Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Chavez: “perigoso” em vida, invencível morto? (II)

Um cara que em um pouco mais de uma década no poder, erradicou o analfabetismo, apoiou Cuba e as nações sul-americanas “populistas” (como diz a mídia vassala das classes dominantes) e melhorou reconhecidamente os atendimentos da população nacional em saúde, eleito quatro vezes em eleições limpas (leiam post abaixo), execrado como ditador pela grande mídia nacional, parece que vai dar mais trabalho agora, que se foi para sempre. Os milhares de pessoas nas ruas falam por si só. Veremos agora nas eleições que serão realizadas daqui a um mês, se a força de chavez era o seu “populismo” e carisma ou se estas duas qualidades serão acrescidas pela mobilização popular por direitos recém-adquiridos e irrenegáveis.

Ah! Em tempo: extremamente risível o comentário do (Ex) Esperança Negra Obama, sobre o seu interesse nos direitos humanos na Venezuela pós-Chavez. Os povos árabes (apenas para nos ater à atualidade) que o digam, não é, Presidente ianque “democrata”?
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Publicado em 06/03/2013

Presidente americano elogia Chávez

Sistema eleitoral da Venezuela permite recontagem e dá de 10 a 0 no brasileiro.

 Nunca antes na história deste continente, um presidente dos EUA foi tão solenemente ignorado pelo O Globo (“cachorro do império”) como Jimmy Carter, ao reconhecer a importância de Chávez.
Em um seminário no ano passado, em pleno período eleitoral na Venezuela, Carter – que não é propriamente um marxista perigoso – qualificou o sistema eleitoral do país de “o melhor do mundo”.
O “Centro Carter” observa eleições ao redor do mundo há décadas. Em 2006, ele garantiu: “Chávez venceu de forma justa”.

do The Carter Center:
http://www.cartercenter.org/news/pr/hugo-chavez-030513.html
“Rosalynn e eu estendemos nossas condolências à família de Hugo Chávez Frías. Nós conhecemos Hugo Chávez quando ele estava em campanha para presidente em 1998 e o “Centro Carter” foi convidado para observar as eleições pela primeira vez na Venezuela. Voltamos muitas vezes, para as eleições de 2000, e depois para facilitar o diálogo durante o conflito político de 2002-2004. Nós viemos a conhecer um homem que expressa uma visão de mudanças profundas ao seu país para beneficiar principalmente as pessoas que sentem-se abandonados e marginalizados. Apesar de não ter concordado com todos os métodos seguidos por seu governo, nunca se duvidou do compromisso de Hugo Chávez em melhorar as vidas de milhões de compatriotas seus companheiros.
Presidente Chávez será lembrado por sua afirmação ousada de autonomia e independência para os governos da América Latina e por suas habilidades de comunicação formidáveis e conexão pessoal com simpatizantes em seu país e no estrangeiro, a quem ele deu esperança e capacitação. Durante seu mandato de 14 anos, Chávez ingressou outros líderes da América Latina e do Caribe para criar novas formas de integração. Taxas de pobreza venezuelanos foram cortadas ao meio, e os milhões recebidos documentos de identificação para a primeira vez que lhes permite participar mais eficazmente na vida econômica e política do seu país.
Ao mesmo tempo, reconhecemos as divisões criadas na unidade para a mudança na Venezuela e da necessidade de reconciliação nacional. Como os venezuelanos lamentamos o falecimento do presidente Chávez e recordamos seus legados positivos – especialmente os ganhos obtidos para os pobres e vulneráveis – Esperamos que, os líderes políticos o país avancem com a construção de um novo consenso que garanta a igualdade de oportunidades para todos os venezuelanos para participar todos os aspectos da vida nacional. (sic)”

quarta-feira, 6 março, 2013 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | Deixe um comentário

O paladino vassalo tá doido por uma primavera cubana…

À semelhança das lideranças imperialistas que o antecederam e dos atuais comandantes do imperialismo planetário, o (Des)Esperança Negra não abandona a obssessão de implantar “democracias” no mundo que rejeita a coleira capitalista. Depois de implantarem “democracias” no Vietnã, no Brasil (1964, lembram-se?) no Chile (lembram do Pinochet?), Afeganistão, Irã, Iraque e outros recantos do mundo, fomentam hoje a “primavera árabe” na Líbia, em Dubai, Síria, Egito (por enquanto), primavera esta que desabrochou em genocídios sem final à vista.

Agora, aproveitando-se de uma morte acidental de um opositor cubano (em liberdade territorial), veste mais uma vez a sua pele camaleônica de democrata para ver se lá, na incômoda ilha que um dia foi o seu quintal “democrático’ (à época de Somoza), aflora uma nova “primavera”. E em sua mensagem (leiam abaixo), como me lembra a falação do Lobo para o Cordeiro à beira do riacho, embora disfarçada pela vaselina afrodescendente vassala que tem pautado todo o seu mandato à serviço das elites brancas dominantes das terras do Tio Sam.

Seria risível, se não fosse despudorado, o discurso político social do negro-de-alma-branca (por isso repugnante), que nesta mesma ilha mantém a prisão de Guantanamo e, esquecendo sua nanica estatura moral construída neste seu triste mandato, fala de direitos humanos e se coloca ao lado do povo cubano. Talvez por isto, até o papagaio, no seu ombro, tá olhando pro outro lado, com se não tivesse nada com isso…

A que ponto chega o cinismo…
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Obama expressa condolências por morte de Payá e reafirma apoio a povo cubano

EFE – 53 minutos atrás

DESTAQUES EM MUNDO
Reuters – 19 minutos atrás

Washington, 23 jul (EFE).- O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, expressou suas condolências pela morte do dissidente cubano Oswaldo Payá, no domingo, e reafirmou o apoio de Washington à luta pelos direitos humanos na ilha, informou nesta segunda-feira a Casa Branca.

O líder elevou seus “pensamentos e orações à família e aos amigos de Oswaldo Payá, um incansável defensor de maiores direitos civis e humanos em Cuba”, disse em comunicado o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney.

“Os EUA continuarão apoiando o povo cubano em sua busca pelos direitos humanos fundamentais”, afirmou Carney.

“Payá dedicou décadas de sua vida à luta não violenta pela liberdade e pela reforma democrática em Cuba como titular do Movimento Cristão de Libertação, líder do Projeto Varela, e através de seu papel como um ativista da sociedade civil”, assinalou Carney.

Payá, que morreu ontem aos 60 anos em um acidente de trânsito, “manteve até o fim sua esperança de que o país que amou veria uma transição pacífica e democrática”, continuou Carney.

“A visão e a dedicação de Payá por um futuro melhor em Cuba continuará nos inspirando, e acreditamos que seu exemplo e liderança moral perdurarão”, ressaltou.

Payá foi uma das figuras mais relevantes da oposição em Cuba e há mais de uma década lançou o “Projeto Varela”, uma iniciativa avalizada por milhares de assinaturas para promover uma transição democrática em Cuba.

No acidente de ontem morreu também o ativista cubano Harold Cepero e ficaram feridos o espanhol Ángel Carromero, dirigente local das Novas Gerações do Partido Popular de Madri, e o sueco Jens Aron Modig. EFE

segunda-feira, 23 julho, 2012 Posted by | Comentário | , , , | Deixe um comentário

A hipocrisia do Titio e a banalização da violência…

12 Mar
Por Brizola Neto

Chocante é o soldado estar lá

O presidente Barack Obama disse que a morte de 15 afegãos – entre eles, nove crianças e três mulheres – assassinados por um soldado americano no Afeganistão, é um incidente “trágico e chocante”.

Não é chocante, embora seja trágico.

Porque ninguém mais pode se chocar depois do enésimo episódio de abuso violento de tropas americanas.

Não é um louco isolado, como pode surgir em Realengo, na Noruega ou lá no Oriente.

São episódios que se repetem, com uma brutalidade em série, e em crescendo.

Porque Afeganistão e Iraque não são guerras entre exércitos regulares, mas massacres.

É inútil o presidente Barack Obama dizer que esta chacina “não representa a qualidade excepcional de nossa força militar e o  respeito que os Estados Unidos têm para com o povo do Afeganistão”.

Se respeitassem os afegãos, já teriam saído de lá, ainda mais agora que a “desculpa” Bin Laden já não existe, faz tempo.

Não teriam bombardeado o país durante anos, sem que nem mesmo houvesse uma força de resistência organizada, mas apenas pequenos grupos dispersos e mal-armados.

Não teriam cometido humilhações e violações, das quais a incineração de exemplares do Corão, há poucos dias, foi o corolário de um processo de desprezo pela cultura, pelas tradições e pela fé dos afegãos.

Não teriam, sobretudo, reservado a mais rápida e severa punição para o soldado Bradley Manning, cujo “crime hediondo” foi revelar algumas destas barbaridades.

Dizer que o soldado assassino sofreu “uma crise nervosa” é patético. Quem está em crise, profunda, são os valores universais da autodeterminação dos povos.

A “loucura” é da guerra, os “cães de guerra” são apenas sua expressão mais crua.

segunda-feira, 12 março, 2012 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

Na democracia, quem vence são os fortes…

Internacional| 19/11/2011
Via cartamaior.com.br

Goldman Sachs: como criar uma crise e governar o mundo

Muitos dos homens que fabricaram o desastre foram chamados agora para tomar as rédeas de postos chaves e com a missão de reparar, ao custo do bem estar da população, as consequências dos calotes que eles mesmos produziram. O banco de investimentos Goldman Sachs conseguiu uma façanha pouco frequente na história política mundial: colocar os seus homens na direção dos governos europeus e do banco que rege os destinos das políticas econômicas da União Europeia. Mario Draghi, o atual presidente do BC Europeu, Mario Monti, presidente do Conselho Italiano, Lukas Papademos, o novo primeiro ministro grego, todos pertencem à galáxia do Goldman Sachs. O artigo é de Eduardo Febbro.

Eduardo Febbro – Correspondente da Carta Maior em Paris

A história poderia satisfazer a todas as expectativas dos adeptos das teorias da conspiração: onde está o poder mundial? A resposta cabe num nome e num lugar: na sede do banco de investimentos Goldman Sachs. O banco estadunidense conseguiu uma façanha pouco frequente na história política mundial: colocar os seus homens na direção dos governos europeus e do banco que rege os destinos das políticas econômicas da União Europeia. Mario Draghi, o atual presidente do Banco Central Europeu, Mario Monti, o presidente do Conselho Italiano que substituiu a Silvio Berlusconi, Lukas Papademos, o novo primeiro ministro grego, todos pertencem à galáxia do Goldman Sachs.
Desses três responsáveis, dois, Monti e Papademos, formam o anexo avançado da política pela tecnocracia econômica, pertencem à rede que o Goldman Sachs teceu no Velho Continente e, em graus diversos, participaram nas mais truculentas operações ilícitas orquestradas pela instituição estadunidense. Além do mais, não são os únicos. Pode-se também mencionar Petros Christodoulos, hoje à frente do organismo que administra a dívida pública grega e que no passado recente foi presidente do Banco Nacional da Grécia, a quem o Goldman Sachs vendeu o produto financeiro hoje conhecido como “swap” e com o qual as autoridades gregas e o Goldman Sachs orquestraram a maquiagem das contas gregas.
O dragão que protege os interesses de Wall Street conta com homens chave nos postos mais decisivos, e não só na Europa. Henry Paulson, ex presidente do Goldman Sachs, foi em seguida nomeado Secretário do Tesouro estadunidense, ao passo que William C. Dudley, outro alto funcionário do Goldman Sachs, é o atual presidente do Federal Reserve de Nova York. Mas o caso dos responsáveis europeus é mais paradigmático. A palma de ouro quem leva é Mario Draghi, o atual presidente do Banco Central Europeu, que foi vice presidente do Goldmann Sachs para a Europa entre os anos 2002 e 2005.
Neste posto, Draghi teve um desempenho mais do que ambíguo. O título de seu cargo era “empresas e dívidas soberanas”. Precisamente nesse cargo Draghi teve como missão vender o produto incendiário “swap”. Este instrumento financeiro é um elemento determinante no ocultamento das dívidas soberanas, quer dizer, na maquiagem das contas gregas. Esse engodo foi a astúcia que permitiu que a Grécia se qualificasse para fazer parte da zona do euro. Tecnicamente e com o Goldmann Sachs como operador, tratou-se de então de transformar a dívida externa da Grécia numa dívida em euros. Com isso, a dívida grega desapareceu dos balanços negativos e o Goldmann Sachs ganhou uma vultuosa comissão.
Depois, em 2006, o banco vendeu parte desse pacote de swaps ao principal banco comercial do país, o Banco Nacional da Grécia, dirigido por outro homem do Goldmann Sachs, Petros Christodoulos, ex trader do Goldmann Sachs e…atualmente diretor do organismo de gestão da dívida da Grécia, que o mesmo e os já mencionados contribuíram para primeiro mascarar e depois, incrementar. Mario Draghi tem um histórico pesado. O ex presidente da República italiana Francesco Cossiga acusou Draghi de ter favorecido o Goldmann Sachs em contratos importantes, quando Draghi era diretor do Tesouro e a Itália estava em pleno processo privatizador.
O certo é que o agora presidente do Banco Central Europeu aparece massivamente indicado como o grande vendedor de swaps em toda a Europa.
Nesse entrevero de falsificações surge o chefe do executivo grego, Lukas Papademos. O primeiro ministro foi governador do Banco Central grego entre 1994 e 2002. Esse é precisamente o período em que o Sachs foi cúmplice de ocultamento da realidade econômica grega e, enquanto responsável pela entidade bancária nacional, Papademos não podia ignorar o engodo que estava montando. As datas em que o cargo coincidem com a operação da montagem. Na lista de notáveis Mario Monti o segue. O atual presidente do Conselho Italiano foi conselheiro internacional do Goldmann Sachs desde 2005.
Em resumo, muitos dos homens que fabricaram o desastre foram chamados agora para tomar as rédeas de postos chaves e com a missão de reparar, ao custo do bem estar da população, as consequências dos calotes que eles mesmos produziram. Não cabe dúvida de que existe o que os analistas chamam de “um governo Sachs europeu”.
O português Antonio Borges dirigiu até há pouco – acaba de renunciar – o Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional. Até 2008, Antonio Borges foi vice presidente do Goldmann Sachs. O desaparecido Karel Van Miert – Bélgica – foi Comissário Europeu da Competição e também um quadro do Goldmann Sachs. O alemão Ottmar Issing foi sucessivamente presidente do Bundesbank europeu, conselheiro internacional do Sachs e membro do Conselho de Administração do Banco Central Europeu. Peter O’Neill é outro homem do esquema: presidente do Goldmann Sachs Asset Management, O’Neill, apelidado de “o guru” do Goldmann Sachs, é o inventor do conceito de BRICS, o grupo de países emergentes composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O’Neill é acompanhado por outro peso pesado, Peter Sutherland, ex presidente do Goldmann Sachs Internacional, membro da seção “Europa” da Comissão Trilateral – o mesmo que Lukas Papademos – ex integrante da Comissão de Competição na União Europeia, Procurador Geral da Irlanda e mediador influente no plano que culminou com o resgate da Irlanda.
Alessio Rastani tem toda razão. Este personagem que se apresentou perante o BC como um trader disse há algumas semanas: “os políticos não governam o mundo. O Goldmann Sachs governa o mundo”. Sua história é exemplar, de jogo duplo, como as das personalidades e carreiras dos braços mundiais do Goldmann Sachs. Alessio Rastani disse que ele era um trader londrino, mas que depois se descobriu que trader não era e poderia ser parte do Yes Men, um grupo de ativistas que, através da caricatura e da infiltração na mídia, denunciam o liberalismo.
Entrará para as páginas da história mundial da impunidade a figura desses personagens. Empregados por uma firma estadunidense, eles orquestraram um dos maiores calotes já conhecidos, cujas consequências hoje estão sendo pagas. Foram premiados com o timão da crise que eles produziram.
Tradução: Katarina Peixoto

Fotos: Maringoni

sábado, 19 novembro, 2011 Posted by | Repassando... | , , , | Deixe um comentário

Até parecem a Globo…Ah! Se fossem a Dilma e o Lula!

15 de novembro de 2011 às 23:43

Luiz Cláudio Cunha: Vexame em Cannes

por Luiz Cláudio Cunha, no Observatório da Imprensa

O fato mais retumbante da fracassada reunião do G-20, dias 3 e 4/11, em Cannes, não saiu em nenhum comunicado oficial, nem nas entrevistas dos líderes das 20 nações mais ricas deste planeta empobrecido. Num descuido técnico capaz de matar de inveja ao inconfidente Julian Assange, vazou no sistema de som da cúpula um diálogo inacreditável dos presidentes da França, Nicolas Sarkozy, e dos Estados Unidos, Barack Obama, desancando um amigo ausente, o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu.

Os jornalistas receberam seus equipamentos de tradução simultânea, enquanto aguardavam a chegada de Sarkozy e Obama para a entrevista coletiva. Os dois presidentes, com aquela sinceridade que só habita documento secreto vazado pelo WikiLeaks, falavam em privado, na sala ao lado, o que nunca diriam em público sobre o primeiro-ministro israelense.

“Não posso nem vê-lo. É um mentiroso”, bufou Sarkozy, em francês. “Se você está cansado, imagina eu, que tenho de lidar com ele todos os dias”, ecoou Obama, sob o solitário testemunho do intérprete. Um descuido jogou esta conversa franca no sistema de som que os jornalistas haviam recebido, minutos antes da coletiva iminente.

Mais espantoso do que o tom cabeludo do papo presidencial entre dois tradicionais aliados de Israel foi o comportamento cúmplice da grande imprensa, que se mostrou uma aliada ainda mais incondicional de Sarkozy e Obama. Esta conversa aconteceu numa quinta-feira (3/11), numa sala reservada do suntuoso Palais des Festivals de Cannes, e foi ouvida casualmente por seis jornalistas de grandes órgãos internacionais, que ainda testavam seus fones de ouvido. Um deles era da Associated Press (AP), uma gigantesca agência de notícias que abastece 1.700 jornais e 5.000 rádios e TVs em 120 países. Outro era da Reuters, a maior e mais antiga agência do mundo, com 14 mil funcionários falando 20 idiomas em mais de 200 grandes cidades do mundo. Apesar disso, ninguém ficou sabendo da conversa ouvida por acaso pelos jornalistas simplesmente porque os jornalistas ocultaram a notícia.

Cortesões do poder

Uma das anônimas testemunhas dessa gafe histórica explicou à agência estatal France Presse (3.000 funcionários em 110 países, com notícias em seis idiomas) a razão de seu deliberado mutismo: “Nós fomos avisados para sermos prudentes e proteger as pessoas do Palácio Eliseu, com as quais trabalhamos todos os dias, e acima de tudo sobre a natureza da conversa, que poderia ser explosiva”.

Outro jornalista, mais servidor público do que servidor do público, o israelense Gidon Kutz, de uma rádio oficial de Tel-Aviv, explicou que os repórteres acharam melhor esconder o que ouviram por “uma questão de correção” e por uma inesperada cortesia com os anfitriões: “Eles não quiseram embaraçar o serviço de imprensa do Governo Sarkozy”.

A rede britânica BBC acrescentou outra vergonhosa explicação dos jornalistas que decidiram dissimular a notícia: “A divulgação do diálogo poderia constranger Sarkozy”, disseram, ocultos no anonimato e encharcados de constrangimento por seu mau profissionalismo.

Com esse inusitado pacto de silêncio, a conversa sem censura de Sarkozy e Obama acabou sendo vítima de uma inusitada autocensura dos repórteres que testemunharam a derrapada presidencial mas preferiram ser servis ao poder, em vez de servir ao público a que deveriam informar. Tudo isso ficou sepultado num obsequioso sigilo durante cinco dias. A conversa vazada da quinta-feira (3) só ganhou as manchetes do mundo na terça-feira (8/11), por obra e graça de um site francês especializado nos bastidores da mídia eletrônica, o Arrêt Sur Images(ASI), algo como “Imagem sob Julgamento”. Os jornalões brasileiros só deram a notícia uma semana depois (quinta, 10/11).

Carne com cenoura

Sustentado apenas pelos assinantes e sem espaço para publicidade, o ASI fez o que o resto da imprensa não conseguiu fazer – reconheceu o conteúdo da conversa vazada como de “utilidade pública” e fez dela um “furo” de repercussão mundial, com esta manchete: “Netanyahu ‘mentiroso’ – a conversação secreta de Obama e Sarkozy”. Até as grandes agências de notícias, que tinham afanado a informação, foram obrigadas a reproduzir a gafe mundo afora para não ampliar o vexame. Ela ganhou destaque até nos sites dos maiores jornais de Israel, com exceção do diário Israel Hayom, conhecido por sua notória intimidade com o premiê Netanyahu desde que foi lançado, em 2007.

O site Arrêt Sur Images é dirigido pelo jornalista Daniel Schneidermann, 53 anos, que escreve semanalmente sobre TV nos jornais Le Monde e Libération. O sucesso de seus comentários o levou a criar em 1995 um programa no canal estatal France 5 com um objetivo claro: “A vocação de Arrêt Sur Images é a reflexão crítica sobre as mídias”. Os jornalistas de TV, incomodados com essa espécie de “observatório televisivo”, apelidaram o programa semanal de Schneidermann de boeuf-carottes (carne com cenoura), gíria francesa para uma repartição pública, a IGS, conhecida como “a polícia das polícias”. Tinha uma audiência média de 7%, o que representava mais de 700 mil telespectadores, mas a fricção interna na rede estatal levou à sua exclusão da grade de programação em setembro de 2007.

Dias depois de sair do ar na TV, o Arrêt Sur Images voltou pela internet, com o mesmo nome e ousadia. Até o blog ganhar visibilidade mundial com o “furo” inesperado de Cannes.

A questão que fica sem resposta não é o previsível mal-estar que dominará os futuros encontros entre os líderes dos Estados Unidos, França e Israel, agora desnudados pela conversa nua e crua de Sarkozy e Obama.

A grande, desafiadora pergunta que paira no ar sobrevoa a gafe monumental da grande imprensa mundial surpreendida em flagrante delito: o que levou à deliberada ocultação de uma notícia de evidente interesse público, de forte implicação política, de grave repercussão internacional no contexto das relações diplomáticas?

A ferida e o manto

É inacreditável que experientes profissionais de grandes órgãos e de redes de comunicação de alcance planetário se vejam, de repente, enredados em questões menores, mesquinhas, provincianas. Não cabe aos jornalistas, em nenhuma circunstância, o delito de esconder deliberadamente uma notícia sob o falso argumento de que ela possa “constranger” o poder ou a autoridade pública.

Nada constrange mais do que a autocensura ou o servilismo da imprensa às instâncias do poder, público ou privado. A imprensa e seus profissionais vivem e dependem da fé pública que deriva de sua eterna vigilância e de sua permanente independência em relação aos governos e aos governantes, em todos os tempos, em todos os lugares.

Os repórteres enviados a Cannes não estavam lá a passeio, para aproveitar as delícias da Promenade de la Croisette, a charmosa avenida a beira-mar lambida pelo sereno Mediterrâneo. Diante do inesperado vazamento, não cabia a eles “proteger” os descuidados funcionários do Palácio Eliseu ou evitar embaraços aos presidentes distraídos. Uma das virtudes dos bons jornalistas é justamente embaraçar governantes e expor as falhas de suas administrações.

Esconder uma notícia não é “uma questão de correção”. É exatamente o contrário. Quando se estabelece um sistema de cumplicidade e uma prática de quadrilha para fazer o que não é correto e para cometer um ato servil que subverte a função essencial do bom jornalismo, abre-se uma ferida de mau comportamento que exige uma discussão aberta e transparente, sem códigos de silêncio ou conluios de sigilo, todos envergonhados, todos vergonhosos.

É surpreendente descobrir que, oculto por trás da grande gafe presidencial de Cannes, havia algo ainda maior, ainda pior: um grave vazamento ético de má conduta da imprensa. A única forma de estancá-lo é abrir, já, um amplo debate sobre este monumental erro coletivo, que abafa até o jornalista mais inocente sob o espesso manto do constrangimento.

Luiz Cláudio Cunha é jornalista
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PS: a imagem, capturada via Google, foi inserida por este blogueiro

quarta-feira, 16 novembro, 2011 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

Eis aí a prova da liberdade de expressão e informação do Titio e sua turma…

Wikileaks suspende atividades por falta de dinheiro

    Publicado em 24/10/2011
    Via conversaafiada.com.br

Assange: “arrecadar fundos agressivamente para contra-atacar”

Saiu na CartaCapital:

Wikileaks suspende atividades


O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, anunciou nesta segunda-feira a suspensão temporária da difusão de documentos confidenciais e sigilosos para concentrar-se na arrecadação de fundos que permitam garantir sua futura sobrevivência.


Assange informou em uma coletiva de imprensa em Londres que o WikiLeaks “se vê forçado a suspender temporariamente suas operações de publicação e a arrecadar fundos agressivamente para contra-atacar” após o bloqueio de seus fundos por parte de companhias de cartões de crédito e outras multinacionais americanas.


O WikiLeaks provocou uma grande indignação nos Estados Unidos após o início da publicação, em novembro de 2010, de 250 mil documentos confidenciais do departamento de Estado americano, depois de divulgar anteriormente outros milhares sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão.


Assange, que permanece em Londres à espera de uma decisão sobre sua extradição à Suécia, declarou à imprensa que “desde o dia 7 de dezembro de 2010, um bloqueio arbitrário e ilegal foi imposto pelo Bank of America, Visa, MasterCard, Paypal e Western Union”.


“O ataque destruiu 95% de nossas receitas”, afirmou o australiano, de 40 anos.


“Como resultado, o WikiLeaks tem funcionado com reservas em dinheiro nos últimos 11 meses. O bloqueio custou à organização dezenas de milhares de dólares em doações perdidas em um momento de custos operacionais sem precedentes”.


O anúncio de hoje contrasta com sua posição da semana passada, quando, em uma videoconferência perante a Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), em Lima, Assange assegurou que a organização que dirige estava viva e com mais fontes, apesar do embargo de suas contas pelos Estados Unidos.


“(Diz-se que) o principal problema é financeiro e está relacionado com o embargo nos Estados Unidos. Felizmente temos um fluxo de caixa forte e sólido para sobreviver, o fazemos há 11 meses”, afirmou então.

Em tempo: como se sabe, o Wikileaks fez relevantes revelações. Clique aqui para ler que Palocci queria a ALCA, aqui para ver as conversas de Cerra com a Chevron pelo pré-sal, aqui para ver por que os EUA sempre foram contra o “nacionalista” Celso Amorim e aqui para ler sobre o vazamento que envolveu Nelson Johnbim.

Vale lembrar, também, que o fundador do Wikileaks, Julian Assange, recusou convite para congresso dos tucanos.

segunda-feira, 24 outubro, 2011 Posted by | Repassando... | , , , , | Deixe um comentário

Sobre civilização ocidental e barbarismos árabes…

24 Oct
Por Brizola Neto

Quem é selvagem?

Durante o dia, pensei em como escreveria sobre a exposição mórbida do cadáver de Muammar Khadaffi, que se prolongava há vários dias. Era por demais repugnante, mas mais repugnate é fingir que isso não estava acontecendo, para não ferir a “maré” de júbilo ocidental que, aos poucos, foi se transformando em vergonha mal-disfarçada. Agora à tarde, segundo a Reuters, finalmente, o corpo foi tirado da sala refrigerada onde estava exposto  e enterrado num local secreto, se é que isso existe.

Pode-se até entender a curiosidade mórbida de líbios que o combatiam, embora nada desculpe seus líderes de terem promovido este espetáculo grotesco.

Mas pior, muito pior é o que fizeram os “civilizados” ocidentais, que sustentaram este desfecho monstruoso, que em nada fica a dever às piores acusações que se faz ao morto, em seus 40 anos de poder. Não me refiro à morbidez da mídia, ao ponto de um jornal inglês ter mandado um repórter à Libia para posar ao lado do corpo já – segundo a própria Reuters – em decomposição.  Por respeito aos leitores, reproduzo a foto de capa encobrindo parte da cena com outro recorte do mesmo jornal, este de março, onde o primeiro-ministro de Sua Majestade diz que quer o “Cachorro Louco” vivo ou morto.

Refiro-me á responsabilidades dos líderes ocidentais. Esta é a civilização que “vão levar” aos árabes? O desfecho só poderia ter sido este, depois de rejeitadas todas as iniciativas de negociação por parte da Otan. Esperavam o que, que os rebeldes enviassem dois “bobbies” ingleses, com seus casacos vermelhos e chapéus de pele para levar Kadhafi sob custódia?

Finalmente, topei com um artigo do professor Cláudio Lembo, ex-vice-governador de São Paulo, cuja filiação ao DEM o deixa insuspeito de qualquer conotação esquerdista ou anti-ocidental. Reproduzo, porque é escrito não apenas com as lições da História, mas com a alma de um ser humano que, à parte de ideologias, não tem prazer em ver a profanação de cadáveres. E que, lucidamente, não a atribui aos árabes, mas aquilo a que os levamos – das Cruzadas até hoje – em nome dos interesses econômicos e políticos que usam a democracia como o cristianismo foi usado, há muitos séculos, como bandeira de sua hipocrisia.

Leiam o texto. É muito bom, em meio a isso, ler as palavras de um ser humano civilizado.

“Morreu Kadafi. Os meios de comunicação ocidentais comemoram. Algumas  personalidades internacionais demonstram satisfação. Todos proclamam a  importância do fim de mais uma ditadura.

Restam, no entanto, perguntas não respondidas. A História da Líbia é de  conflitos permanentes. Desde a antiguidade, a área geográfica, onde se  situa o país, foi invadida por inúmeros povos: fenícios, gregos,  romanos, vândalos e bizantinos.

Em tempos mais recentes, italianos, alemães, ingleses e franceses  estiveram ocupando os desertos que se estendem, a partir do  Mediterrâneo, no norte da África.

Beberes e árabes formam a população líbia que, a partir do governo de  Mohamede ben Ali – em 1840 – adotou o islamismo como religião, a partir  de uma seita que se tornou altamente popular.

Aqui a primeira pergunta sem resposta. A queda violenta de um  governante, ainda que ditador, não gerará um clima de humilhação e  revolta em grande parcela da população?

Esta é muçulmana. Durante os últimos séculos, foram vítimas do  colonialismo e do imperialismo que, sem escrúpulos, utilizou as riquezas  naturais dos povos dominados.

Até há pouco, os governantes europeus cortejavam Kadafi e o utilizavam  para negócios exuberantes. De repente, o dirigente morto caiu em  desgraça.

Para derrubá-lo, somaram-se as maiores e mais poderosas forças armadas.  Estados Unidos aliados à OTAN – Organização do Tratado do Atlântico –  bombardearam sem piedade populações civis.

Quando se realizam operações militares contra alvos indiscriminados  restam traços de rancor e desamor nas coletividades agredidas.  Até hoje, apesar das aparências em contrário, as populações das cidades  alemãs bombardeadas na última Grande Guerra – particularmente Dresden,  Frankfurt e Berlim – guardam a dor pela perda de seus antepassados.

O Ocidente, em sua ânsia de dominação, vai semeando ódio e desencanto  por toda a parte onde se encontram presentes os muçulmanos. Ontem, foi o  Iraque e o Afeganistão. Hoje, a Líbia.

Esta macabra escalada precisa conhecer paradeiro. Ser finalizada. Irá  tornar a falsa primavera árabe em rigoroso inverno, nas relações entre  os povos.

Os dias de hoje recordam o dramático e brutal episódio das cruzadas.  Agrediram populações que as receberam calorosamente. Saquearam. Mataram.  Violentaram. Em nome de valores religiosos, praticaram atrocidades  inomináveis.

Repetir a História é tolo.  O Ocidente sempre a repete se fundamentado  em princípios intrinsecamente valiosos. Fala em democracia. Omite que  esta, para ser implantada, exige condicionantes culturais e sociais.

Na verdade, o que se constata é o interesse econômico nas áreas  integrantes da chamada falsamente Primavera Árabe. Está se gerando, na  verdade, uma grande reação dos povos que adotam o Islam como religião.

O futuro demonstrará que, apesar das intervenções econômicas que virão,  um substrato de animosidade restará presente. Quem é agredido, mais cedo  ou mais tarde revida.

É lamentável que os países europeus e os Estados Unidos conheçam apenas  as armas como diplomacia. Seria oportuno adotarem o diálogo como forma  de resolver conflitos.

Chegou-se ao Século XXI com os mesmos vícios da antiguidade. Não se  busca a paz. Deseja-se a guerra. Violam-se princípios. Aplaude-se a  morte de pessoas indefesas.

Não é assim que se educa para a democracia. O devido processo legal e o  direito de defesa são sustentáculo de valores perenes. O espetáculo  selvagem visto nos últimos dias empobrece a humanidade. Envergonha seus  autores.

A Primavera Árabe transformou-se no inverno dos mais elevados valores  concebidos no decorrer do tempo. Continuam selvagens, como sempre.”

segunda-feira, 24 outubro, 2011 Posted by | Repassando... | , , , , | Deixe um comentário

Pelo jeito, o mundo nunca mais será o mesmo (III)…

domingo, 23 outubro, 2011 Posted by | Repassando... | , , , | Deixe um comentário

E agora, Titio, como explicar o “sucesso” da sua democracia capitalista?

12 Oct
Via tijolaço.com.br

Pobreza pior nos EUA que na China?

Eu sei que é difícil de acreditar, mas a pesquisa, o texto e o gráfico são do Instituto Gallup, um dos mais respeitados órgãos de pesquisas nos EUA. Foram publicados ontem e você pode conferir aqui.

“Pesquisas Gallup na China e os EUA revelam que os chineses estão se esforçando menos do que os americanos para colocar comida em suas mesas. Em 2011, seis por cento dos chineses  dizem que houve momentos nos últimos 12 meses em que  eles não tinham dinheiro suficiente para comprar alimentos   necessários para si ou para  seus familiares, uma queda  significativa ante o índice de  16% em 2008. No mesmo período, o percentual dos americanos dizendo que não tinha dinheiro para comprar comida nos últimos 12 meses mais do que duplicou, passando de 9% em 2008 para 19% em 2011.

sexta-feira, 14 outubro, 2011 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

Um divórcio anunciado e litigioso…

Esse cara do qual repasso o pronunciamento abaixo, entende das coisas. Com um raciocínio crítico invejável e sem perdoar os extremismos ideológicos, descreve o atual cenário da indignação popular global, desnuda os processos dominates de dominação e, principalmente, faz um apelo emocionante aos jovens indignados: não esquecer este momento de luta na próxima esquina, sendo reengolidos pelo sistema hegemônico com um falso discurso da união indissolúvel entre capitalismo e democracia.

Relembro o modo de vida hippie dos anos 60, que abalaram os hipócritas valores morais da época e que foi, silenciosa e ardilosamente, engolido pelo mercado da moda e pelas maquiagens jurídicas. Relembro os protestos hippies contra as guerras, que contaminaram a sociedade jovem ianque contra a guerra do Vietnã, e que foram esquecidos ao longo do tempo e sepultados  em novas e intemináveis carnificinas. Relembro a cultura do paz e amor, que abalou o mundo motivando os libertários e horrorizando os conservadores, transfomada no simplório sexo livre, irresponsável e descompromissado com a convivência pacífica. Lembro do despertar socialista crítico e que foi reduzido à biblia demagógica dos revolucionários de botequim, que reformavam o mundo entre uma bebida e outra nos botecos da moda e que, no dia seguinte, nada mais representava que uma tremenda ressaca.

Temos hoje, a indignação árabe que os donos do petróleo apelidaram de primavera árabe nos países que desejam subjugar e silenciaram nas ditaduras amigas. Temos a anti-democracia capitalista chinesa tripudiada pelos países ricos (ricos?) como ditadura e as suas atitudes antidemocráticas própriasapelidadas de combate à baderna e ao vandalismo…

Leiamos, então, o libelo lúcido deste esloveno e por favor, não o esqueçamos, na próxima esquina, boteco ou boutique…
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Internacional| 11/10/2011

Zizek: o casamento entre democracia e capitalismo acabou

O filósofo e escritor esloveno Slavoj Zizek visitou a acampamento do movimento Ocupar Wall Street, no parque Zuccotti, em Nova York e falou aos manifestantes. “Estamos testemunhando como o sistema está se autodestruindo.
“Quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou”. Leia a íntegra do pronunciamento de Zizek.

Slavoj Zizek

Durante o crash financeiro de 2008, foi destruída mais propriedade privada, ganha com dificuldades, do que se todos nós aqui estivéssemos a destruí-la dia e noite durante semanas. Dizem que somos sonhadores, mas os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas podem continuar indefinidamente da mesma forma.

Não somos sonhadores. Somos o despertar de um sonho que está se transformando num pesadelo. Não estamos destruindo coisa alguma. Estamos apenas testemunhando como o sistema está se autodestruindo.

Todos conhecemos a cena clássica do desenho animado: o coiote chega à beira do precipício, e continua a andar, ignorando o fato de que não há nada por baixo dele. Somente quando olha para baixo e toma consciência de que não há nada, cai. É isto que estamos fazendo aqui.

Estamos a dizer aos rapazes de Wall Street: “hey, olhem para baixo!”

Em abril de 2011, o governo chinês proibiu, na TV, nos filmes e em romances, todas as histórias que falassem em realidade alternativa ou viagens no tempo. É um bom sinal para a China. Significa que as pessoas ainda sonham com alternativas, e por isso é preciso proibir este sonho. Aqui, não pensamos em proibições. Porque o sistema dominante tem oprimido até a nossa capacidade de sonhar.

Vejam os filmes a que assistimos o tempo todo. É fácil imaginar o fim do mundo, um asteróide destruir toda a vida e assim por diante. Mas não se pode imaginar o fim do capitalismo. O que estamos, então, a fazer aqui?

Deixem-me contar uma piada maravilhosa dos velhos tempos comunistas. Um fulano da Alemanha Oriental foi mandado para trabalhar na Sibéria. Ele sabia que o seu correio seria lido pelos censores, por isso disse aos amigos: “Vamos estabelecer um código. Se receberem uma carta minha escrita em tinta azul, será verdade o que estiver escrito; se estiver escrita em tinta vermelha, será falso”. Passado um mês, os amigos recebem uma primeira carta toda escrita em tinta azul. Dizia: “Tudo é maravilhoso aqui, as lojas estão cheias de boa comida, os cinemas exibem bons filmes do ocidente, os apartamentos são grandes e luxuosos, a única coisa que não se consegue comprar é tinta vermelha.”

É assim que vivemos – temos todas as liberdades que queremos, mas falta-nos a tinta vermelha, a linguagem para articular a nossa ausência de liberdade. A forma como nos ensinam a falar sobre a guerra, a liberdade, o terrorismo e assim por diante, falsifica a liberdade. E é isso que estamos a fazer aqui: dando tinta vermelha a todos nós.

Existe um perigo. Não nos apaixonemos por nós mesmos. É bom estar aqui, mas lembrem-se, os carnavais são baratos. O que importa é o dia seguinte, quando voltamos à vida normal. Haverá então novas oportunidades? Não quero que se lembrem destes dias assim: “Meu deus, como éramos jovens e foi lindo”.

Lembrem-se que a nossa mensagem principal é: temos de pensar em alternativas. A regra quebrou-se. Não vivemos no melhor mundo possível, mas há um longo caminho pela frente – estamos confrontados com questões realmente difíceis. Sabemos o que não queremos. Mas o que queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes queremos?

Lembrem-se, o problema não é a corrupção ou a ganância, o problema é o sistema. Tenham cuidado, não só com os inimigos, mas também com os falsos amigos que já estão trabalhando para diluir este processo, do mesmo modo que quando se toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura.

Vão tentar transformar isso num protesto moral sem coração, um processo descafeinado. Mas o motivo de estarmos aqui é que já estamos fartos de um mundo onde se reciclam latas de coca-cola ou se toma um cappuccino italiano no Starbucks, para depois dar 1% às crianças que passam fome e fazer-nos sentir bem com isso. Depois de fazer outsourcing ao trabalho e à tortura, depois de as agências matrimoniais fazerem outsourcing da nossa vida amorosa, permitimos que até o nosso envolvimento político seja alvo de outsourcing. Queremos ele de volta.

Não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje os comunistas são os capitalistas mais eficientes e implacáveis. Na China de hoje, temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico do que o vosso capitalismo americano. Mas ele não precisa de democracia. O que significa que, quando criticarem o capitalismo, não se deixem chantagear pelos que vos acusam de ser contra a democracia. O casamento entre a democracia e o capitalismo acabou.

A mudança é possível. O que é que consideramos possível hoje? Basta seguir os meios de comunicação. Por um lado, na tecnologia e na sexualidade tudo parece ser possível. É possível viajar para a lua, tornar-se imortal através da biogenética. Pode-se ter sexo com animais ou qualquer outra coisa. Mas olhem para os terrenos da sociedade e da economia. Nestes, quase tudo é considerado impossível. Querem aumentar um pouco os impostos aos ricos? Eles dizem que é impossível. Perdemos competitividade. Querem mais dinheiro para a saúde? Eles dizem que é impossível, isso significaria um Estado totalitário. Algo tem de estar errado num mundo onde vos prometem ser imortais, mas em que não se pode gastar um pouco mais com cuidados de saúde.

Talvez devêssemos definir as nossas prioridades nesta questão. Não queremos um padrão de vida mais alto – queremos um melhor padrão de vida. O único sentido em que somos comunistas é que nos preocupamos com os bens comuns. Os bens comuns da natureza, os bens comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual, os bens comuns da biogenética. Por isto e só por isto devemos lutar.

O comunismo falhou totalmente, mas o problema dos bens comuns permanece. Eles dizem-nos que não somos americanos, mas temos de lembrar uma coisa aos fundamentalistas conservadores, que afirmam que eles é que são realmente americanos. O que é o cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes que estão ligados pelo amor um pelo outro, e que só têm a sua própria liberdade e responsabilidade para este amor. Neste sentido, o Espírito Santo está aqui, agora, e lá em Wall Street estão os pagãos que adoram ídolos blasfemos.

Por isso, do que precisamos é de paciência. A única coisa que eu temo é que algum dia vamos todos voltar para casa, e vamos voltar a encontrar-nos uma vez por ano, para beber cerveja e recordar nostalgicamente como foi bom o tempo que passámos aqui. Prometam que não vai ser assim. Sabem que muitas vezes as pessoas desejam uma coisa, mas realmente não a querem. Não tenham medo de realmente querer o que desejam. Muito obrigado

Tradução
de Luis Leiria para o Esquerda.net

quarta-feira, 12 outubro, 2011 Posted by | Comentário, Repassando... | , , , | Deixe um comentário