somente recaídas de um viejo carente de amores e amizades verdadeiras…

sábado, 6 junho, 2015 - Posted by | Comentário, Crônica, Pequenas histórias, Reflexões | ,

Nenhum comentário ainda.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: