Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Entre a maiúscula inicial e o ponto final…

O mais ativo colaborador que tenho neste blogue (além de vocês leitores e comentaristas) é o Carlos Germer de SC, amigo histórico,  intelectual ativo e, como eu, batalhador das letras como forma de combater o maldito alemão que ameaça a todos nós da terceira idade (o Alzheimer, claro!). E hoje ele me brindou com uma matéria que arrebanhou na NET e que trata de algo bastante polêmico em nossos dias: a literatura, os leitores, os escrevinhadores neófitos e o mercado. Vou, como sempre, bater papo por email com ele sobre este material, mas achei interessante repassá-lo, pois sei que há entre vocês muitos que gostam de ler, escrever e comentar (basta ver os inúmeros comentários que já recebemos no blogue), e têm sensibilidade para o belo e para as coisas sérias e importantes.

Além do que , para nos encorajar, Pablo Neruda resolveu dizer que: “Escrever é fácil: você começa com maiúscula e termina com ponto. No meio, você coloca idéias.” E assim, com uma força deste quilate, quem de nós não se arrisca?

Bom dia a todos.

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5/5/2014 – Panorama da Literatura Brasileira

Santiago Nazarian, Felipe Lindoso e Marcelino Freire comentam o atual cenário da literatura brasileira

Parte superior do formulário

Fizemos a destacados escritores, editores, críticos, professores e jornalistas culturais brasileiros a pergunta:

Tendo em vista a quantidade de livros publicados e a qualidade da prosa e da poesia brasileiras contemporâneas, em sua opinião, a literatura brasileira está num momento bom, mediano ou ruim?

Marcelino Freire
Li uma entrevista do português António Lobo Antunes em que perguntam o seguinte: “o senhor não acha que tem muita gente escrevendo hoje em dia?”. Ao que ele respondeu: “pior seria se essa gente estivesse a pintar. Imagine só o cheiro de tinta que ficaria. Ou se estivesse a fazer música. Quem agüentaria tanto barulho?”. Eta danado! Mestre, mestre. Deixa o povo escrever, diabo! É escrevendo que se aprende a escrever. Gosto de ver o pessoal produzindo, se arriscando, criando seus blogs, suas próprias editoras, movimentos. Temos, assim, mais opções de leitura; temos mais escolha de liberdade. Não são só as grandes editoras, hoje, que podem dizer o que vale a pena ser lido e ser feito. As pessoas soltaram as letras, libertaram as linhas, correram para gritar seus próprios parágrafos; não estão mais à espera, salve, salve, aleluia!

É comum ler em colunas literárias pelos jornais do país gente bem nova dividindo a página com gente já consagrada, da antiga. Essa pluralidade tira a literatura do casulo e das academias, coloca-a nas ruas, em outras frentes de batalha. Para uma Granta que aparece, uma Granja é criada. É assim que tem de ser. Isso é dez e novo e pulsante e vivo. Gosto da literatura vindo, com força, para a briga, sem nhenhenhém, sem delongas, sem frescura. Por exemplo, destaco como um dos grandes acontecimentos literários de nosso país, nos últimos anos, a produção que vem da periferia de São Paulo, em que acontecem dezenas de saraus e em que apareceram nomes como os de Sérgio Vaz, Alessandro Buzo, Sacolinha e outros mais. Como não? A nossa literatura tem, sim, vivido um tempo de ebulição. O caldeirão está fervendo e sou otimista neste sentido. É dessa mistura que sai poesia e prosa vigorosas. É dessa diversidade que podemos escolher ler um escritor que não seja um escritor bundão. Autor com cara de Jabuti, tô fora. Escritor no Olimpo, sujou!

Não estamos mais no tempo de autor tuberculoso, trancafiado em sanatórios. A postura agora é outra, ora. Escritor é convidado para festas literárias, feiras, baladas, tem de circular dentro e fora do país. Leva vantagem quem, além de soltar o verbo na página, solta o verbo pelas esquinas. Enfim e em resumo: estamos vivendo, sim, um momento bom em nossa literatura. Ruim estava uns anos atrás — nas mãos só de gente que era dona de uma literatura de boutique. Vixe! Vade retro, satanás! Como dizem os escritores do Sarau da Cooperifa: “Vamos fazer barulho”. Com rock não, com poesia. Que “o silêncio é uma prece”. Viva!
Marcelino Freire é autor de Amar é crime (Edith, 2010)

Felipe Lindoso
Pode-se usar vários critérios para tentar responder à questão.

Primeiro, um critério quantitativo. A quantidade de livros publicados no país denota, efetivamente, aquilo que chamou a atenção de Antonio Candido há décadas: temos um sistema literário com escritores que almejam o reconhecimento como tais, um sistema de transmissão (a língua, o mercado editorial) e um público leitor. Esse sistema é cada vez mais forte, maior e mais desenvolvido. E nele cabe e ele abriga uma imensa diversidade de expressões literárias, de temas, de abordagens. São milhares de autores em busca de seus leitores.

Uma segunda medida seria dada pela própria divisão por gêneros. Literatura adulta (ficção e poesia), literatura para crianças e jovens. Mas nesse caso é necessário também considerar as dinâmicas próprias de cada uma delas.

Tome-se a poesia, por exemplo. Na pesquisa Retratos da leitura no Brasil 3 (Instituto Pró-livro/Imprensa Oficial, 2012) temos os seguintes poetas citados entre os vinte e cinco autores brasileiros mais admirados: Carlos Drummond de Andrade (em 5º. lugar), Vinicius de Moraes (8º.), Cecília Meireles (12º.), Manuel Bandeira (16º.), Fernando Pessoa (18º.) e Mario Quintana (23º.). Será que os brasileiros estão lendo assim tanta poesia? A resposta, na verdade, tem a ver com os livros didáticos. Esses poetas aparecem com freqüência nesses livros, e em vários contextos, nem todos ligados ao ensino de literatura. E é significativo que todos estejam solidamente encastelados no cânone. Nada de poetas novos. E esses poetas estão na companhia, na mesma lista, de Monteiro Lobato (por conta da tevê), Maurício de Souza, Ziraldo e Pedro Bandeira. Todos autores amplamente lidos nas escolas.

Essa lista daria pano para muitas mangas, com a presença de outros autores, numa verdadeira salada de frutas: Paulo Coelho (3º.), Zíbia Gasparetto (9º.), Augusto Cury (10º.), Chico Xavier (13º.), padre Marcelo Rossi (14º.) e Silas Malafaia (24º.). Os demais autores citados são do cânone: Machado de Assis (2º.), Jorge Amado (4º.), José de Alencar (7º.), Erico Verissimo (11º.), Paulo Freire (17º.), Clarice Lispector (19º.), Ariano Suassuna (20º.), Graciliano Ramos (21º.) e Mário de Andrade (22º.).

Ou seja, dos autores vivos não há a presença de nenhum dos que estão no campo de apreciação da crítica contemporânea. Há, portanto, uma profunda dissociação entre o que o campo literário (no sentido dado ao termo por Bourdieu) privilegia e o que aparece na preferência dos leitores.

O que leva simplesmente a uma reformulação da pergunta: de que literatura se está falando? Da que entra no radar das forças dominantes do campo literário ou da que, por uma ou outra razão, é efetivamente lida no Brasil?
Felipe Lindoso é jornalista e consultor de políticas públicas para o livro e a leitura.

Santiago Nazarian
Acho que o mais interessante na literatura brasileira atual é a variedade. Não só dos temas e cenários da dita alta literatura, mas até do espaço que já há para a literatura de gênero, o fantástico, o policial, o erótico. Claro, a literatura de gênero ainda não é prestigiosa, ainda há preconceito da classe literária quanto a isso, mas os leitores vêm abraçando mais e mais essas obras.

Antigamente o leitor da literatura fantástica, por exemplo, só se voltava à literatura estrangeira. Hoje, a mídia, os jornais de grande circulação e até os suplementos literários vêm também dando mais espaço a essas obras e aos brasileiros. E vão se ampliando os eventos literários com outros perfis de autores e públicos.

De qualquer forma, ainda acho que precisa crescer muito, em relação ao tamanho do país. Ainda é muito difícil um autor sobreviver e mesmo permanecer se não fizer parte da seleção oficial, da literatura prestigiosa. Costumo dizer que no Brasil ou você é um escritor sério ou você é um escritor ruim. Se não veste a carapuça acadêmica, acaba ficando de fora das panelas, acaba não sendo convidado para muita coisa — e o escritor depende de convites (de eventos, textos) para sobreviver.

Então, acho que é um bom momento para a literatura — tem-se produzido, discutido, há mais espaço e formas de publicação. Mas ainda está longe do ideal. Não tenho muito mais a dizer… Obviamente, para mim, o momento já foi melhor.

Santiago Nazarian é autor de Garotos malditos (Record, 2012)

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO.

FONTE: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/pesquisa-sobre-a-evolucao-literaria-no-brasil-3/

segunda-feira, 5 maio, 2014 Posted by | Comentário, Literatura, Repassando... | , , , | Deixe um comentário

Para as manhãs de sofrimento…

Nesta madrugada de cinzas de amores perdidos, e ainda sob o peso do sorriso da moradora de rua sorrindo na escada rolante (ver relato acima), abri ao acaso minha velha e surrada “bíblia” poética e li:

Lamento não ter sido Cristo.
Nem por isso o imitarei.
Aceito-me sem revolta:
coisa limitada e triste,
sujo de tempo e palavras.

Pesa o pecado primeiro,
não permitindo que eu veja
onde mão desconhecida
fincou o marco final.

Grávido estou de mim mesmo.
Quando chamarem meu nome,
aos deuses hei de mostrar
a face que me restou:
coisa limitada e triste,
suja de tempo e palavras.
(Thiago de Mello)

terça-feira, 21 outubro, 2008 Posted by | Repassando... | , | Deixe um comentário

Conselho de fim-de tarde…

Texto de Pedro Bial

A morte, por si só, é uma piada pronta. Morrer é ridículo. Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente?

Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer. A troco?

Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente…

De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um chiste. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira.

Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu.

Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério?
Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz.Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz.

Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.

Por isso, viva tudo que há para viver. Não se apegue às coisas pequenas e inúteis da Vida…

quinta-feira, 2 outubro, 2008 Posted by | Repassando... | , | Deixe um comentário

Parafraseando na madrugada…

Após três meses mergulhados em leituras e textos vejo-me, às quatro da matina, a pensar na frase do escritor e poeta egípcio Edmond Jabès: Uma frase é pura enquanto está sozinha. A seguinte tira-lhe logo alguma coisa. E como não tenho nada pra fazer além de uma nova postagem para este blogue, resolvi brincar com as boas reflexões de pensadores conhecidos, para testar a validade da afirmativa do egípcio[1]:

Eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa. Desconfio por exemplo de que subir na vida é como subir em uma árvore, tarefa para a qual cada um de nós tem três caminhos: subir nela, sentar em cima de uma semente ou ficar amigo de um grande pássaro. Como não tenho um grande pássaro amigo e não tenho paciência para sentar na semente e esperá-la tornar-se árvore, tenho como única escolha tentar subir na floresta da vida, agarrando-me aos meus sonhos (pois afinal lutam melhor os que têm belos sonhos e eu sonho para ser livre de espírito e luto para ser livre na vida). E com este pensar, busco aprender como se fosse viver para sempre e vivo como se fosse morrer amanhã. Mas, cada pessoa pensa como pode… E como eu tenho um cérebro maravilhoso, que começa a funcionar assim que me levanto da cama e não pára até chegar ao escritório, adoro o meu trabalho: sou capaz de ficar horas simplesmente olhando para ele (afinal, devo ter uma enorme quantidade de inteligência, pois às vezes levo uma semana para a colocar em movimento). E ao fim de cada dia, despreocupado com o futuro (pois afinal é o passado que nos atropela e mata!), volto para casa (onde o meu coração cria raízes), dispo-me da minha veste de gênio (contra a qual todos os idiotas se juntam e conspiram!) e vou alimentar o meu cachorro manso que passou fome durante todo o dia…

Meu outro cão, o que é cruel e mau, só se alimentará amanhã, quando eu acordar novamente, pois afinal o brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte…


[1] O texto parafraseado tem reflexões de Jonathan Swift, Henrik Ibsen, Nelson Rodrigues, Paulo Coelho, Robert Maidment, Robert Frost, Robert Benchlev, Mark Twain, Guimarães Rosa, Che Guevara, Mahatma Gandhi e Mário Quintana. Ofertamos um doce para cada leitor que identificar as respectivas reflexões no texto acima.

terça-feira, 30 setembro, 2008 Posted by | Comentário, Humor, Reflexões | , , | Deixe um comentário

Vôo noturno…

Jonas ruminava, diante de uma xícara de café e no burburinho da sala de embarque, a vontade frustrada de fumar um cigarro, quando aquele olhar profundo e meigamente amigável passou à sua frente. Incrédulo, acompanhou a jovem dona do olhar em meio à multidão, até vê-la sentar-se no fundo da sala. Ela sorriu-lhe e ele permaneceu incrédulo: conhecia-a? Não, nem de longe seu rosto bonito, jovem e seguro, trazia-lhe alguma lembrança remota ou recente. Estaria ela interessada nele? Não acreditou, consciente de suas feições pessoais sexagenárias. Talvez ele a lembrasse de algum tio ou avô, concluiu e novamente mergulhou na xícara de café e seu desejo de fumar, até ouvir o chamado de embarque, quando se misturou à multidão de passageiros agitados. Embarcou, sentou-se na poltrona à janela e lia a revista de bordo, quando novamente o sorriso surgiu à sua frente e acomodou-se silenciosamente ao seu lado. Coincidência, imaginou, e retribuindo o sorriso, voltou à leitura para disfarçar sua confusão interna. Apesar de veterano nas convivências de gênero e de se ter fisicamente em boa conta, não entendia aquele interesse feminino tão claro e etariamente tão diferenciado. Prostituta? Não, seu velho instinto, a postura e as roupas dela negavam esta possibilidade. Manteve-se calado e interiormente divertido com aquela situação: um sexagenário seguro de si e já amorosamente realizado, sentindo prazer no assédio discreto de uma garota. Longe de imaginar estratégias de abordagem, estimulado pela situação presente, revisitou sua agitada vida amorosa, as passagens prazerosas de suas relações, os desencantos inevitáveis de qualquer existência e quando concluía a validade de tudo que vivera, ela o surpreendeu com uma indagação curta e embaraçosa: _ Quem é o senhor? Jonas demorou alguns segundos para situar-se e decidiu por aceitar aquele jogo interessante (adorava falar de si mesmo e contar histórias) como algo inconseqüente para preencher o marasmo do vôo. Sorriu, apresentou-se, perguntou-lhe o nome (Aanisan, respondeu) e perdeu-se em suas histórias pessoais, sempre seguido por aquele olhar interessado e silencioso. Estimulado pelas indagações ocasionais dela, relembrou com prazer fatos distantes que parecia ter esquecido e recentes que o entristeciam (detalhes da juventude atribulada, as experiências de sua vida andarilha, a dolorosa consciência de suas limitações físicas crescentes diante de seus sonhos irrealizados). Falou uma eternidade, até que o chiado do interfone da cabine de comando relembrou-lhe onde estava. Esperou a voz anunciar burocraticamente o pouso, mas foi surpreendido por um anúncio de pane da aeronave e a ordem para atar cintos e outras instruções para o pouso de emergência. O baque da adrenalina no peito foi rápido, pois de há muito se considerava por demais vivido e sempre se imaginara neste momento de confronto com a morte anunciada. Mas olhou para a garota e ela, calmamente, repousando a cabeça em seu ombro e entrelaçando sua mão à dele, disse-lhe para não ter medo. O mundo ficou em suspenso por um tempo que pareceu interminável, até que o choque inicial foi substituído pela resignação de Jonas. Diante de si mesmo preparou-se para morrer sem gritos, pensou nos filhos e na companheira e contemplou os cabelos da jovem espalhados no seu ombro. Beijou-os carinhosamente e ela levantou o rosto para beijá-lo na boca. Ele não pensou mais, apenas naufragou na saliva de seus lábios enquanto sentia no corpo o mergulho do avião na madrugada escura E enquanto despedia-se demoradamente da vida naquele beijo, sentiu o primeiro barulho do contato com a terra. Não sentiu dor, apenas um balanço suave no ombro. Abriu os olhos e deu de cara com a comissária de bordo avisando-o de que haviam pousado e era necessário desembarcar. Olhou ao lado, levantou-se e olhou ao redor e a aeronave já estava vazia.

A dona do sorriso desaparecera durante o seu sono…

segunda-feira, 8 setembro, 2008 Posted by | Pequenas histórias | | Deixe um comentário

O círculo de ramos…

Como faço caminhadas pelas madrugadas (minimizando as seqüelas da minha vida de idoso desregrado), sempre encontro moradores-de-rua dormindo nos bancos da praça. Mas hoje, um deles me chamou a atenção em especial: não por ser idoso, pardo e muito magro, pois a maioria é assim. O que me instigou os neurônios foi o fato dele ter circundado o banco em que dormia com ramos de mangueira, como normalmente se faz no interior para sinalizar que há um carro quebrado ou parado perigosamente. Adormecido no centro do círculo de folhas e ramos, ele sequer mexeu-se quando por ele passou esse solitário caminhante, e esse procedimento inusitado alimentou o meu pensar em todas as voltas seguintes. O que representava aquilo, na subjetividade de quem o fez? Um círculo mágico de proteção, à semelhança dos que faziam os seres tribais? Uma demarcação de território, como fazem os animais “irracionais” ao espalharem seus cheiros em pontos estratégicos? Uma “armadilha” que o avisaria (pelo barulho de folhas pisadas) da aproximação de um estranho? Tudo isso junto, inter-relacionado? E se assim o era, porque somente ele fizera isso, entre todos os moradores-de-rua que já vira dormindo na praça? Andava e matutava, andava e supunha… Na quarta volta, já tinha uma hipótese (mania de pesquisador!): ele devia ser migrante interiorano recente e aquela atitude diferenciada tinha a ver com a sua ancestralidade cabocla! Mas, como comprovar isso? Nas duas voltas seguintes, procurei ver suas mãos e/ou pés, pois ali estariam as marcas do trabalho rural nos calos das mãos e pés judiados. Mas ele se cobrira, deixando apenas a metade do rosto aparecendo, como uma múmia parcialmente despida. Andava e pensava, andava e torcia para que ele se descortinasse um pouco mais… Andava e imaginava-o como um “pré-histórico hodierno”, onde os grandes predadores foram substituídos pelos animais do trânsito e os filhinhos-de-papai incendiadores de mendigos; onde o território natural livremente apropriado pelos odores foi substituído pelas escrituras cartoriais; onde a fome das entressafras naturais foi substituída pela fome da impossibilidade de produzir e colher; onde a produção de subsistência e o escambo foram substituídos pelo consumo monetarizado e a renda inacessível. E ali, naquele banco, passei a lembrar o homem primitivo que, na sociedade futurista do livro Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), foi capturado em uma região isolada e colocado em exposição aos membros da nova sociedade, como uma prova de como eles eram atrasados.

Para conhecer o final do primitivo capturado de Huxley, vocês vão ter que ler o livro. Quanto ao meu “pré-histórico hodierno”, vi-o levantar-se e começar a andar em direção ao beco próximo. Não resisti. Acelerei o passo, alcancei-o e perguntei: companheiro, você é de onde? Ele assustou-se, se voltou, me encarou com um olhar entremeado com desconfiança e ressentimento, segurou meu olhar por um momento e depois, sem resposta, virou-se e seguiu viagem.

Não pude sequer olhar suas mãos ou o sola dos seus pés…

domingo, 31 agosto, 2008 Posted by | Crônica, Pequenas histórias | , , | 1 Comentário

Uma vida plena, digna e invejável

Andei procurando e achei esta biografia da Zélia Gattai, que repasso a vocês.

Fonte: Fundação Casa de Jorge Amado

Zélia Gattai Amado

A escritora Zélia Gattai Amado nasceu no dia 2 de julho de 1916, em São Paulo. Filha de imigrantes italianos, sua infância foi vivida em meio às primeiras manifestações políticas operárias nos bairros de imigrantes da capital paulista.

Seu pai fazia parte do grupo de imigrantes políticos que chegou ao Brasil no fim do século 19 para fundar a “Colonia Cecília” – tentativa de criar uma comunidade anarquista na selva brasileira. A família de sua mãe, católica, veio para o Brasil após a abolição da escravatura para trabalhar nas plantações de café, substituindo a mão-de-obra escrava.

Em 1936, aos 20 anos, Zélia casou-se em São Paulo com o intelectual e militante do Partido Comunista Aldo Veiga.

Em 1942, nasceu seu primeiro filho, Luis Carlos Veiga. O casamento aproximou-a de intelectuais como Oswald de Andrade, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Rubem Braga e Vinicius de Moraes. Continue lendo

sábado, 17 maio, 2008 Posted by | Repassando... | , , | 1 Comentário

Nós a perderemos, o céu e o Jorge Amado ganharão!

Infelizmente, a nossa querida Zélia Gattai, ser humano e intelectual da melhor qualidade, parece estar em seus últimos momentos entre nós. A companheira inseparável do Jorge Amado e que nos encantou com o seu “Anarquistas, graças a Deus”, parece que vai agora em busca do companheiro que partiu tempos atrás. Nós sentiremos a sua falta, mulher que se fez Mulher por seus próprios méritos, companheira ao extremo e que, ao invés de deixar-se ofuscar pelo brilho do marido, criou o seu próprio espaço, com a força do seu cérebro e do seu espírito. Que o sofrimento lhe seja o mínimo possível, querida Zélia. E chegando lá, dê uma braço meu no Jorge, seu companheiro que me despertou para o social quando, aos quinze anos, li o seu livro “Capitães de Areia”…

A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace“. Victor Hugo

Leiam a notícia:

O estado clínico da escritora Zélia Gattai é grave, ela respira com ajuda de aparelhos e não reage à ação antibiótica que vem sendo ministrada. O novo boletim médico do Hospital da Bahia, divulgado nesta manhã, informa que o estado da escritora evoluiu com “extrema gravidade” nas últimas 12 horas.

http://br.noticias.yahoo.com/s/17052008/25/manchetes-piora-saude-da-escritora-zelia-gattai.html

Obra

sábado, 17 maio, 2008 Posted by | Comentário, Repassando... | , | Deixe um comentário

Do homem para o coração do homem..

Hoje, acordei meio ensimesmado, meio carente de motivações, e recorri ao meu remédio preferido e infalível: abrir ao acaso o livro “Vento Geral” do meu poeta caboclo preferido (Thiago de Mello) e ler um de seus poemas. E meus dedos casuais levaram-me aos “Estatutos do Homem”, sua obra mais conhecida. Após lê-lo, senti-me tão esperançoso novamente, que resolvi postá-lo para vocês. Embora pouco divulgado atualmente, Thiago de Mello é um dos maiores poetas brasileiros, ainda vivo. Caboclo amazônida nascido no coração da mata (Barreirinha – AM), sempre defendeu a liberdade, a democracia e uma sociedade mais justa. E por causa disso teve que exilar-se no exterior, durante o período da ditadura militar implantada em 1964. Orgulhoso de sua cultura amazônica, sensível às imperfeições e qualidades da espécie humana, tem como sua obra mais conhecida o poema transcrito abaixo. Quem quiser, gostar e puder, compre o seu livro “Vento Geral” (que possuo, com dedicatória dele, e que de tão manipulado já está rasgando). Por favor, leiam:

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
Thiago de Mello

A Carlos Heitor Cony

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade,
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.

Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:

O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino. Continue lendo

quarta-feira, 14 maio, 2008 Posted by | Arte e cultura, Comentário, Repassando... | , , , | 4 Comentários

Olha nós aí!!!!

Claro que o mérito não é meu, pois apenas repassei o texto do nosso saudoso Arturzinho. Mas que fiquei feliz pacas, fiquei! A nosso postagem foi considerada, hoje na WordPress.com, um dos melhores posts. Logicamente, porque estamos sendo bem visitados. Gostoso…

Melhores posts de todos no WordPress.com

segunda-feira, 12 maio, 2008 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | 1 Comentário