Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

As contradições do ódio que só o Freud explica, mas não resolve…

O que é o ódio e por que odiar é mais fácil que pensar?

“Sempre teremos 999 pessoas odiando para cada pessoa que pensa. E isso, às vezes, me dá ódio…”

ódio pensar raciocinar leandro karnal
Leandro Karnal, historiador e professor brasileiro (reprodução)

“O ódio é uma interrupção do pensamento e uma irracionalidade paralisadora. Como pensar é árduo, odiar é fácil. Se a religião é o ópio do povo para Marx, o ódio é ópio da mente. Ele intoxica e impede todo e qualquer incômodo.

O ódio tem um traço do nosso narciso infantil. O mundo deve concordar conosco. Quando não concorda, está errado. Somos catequistas porque somos infantis. A democracia é boa sempre que consagra meu candidato e a minha visão do mundo. A democracia é ruim, deformada ou manipulada quando diz o contrário.

Todo instituto de pesquisa é comprado quando revela algo diferente do meu desejo. Não se trata de pensar a realidade, mas adaptá-la ao meu eu. As crianças contemporâneas (especialmente as que têm mais 50 anos como eu) batem o pé e fazem beicinho, mandam mensagem no WhatsApp e argumentam. Mas, como toda criança, não ouvimos ninguém. Ou melhor, ouvimos, desde que o outro concorde comigo; então ele é sábio e equilibrado. Selecionamos os fatos que desejamos não pelo nosso espírito crítico, mas por uma decisão prévia e apriorísticas que tomamos internamente. Grosso modo, isso foi explicado em Uma Teoria da Dissonância Cognitiva, de Leon Festifnger.

Seria bom perceber que ódio fala muito mim e pouco do objeto que odeio. Mas o principal tema do ódio é meu medo da semelhança. Talvez por isso os ódios intestinos sejam mais virulentos do que os externos. Odeio não porque sinta a total diferença do objeto do meu desprezo, mas porque temo ser idêntico. Posso perdoar muita coisa, menos o espelho.

Mas o ódio é feio, um quasímodo moral. A ira continua sendo um pecado capital. Assim, ele deve vir disfarçado da defesa da ética, do amor ao Brasil, da análise econômica moderna. Esses são os polos que banham de luz a fealdade. E, como queria o rebelde que odiava o Estado), sempre teremos 999 professores de virtude para cada pessoa virtuosa. Em oposição, encerro acrescentando: sempre teremos 999 pessoas odiando para cada pessoa que pensa. Isso às vezes me dá ódio…”.

sábado, 14 maio, 2016 Posted by | Reflexões, Vendo a Vida... | , | Deixe um comentário

Eu + Eu = Nós

solidao 3Compartilhei há pouco, no Face, que “não há nada mais libertador e poderoso do que aprender a gostar da sua própria companhia“. Desconheço a autoria da reflexão, mas espicaçou minha percepção o que há nela de mais profundo, difícil e doloroso: a aventura trágica da auto-descoberta. Sem ela, nada feito, atravessaremos o espaço vital da nossa era ignorando a própria companhia, quase sempre dela fugindo e tentando aterrá-la com pazadas  de convivências e vivências inexpressivas.

solidao 4Cedo, ainda muito cedo e sem ter consciência disso, já me preocupava esta companhia grudada no cérebro. Cheia de sombras, medos e dúvidas. Passava horas e dias olhando pro teto, imaginando o que seria de mim, o que faria no mundo e o indecifrável momento da morte, quando todos os esforços dispendidos perderiam o sentido. Mas, hoje eu vejo, a vida sempre foi boa comigo e as sombras da minha alma encontraram janelas para sopitarem e buscarem luz no mundo em que me tornei um andarilho.

Dias que perderam o sentido antes de chegada a noite. Gestos impensados e/ou esquecidos ao longo da trajetória. Amores extintos de repente, como fogueiras cuja lenha findou. Longos auto-exílios em companhia única do espelho a mostrar-me, vez em quando, a contradição entre os sonhos da minha alma e o envelhecimento do meu corpo…

Mas, agora, sei quem sou. Sou pouco, mas aprendi a gostar deste velho que me olha todos os dias, quando vou lavar-me e vestir-me. Já converso com ele. Já brinco e o ironizo sobre o seu possível charme idoso. Já não tenho medos, apenas tristezas a esquecer e alegrias a curtir enquanto viver. Avanço devagar, é bem verdade. Mas ainda não é o fim, mesmo com as pernas bambas e meu jeito cambaio. Na caminhada, voltei a ser integralmente filho dos verdes, dos suaves barulhos noturno, dos luares visíveis nas madrugadas e suas estrelas cintilantes. Hoje, finalmente, sei quem sou. Mesmo solitário, sei quem sou e não me amarguro com ausências que nada ou pouco me acrescentam Mesmo acompanhado por quem vale a pena, não me iludo com idéias de presenças permanentes e duradouras. Em algum momento, estarei só com a minha sombra. E aprendi a valorizá-la…

Dito isto, amigos, vou compartilhar, com este cara do espelho, o preparo do meu almoço de domingo. Lógico que compartilharemos alguns drinques. Lógico que escutaremos as nossa músicas preferidas. Cozinharemos macaxeira do sítio, abóbora do sítio, galinha do sítio (temperada com alfavaca e chicória do sítio) e, de sobremesa, banana do sítio. Tudo entremeado por bons papos (silenciosos ou expressos) como cabe a dois bons amigos…

Bom domingo a todos…

Henrique Miranda

domingo, 2 agosto, 2015 Posted by | Comentário, Crônica, Reflexões | , | Deixe um comentário

A paz e a proteção das águas…

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O Laguinho do Exu

Hoje, depois de dois dias estafantes, no fim da tarde mergulhei nas águas geladas do Benvirá. Aquele choque térmico instantâneo, aquele frescor matando o calor do corpo cansado, o cérebro desperto para a tranquilidade, os olhos emergindo para contemplar o verde antigo deste meu redor. O silêncio da tarde, o sol vermelho se escondendo, os olhos tranquilos da Preta me olhando da margem, meu coração tomando pé nas coisas de hoje e relembrando passos da longa caminhada até aqui, das léguas tiranas palmeadas em busca desta paz, desta serenidade tão bem-vinda…

Constantemente lembro-me das passagens mais tocantes da minha caminhada. Fico horas meditando sobre elas, reinterpretando seus significados e me julgando emocionalmente. Promotor, defensor, juiz e juri de mim mesmo. Revisitando-me, reolhando-me, observando-me em ato, palavras e gestos. Procurando aprender, valorizando as minhas ações felizes e buscando me perdoar pelos erros cometidos.

E hoje, mergulhado no Laguinho do Exu, me vieram as águas da lagoa da Amaralina da minha juventude, na parte mais profunda em que me agasalhava para meditar na vida agoniada de criança rebelde. Ali, sozinho em meio à vegetação aquática, passava horas matutando a vida, as tristezas, os sonhos e desejos de me largar no mundo. Dali, eu via casa de morada, o gado pastando e pressentia, na seca e na preocupação dos meus pais, a falta de perspectivas daquela vida, renascida a cada inverno e dizimada a cada sofrida estiagem…

Ninguém me procurava, pois eu era um bicho-do-mato que ia e vinha no território, conhecendo tudo e sem riscos mais sérios a enfrentar. Ninguém reparava nas minhas roupas molhadas, nos meus pés “enjilhados” de tão longos mergulhos. Sequer sabiam das longas horas deitado na cama e olhando as telhas, ouvindo os barulhos da casa, meditando sobre o porquê da morte.

E eu também não me importava com esta indiferença, pois ela me blindava das coisas ruins da vida. Como as águas da lagoa. Como a cama do meditar. Como as águas do Benvirá…

sexta-feira, 12 junho, 2015 Posted by | Comentário, Reflexões | , | Deixe um comentário

“Como fica forte uma pessoa segura de ser amada”…

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A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.

Sigmund Freud

A cada dia me encanto mais com a liberdade e qualidade de vida da Preta e suas filhotas Bole e Bela, lá no Benvirá. Desde sempre, acreditava neste resultado, a cada passeio que fazíamos por lá, eu e ela. Mas nunca imaginei que pudesse ser tão pleno o cotidiano delas e o meu prazer de vê-las cada vez mais felizes e amigas. Em primeiro lugar, temia que presas na boa casa que fiz para elas teriam apenas uma prisão melhorada de vinte metros quadrados, onde ficariam isoladas do território do sítio, a ser compartilhado apenas quando eu e/ou os trabalhadores lá estivessem. Em oposição, temia deixá-las soltas e vê-las fugirem para as vizinhanças, por estarem sozinhas. E resguardando-as de fugas, perderia a maior função delas, a vigilância do território. Dúvida atroz…

Mas como dizia meu velho pai, “quem tem medo não amarra cachorro”. Os riscos são inevitáveis para quem busca a plenitude e comecei então a operacionalizar uma estratégia intuitiva. Primeiro, deixei-as presas na casinha durante três dias. Do quarto dia em diante, deixei-as soltas o dia todo, sendo presas à noite ou a cada partida minha (durante cerca de meia hora), para evitar que a Preta, inevitavelmente, saísse desabalada atrás da caminhonete. Vencido satisfatoriamente o primeiro mês, arrisquei deixá-las soltas dia e noite (só mantendo as retenções nas minhas partidas) e foi um sucesso. Mantiveram-se no território amplo do sítio e passaram a vigiar eficientemente o acesso de pessoas ou animais estranhos. A minha segurança final me veio no primeiro amanhecer em que elas ficaram soltas a noite inteira: chego sempre primeiro que os trabalhadores e, ao chegar próximo à maloca, quem aponta a cabeça na beira da estrada, naquele sua postura majestosa? A Preta, cabeça erguida em alerta e cauda balançante ao reconhecer o carro. Logo após, surgem as duas pequeninas (apenas dois meses de idade), fazendo festas e se postando na frente do veículo. Tive que frear, avançar lentamente e buzinando, para que elas se postassem do lado da estrada. E a festa, quando saí do carro? Estava já com a roupa do trabalho profissional e elas sujaram as minhas calças, aos pulos com as patas sujas de terra. Um pandemônio canino para o meu coração feliz…

De lá para cá, tudo tranquilo, mas sem deixar de ocorrerem fatos imprevistos e interessantes…

Totalmente soltas, elas, capitaneadas pela mãe, foram ampliando o domínio sobre o território. E uma bela manhã em que me atrasei, na entrada do sítio o Flávio me comunicou: _ Seu Henrique, quando nós chegamos na maloca, as três não estavam por lá. Logo depois chegou a Preta, cansada e sedenta, se meteu no lago pra se refrescar e das duas pequenas, nem notícia… Eu acho que elas tão na mata, aqui pra cima. Desci do carro preocupado com o fato da Preta ter deixado as filhas na mata e voltado sozinha: _ Mas Flávio, a Preta não quis voltar atrás das filhas? _ Pode ate ser que ela quisesse voltar, seu Henrique, só que nós prendemos ela, com medo dela fugir de vez.

Pensei rápido, gritei os nomes das duas, assobiei alto e dei duas buzinadas no carro. Imediatamente as duas iniciaram o chorororô na mata próxima. Estavam perdidas e respondiam pedindo socorro. Fiquei puto com elas, largarem a segurança da maloca pra se meterem no mato. Anotei, mentalmente, até a Preta no meu caderninho negro, por carregar as filhas pro mato e deixá-las lá… Os trabalhadores foram buscá-las enquanto eu assobiava e elas choravam e, de repente elas deram as caras: felizes e aliviadas, correndo para as minhas pernas, barulhando… Tem raiva que resista??? Não tem, gente. Só pude fingir raiva e xingá-las amorosamente, enquanto acariciava as suas cabeças. Pensei: foi a primeira grande aventura das suas vidas, e só aventurando se aprende… E em discussão com a turma do trabalho, concluímos: algum animal silvestre assanhou a Preta, ela correu atrás do bicho sozinha e em velocidade. As pequenas, provavelmente, tentaram acompanhar a mãe (que não percebera) e se perderam. Daí, ela voltou sozinha e sem saber das filhas…

Após isto, sossegaram uns dois dias e retomaram as caminhadas matutinas na floresta sem maiores problemas. E a cada manhã, quando ouvem o carro, correm para a estrada para me receber. Ou ficam zoando em um monte de areia que acumulei à beira da estrada, até que eu apareça na curva e elas corram desabaladas e felizes para mim.

Mas ontem, tive a maior demonstração do aprendizado das pequenas e do trauma ainda não superado da Preta em relação a águas profundas. Elas estavam em seu passeio florestal, atravessaram o leito da fonte onde ele á bem raso e voltaram pela margem oposta do curso d’água. Assim, quando chegaram no Laguinho do Exu, estavam do outro lado, separadas por quinze metros de água profunda de onde eu e a Mariceli estávamos. E agora? Voltar pelo caminho da vinda ou enfrentar as águas frias e fundas do lago? A Preta parecia totalmente incapacitada para a travessia, já que tem pavor de águas acima do peito. Pois não é que a Bola, com menos de quatro meses de idade, encarou o desafio, entrou sozinha na água e nadou em linha reta e ágil até à margem em que eu estava? Vendo isso, a Bela se encorajou, pulou também na água e repetiu o trajeto. E a Preta lá, cabeça alta e inerte, mirando as águas com cara de japonês jogando pôquer. Ficou uns dois minutos quetona e começou uma travessia alternativa e menos perigosa, mais compatível com os seus medos e sua posição de mãe “desafiada”. Andando pelas partes rasas, com água no peito, chegou a um canal de apenas dois metros de largura e se jogou, nadando desesperadamente até à margem onde as filhas estavam. Ri interiormente da saída estratégica da Preta, da coragem da Bola e da adesão da Bela à coragem da irmã.

Só sei que estou cada vez mais feliz com as três, lá no Benvirá. Tenho estranhado o silêncio da casa urbana, mas sei que lá elas estão muito mais alegres. Noite dessas passei a noite sonhando que elas haviam sumido do sítio e que eu as procurava desesperadamente. Mas são somente recaídas de um viejo carente de amores e amizades verdadeiras…

sábado, 6 junho, 2015 Posted by | Comentário, Crônica, Pequenas histórias, Reflexões | , | Deixe um comentário

Uma breve Flor…

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Minha Flor, pequenina e ensimesmada como sempre, vigiando o sona da irmãzinha Terra…

A noite que terminou, assim como o dia de ontem, não foi boa. Minha duas netinhas mais novas (Terra e Flor), adoeceram, aparentemente de Giárdia, este parasita maldito que já me levou o Exu (por desconhecimento meu) e que é capaz de matar um cachorro em três dias, independente de idade. E o pior: vacina contra a maldita, só a partir de quatro meses. Assim, quando a Terra apresentou os sintomas (fastio, depressão, emagrecimento rápido, carência afetiva exagerada) comecei a dar-lhe vermífugos semi-específicos e soro fisiológico (de forma preventiva, dei também à Flor). A Terra esteve muito mal, cheguei a dar-lhe remédio e soro a contragosto, de maneira forçada, tal a sua rejeição à ingestão de qualquer coisa. Felizmente, no quarto dia, ela, embora desinteressada nos alimentos corriqueiros, repentinamente comeu um pedaço da banana que eu consumia à porta da cozinha e que caiu à sua frente. Feliz, joguei-lhe quase uma banana inteira, que ela comeu devagarinho. Cada mastigada sua me alegrava a alma (bom salvar vidas, ainda mais de quem se ama). Na quarta-feira, amanheceu esfomeada, abanando o rabo de forma discreta. Devorou meio litro de leite, dois ovos cozidos e

Flor, poucos dias antes de partir, quando iniciava-se o seu gostar pelo Benvirá...

Flor, poucos dias antes de partir, quando iniciava-se o seu gostar pelo Benvirá…

um pouco de ração. Ficou redonda, com os olhos brilhantes me mirando e o rabinho acelerado. Alegria passageira, pois logo a seguir, a Flor apresentou os mesmos sintomas, apesar da medicação preventiva. Por dois dias, tentei o mesmo tratamento dado à Terra, sem sucesso. Tentei a acidentalidade do pedacinho de banana, ovo cru e cozido, até açaí, em total fracasso. Ontem, desconfiei que ela, que sempre apresentou uma maior fragilidade física, tivesse desenvolvido alguma infecção intestinal, pois começou a defecar sanguinolento. Dei um tempo, refleti e, quando fui comprar um antibiótico para dar-lhe e voltei, ela já estava morta, espichada no chão da varanda. Frustração doída, a Terra saltitando agoniada ao meu redor e ela inerte, no pé da parede… Pensei o quanto acertara ao dar-lhes os nomes: a Terra, mais encorpada, mais levada, mais corajosa; a Flor, mais quieta, mais medrosa, mais arredia, mais delicada fisicamente… E a Flor, com sua fragilidade de olhos esverdeados, não resistira ao primeiro vendaval da vida…

Fiquei algum tempo ali, sentado e olhando o seu corpo inerte. Estava tão arrasado que nem senti coragem de enterrá-la. Coloquei-a num saco grande fui para o fundo do grande quintal e joguei-a no local onde sabia que os urubus a devorariam. Quando o corpo dela caiu ao chão, tive a impressão de que seu corpo soprara um suspiro. Assustei-me, mas esperei e racionalizei como um barulho natural de um corpo ao chocar-se ao chão. De volta à casa, deixei a Terra e sua agonia carente fora da cozinha e me empanturrei com macarronada, entupindo a tristeza e a frustração. Custei a dormir e quando consegui, não deu outra: vi a Flor, sair do saco, cambaleante, gemer baixinho e arrastar-se até ao limite da cerca. Meu coração explodiu de remorso, pena e desespero, pois sabia que ela não sobreviveria e eu não teria coragem de matá-la. E assim ela ficaria penando ali, arfando a espera da morte que demorava em aliviá-la…

Felizmente acordei. Agonia no escuro da cama. Coração constrangido em imaginar que aquele barulho poderia ter sido mesmo um último suspiro da minha netinha. E a minha impotência em fugir do sonho, me levou à morte da cachorra Baleia do Graciliano Ramos (descrita em Vidas Secas), querendo acreditar que a Flor poderia ter morrido e encontrado um grande jardim para brincar, semelhante ao Cantinho da Zinha, onde já aprendia a curtição do Benvirá.

Que O Grande a recompense pelo seu sofrimento e pelos bons momentos que me propiciou. E perdoe-me a incompetência e falta de coragem…

domingo, 11 janeiro, 2015 Posted by | Comentário, Reflexões | , | 3 Comentários

Meu sábado de contemplação…

DEZEMBRO PATOS 053

Até as galinhas vieram mariscar na “praia”, pegando uma canja na ração servida.

Você já curtiu, às quatro da madrugada, preparar uma farofa com os restos de duas picotes (Galinhas d´Angola) do fundo do caldeirão, com farinha oriunda do seu sítio e café? Nããããão? Então não sabe o que está perdendo. Principalmente depois vivenciar as coisas que compartilhei nas últimas vinte e quatro horas…

Há dias, planejava a nossa confraternização do Benvirá (eu e os cinco amigos que trabalham comigo). Coisa simples (pequeno almoço sentados pelos bancos, baldes e cantos da maloca, cerveja e banho de lago), mas com grande significado para todos nós: sorrir, conversar coisas sérias e abobrinhas, compartilhar as pequenas conquistas do ano. Sem discursos, gincanas ou bingos, apenas com a presença etérea da amizade sem apresentação verbal explicita.

Pois é: mas, o que fazer? A primeira decisão foi a óbvia: cerveja, paixão de todos. A segunda, comida, E o que parecia mais difícil, tornou-se extremamente fácil: num rápido julgamento (ao melhor estilo de Che no pós-revolução) condenamos à panela as duas picotes que de há muito infernizavam suas colegas de terreiro, agredindo patos e galinhas, destruindo ninhadas de ovos, em verdadeiro gangsterismo emplumado. E apesar da capacidade de fuga das “marginais”, foi só divulgar-se a finalidade do julgamento e elas foram rapidamente encurraladas e presas pelos juízes do “tribunal”.

DEZEMBRO PATOS 065

Ao fundo, os patos veteranos. No primeiro plano os patos recém-chegados, ainda receosos de tanto espaço e mordomia…

Levei-as ao cadafalso (o depenador comercial de aves) e, enquanto esperava, um dos trabalhadores do abatedouro contou-me que sua sogra estava desesperada para vender 23 patos que criava no pequeno quintal urbano. Patos de todas as idades e sexo, que estavam atazanando a sua vida e os quais estava vendendo a preço de banana (cem reais). Não vacilei e fiz um dos melhores negócios da minha vida. Peguei-os no pequeno e lamacento quintal, sujos e pouco alimentados e levei-os ao Benvirá, soltando-os à beira do lago. Fascinante, amigos, a imobilidade contemplativa das aves diante do espaço amplo e bucólico. Como criança boquiaberta diante das surpresas da vida. Como escravos que de repente são libertos e não atinam no que fazer com a liberdade. Não correram para a água, como eu esperava. Ficaram á beira, deitados e bicando o mato rasteiro à volta. Vim embora, comprei ração e vermífugo para dar-lhes no domingo, entrei na NET para escolher a receita para as picotes, comprei os ingredientes e preparamos as ditas para o dia seguinte. Complementei a tarde construindo dois cochos flutuantes para alimentar os patos no lago e permitir que os peixes aproveitem os restos que eles sempre jogam ao redor.

De manhã cedo, ao entrar na garagem, dei de cara, pela quarta vez consecutiva, com a frangota-de-rua (aquelas aves que criam os seus donos se virando pela vizinhança), furtando a ração com que alimento os pintos e patinhos nos viveiros pré-Benvirá. Não tive dúvidas. Sem sentimento de culpa, peguei-a e prendi na camioneta para levá-la ao sítio. Sabia que ela iria adorar, embora os seus pretensos donos fossem estranhar a perda. E sendo ela comum (sem raça definida), ela choca (diferentemente das galinhas mestiças que crio) e assim assumirá a nobre missão de chocar os pintos das galinhas sem espírito maternal.

DEZEMBRO PATOS 075

O patriarca Negão, com duas de suas mulheres e os dois patinhos sobreviventes da chacina das picotes, curtindo a liberdade conhecida…

No sábado, cheguei cedo ao sítio e a galera dos patos já estava muito louca, mergulhando e balançando as penas, barulhando no lago. Coisa divina. Botei ração nos dois cochos construídos (ainda no seco) e eles não se aproximaram, ficaram “cercando o frango”, desconfiados. Acho que eles nunca viram ração e estavam desconfiados da mordomia. Mas a franga-de-rua, experiente, avançou e eles, devagarinho foram se chegando enquanto eu, já mergulhado na água e mandando uma gelada, contemplava aquela expressão alegre de vida. E enquanto os amigos se esbaldavam na cerveja e nas picotes, lá na maloca, eu me esbaldava naquele fascinante vai-e-vem das aves explicitamente felizes. E apesar das minhas muitas limitações, nunca me senti tão objetivamente ambientalista, diante de tanta alegria e bem-estar.

Mais uma vez acreditei que a verdadeira avaliação da nossa consciência não é a crítica das nossas muitas deficiências, mas o reconhecimento das poucas coisas boas que conseguimos realizar…

E agora, na varanda do meu sítio urbano, comendo farofa de picote com café, sob a lua minguante e vendo o dia nascer com as minhas netinhas Terra e Flor chafurdando nos meus pés, decidi iniciar o dia compartilhando minha alma com vocês.

Bom domingo a todos…

domingo, 14 dezembro, 2014 Posted by | Comentário, Reflexões | , , | Deixe um comentário

Semeando angústias e colhendo as cores de um maravilhoso angustiado…

Repassado pela navegante Linney Dias – PE

Hã quatro dias, distilei aqui as minhas angústias do momento, na insônia de uma noite enluarada. E por usar uma das noites do meu amigo Van Gogh para cobrir a ausência de uma imagem que eu deveria ter fotografado, terminei ganhando um presente: um vídeo inédito (para mim) sobre ele. Emocionante. Uma ficção sobre o meu angustiado amigo, revivido artisticamente e caracterizado em seu perfil martirizado, sua loucura criativa, de forma sucinta e brilhante. Claro que me emocionei. Claro que relembrei seu outro vídeo (Starry, starry nigth). Claro que, mais uma vez, me senti maravilhado com as cores e as mensagens de seus quadros, capazes de dar sentido filosófico a um simples e surrado par de botinas, de dar toda a singela beleza de um casal descansando sobre o feno ou um pai voltando pra casa, ou um noturno e solitário bar… Coisas simples da vida, em cores jamais vistas até então. Obrigado, amiga Linney, pelo presente. Valeu a minha angústia relatada…

Pra quem quiser curtir o vídeo, segue o link:

http://vimeo.com/67422566

segunda-feira, 15 setembro, 2014 Posted by | Comentário, Reflexões | , | Deixe um comentário

Triste, mas correta reflexão…(II)

VARELA

quinta-feira, 14 agosto, 2014 Posted by | Reflexões, Repassando... | , , | 2 Comentários

Felipão: expulsa o Parreira, tira o Fred e telefona pro Mike Jagger!

Pô, Filipão! Qual é a tua? Cadê aquela ousadia de 2002 e da Copa das confederações? Cadê aquela pressão constante sobre o adversário? As três partidas anteriores foram um saco, mas deu pra entender a espera do entrosamento e o possível despertar de alguns dos jogadores. Mas a de ontem, faça-me o favor! Fazer um gol e se fechar em retranca? E no intervalo, ainda ficar escutando abobrinhas do Parreira, este retranqueiro de merda cujo principais méritos são puxar-saco de cartola e uma copa do mundo que ganhou nos pênaltis (a única até hoje assim decidida) e graças ao Romário (que convocou à força, com medo de não se classificar nas eliminatórias). Todo mundo viu na TV, vc com cara de abestado e ele, o abestado, contando nos dedos e cantando de galo! Qualé, Filipão? Vc que peitava todo mundo, que tinha o grupo na mão, agora vira retranqueiro e teimoso?

Agora vamos ao time. Respeito o Fred, mas ele não está bem, não está correspondendo e tem que sair! Não ajuda atrás e não resolve na frente. Me deu raiva ver o pobre do Hulk jogando de lateral esquerdo, de meio-campo, de ponta-esquerda e centroavante, como um possesso, um alucinado, no sacrifício, fora de sua posição original de atacante. Deu raiva também ver o menino Neymar jogando de lateral- direito, meio campista, também no sacrifício! Tudo bem que todos têm de ajudar, mas não se deturpar em posicionamentos que limitam a imposição do nosso domínio técnico e ainda estimula a iniciativa dos adversários. O juiz roubou? Vá lá, mas nós não podemos estar na dependência de juízes favoráveis…

Então, Felipão, retome a seleção na munheca! Mande o Parreira e suas retrancas para a rouparia, coloque o Willian no meio campo e avance o Hulk para o ataque, deixando o Fred no banco. Pode também pensar no “alegria nas pernas”, no Maicon e até no Hernane, mas tira o Fred e acaba com a retranca!

Ah! Finalizando: telefona pro Mike Jagger e pede pra ele torcer pra Argentina… Valeu?

domingo, 29 junho, 2014 Posted by | Comentário, Reflexões | , , | Deixe um comentário

Terra-do-Nunca ou do Benvirá?

DSC00936O sonho começa a tomar forma. As fruteiras plantadas em sistemas agroflorestais completaram o primeiro ano e prometem fartura para breve. As pimenteiras-do-reino trepam vigorosamente nos troncos dos bacurizeiros nativos, como as plantas ancestrais faziam na Índia da época das grandes navegações. As águas parcialmente represadas da nascente, estão cheias de peixinhos a dançar em suas águas claras, águas cortadas diariamente pelos patos e pelos banhos expontâneos da Preta e do Num É. As andirobeiras, copaibeiras, ipês e castanheiras ensaiam os primeiros galhos das copas do futuro. E eu, cada vez mais em paz e deslumbrado, mergulhado quase sempre nas águas até ao pescoço, bebericando pinga e roendo taperebás (já tive três ameaças de pneumonia).

Agora de manhã, mais uma vez, dei comida para os peixes, sentei no toco e fiquei a apreciar seus pulos e o banho dos patos, mais abaixo. E, como nunca, a perspectiva concreta do sonho original se fez presente em mim. E por assim ser, relembrei o projeto da placa que pregarei um dia na entrada do sítio: Sítio Natureza, As reticências a serem preenchidas pelo subtítulo, que deverá expressar a essência do meu espírito em resiliência: a Terra do Nunca? Ou a Terra do Benvirá? Neste dilema, perdi a noção do tempo a matutar a escolha, sentado no tronco a beira do lago. Qual dos dois?

O primeiro subtítulo pensado, há tempos atrás, foi a Terra do Nunca. Na ficção de J. M. Barrie, esta terra era a morada dos meninos perdidos, da imortalidade e da infância perene. E eu, um menino perdido por tantos anos obrigado à luta para provar que a rebeldia valia alguma coisa, apesar de ter conseguido provar o que queria, redespertei em mim o sonho de uma segunda infância, da qual nunca mais queria sair (efeitos da velhice?). Livre. Dono da minha rebeldia. Dono da minha cabeça e do meu corpo. Imortal. Feliz como um bicho-do-mato sem predadores por perto.

Mas a minha mente em resgate é um turbilhão, que não se contenta em apenas ser criança parada no tempo, por mais feliz que ele seja. E aí me veio à cabeça a música do Vandré (Terras do Benvirá), um poeta louco, rebelde e visionário que, antes de ser morto em vida, refletiu sobre os sonhos originais, o amor de sempre, o céu que nos cobre, as coisas passada que retornam para dar força e o presente que não esquece as raízes.

Pensei muito. Tenho pensado muito nestes dois subtítulos. Cheguei até a pensar em uma enquete para que vocês pudessem me ajudar a escolher. Mas me decidi hoje, ali na beira do lago, por Terra do Benvirá. O eterno vir-a-ser. A desconstrução criativa, onde o que é bom pode ser transformado no melhor. Já fui criança um dia. Criança rebelde, sonhadora, triste e teimosa. Hoje, para minha sorte, mantenho em mim o espírito da criança que fui, mas sou um adulto. Soy um viejo (como sempre digo, um quixote incorrigível). Ou como sempre disse também, um camponês metido à besta que finalmente largou as pretensões intelectuais acadêmicas e retornou à intelectualidade da vida natural. Não me arrependo das pretensões pois fui obrigado à buscá-las e também porque, se não o tivesse feito, morreria na dúvida pelo caminho não trilhado.

E agora, ainda com o coração ligado lá no lago, comunico a vocês, meus amigos: hoje surgiu, formalmente, o Sítio Natureza – A Terra do Benvirá. Ainda embrionário, mas com coisas próprias do sonho que estou perseguindo. E lembrem-se, no caso de eu partir para o outro lado do caminho antes do combinado: aqui eu encontrei paz; aqui eu me resgatei enquanto ser humano válido; aqui reconstruí meu corpo, minha alma e meu espírito. E por tudo isso, quando partir, continuarei sentado à beira do lago, para sempre e contemplando este pequeno mundo que me faz tão feliz.

Um bom domingo a todos. E para o dia continuar encantado, mando o link para vocês curtirem o Vandré, em As terras do Benvirá.

https://www.youtube.com/watch?v=P2meimIHGsE

https://www.youtube.com/watch?v=h8Eb2YECSjo

domingo, 25 maio, 2014 Posted by | Comentário, Crônica, Reflexões, Repassando... | , , | 2 Comentários