Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Vagando entre a surpresa, a esperança e a ira… e de volta à esperança.

Nos últimos quinze dias, meu coração político oscilou mais do que pêndulo de relógio antigo, diante dos fatos urrados pelas ruas do país.

De cara, fiquei puto com as passeatas contra o reajuste das tarifas em São Paulo, que me cheirou, instantaneamente, a manobra político- eleitoreira da oposição raivosa para desestabilizar a enorme vantagem do governo para as eleições de 2014. Imaginem, levante contra um reajuste abaixo da inflação do período… E a ira tomou conta do meu discernimento: não era nada de 20 centavos, era fachada para o jogo político sujo que os sacados do poder, em desespero e em cumplicidade com a grande mídia golpista, tentavam mais uma vez…

Em seguida alvoreceu a esperança: era muito mais do que uma “primavera dos centavos”. Era a indignação dos jovens, adultos e velhos do país, contra a corrupção e as carências da saúde e da educação nacionais. Era o repúdio ao espaço oportunista dos partidos políticos, majoritariamente redutos de malfeitores, corruptos e salafrários. Redutos de há muito desmoralizados junto à opinião pública e que, graças ao malabarismo eleitoral cevado de corrupção e de midiatização reacionária, mandam e desmandam cada vez mais contra esta nação…

Mas os fatos e imagens das ruas, embotaram em mim a esperança, ao ver o vandalismo dantesco praticado contra o patrimônio público, comércios, empresas e veículos civis…

E aí passei duas semanas ruminando o tresloucado alimento democrático, que apresentava no cardápio as mais contraditórias misturas entre luta político-social, selvageria e banditismo.

Vi uma senhora de 84 anos (em meio à multidão e com um cartaz nas mãos), dizendo à repórter que tinha vindo contra a vontade familiar por que ela estava viva e, então, este também era o seu tempo, pelo qual ela tinha de lutar. Meu coração tremeu de alegria para, logo em seguida, tombar em ira ao ver a imagem do vândalo estudante de arquitetura entrando na delegacia para depor, com um sorriso irônico que antecedia sua libertação posterior.

Enchi minha alma vendo jovens protestando séria e pacificamente, com aquele messianismo típico dos jovens,  enquanto vândalos e criminosos  depredavam e roubavam como em saque medievais, provocando-me urros interiores de raiva.

Trepidei de impotência diante da contradição contida em uma massa humana que trazia no ventre a demanda por mais recursos para a educação/saúde e a depredação que gerará gastos para recuperação (e logicamente, menos dinheiro para as demandas).

Vomitei de nojo dos jornais televisivos que teimavam em repetir a hipócrita ladainha de que as manifestações eram pacíficas, apesar de pequenos grupos de vândalos. Gente, eu via pequenos grupos de 300 pessoas, pichando, depredando e saqueando! Quando mostravam a vandalização, os senhores jornalistas enfatizavam que eram grupos minoritários, mas, quando a algum policial feria alguém eles berravam que as forças policiais cometiam excessos! Dois pesos e duas medidas… Mas, quando os “pequenos grupos” incendiaram veículos da imprensa, houve editorial de repúdio e expressões onde se dizia que “isto já foi longe demais“. Para o restante da sociedade vandalizada, até então, não era nada? Era apenas um pequeno grupo de vândalos?

E as bandeiras políticas dos partidos? Como sempre, no vácuo das oportunidades, buscando uma legitimidade popular que de há muito perderam. Gostei dos pacifistas terem dado uma prensa nesta corja, proibindo e tomando bandeiras. Gostei mais ainda do antigo slogan “o povo unido, jamais será vencido”, reciclado para “o povo unido, não precisa de partido” Genial… Não que a sociedade democrática não precise de partidos. Ela precisa sim, mas de partidos que se deem a respeito, e não de quadrilhas de malfeitores que, mascarados pelas siglas, assaltam cotidianamente o dinheiro público e legislam leis que facilitam a impunidade geral!

Gostei e ver jovens manifestantes negociando com policiais o roteiro das passeatas, de policiais e jovens pedindo paz e até trocando flores entre si. Discordar não significa necessariamente, agir com intolerância e selvageria. E a presidente Dilma captou muito lucidamente esta visão democrática. Em suas duas falas desarmou os oportunistas que tentavam armar arapucas e legitimou a juventude que protestava legitima e pacificamente. Mais: se as lideranças destes movimentos forem lúcidas, poderão ser para a presidente os aliados leais que ela precisa para derrubar PEC’s e outras igrejinhas de corrupção, aprovar os recursos do pré-sal para a educação, contratar médicos que queiram ir para os cafundós (mesmo que sejam estrangeiros) e muitas outras coisas mais, como uma profunda reforma política que nunca acontece. As ruas poderão lhe dar respaldo contra os malfeitores que vicejam nas esferas política e pública, ajudando a vigiar, fiscalizar e corrigir.

Parece que o pior (as passeatas violentas) já passou. Tanto é que as TV´s já voltaram a noticiar, assaltos, assassinatos e crimes comuns (alguns, até mesmo requentados). E, enfim parece se consolidar no meu coração a esperança de que esta pressão legitma e democrática das ruas possa permear a gestão pública e pressionar a canalha ainda predominante nos parlamentos, governos e até mesmo nas cortes judiciárias.

E na catarse que me acomete agora, após assistir os atos da peça política encenada pelo povo nas ruas, senti a comprovação empírica do paradigma construído teoricamente por Jürgen Habermas e que constitui o pilar ético deste modesto blogue. Ele, um dos mais importantes pensadores da atualidade, conceituou a racionalidade comunicativa passível de existência entre os cidadãos, como instrumento para a reconstrução dos fundamentos sociais. E embora ele aceite que a participação livre, racional e crítica dos atores sociais é geralmente aprisionada pela lógica do sistema social hegemônico e incorporada nas relações de poder político e de intercâmbio econômico que encobrem a dominação, acredita que cada um de nós, junto à sua coletividade próxima, pode influenciar na reconstrução social. Entendendo a racionalidade comunicativa como “aprendente” (em permanente processo de ampliação e aperfeiçoamento), afirma que os grupos sociais são capazes de desenvolver competências mais complexas para conhecer a realidade, superando as explicações apenas racionais e seus desdobramentos deterministas e autoritários. Assim, evoluindo através dos acertos e erros naturais em processos coletivos de ensino-aprendizagem, construindo uma ética universalista, as coletividades podem chegar a princípios que garantam a participação dos atores sociais nas decisões públicas, contribuindo com suas percepções e demandas específicas.

E reforçando Habermas, sabemos que as políticas públicas, por mais que surjam das demandas sociais amplas, quase nunca serão desengavetadas se não houver a pressão social.

No momento em que se fala tanto em planejamento participativo, a população mostrou que quer ser ouvida e não, manipulada em circos de captura de legitimidade. Quer falar, contribuir com suas reais demandas e fiscalizar os processos institucionais.

As ruas parecem estar mostrando esta possibilidade.

É um processo perigoso, onde os riscos de conflito e anarquia estarão sempre presentes, entropizando as boas intenções e degenerando os novos tecidos sociais em construção. Mas são riscos de enfrentamento necessários e menores do que os riscos da alienação e do acomodamento…

Que a esperança não se desvaneça… e volte às ruas quando necessária.

segunda-feira, 24 junho, 2013 Posted by | Comentário | , , | Deixe um comentário