Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Eu + Eu = Nós

solidao 3Compartilhei há pouco, no Face, que “não há nada mais libertador e poderoso do que aprender a gostar da sua própria companhia“. Desconheço a autoria da reflexão, mas espicaçou minha percepção o que há nela de mais profundo, difícil e doloroso: a aventura trágica da auto-descoberta. Sem ela, nada feito, atravessaremos o espaço vital da nossa era ignorando a própria companhia, quase sempre dela fugindo e tentando aterrá-la com pazadas  de convivências e vivências inexpressivas.

solidao 4Cedo, ainda muito cedo e sem ter consciência disso, já me preocupava esta companhia grudada no cérebro. Cheia de sombras, medos e dúvidas. Passava horas e dias olhando pro teto, imaginando o que seria de mim, o que faria no mundo e o indecifrável momento da morte, quando todos os esforços dispendidos perderiam o sentido. Mas, hoje eu vejo, a vida sempre foi boa comigo e as sombras da minha alma encontraram janelas para sopitarem e buscarem luz no mundo em que me tornei um andarilho.

Dias que perderam o sentido antes de chegada a noite. Gestos impensados e/ou esquecidos ao longo da trajetória. Amores extintos de repente, como fogueiras cuja lenha findou. Longos auto-exílios em companhia única do espelho a mostrar-me, vez em quando, a contradição entre os sonhos da minha alma e o envelhecimento do meu corpo…

Mas, agora, sei quem sou. Sou pouco, mas aprendi a gostar deste velho que me olha todos os dias, quando vou lavar-me e vestir-me. Já converso com ele. Já brinco e o ironizo sobre o seu possível charme idoso. Já não tenho medos, apenas tristezas a esquecer e alegrias a curtir enquanto viver. Avanço devagar, é bem verdade. Mas ainda não é o fim, mesmo com as pernas bambas e meu jeito cambaio. Na caminhada, voltei a ser integralmente filho dos verdes, dos suaves barulhos noturno, dos luares visíveis nas madrugadas e suas estrelas cintilantes. Hoje, finalmente, sei quem sou. Mesmo solitário, sei quem sou e não me amarguro com ausências que nada ou pouco me acrescentam Mesmo acompanhado por quem vale a pena, não me iludo com idéias de presenças permanentes e duradouras. Em algum momento, estarei só com a minha sombra. E aprendi a valorizá-la…

Dito isto, amigos, vou compartilhar, com este cara do espelho, o preparo do meu almoço de domingo. Lógico que compartilharemos alguns drinques. Lógico que escutaremos as nossa músicas preferidas. Cozinharemos macaxeira do sítio, abóbora do sítio, galinha do sítio (temperada com alfavaca e chicória do sítio) e, de sobremesa, banana do sítio. Tudo entremeado por bons papos (silenciosos ou expressos) como cabe a dois bons amigos…

Bom domingo a todos…

Henrique Miranda

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domingo, 2 agosto, 2015 Posted by | Comentário, Crônica, Reflexões | , | Deixe um comentário

Amiga, me espere lá do outro lado…

preta junho 2015 006

Você, que neste dia da foto me abraçou tão intensamente, que agradava tanto à sua mãe e era tão carinhosa com todo mundo, nos deixou sozinhos. Você, que até o último momento de consciência, teimou em responder aos meus chamados com o balançar amoroso da cauda. Você, de quem lembrar me dói profundamente, deixou apenas a lembrança do seu jeito tranquilo e teimoso de trocar carinho, do seu enfrentar estoico a qualquer rejeição eventual aos seus abraços. Que aguentava até tapas e empurrões, para não ser afastada dos braços que queria em volta de si.

Que se desmanchava com a mãe em abraços lambidos.Que olhava fundo nos meus olhos, firme no olhar e terna no brilho das retinas, nas orelhas quietas e na cauda oscilante…

Magoado e infeliz por sua partida, chego a achar compreensíveis as pessoas que fogem dos afetos de qualquer natureza, na inútil tentativa de se protegerem das dores da perda. Que apagam as luzes do gostar, erguem muros de proteção emocional, cerram cortinas e chaveiam portas. Fingindo-se de mortos…

julho ferias 037Mas minha mágoa não chega às raias da burrice emocional. Salva-me a convicção antiga de que a vida só se abre plena para quem nela mergulha de peito aberto e olhos arregalados. Sem isso, seremos sempre reféns de um purgatório de vazios mesmices. E o pior: nem saberemos se negar o purgatório nos daria uma vida melhor ou pior. Impossível saber, impossível adivinhar, até mesmo, se este purgatório realmente nos protegerá. E por assim pensar, em meio à minha tristeza, tenho como bálsamo as lembranças de sua breve vida na minha vida. Dos seus abraços. Dos seus olhares. Da sua postura calma, sentada entre as minha pernas, recebendo afagos e lambendo-me as mãos…

Agora, a cada vez que abraçar as duas que restaram, o meu coração a relembrará. Não tem jeito. Não há como ser diferente. E a cada vez, manter-se-á a minha constatação magoada (que pena que você partiu) e o meu desejo para sempre: nos aguarde no outro lado do caminho, amiga. Quem sabe lá não existam novos lagos, igarapés, matas e caminhos para brincarmos juntos?

sexta-feira, 24 julho, 2015 Posted by | Comentário, Crônica | , , | Deixe um comentário

Sombra e madrugada…

solidaoO amor nos torna frágeis, porque vulneráveis, porque desprotegidos de racionalidade. E frágeis, vulneráveis e desprotegidos, por mais fortes que tentemos ser, teremos sempre a solidão como sombra. A solidão das partidas. A solidão das esperas. A solidão dos desencontros. A solidão das impotências pessoais…

São duas horas da madrugada e lá fora, nas penumbras do quintal, a Bola e a Bela estão doentes (sabe-se lá de que) e a renitência da doença e a negação delas em comerem, tiraram todo o meu sono. Estou há horas indo e vindo para a varanda, buscando vê-las, tentando em vão alimentá-las, angustiado com o balanço cansado de suas caudas teimosas em se manterem amorosas… Sei que de há muito entrei na era das perdas. Pais, alguns irmãos e amigos já me deixaram. E, mesmo que. voluntariamente e aos poucos, tenha me tornado cada vez mais recluso, nem por isso deixo de perceber, aqui e ali, esta sombra que me persegue ao longo da vida. Esta madrugada é uma destas ocasiões. E sentado na varanda, observando a noite e os seus silêncios, sinto-me como o patriarca de a “Lenda das paixões”, exilado nas montanhas pela irrealização social e esperando sempre pelos filhos gerados que vão e voltam à sua varanda e aos seus braços, nos entreveros da vida. Ou como o pequeno Garcia Marquez ao perder o avô-pai, sua referência emocional maior, aos oito anos de idade. Frágil, como a Preta, ao ver suas filhas embarcarem no carro e ser impedida de segui-las …

Que o dia amanheça logo, para ver se o sol resgata alguma esperança nesta solidão…

domingo, 19 julho, 2015 Posted by | Comentário, Crônica | | 1 Comentário

A rota-do-sol e as prisioneiras…

julho ferias 038Durante os meses de suas novas liberdades no Benvirá, a Preta, a Bola e a Bela, estabeleceram uma rota preferencial que apelidei como a rota-do-sol, em uma alegoria à liberdade e prazer das três ao trilharem a mesma. Em meio às suas inúmeras incursões no território, passaram a dirigir-se sempre para a mesma direção e demorando cada vez mais a voltar, chegando ao recorde de quatro horas de passeio, ignorando chamados e buzinaços (provavelmente pela distância e/ou curtição familiar). Foram tantas as caminhadas no roteiro e tantas as demoras, que internalizei o receio delas serem capturadas ou agredidas por terceiros, independente da maturidade defensiva da Preta. Síntese da história: passamos a prender as duas filhotas, pois sem elas a Preta não se distancia da sede.

Aparentemente, a decisão deu certo, mas a observação cotidiana do grupo mostrou filhas estressadas e choronas na casinha e mãe triste do lado de fora. Anteontem, dia do banho semanal, amarramos duas e deixamos soltas a Bela, a mais levada e hiperativa da família. Pois ela correu pra mata e de lá ficou chamando a irmã e a mãe, aos latidos, para a maratona preferida. Como as duas não corresponderam, por estarem presas, ela voltou com cara de infeliz. Daí, fiquei julho ferias 048pensando: de que me adianta querer vê-las  seguras mas sem alegria, sem aquela felicidade que elas demonstram quando chegam da mata, cansadas da caminhada pelos caminhos da floresta e molhadas das andanças por dentro do igarapé? Nada, nada, nada…

E assim, a partir de hoje liberei-as. Estarão sempre soltas e juntas para irem e virem à vontade por onde quiserem, à exceção dos momentos das minhas partidas, para evitar que me sigam à cidade. Creio na capacidade delas de administrarem o espaço e o seu apego ao lar. Creio na capacidade materna da Preta em proteger suas crias. Creio na minha vizinhança, que até hoje sempre respeitou a mim, ao meu território e aos meus bichos. O resto, é o risco inerente à vida e o medo inarredável da perda, mas que nunca poderão afogar nosso sonho de amizade libertária.

Deus proteja minhas companheiras…

segunda-feira, 13 julho, 2015 Posted by | Comentário, Crônica | , , | Deixe um comentário

“Como fica forte uma pessoa segura de ser amada”…

preta junho 2015 006

A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.

Sigmund Freud

A cada dia me encanto mais com a liberdade e qualidade de vida da Preta e suas filhotas Bole e Bela, lá no Benvirá. Desde sempre, acreditava neste resultado, a cada passeio que fazíamos por lá, eu e ela. Mas nunca imaginei que pudesse ser tão pleno o cotidiano delas e o meu prazer de vê-las cada vez mais felizes e amigas. Em primeiro lugar, temia que presas na boa casa que fiz para elas teriam apenas uma prisão melhorada de vinte metros quadrados, onde ficariam isoladas do território do sítio, a ser compartilhado apenas quando eu e/ou os trabalhadores lá estivessem. Em oposição, temia deixá-las soltas e vê-las fugirem para as vizinhanças, por estarem sozinhas. E resguardando-as de fugas, perderia a maior função delas, a vigilância do território. Dúvida atroz…

Mas como dizia meu velho pai, “quem tem medo não amarra cachorro”. Os riscos são inevitáveis para quem busca a plenitude e comecei então a operacionalizar uma estratégia intuitiva. Primeiro, deixei-as presas na casinha durante três dias. Do quarto dia em diante, deixei-as soltas o dia todo, sendo presas à noite ou a cada partida minha (durante cerca de meia hora), para evitar que a Preta, inevitavelmente, saísse desabalada atrás da caminhonete. Vencido satisfatoriamente o primeiro mês, arrisquei deixá-las soltas dia e noite (só mantendo as retenções nas minhas partidas) e foi um sucesso. Mantiveram-se no território amplo do sítio e passaram a vigiar eficientemente o acesso de pessoas ou animais estranhos. A minha segurança final me veio no primeiro amanhecer em que elas ficaram soltas a noite inteira: chego sempre primeiro que os trabalhadores e, ao chegar próximo à maloca, quem aponta a cabeça na beira da estrada, naquele sua postura majestosa? A Preta, cabeça erguida em alerta e cauda balançante ao reconhecer o carro. Logo após, surgem as duas pequeninas (apenas dois meses de idade), fazendo festas e se postando na frente do veículo. Tive que frear, avançar lentamente e buzinando, para que elas se postassem do lado da estrada. E a festa, quando saí do carro? Estava já com a roupa do trabalho profissional e elas sujaram as minhas calças, aos pulos com as patas sujas de terra. Um pandemônio canino para o meu coração feliz…

De lá para cá, tudo tranquilo, mas sem deixar de ocorrerem fatos imprevistos e interessantes…

Totalmente soltas, elas, capitaneadas pela mãe, foram ampliando o domínio sobre o território. E uma bela manhã em que me atrasei, na entrada do sítio o Flávio me comunicou: _ Seu Henrique, quando nós chegamos na maloca, as três não estavam por lá. Logo depois chegou a Preta, cansada e sedenta, se meteu no lago pra se refrescar e das duas pequenas, nem notícia… Eu acho que elas tão na mata, aqui pra cima. Desci do carro preocupado com o fato da Preta ter deixado as filhas na mata e voltado sozinha: _ Mas Flávio, a Preta não quis voltar atrás das filhas? _ Pode ate ser que ela quisesse voltar, seu Henrique, só que nós prendemos ela, com medo dela fugir de vez.

Pensei rápido, gritei os nomes das duas, assobiei alto e dei duas buzinadas no carro. Imediatamente as duas iniciaram o chorororô na mata próxima. Estavam perdidas e respondiam pedindo socorro. Fiquei puto com elas, largarem a segurança da maloca pra se meterem no mato. Anotei, mentalmente, até a Preta no meu caderninho negro, por carregar as filhas pro mato e deixá-las lá… Os trabalhadores foram buscá-las enquanto eu assobiava e elas choravam e, de repente elas deram as caras: felizes e aliviadas, correndo para as minhas pernas, barulhando… Tem raiva que resista??? Não tem, gente. Só pude fingir raiva e xingá-las amorosamente, enquanto acariciava as suas cabeças. Pensei: foi a primeira grande aventura das suas vidas, e só aventurando se aprende… E em discussão com a turma do trabalho, concluímos: algum animal silvestre assanhou a Preta, ela correu atrás do bicho sozinha e em velocidade. As pequenas, provavelmente, tentaram acompanhar a mãe (que não percebera) e se perderam. Daí, ela voltou sozinha e sem saber das filhas…

Após isto, sossegaram uns dois dias e retomaram as caminhadas matutinas na floresta sem maiores problemas. E a cada manhã, quando ouvem o carro, correm para a estrada para me receber. Ou ficam zoando em um monte de areia que acumulei à beira da estrada, até que eu apareça na curva e elas corram desabaladas e felizes para mim.

Mas ontem, tive a maior demonstração do aprendizado das pequenas e do trauma ainda não superado da Preta em relação a águas profundas. Elas estavam em seu passeio florestal, atravessaram o leito da fonte onde ele á bem raso e voltaram pela margem oposta do curso d’água. Assim, quando chegaram no Laguinho do Exu, estavam do outro lado, separadas por quinze metros de água profunda de onde eu e a Mariceli estávamos. E agora? Voltar pelo caminho da vinda ou enfrentar as águas frias e fundas do lago? A Preta parecia totalmente incapacitada para a travessia, já que tem pavor de águas acima do peito. Pois não é que a Bola, com menos de quatro meses de idade, encarou o desafio, entrou sozinha na água e nadou em linha reta e ágil até à margem em que eu estava? Vendo isso, a Bela se encorajou, pulou também na água e repetiu o trajeto. E a Preta lá, cabeça alta e inerte, mirando as águas com cara de japonês jogando pôquer. Ficou uns dois minutos quetona e começou uma travessia alternativa e menos perigosa, mais compatível com os seus medos e sua posição de mãe “desafiada”. Andando pelas partes rasas, com água no peito, chegou a um canal de apenas dois metros de largura e se jogou, nadando desesperadamente até à margem onde as filhas estavam. Ri interiormente da saída estratégica da Preta, da coragem da Bola e da adesão da Bela à coragem da irmã.

Só sei que estou cada vez mais feliz com as três, lá no Benvirá. Tenho estranhado o silêncio da casa urbana, mas sei que lá elas estão muito mais alegres. Noite dessas passei a noite sonhando que elas haviam sumido do sítio e que eu as procurava desesperadamente. Mas são somente recaídas de um viejo carente de amores e amizades verdadeiras…

sábado, 6 junho, 2015 Posted by | Comentário, Crônica, Pequenas histórias, Reflexões | , | Deixe um comentário

“O céu é aonde os sonhos se realizam”…

NOVA IMAGEM 2015 046

Sítio Benvirá, o meu campo dos sonhos, em construção…

Muitas vezes, acho que algumas coisas só acontecem comigo…
Ontem, no meio da noite, acordei sem sono (como de costume) e fiquei a matutar sobre o sábado, quando iniciei, com a ajuda das irmãs, filho e cunhado, a revenda de produtos do sítio Benvirá, diretamente à vizinhança. Cansara de dar lucros extorsivos para “marreteiros” e optara por vender direto aos consumidores, iniciando aos poucos uma quitandinha. Pensava satisfeito no relativo sucesso da iniciativa, quando o latido noturno e grave de um cão me lembrou a Preta, hoje morando com duas de suas filhas lá no Benvirá (e como ainda sinto a falta de sua proximidade cotidiana, falei com ela em pensamento, esperando que ela esteja bem). Lembrar a quitanda e a Preta, por decorrência, me levou a imaginar o início de tudo, há quase três anos, quando para conseguir ver um pouco daquela terra (totalmente tomada por capoeiras ralas), tive que usar facões sob o sol e o calor do meio-dia, até chegar ao fio d’água da nascente escondida no centro do território. Desanimador para muitos, instigante para mim e meus desejos de materializar quimeras. E lembrando isso, durante algum tempo fiquei ali, deitado e coberto sob o frio gostoso da madrugada, até que resolvi ligar a TV no meu canal de assinatura recém-adquirido. Surpresa: estava iniciando-se o filme “o campo dos sonhos“, que assistira lá pela década de noventa e que muito me emocionara. Um filme simples, sem rebuscados e tendo como pano de fundo um esporte que nem sequer entendo (o beisebol), mas que abordava sonhos, encontros e desencontros humanos fundamentais. Na tarde em que o assistira anteriormente, estava solitário, cheio de angústias e de saudades, suspenso no ar das tristezas e inseguranças e pensara no quanto seria bom ter possibilidades concretas de construir sonhos coerentes com a própria alma. E nesta madrugada de hoje, revendo-o, inundei minha alma de emoção ao sentir, passo-a-passo, a semelhança onírica entre a caminhada e realizações dos personagens e a minha história de vida atualizada no Benvirá. Os mesmos anseios, as mesmas dificuldades, fantasmas emocionais semelhantes, os mesmos ganhos e perdas da caminhada… E imaginei que a coincidência do filme, naquela época e nesta madrugada, não foi mero acaso. Em ambas as oportunidades, seu conteúdo fluiu em mim como águas de riacho banhando-me o pensar andarilho pelas estradas do mundo…

Findado o filme, o sono retornante ainda me concedeu lucidez para lembrar tempos antigos, quando me perguntava sobre o que eu seria, quando meus filhos crescessem. À época, sorri sozinho por pensar nisso, já que a maioria dos pais e mães só pensavam no que os rebentos seriam, quando adultos. Esqueciam de si próprios, tornando-se, ao longo dos anos, em paizões ou mãezonas deprimidos(as) pelo distanciamento dos filhos, persistentemente preocupados com o bem estar dos rebentos distantes, metendo-se na da vida deles no pior estilo sogra, avós sublimando a vida nos filhos dos filhos, ou velhinhos(as) a buscarem desesperadamente a beleza perdida, a tesão física esgotada ou sentido de vida extraviado no marasmo da solidão. Ou ainda, idosos tristes e amargos, esquecidos nos cantos da vida, exilados dos laços antigos e das lembranças existenciais…

E dormi pensando que “se o céu é aonde os sonhos se realizam”, ele também é um cenário dinâmico, no qual nossos sonhos têm que receber os cultivos do foco, da persistência, da resiliência, da paciência e da coragem para, em meio às penumbras do mundo, não serem perdidos, substituídos e/ou sublimados.

E a minha última imagem sonolenta foi a Preta, deitada no escura com suas duas filhas, esperando a noite findar…

quarta-feira, 6 maio, 2015 Posted by | Comentário, Crônica, Vendo a Vida... | , | 1 Comentário

Sob o céu que nos protege…

Sempre encarei minhas insônias como oportunidades de enriquecer a vida, nunca como um empecilho ao descanso. Se meu cérebro decide acordar muito cedo e o meu corpo não reclama, porque me perturbar com o silêncio sonolento do mundo? Há mil coisas a serem feitas nas madrugadas: ler um livro, ouvir o silêncio e pensar no mundo adormecido a sua volta, assistir entrevistas e documentários interessantes (na madrugada a TV é bem menos ruim), rever um filme, abraçar a companheira para velar-lhe o sono (quem sabe uma transadinha?) Enfim: um mundaréu de coisas a serem feitas quando a maioria está fazendo uma coisa só (dormir). E nesta lógica existencial (meio ilógica para os dorminhocos) vivenciei, na última semana, duas experiências maravilhosas: acampar com meu filho caçula no Benvirá e o parto da Preta. Dois seres profundamente arraigados em mim e cujos amores enfeitam a minha vida…

fogoNa segunda-feira, durante o banho matutino no Laguinho do Exu, meu caçula sugeriu dormirmos na maloca, com direito a cerveja, um churrasquinho e a companhia da Preta e do Num É. Claro que topei e, à noitinha, lá fomos nós… No escuro, acendemos a fogueira, dividimos a janta com os dois convidados caninos (meu filho usando o pretexto para ganhar a amizade da Preta) e lá fomos nós, no escuro da noite, mergulhar nas águas do laguinho. Cachacinha no copo, papo amigo, brincadeiras com os dois acompanhantes, com a Preta sentada solenemente sobre sua imensa barriga de gestante. Troca de roupa, redes armadas e conversas esparsas até o sono chegar. Na madrugada, como sempre, acordei mergulhado em silêncio e na noite órfã de lua. Botei-me a pensar no filho adormecido no entorno, nos seus esforços para encontrar sentidos para a sua vida, caminhos para seus sonhos e, no meu coração emocionado e apertado de pai, pedi ao Grande que esta noite possa marcar com felicidade as suas memórias, as suas lutas e desesperanças. Deixei a emoção escorrer solta no meu espírito ancião, lavando as angustias da minha alma com o bálsamo do silêncio, até que escutei, crescente, aquele barulhinho inconfundível de chuva. Custei a acreditar, pois há mais de mês eu e minhas plantas esperávamos por ela, em vão. Mas era verdade e ela veio mansa, caindo lentamente, regando tudo à minha volta. Feliz, levantei-me envolvido no lençol e fiquei em pé a apreciá-la, como um fantasma encostado no escuro. E meu filho acordou (coisa rara em sua vida de dorminhoco matutino), para retomarmos as conversas e ver o sol nascer. Mais uma vez, abençoei minhas insônias…

Preta fevereiro 2015 779Na outra madrugada, acordei às três da matina e meu instinto avisou sobre a possibilidade da Preta parir. Passara o dia anterior inquieta, enfastiada, se roçando pelos cantos… Desci e localizei-a no quintal, no mesmo buraco em que a Oyá pariu anteriormente. Chameia-a para a varanda, acendi as luzes e percebi que sua bolsa placentária já havia estourado. Ela encostou-se na parede, eu peguei o álcool iodado e a tesoura e ficamos conversando (eu falava sobre filhos e elas me respondia com pequenos uivos, cortados aqui e ali por sinais de dor). De repente, ela envergou o lombo, se espremeu e começou a sair o primeiro filhote. Azar: veio de traseiro, posição de difícil nascimento, principalmente para uma primípara. Tentei ajudar e ela gritou alto tentando evitar que eu puxasse o nascituro. Falei com ela para acalmar e fui ajudando, até que ele saiu. Ela se deitou e sequer olhou para o filhote. Limpei-o com um pano, já que ela não o fizera, e o coloquei junto às tetas. E ela, cheirando-o, rosnou ameaçadoramente, como já fizera com outros filhotes que eu trouxera para criar, por ciúmes. Fiquei tenso, reclamei com ela e me mantive em alerta (provavelmente as dores tinham sido muito fortes, daí a rejeição). Nasceu o segundo e ela manteve-se indiferente ao  mesmo, obrigando-me a limpar o filhote outra vez. Preocupei-me, pois a possibilidade de rejeição da ninhada estava clara. O que faria, se ela se negasse a amamentá-los? Fiquei a matutar, acariciando sua cabeça e os filhotes até que veio o terceiro. Aí, aconteceu o milagre da maternidade: ela se virou, limpou a placenta, cortou-lhe o umbigo com os dentes e o puxou para junto da barriga (igualzinho à Oyá). Pronto. Daí em diante foi´filhotes jorrando e sendo agasalhados, dez ao todo, cinco machos e cinco fêmeas. E quem não sabia sobre o pai, ficou sabendo a partir do terceiro… Quem? Quem? O Num É!!! Embora a maioria fosse de cor preta, como a mãe, três eram da mesma pelagem amarela daquele que ninguém imaginava ser capaz de emprenhar a parturiente. Ri sozinho na madrugada, imaginando como aquele aparente abestado “acertara” a Preta sem que ninguém soubesse… Pelas contas, havia sido entre o Natal e o Ano Novo (quer dizer: a Preta viu o saco do Papai Num É).

A partir daí, a Preta foi de uma perfeição materna a toda prova. Dia e noite atracada com aquele bando de filhotes em suas tetas, só se levantando para ir no quintal fazer suas necessidades. Até para comer e beber, eu tinha que servi-la próximo à boca, pois não queria levantar para não atrapalhar a mamada da tropa. Cinco dias nestas condições, amamentando e lambendo bunda de filhote vinte e quatro horas por dia (como são muitos, eles mamam por turnos, tendo sempre alguns agarrados às tetas), com leite à farta. Uma mãe como poucas…

E na madrugada de hoje, quando abri a porta, a surpresa: a Preta de pé, ganindo alegre, remexendo-se mais que a mulata globeleza, explodindo de entusiasmo! Olhei do lado e lá estavam os filhotes, amontoados uns sobre os outros, dormindo… Entendi a Preta: ela conseguira superar a fase inicial da maternidade e estava querendo compartilhar comigo aquele tempinho livre. Sentamo-nos então na soleira do portão e ficamos juntos, olhando a lua crescente ainda no horizonte.

Benditas madrugadas, benditas insônias…

sábado, 28 fevereiro, 2015 Posted by | Comentário, Crônica | , | 1 Comentário

Primavera cinzenta na Arca de Noé…

ovelhaFim de tarde. Na varanda superior, o vento oeste substitui o calor de todo o dia e refresca tudo, aliviando a ausência prolongada das  chuvas de uma primavera cinza e poeirenta. Seca que tem transtornado os cultivos, provocado irrigações demasiadas e que um vazamento no açude do Benvirá agravou, me fazendo secar o lago, retirar precocemente os peixes e carregar água na camioneta para não deixar as plantas morrerem. Seca que me trouxe à mente e aos braços a lembrança das 110 latas d’água que, no Nordeste da minha infância, retirava diariamente do poço profundo para hidratar as vacas do meu pai. Seca que me fez reproduzir meu pai, namorando nuvens no horizonte e sofrendo ao vê-las distanciarem-se para vazar em outras terras. Mas nem tudo está perdido para quem luta, como dizia uma ovelha em meio a uma alcateia de lobos (o humor ajuda, gente).

Há pouco, entrei pelado no banheiro e, pelo acrílico transparente da chocadeira, os pintinhos me olhavam e piavam, como se eu fosse a mãe deles. Lavei-me sorrindo, imaginando o que eles estavam pensando. Resolvi lanchar e, na passagem pela varanda vi a Preta e o Num É, olhando-me e balançando amorosamente os rabos. No lance lateral, contemplei a pata choca com seus oito patinhos brincando no tanque vazio e abaixo, em uma bacia de água.  Desci as escadas, cheguei à garagem onde cinco pintinhos em crescimento na gaiola, dormiam a sono solto na fresca da tarde. Alimentei-me, aqueci leite acrescido de Calcigenol e vitaminas, levei Flor e Terra (as duas novas cachorrinhas do pedaço) para a varanda e as alimentei pela primeira vez. Coisa maravilhosa, vê-las bebendo leite na colherinha, elas que até hoje mamavam direto nas tetas da mãe. E como na grade do quintal, Preta e Num É estavam ouriçadíssimos com os novos hóspedes, deitei as duas novatas na caixa de papelão e chamei-os para dentro. Os dois vieram, cheiraram, cheiraram… E depois vieram pra perto de mim, em busca de afagos. Pronto, a apresentação estava feita.

Agora, contemplo o início da noite na varanda de cima, curtindo o vento e o sono das novatas ao meu lado e me preparando para o duro dia de amanhã. Mas tudo bem, como dizia a ovelha…

quinta-feira, 13 novembro, 2014 Posted by | Comentário, Crônica | , , , | Deixe um comentário

Terra-do-Nunca ou do Benvirá?

DSC00936O sonho começa a tomar forma. As fruteiras plantadas em sistemas agroflorestais completaram o primeiro ano e prometem fartura para breve. As pimenteiras-do-reino trepam vigorosamente nos troncos dos bacurizeiros nativos, como as plantas ancestrais faziam na Índia da época das grandes navegações. As águas parcialmente represadas da nascente, estão cheias de peixinhos a dançar em suas águas claras, águas cortadas diariamente pelos patos e pelos banhos expontâneos da Preta e do Num É. As andirobeiras, copaibeiras, ipês e castanheiras ensaiam os primeiros galhos das copas do futuro. E eu, cada vez mais em paz e deslumbrado, mergulhado quase sempre nas águas até ao pescoço, bebericando pinga e roendo taperebás (já tive três ameaças de pneumonia).

Agora de manhã, mais uma vez, dei comida para os peixes, sentei no toco e fiquei a apreciar seus pulos e o banho dos patos, mais abaixo. E, como nunca, a perspectiva concreta do sonho original se fez presente em mim. E por assim ser, relembrei o projeto da placa que pregarei um dia na entrada do sítio: Sítio Natureza, As reticências a serem preenchidas pelo subtítulo, que deverá expressar a essência do meu espírito em resiliência: a Terra do Nunca? Ou a Terra do Benvirá? Neste dilema, perdi a noção do tempo a matutar a escolha, sentado no tronco a beira do lago. Qual dos dois?

O primeiro subtítulo pensado, há tempos atrás, foi a Terra do Nunca. Na ficção de J. M. Barrie, esta terra era a morada dos meninos perdidos, da imortalidade e da infância perene. E eu, um menino perdido por tantos anos obrigado à luta para provar que a rebeldia valia alguma coisa, apesar de ter conseguido provar o que queria, redespertei em mim o sonho de uma segunda infância, da qual nunca mais queria sair (efeitos da velhice?). Livre. Dono da minha rebeldia. Dono da minha cabeça e do meu corpo. Imortal. Feliz como um bicho-do-mato sem predadores por perto.

Mas a minha mente em resgate é um turbilhão, que não se contenta em apenas ser criança parada no tempo, por mais feliz que ele seja. E aí me veio à cabeça a música do Vandré (Terras do Benvirá), um poeta louco, rebelde e visionário que, antes de ser morto em vida, refletiu sobre os sonhos originais, o amor de sempre, o céu que nos cobre, as coisas passada que retornam para dar força e o presente que não esquece as raízes.

Pensei muito. Tenho pensado muito nestes dois subtítulos. Cheguei até a pensar em uma enquete para que vocês pudessem me ajudar a escolher. Mas me decidi hoje, ali na beira do lago, por Terra do Benvirá. O eterno vir-a-ser. A desconstrução criativa, onde o que é bom pode ser transformado no melhor. Já fui criança um dia. Criança rebelde, sonhadora, triste e teimosa. Hoje, para minha sorte, mantenho em mim o espírito da criança que fui, mas sou um adulto. Soy um viejo (como sempre digo, um quixote incorrigível). Ou como sempre disse também, um camponês metido à besta que finalmente largou as pretensões intelectuais acadêmicas e retornou à intelectualidade da vida natural. Não me arrependo das pretensões pois fui obrigado à buscá-las e também porque, se não o tivesse feito, morreria na dúvida pelo caminho não trilhado.

E agora, ainda com o coração ligado lá no lago, comunico a vocês, meus amigos: hoje surgiu, formalmente, o Sítio Natureza – A Terra do Benvirá. Ainda embrionário, mas com coisas próprias do sonho que estou perseguindo. E lembrem-se, no caso de eu partir para o outro lado do caminho antes do combinado: aqui eu encontrei paz; aqui eu me resgatei enquanto ser humano válido; aqui reconstruí meu corpo, minha alma e meu espírito. E por tudo isso, quando partir, continuarei sentado à beira do lago, para sempre e contemplando este pequeno mundo que me faz tão feliz.

Um bom domingo a todos. E para o dia continuar encantado, mando o link para vocês curtirem o Vandré, em As terras do Benvirá.

https://www.youtube.com/watch?v=P2meimIHGsE

https://www.youtube.com/watch?v=h8Eb2YECSjo

domingo, 25 maio, 2014 Posted by | Comentário, Crônica, Reflexões, Repassando... | , , | 2 Comentários

Quixote em depressão…

Hoje, eu acordei melancólico. Não com saudades do que fui, mas com a tristeza e receio do que eu, provavelmente, não poderei ser. Com a tristeza de olhar o ninho vazio do sabiá, na minha varanda, sentir que nunca mais o verei alimentar os filhotes que voaram e que nunca mais ouvirei seu cantos nas madrugadas. Com a melancolia de  quem está no leito de morte, sentindo que nunca mais terá tempo de falar do seu amor a quem deveria, ou ouvir dele as coisas que quase nunca foram ditas. Sem mais nem menos, no silêncio da madrugada, esperando o amanhecer para ir ao sítio, senti a inutilidade do meu sonho de construir o recanto natural que talvez nunca veja produzindo e pleno de beleza. Olhando a barra do dia pela janela, escondido do frio em meus lençóis, senti a finitude das minhas madrugadas futuras me tocaiando no silêncio da noite. Senti a inutilidade do plantar que não verei produzir em maturidade, das árvores que não sombrearão minha velhice, das águas que não me banharão em fins de tarde. Senti aflorar na alma a angústia de já ser muito velho para alimentar sonhos longevos…
A Preta chorou lá embaixo a minha presença e fiquei a imaginar como será a sua vida sem mim, ou a minha vida sem ela e os seus ciumes…
Enfim, uma madrugada barra-pesada a chafurdar meu quixotismo atávico.

Não tenho filhos de natureza cabocla e suas vocações urbanas não lhes permitirá manter o sítio herdado. Tenho uma mulher urbana que indica a mesma dificuldade. E fico a imaginar as minha árvores sem meus familiares, sem meus netos, bisnetos e etc., esquecidas ou deitadas pelos interesses do mercado. E, provavelmente, morrerei antes que surja um neto rebelde que resolva ser um camponês.

Enfim, passei o resto da madrugada e do dia nesta melancolia, à espera de que Sancho e Dulcinéia voltem a sussurrar nos meus ouvidos:

“Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão.”

J. Darion – M. Leigh – Versão Chico Buarque e Ruy Guerra/1972
Para o musical para O Homem de La Mancha de Ruy Guerra

sábado, 22 fevereiro, 2014 Posted by | Comentário, Crônica | , , | Deixe um comentário