Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Sobre o menos que vale mais…

A Era Detox

Modelo da sociedade de consumo, associado ao capitalismo predatório, é sinônimo de esbanjamento irresponsável. Agora é a hora da “sociedade do desconsumo”.

13/11/2017 00:53

Reprodução

Por Ignacio Ramonet *

O fenômeno está se espalhando. Nas sociedades desenvolvidas, um número cada vez maior de cidadãos considera mudar seus hábitos de consumo. Não só os hábitos alimentares, individualizados a tal ponto que é praticamente impossível reunir oito pessoas em torno de uma mesa para comer o mesmo menu. Mas o consumo em geral: a vestimenta, a decoração, a limpeza, os eletrodomésticos, os fetiches culturais (livros, DVDs, CDs) etc.

Todas aquelas coisas que até pouco tempo se acumulavam nas nossas casas como sinais mais ou menos medíocres de ascensão social e de opulência (e até certo ponto, de identidade), agora sentimos que nos asfixiam. A nova tendência é a da redução, do desprendimento, do desapego, da supressão e da eliminação… Resumindo, a desintoxicação. O detox, pois.

Começa a entrar em decadência a sociedade de consumo – estabelecida entre os anos 1960 e 1970 – e entramos no que pode ser chamado de “a sociedade do “desconsumo”.

Pode-se argumentar que as necessidades vitais de consumo continuam imensas em muitos dos países em desenvolvimento ou nas áreas de pobreza do mundo desenvolvido. Mas essa realidade indiscutível não deve impedir que enxerguemos este movimento de “desconsumo” que se expande com mais intensidade.

Por outro lado, um estudo recente realizado no Reino Unido, indica que desde o início da Revolução Industrial, as famílias acumulavam bens materiais em suas casas conforme seus recursos aumentavam.

O número de objetos acumulados traduzia o seu padrão de vida e o seu status social. Foi assim até 2011. Nesse ano, se alcançou o que poderíamos chamar de peak stuff (pico dos objetos). Desde então, o número de objetos possuídos não para de ser reduzido. E essa curva, em forma de Curva de Gauss (com aumento exponencial enquanto sobe o nível de vida e que em seguida, depois de um período de estabilização, decresce nas mesmas proporções), funciona como uma lei geral. Hoje isso pode ser observado nos países desenvolvidos (e nas zonas mais ricas do Sul), mas amanhã também estará refletido inevitavelmente nos países em desenvolvimento (China, Índia, Brasil).

A tomada de consciência ecológica, a preocupação com o meio ambiente, o medo da mudança climática e, em particular, a crise econômica de 2008 que abateu os países ricos com tanta violência, sem dúvida influenciaram nesta nova “austeridade zen”. Desde então, foram divulgados nas redes sociais muitos casos de detox anticonsumista. Por exemplo, o de Joshua Becker, um estadounidense que decidiu, junto com a sua esposa, há nove anos, reduzir drasticamente o número de bens materiais que possuíam, para viver melhor e alcançar a paz interior.

Nos seus livros (“Living with Less” e “The more of Less”) e no blog “Becoming minimalist”, Becker conta: “Tiramos a desordem da nossa casa e da nossa vida. Em uma viagem descobrimos que a abundância consiste em ter menos”. E afirma que “as melhores coisas da vida não são coisas”.

Ainda que não seja fácil se desintoxicar do consumo e se converter ao minimalismo: “Comece pouco a pouco – aconselha Joshua Fields Millburn, que escreve no blog TheMinimalists.com – tente se desprender de uma coisa só durante 30 dias, começando por objetos mais simples de eliminar. Se desfaça das coisas óbvias. Começando pelas quais claramente não necessita: as xícaras que nunca usa, esse presente horrendo que recebeu etc”.

Outro famoso caso de desapego voluntário é o de Rob Greenfield, um norte-americano de 30 anos, protagonista da série “Free Ride” (Discovery Channel) que, sob o lema “menos é mais”, se desfez de todos os seus pertences, inclusive de sua casa. E anda pelo mundo com apenas 111 posses (incluindo a escova de dentes). Ou o da desenhadora canadense Sarah Lazarovic, que passou um ano sem comprar nenhuma roupa e que a cada vez que desejava fazê-lo, desenhava a peça em questão. Resultado: um bonito livro de esboços intitulado: “A Bunch of Pretty Things I Did Not Buy” (“Um Monte de Coisas Bonitas que eu não comprei” – ainda não publicado em português). Há também o exemplo de Courtney Carver, que propõe em seu site Project 333 um desafio de baixo orçamento, convidando seus leitores a se vestirem com apenas 33 peças de roupa durante três meses.

Nessa mesma linha, está o caso da blogueira e youtuber francesa Laeticia Birbes, de 33 anos, que ficou famosa pelo desafio de nunca mais voltar a comprar roupa. “Eu era uma consumidora compulsiva. Vítima das promoções, das tendências, da tirania da moda – diz –. Em alguns dias, eu chegava a gastar quinhentos euros em roupa… Quando tinha problemas com o meu namorado ou com as provas, comprava roupa. Cheguei a representar totalmente o discurso publicitário: confundia sentimentos e produtos”. Até que um dia decidiu esvaziar os seus armários e doar tudo. Se sentiu livre e leve; se libertou de uma grande carga emocional: “Agora vivo com dois vestidos, três calcinhas e um par de meias”. E realiza conferências em toda a França para ensinar a disciplina do “lixo zero” e do consumo minimalista.

O consumismo é consumir consumo. É uma conduta impulsiva em que não importa o que se compra, importa comprar. Na verdade, vivemos na sociedade do desperdício, desperdiçamos abundantemente. Diante dessa aberração o consumo minimalista é um movimento mundial que propõe comprar somente o necessário. O exercício é simples: temos que observar as coisas que temos em casa e determinar quais são as que realmente usamos. O resto é acumulação, veneno.

Duas jornalistas argentinas, Evangelina Himitian e Soledad Vallejos, passaram da teoria à prática. Depois de terem vivido como milhões de consumidores acumulando sem nenhum critério, decidiram questionar sua própria conduta. É evidente que compravam por outros motivos, não por necessidade. E impuseram a si mesmas ficar um ano sem consumir nada que não fosse absolutamente indispensável e contaram esta experiência com grande talento.

Não se trata somente de não consumir, mas de desintoxicar, de liberar o corpo do consumo acumulado. As duas jornalistas começaram impondo uma disciplina detox: cada uma tinha que tirar de casa dez objetos por dia, durante quatro meses: foram 1.200 no total.

Tiveram que descartar, doar, desapegar… Como uma espécie de purgação, passaram a deixar de consumir. “Nos últimos cinco anos – contam Evangelina e Soledad –, a luz da consciência coletiva sobre o modo de consumo foi acesa no mundo inteiro. É também uma estratégia para expor os pontos cegos do sistema econômico capitalista. Ainda que soe pretensioso, é exatamente isso: o capitalismo se apoia na necessidade de fabricar necessidades. E para cada necessidade, cria um produto. Isto é especialmente certo nos países com economias desenvolvidas, onde os índices oficiais medem a qualidade de vida de acordo com a capacidade de consumo…”.

Essa aversão ao consumo cada vez mais universal também alcança o universo digital.

Está ressurgindo o que poderíamos chamar de “detox digital”, que consiste em abandonar as redes sociais por um tempo e por motivos diferentes. Está se ampliando o movimento dos “ex-conectados” ou “desconectados”, uma nova tribo urbana composta por pessoas que decidiram virar as costas para a internet e viver off-line, fora de linha. Não têm WhatsApp, não querem ouvir falar do Twitter, não usam Telegram, odeiam o Facebook, não simpatizam com o Instagram, e não há nenhum rastro delas na internet.

Algumas não tem nem sequer uma conta de email e os que têm, abrem só de vez em quando… Enric Puig Punyet, de 36 anos, doutor em Filosofia, professor e escritor, é um dos novos ex-conectados. Ele escreveu um livro em que reúne casos reais de pessoas que, ansiosas por recuperar o contato direto com os demais e consigo mesmas, decidiram se desconectar. “A internet participativa que, majoritariamente, é a modalidade que estamos vivendo, busca nossa dependência – explica Enric Puig Punyet. Por se tratar, quase em totalidade, de plataformas vazias que se alimentam do nosso conteúdo, interessa que estejamos conectados todo o tempo. Esta dinâmica é facilitada pelos telefones ‘inteligentes’ que fazem com que estejamos constantemente disponíveis e nutrindo a Rede. Este estado de hiperconexão acarreta problemas que estamos começando a ver: diminui nossa capacidade de atenção, de pensar em profundidade e inclusive a nossa capacidade de socialização. Grande parte do atrativo das tecnologias digitais é desenhado por companhias que desejam nosso consumo e nossa conexão contínua, como acontece com tantos outros âmbitos, porque é a base do consumismo. Qualquer ato de desconexão, total ou parcial, deve ser entendido como uma medida de resistência que visa compensar uma situação que se encontra em desequilíbrio”.

O direito à desconexão digital já existe na França. Em parte, surge como uma resposta aos múltiplos casos de burnout (esgotamento por excesso de trabalho) que aconteceram nos últimos anos como consequência da pressão psicológica no mundo do trabalho. Agora os trabalhadores franceses podem deixar de responder mensagens digitais quando não estão na jornada de trabalho.

A França se tornou pioneira nesse tipo de lei, mas ainda existem incógnitas sobre como ela será aplicada. A nova norma obriga as companhias com mais de 50 empregados a realizar negociações sobre o direito de estar off-line, ou seja, não responder emails ou mensagens digitais profissionais nas horas livres. No entanto, o texto não obriga a chegar a um acordo ou tampouco fixa algum prazo para as negociações. As empresas podem se limitar a elaborar uma guia de orientação sem a participação dos trabalhadores. Mas está colocada a necessidade do detox digital, de estar fora das redes e de tirar um descanso da Internet.

A sociedade de consumo, em todos os seus aspectos, deixou de seduzir. Intuitivamente, sabemos agora que esse modelo, associado ao capitalismo predatório, é sinônimo de esbanjamento irresponsável. Os objetos desnecessários nos asfixiam. E asfixiam o planeta. Algo que a Terra já não pode suportar. Porque os recursos estão se esgotando. E estão sendo contaminados. Até aqueles mais abundantes (água doce, ar, mares…). Diante da cegueira de muitos governos, é chegada a hora da ação coletiva dos cidadãos. Em defesa de um “desconsumo” radical. 

* Ignacio Ramonet é professor e jornalista espanhol. Atualmente, vive na França, onde foi diretor da revista “Le Monde Diplomatique”. É autor do livro “Fidel Castro: biografia a duas vozes” (Boitempo, 2006).

Tradução: Luiza Mançano

segunda-feira, 20 novembro, 2017 Posted by | Repassando... | , , , | Deixe um comentário

Pelo caos, chegamos ao conceito de sustentabilidade: e daí?

Os 12 grandes problemas ambientais da humanidadeResultado de imagem para Desenvolvimento sustentável. E DAÌ?

Uma análise da UNEP (United Nations Environment Programme – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) sobre os grandes problemas mundiais da atualidade em relação ao ambiente, levantou 12 grandes problemas que preocupam pesquisadores, administradores e gerentes da área ambiental, são eles:

1. Crescimento demográfico rápido: Mesmo considerando que a taxa de fecundidade das mulheres está diminuindo nos países desenvolvidos, o crescimento demográfico aliado ao desenvolvimento tecnológico acelera a pressão sobre os sistemas e recursos naturais, e em geral traz como consequência mais impactos ambientais, devido ao aumento na produção industrial e nos padrões de consumo.

2. Urbanização acelerada: além do rápido crescimento demográfico, a aglomeração de população em áreas urbanas está gerando grandes centros com 15 milhões de habitantes ou mais. Esses centros de alta densidade populacional demandam maiores recursos, energia e infra-estrutura, além de criarem problemas complexos de caráter ambiental, econômicos e principalmente social.

3. Desmatamento: a taxa anual de desmatamento das florestas, especialmente das tropicais, ocasiona diversos problemas como erosão, diminuição da produtividade dos solos, perda de biodiversidade, assoreamento de corpos hídricos e etc.

4. Poluição marinha: a poluição marinha está se agravando cada vez mais devido a: descargas de esgotos domésticos e industriais através de emissários submarinos, desastres ecológicos de grandes proporções, como naufrágio de petroleiros, acúmulo de metais pesados no sedimento marinho nas regiões costeiras e estuários, perda de biodiversidade (exemplo: espécies frágeis de corais), poluição térmica de efluentes de usinas nucleares e etc.

5.    Poluição do ar e do solo: ocasionada principalmente pelas indústrias, agroindústria e automóveis, através de: emissões atmosféricas das indústrias, disposição inadequada de resíduos sólidos (exemplo: lixões) e de resíduos industriais que causam poluição do solo, acúmulo de aerossóis na atmosfera provenientes da poluição veicular e industrial, contaminação do solo por pesticidas e herbicidas, e etc.

6. Poluição e eutrofização de águas interiores – rios, lagos e represas: a poluição orgânica provenientes dos centros urbanos e atividades agropecuárias gera uma variedade de efeitos sobre os recursos hídricos continentais, os quais são fundamentais para o abastecimento público das populações. Essa pressão resulta na deterioração da qualidade da água, causada pelo fenômeno da eutrofização, acúmulo de metais pesados no sedimento, alterações no estoque pesqueiro e geralmente inviabiliza alguns dos usos múltiplos dos recursos hídricos.

7. Perda da diversidade genética: o desmatamento e outros problemas ambientais acarreta em perda de biodiversidade, ou seja em extinção de espécies e perda da variabilidade da flora e da fauna. A biodiversidade e seus recursos genéticos são fundamentais para futuros desenvolvimentos tecnológicos.

8. Efeitos de grandes obras civis: a construção de obras civis de grande porte, como represas de usinas hidrelétricas, portos e canais, gera impactos consideráveis e díficeis de mensurar sobre sistemas aquáticos e terrestres.

9. Alteração global do clima: o aumento da concentração dos gases estufa na troposfera terrestre (primeira camada da atmosfera) e de partículas de poluentes está causando um fenômeno conhecido como aquecimento global, que é o aumento da temperatura do planeta, devido a maior retenção da radiação infravermelha térmica na atmosfera. Cada grau celsius de aumento da temperatura terrestre irá trazer consequências diferentes, e estas são acumulativas, segundo o 2º relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) apenas 1º C a mais já é suficiente para derreter as geleiras de topos de montanha do mundo todo, comprometendo abastecimento locais de água, e se o aumento chegar a 4º C estima-se que até 3,2 bilhões de pessoas poderão sofrer com a falta d’água e que a subida do nível do mar irá ameaçar a existência de cidades costeiras em todo o mundo.  As previsões de aquecimento para o fim deste século estimam entre 1,8º C e 4º C a mais na média da temperatura mundial.

10. Aumento progressivo das necessidades energéticas e suas conseqüências ambientais: o aumento da demanda energética devido ao crescimento populacional, urbanização e crescente desenvolvimento tecnológico gera a necessidade da construção de novas usinas hidrelétricas e termelétricas, grandes e pequenas usinas nucleares, e etc. E quanto maior a utilização de combustíveis fosséis (termelétricas, carvão mineral) mais gases de efeito estufa são lançados na atmosfera. Outros tipos de matrizes energéticas como hidrelétricas e usinas nucleares possuem impactos ambientais associados a sua construção e operação (exemplo: falta de tratamento para os resíduos nucleares).

11. Produção de alimentos e agricultura: A agricultura de alta produção é uma grande consumidora de energia, de pesticidas e de fertilizantes. A expansão das fronteiras agrícolas aumenta as taxas de desmatamento e perda de biodiversidade.

12. Falta de saneamento básico: principalmente nos países subdesenvolvidos, a falta de saneamento básico é um problema crucial devido às inter-relações entre doenças de veiculação hídrica, distribuição de vetores e expectativa de vida adulta e taxa de mortalidade infantil. E também pela poluição orgânica gerada pelo aporte de esgostos domésticos e drenagem pluvial em corpos d’água devido a falta de infra-estrutura adequada e a lançamentos irregulares.

Dentre os problemas ambientais que afetam o Brasil, podemos listar os mais críticos:

1. Desmatamento, que acarreta em perda de Biodiverdidade;
2. Erosão devido a desmatamento e manejo inadequado do solo na agricultura e pecuária;
3.  Poluição das águas e solos devido a falta de saneamento básico nas áreas urbanas e rurais;
4. Falta de políticas de gerenciamento de resíduos sólidos nas áreas urbanas, gerando “lixões”;
5. Poluição industrial.

No entanto, a partir da década de 70, a humanidade começou a tomar consciência dos seus impactos sobre a natureza, devido principalmente as consequências econômicas que as reações da natureza a esses impactos geravam, como mais gastos com saúde pública. Isso levou ao surgimento de uma nova abordagem de desenvolvimento econômico conciliatório com a conservação ambiental, surgiu assim o conceito de desenvolvimento sustentável.

terça-feira, 24 outubro, 2017 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

A Bacia do rio Marapanim em resgate…

Mar 23 em 4:45 PM

quinta-feira, 24 março, 2016 Posted by | Repassando... | , , | 1 Comentário

Cronica de uma desumanidade anunciada…

Por causa da postagem sobre o aqueduto Belém/São Paulo conheci o inteligente trabalho do blogueiro amazonense José Ribamar Bessa Freire, no blogue Taquiprati. Como gosto de garimpar intelectualidades novas e interessantes, repasso a vocês uma das suas crônicas, além do link para possíveis visitas. Vale a pena…

http://www.taquiprati.com.br/
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POR QUE OS PERIQUITOS SE SUICIDARAM?

José Ribamar Bessa Freire
07/12/2014 – Diário do Amazonas

“Grito de agonia: periquito na jaqueira preso na resina”.

Anibal Beça (1946-2009)
Uma entrevista exclusiva que fiz me permite desvendar, enfim, o mistério das mortes de 200 periquitos-de-asa-branca, semana passada, na Avenida Ephigênio Salles, em Manaus. Eles não foram atropelados nem envenenados por moradores de um rico condomínio como se anunciou. É verdade que a necropsia realizada em cinco deles pelo veterinário do IBAMA, Diogo Lagroteria, constatou hemorragia interna, sugerindo intoxicação por veneno ou por traumatismo. No entanto, evidências apontam para um suicídio coletivo. Resta saber as razões. É o que veremos.
A confirmação do suicídio exige prévia contextualização dos fatos com descarte das demais hipóteses. Conto como foi. Bandos de periquitos brincalhões, depois do banho diário no igarapé do Mindu, à tardinha, costumam sobrevoar em voos rasantes a zona centro-sul de Manaus, com gritinhos álacres – krik, krik, krik – produzindo um fundo musical do ecossistema manauara tão relevante para a identidade e a memória afetiva da cidade que um dos nossos poetas, Aníbal Beça, lembrando imagem da alegria de crianças em um pátio de escola, celebrou com um haikai:
– Hora do recreio: periquitos tagarelas brigam pelas mangas.
Os periquitos foram os primeiros a chegar, muito antes dos forasteiros urbanóides que, com a expansão da cidade, invadiram o território avícola. Os intrusos, como forma de compensação, foram obrigados a indenizar as aves, após a promulgação do Código Ambiental. Essa Lei Municipal 605 de 2001, que protege fragmentos florestais, determina “a obrigação de defendê-los e preservá-los para as presentes e futuras gerações”, reconhecendo o direito de todos, inclusive dos periquitos, ao meio ambiente ecologicamente sadio e equilibrado.
Guerra aos periquitos
O invasor arrasou florestas, construiu mansões. Um condomínio de luxo na Av. Ephigênio Salles plantou palmeiras imperiais. Os periquitos, amparados pela lei e sem qualquer preconceito, fizeram ali suas camas. Diariamente, à tardinha, sempre na hora do tacacá na Amazônia – que para os moradores é a hora do chá na Inglaterra – iniciavam revoada alegre ao lugar de repouso, encenando espetáculo de rara beleza.
Um zeloso morador, cujo relógio biológico regula com o tacacá, embora o ideológico tiquetaquei o chá, teria tentado, sem sucesso, ensinar um periquito aprisionado a falar, usando para isso os conhecidos métodos How to teach your budgie to talk ou Come insegnare al tuo pappagallino a parlare. As aves se recusaram, não por incapacidade, mas porque preferiam cantar “Porto de Lenha, tu nunca serás Liverpool”. Só cantavam e piavam. Não falavam.
O pio-pio coletivo, que é sinfonia aos ouvidos do poeta, virou “barulho incômodo” para os condôminos. Com uma agravante: as aves comiam frutas e legumes surrupiados das cozinhas das mansões e faziam cocô nas palmeiras. Papagaio come milho, periquito leva a fama. Bastou isso para o condomínio considerar os periquitos como inimigos. No final de 2011, declarou-lhes guerra de extermínio.
O intruso forasteiro cavou trincheiras, ergueu barricadas, montou telas de proteção nas palmeiras, onde aves estressadas acabaram aprisionadas. Dessa forma, foram impedidas de circular. Segundo denúncias, foram usadas também armas químicas de destruição em massa. Por isso, o presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), Antonio Stroski, suspeita que as mortes podem ter sido causadas por envenenamento.
O armamento químico é combinado com a ação da Divisão de Infantaria Motorizada, que ataca com tanques blindados como numa guerra convencional e promove o assassinato diário de quatro a cinco periquitos esmagados e atropelados por ônibus, taxis, caminhões e carros particulares dos moradores.. Na noite do dia 26, em que morreram os 200 periquitos de uma só vez, imagens do sistema de segurança do condomínio mostram que uma carreta em alta velocidade bateu numa árvore, cujos galhos foram sacudidos, o que foi apresentado equivocadamente como provável causa da tragédia, como se fosse um acidente e não algo planejado, intencional.
No sábado (29/11), cerca de 300 pessoas indignadas manifestaram em frente ao Condomínio contra a morte dos periquitos, exigindo que seja feita uma investigação pelas Polícias Federal e Civil, com a punição exemplar dos culpados como manda a lei. Foi o Periquitaço. Os manifestantes chamaram o Corpo de Bombeiros que retirou pássaros feridos, ainda vivos, presos nas telas. Finalmente, na última terça-feira (2), por determinação do IPAAM,  bombeiros removeram as telas assassinas para preservar a integridade física dos pequenos inquilinos.
Defesa da vida
O extermínio das aves é “uma mancha na história de Manaus. Talvez seja um divisor de águas na forma como a cidade enxerga e trata o meio ambiente” – declarou o veterinário Diogo Lagroteria.
O presidente do IPAAM, Ademir Stroski, opina que “é preciso encontrar formas de convivência entre moradores e periquitos”, enquanto Lagroteria sugere algumas medidas: a recuperação de áreas degradadas para integrar grupos de animais nos fragmentos florestais, a implantação de redutores de velocidade na avenida (lombadas de trânsito) e a criação de projetos de educação ambiental e envolvimento comunitário.
Com a morte dos periquitos, morrem também pedaços da nossa humanidade perdida que precisa ser reconquistada. O destino dos periquitos e da cidade está nas mãos dos 300 manifestantes que saíram às ruas em defesa da vida. Eles são um fiapo de esperança por terem consciência, como cantou Manoel de Barros, de que o cu de uma formiga é mais importante do que um condomínio de luxo. Qualquer engenheiro furreca constrói casas, mas ninguém é capaz de fabricar o fiofó de uma formiga.
De qualquer forma, as mortes precisam ser esclarecidas. O Laboratório da Universidade Federal de Viçosa (MG) já está realizando exames toxicológicos do material coletado. No entanto, uma periquita-das-ilhas nascida no médio Solimões, viúva de um dos periquitos, declarou em entrevista exclusiva ao Taquiprati que não foi envenenamento, nem atropelamento. Foi suicídio mesmo.
O maior especialista em periquitas da Amazônia, Ademir Ramos, professor da UFAM traduziu do periquitês as declarações da entrevistada. Ela confirma a colocação de veneno e os atropelamentos, mas considera que foram  apenas causas indiretas das mortes. Na realidade, os 200 periquitos se suicidaram.
– Por que? – indagamos.
De desgosto – respondeu dona Periquita. Não são ingênuos, sabiam que era veneno. Ingeriram de propósito para morrer. Não suportaram a truculência da vizinhança. Fizeram isso para não terem de continuar convivendo com gente tão escrota, covarde e desumana. Morreram também de saudades do poeta Anibal Beça, que era capaz de ouvir seus gritos de agonia, retomado pelos manifestantes e pela turma do Projeto Jaraqui.
P.S. – Agradeço as fotos pirateadas e as fontes onde bebi água cristalina: 1) a cobertura impecável dos fatos feita pela repórter Elaize Farias da Agência Amazônia Real (http://amazoniareal.com.br/); 2) os comentários do meu amigo Darcy Marubo, consciente de que quem mata periquito, mata índio; 3) os professores da UFAM – Ademir Ramos, sempre de bom-humor, desde quando, como seminarista, criou a Pastoral Erótica, e Welton Yudi Oda – sempre na linha de frente.

terça-feira, 6 janeiro, 2015 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

Sobre a Mãe Terra e os conceitos utópicos, mas necessários…

Colunistas| 24/05/2013

Responsabilidade face ao futuro da espécie humana

A aceitação do conceito da Mãe Terra, inclusive pelas Nações Unidas, vem ao encontro daquilo que já nos anos 20 do século passado o geoquímico russo Wladimir Vernadsky conceitualizou como biosfera. Esse reconhecimento comporta consequências importantes. A mais imediata delas é que a Terra viva é titular de direitos.

Leonardo Boff

Numa votação unânime de 22 de abril de 2009 a ONU acolheu a ideia, durante muito tempo proposta pelas nações indígenas e sempre relegada, de que a Terra é Mãe. Por isso a ela se deve o mesmo respeito, a  mesma veneração e o mesmo cuidado que devotamos às nossas mães. A partir de agora, todo dia 22 de abril não será apenas o dia da Terra, mas o dia da Mãe Terra.
Esse reconhecimento comporta consequências importantes. A mais imediata delas é que a Terra viva é titular de direitos. Mas não só ela e, sim, também todos os seres orgânicos e inorgânicos que  a compõem; são, cada um a seu modo, também portadores de direitos. Vale dizer, cada ser possui valor intrínseco, como enfatiza a Carta da Terra, independentemente do uso ou não que fizermos dele. Ele tem direito de existir e de continuar a existir neste planeta e de não ser maltratado nem eliminado.
Essa aceitação do conceito da Mãe Terra vem ao encontro daquilo que já nos anos 20 do século passado o geoquímico russo Wladimir Vernadsky (1983-1945), criador do conceito de biosfera (o nome foi cunhado do geólogo  austríaco  Eduard Suess (1831-1914) que chamava de ecologia global no sentido de ecologia o globo terrestre como um todo. Conhecemos a ecologia ambiental, a politico-social e a mental.  Faltava uma ecologia global da Terra tomada como uma complexa unidade total. Na esteira do geoquímico russo, recentemente, James Lovelock,  com dados empíricos novos, apresentou a hipótese Gaia, hoje já aceita como teoria científica: a Terra efetivamente comparece como um superorganismo  vivo que se autorregula, tese apoiada pela teoria dos sistemas, da cibernética e pelos biólogos chilenos Maturana e Varela.
Vernadsky entendia a biosfera como aquela camada finíssima que cerca a Terra, uma espécie de sutil tecido indivisível que capta as irradiações do cosmos e da própria Terra e as transforma em energia terrestre altamente ativa. A vida se realiza aqui.
Nesse todo se encontra a multiplicidade dos seres em simbiose entre si, sempre interdependentes de forma que todos se autoajudam para existir, persistir e co-evoluir. A espécie humana é parte deste todo terrestre, aquela porção que pensa, ama, intervém e constrói civilizações.
A espécie humana possui uma singularidade no conjunto dos seres: cabe-lhe a responsabilidade ética de cuidar, manter as condições que garantam a sustentabilidade do todo.
Como  descrevemos no artigo anterior, vivemos gravíssimo risco de destruir a espécie humana e todo o projeto planetário. Fundamos, como afirmam alguns cientistas, o antropoceno: uma nova era geológica com altíssimo poder de destruição, fruto dos últimos séculos que significaram  um desarranjo perverso do equilíbrio do sistema Terra. Como enfrentar esta nova situação nunca ocorrida antes de forma globalizada?
Temos pessoalmente trabalhado os paradigmas da sustentabilidade e do cuidado como relação amigável e cooperativa para com a natureza. Queremos agora, brevemente, apresentar um complemento necessário: a ética da responsabilidade do filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993) com o seu conhecido Princípio responsabilidade, seguido pelo Princípio vida.
Jonas parte da triste verificação de que o projeto da tecno-ciência tornou a natureza extremamente vulnerável a ponto de não ser impossível o desaparecimento a espécie humana. Daí emerge a responsabilidade humana, formulada neste imperativo: Aja de tal  maneira que os efeitos  de suas ações não destruam a possibilidade futura da vida.
Jonas trabalha ainda com outra categoria que deve ser bem entendida para não provocar uma paralisação: o temor e o medo  (Furcht). O medo aqui possui um significado pedestre, um medo que nos leva instintivamente  a preservar a vida e toda a espécie. Há efetivamente o temor de que se deslanche um processo irrefreável de destruição em massa, com os meios diante dos quais não tínhamos temor em construir e que, agora, temos fundado temor de que nos podem realmente destruir a todos. Daí nasce a responsabilidade face às novas tecnociências como a biotecnologia e a nanotecnologia, cuja capacidade de destruição é inconcebível. Temos que realmente nos responsabilizar pelo futuro da espécie humana por temor do desaparecimento e muito mais por amor à nossa própria vida. Queremos viver e irradiar.

Leonardo Boff é teólogo e escritor

quinta-feira, 30 maio, 2013 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

A primeira batalha…

Há séculos, nós humanos aprendemos a ser o centro do mundo e substituímos a parceria com a Natureza pelo domínio sobre a Natureza. Deu no que deu: devastação global, crises produtivas e climáticas que nos levaram à atual crise ambiental que, em face da ganância dos mercados e das tecnologias eco-agressoras, agrava-se a cada dia, já que desaprendemos a dialogar com o ambiente.

Sitio Natura 6Felizmente, nas última décadas, surgiu um bando crescente de loucos (na opinião conservadora), capaz de lutar em várias frentes (política, científica, tecnológica e de gestão) e fazer frente ao etnocentrismo pragmático-utilitarista reinante no planeta. E, felizmente, começa a ressucitar a idéia das parcerias com a Natureza, protegendo-a,  reconstituindo-a e facilitando os seus processos naturais de produção, conservando-a ao invés de inutilizá-la.

De há muito tornei-me um destes loucos, após muitos anos cooptados pela agronomia de mercado ainda dominante. Mas, agora, tenho um território para aplicar minhas vontades e conhecimentos agroecológicos compartilhados com aqueles que sonham um ambiente diferente, resgatado e diverso.

A um mês, iniciei a labuta. Primeiramente, abri a estrada interna de que necessitava. Poderia utilizar um trator e fazê-la rápido e a um custo 30% menor. Mas, e o estrago ambiental? Preferi então fazê-la à mão, com dois cabras machos que moram na vizinhança e ela já está pronta, conforme podem ver na foto acima. Nada cortado de fundamental, apenas a trilha curvilínea poupando as plantas mais sigificativas, como o Anajazeiro da foto acima, que produz coquinhos que servem ao consumo humano e dos animais (tatus, pacas, etc.) ainda presentes na área, apesar dos caçadores clandestinos. E embora com esta aparência rústica, meu velho Renault (um carro urbano), entra e sai tranquilamente e em pleno período chuvoso. Sem erosão, sem terra e matas revolvidas. Apresento-lhes, então o Caminito, como o batizei.

Sitio natureza 3 036Na foto ao lado, está o início da construção (também manual) do primeiro lago (o Laguinho), aproveitando uma bacia natural do canyon onde correm as águas da nascente que brota 150 metros acima, por um forte declive natural. O Laguinho reforçará a fonte e a vegetação à montante, onde nada será tocado, a não ser para reforçar a vegetação terciária já existente. E lá no fundo da foto, situa-se o lugar onde construirei a casinha de pedra, quando puder. Acho que vai ficar lindo (o Laguinho e a casa em meio ao pomar agroflorestal que formarei ao fundo, na vegetação mais rala).

Nestes arredores situava-se o antigo sítio de moradia do antigo dono (já falecido) e ainda há por lá uma idosa jaqueira, alguns coqueiros maltratados, açaizeiros e murucizeiros abandonados, que recuperarei em breve.

E algo carinhoso para o meu coração socialista chegou aos meus ouvidos, através do meu escudeiro. Um dos dois trabalhadores (que desconhecia até então) foi chamado para trabalhar para o japonês ao qual prestava serviços, de vez em quando. E ele disse, ao receber o recado, através de sua mãe: _ Eu não vou. O seu Henrique é um homem bom, me arrumou serviço quando eu mais precisava e ele vai ter sempre serviço pra mim e pro meu tio, seja no sítio ou lá no quintal da casa dele.

Imaginem como ficou este meu coração de anseios solidários…

E como primeiras “curtições” no território, além do “avoado” de dias atrás, documento a Mariceli (minha Dulcinéia) e a minha mana Miroca, após uma breve chuva de verão, coletando e saboreando coquinhos nativos de Tucumã, produzidos pela pequena palmeira que preservei ao lado do Caminito. E para encerrar, o trio de La Mancha: este Quixote, ladeado de sua Dulcinéia e do seu fiel escudeiro Sancho (o Rocinante estava descansando à sombra, alhures).

“A esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe a crença. Vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança”. ( Augusto dos Anjos)

SITIO NATUREZA 4 009SITIO NATUREZA 4 005

quarta-feira, 3 abril, 2013 Posted by | Comentário | , , | Deixe um comentário

Sobre a (ir)racionalidade ambiental humana…

Há mais de uma década, o ambientalista Liszt Vieira, em seu  Fragmentos de um discurso ecológico: reflexões críticas de Ecologia Política (São Paulo, São Paulo em Perspectiva, vol. 3, no. 4, out – dez 1989), já conceituava e comentava o antropocentrismo pragmático-utilitarista, que nada mais é que a visão humana do mundo a partir do seu próprio umbigo: o ser humano como centro de tudo, com o restante do mundo natural ao seu inteiro dispor, para explorar irresponsavelmente os recursos naturais para atender não somente às suas necessidades básicas, mas à sua ambição desmedida por riquezas. E claro, como a maioria dos contestadores do modo de produção capitalista que aí está, foi ignorado.

Hoje amanheci lendo o artigp que repasso abaixo e que nada mais é do que um capítulo decorrente e recorrente da tragédia planetária anunciada desde 1972, através do documento “Os limites do Crescimento” (MEAWDOWS et al), também conhecido como “Relatório de Roma” e que, atualmente, se cristaliza cotidianamente na onda interminável de mudanças e tragédias climáticas cada vez mais avassaladoras (basta ver o noticiário ou no próprio ambiente em que se reside).

Leiam com calma e reflitam, amigos…
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Bem-vindos ao Antropoceno! É o capitalismo, estúpido!

Via cartamaior.com.br
Os humanos mudaram a forma como o mundo funciona. Agora também precisam mudar a forma como pensam sobre isso, diz editorial da revista The Economist sobre as profundas e perigosas mudanças que o homem vem provocando no planeta. O curioso no texto é que ele não menciona única vez o termo ‘capitalismo’ ao longo das 1.105 palavras do ensaio sobre a transformação do planeta sob a influência humana. Mas implicitamente denuncia o modo de produção do qual é porta-voz.
31/05/2011
The Economist
Em editorial publicado na sua última edição, a prestigiosa revista liberal britânica The Economist adverte sobre as profundas mudanças que o homem vem provocando no meio ambiente nas últimas décadas. A taxa de extinção hoje, adverte o texto, é bem mais rápida que durante períodos geológicos normais. Estamos vivendo uma era de maior instabilidade. O curioso no texto é que ele não menciona única vez o termo ‘capitalismo’ ao longo das 1.105 palavras do ensaio sobre a transformação do planeta sob a influência humana.No entanto, toca em vários pontos assustadores intrínsecos à dinâmica do dito sistema. De modo que, implicitamente, mesmo sem querer, comete uma estrondosa denúncia do modo de produção do qual é porta-voz. Um título alternativo para o referido editorial poderia ser: “É o capitalismo, estúpido!”

Publicamos a seguir a íntegra do editorial, publicado originalmente em português no Vi o Mundo:

Bem-vindos ao Antropoceno
A Terra é uma coisa grande: se fosse dividida de forma equânime por todos os 7 bilhões de habitantes, cada um ficaria com quase um trilhão de toneladas. Pensar que o funcionamento de um ente tão vasto poderia ser mudado de forma duradoura por uma espécie que tem corrido pela superfície dele por menos de 1% de 1% de sua história parece, considerando apenas isso, absurdo. Mas não é. Os humanos se tornaram uma força da natureza que muda o planeta em escala geológica — mas numa velocidade mais rápida que a geológica.

Só um projeto de engenharia, a mina de Syncrude nas areias betuminosas de Athabasca, envolve o movimento de 30 bilhões de toneladas de terra — duas vezes mais que a quantidade de sedimento que flui em todos os rios no mundo em um ano. Aquele fluxo de sedimento, enquanto isso, está encolhendo: quase 50 mil grandes represas no último meio século reduziram o fluxo [de sedimento nos rios] em quase um quinto. É uma das razões pelas quais os deltas da Terra, onde vivem centenas de milhões de pessoas, estão erodindo num ritmo que impede que sejam reabastecidos.

Os geólogos se importam com sedimentos, martelando neles para descobrir o que têm a dizer sobre o passado — especialmente sobre as grandes porções de tempo que a Terra atravessa de um período geológico a outro. Com o mesmo espírito os geólogos olham para a distribuição de fósseis, para traços das geleiras, para o nível dos oceanos. Agora, um número destes cientistas argumenta que futuros geólogos, observando este momento do progresso da Terra, vão concluir que algo muito estranho está acontecendo.

O ciclo do carbono (e o debate sobre o aquecimento global) é parte da mudança. Assim também é o ciclo do nitrogênio, que converte nitrogênio puro da atmosfera em químicos úteis, e que os humanos ajudaram a acelerar em mais de 150%. Eles e outros processos antes naturais foram interrompidos, remodelados e, principalmente, acelerados. Os cientistas estão crescentemente usando um novo nome para este período. Em vez de nos colocar ainda no Holoceno, uma era particularmente estável que começou há cerca de 10 mil anos, os geólogos dizem que já estamos vivendo no Antropoceno: a idade do homem.

The new geology leaves all in doubt
O que os geólogos escolhem chamar de um período histórico normalmente importa pouco para o resto da humanidade; disputas na Comissão Internacional de Estratigrafia sobre os limites do Período Ordoviciano normalmente não capturam as manchetes. O Antropoceno é diferente. É um daqueles momentos em que cai a ficha científica, como quando Copérnico entendeu que a Terra girava em torno do sol, momentos que podem mudar fundamentalmente a visão das pessoas sobre coisas muito além da ciência. Significa muito mais que reescrever alguns livros didáticos. Significa repensar a relação entre as pessoas e seu mundo — e agir de acordo com oresultado.

A parte de “repensar” é a mais fácil. Muitos cientistas naturais abraçam a confortável crença de que a natureza pode ser pensada, na verdade deveria ser pensada, separadamente do mundo humano, com as pessoas como meras observadoras. Muitos ambientalistas — especialmente aqueles da tradição norte-americana inspirada em Henry David Thoreau — acreditam que “o mundo selvagem é a preservação do mundo”. Mas as regiões isoladas, para o bem e para o mal, estão se tornando crescentemente irrelevantes.

Quase 90% da atividade vegetal do mundo, por algumas estimativas, é encontrada em ecossistemas onde o homem tem um papel significativo. Embora a agricultura tenha mudado o mundo por milênios, o evento Antropoceno dos combustíveis fósseis, da engenharia agrícola e, principalmente, dos fertilizantes artificiais à base de nitrogênio, incrementaram vastamente o poder da agricultura. A relevância das regiões preservadas para nosso mundo encolheu em face deste avanço. A quantidade de biomassa que agora anda sobre o planeta em forma de humanos ou animais de criação pesa muito mais que todos os outros grandes animais juntos.

Os ecossistemas do mundo são crescentemente dominados por um grupo limitado e homogêneo de culturas, animais de criação e criaturas cosmopolitas que se dão bem em ambientes dominados por humanos. Criaturas menos úteis ou adaptáveis se dão mal: a taxa de extinção hoje é bem mais rápida que durante períodos geológicos normais.

Recycling the planet
O quanto as pessoas deveriam se amedrontar com isso? Seria estranho se não se preocupassem. A história do planeta contém muitas eras menos estáveis e clementes que o Holoceno. Quem pode garantir que a ação humana não pode empurrar o planeta para nova instabilidade?

Alguns vão querer simplesmente voltar o relógio. Mas retornar às coisas como eram não é realista, nem moralmente alcançável. Um planeta que em breve pode sustentar 10 bilhões de seres humanos precisa trabalhar de forma diferente de que quando sustentava 1 bilhão de pessoas, a maioria camponeses, 200 anos atrás. O desafio do Antropoceno é usar a engenhosidade humana para ajeitar as coisas para que o planeta possa cumprir sua tarefa do século 21.

Aumentar a resiliência do planeta vai provavelmente envolver algumas mudanças dramáticas e muitos pequenos ajustes. Um exemplo do primeiro pode vir da geoengenharia. Hoje o abundante dióxido de carbono emitido na atmosfera fica para a natureza recolher, o que ela não pode fazer suficientemente rápido. Embora as tecnologias ainda sejam nascentes, a ideia de que os humanos possam remover o carbono dos céus da mesma forma que ele é colocado lá é uma razoável expectativa do Antropoceno; não evitaria o aquecimento global a curto prazo, mas poderia reduzir seu impacto, com isso reduzindo as mudanças na química dos oceanos causadas pelo excesso de carbono.

Mais frequentemente a resposta estará nos pequenos ajustes — em encontrar formas de aplicar o músculo humano em favor da natureza, em vez de contra ela, ajudando assim a tendência natural de reciclar as coisas. A interferência humana no ciclo do nitrogênio tornou o nitrogênio muito mais disponível para plantas e animais; fez muito menos para ajudar o planeta a lidar com todo aquele nitrogênio quando as plantas e animais se satisfazem. Assim, sofremos cada vez mais com as “zonas mortas” costeiras, invadidas pelo brotar de algas alimentadas por nitrogênio. Pequenas coisas, como uma agricultura mais inteligente e melhor tratamento de esgoto, poderiam ajudar muito.

Para os homens, ter um envolvimento íntimo com vários processos interconectados numa escala planetária envolve muitos riscos. Mas é possível acrescentar à resiliência do planeta, em geral com medidas simples e graduais, se elas forem bem pensadas. E uma das mensagens do Antropoceno é que as ações graduais que nos trouxeram até aqui podem rapidamente se somar para provocar mudanças globais.

Tradução: Vi o Mundo

quarta-feira, 1 junho, 2011 Posted by | Comentário, Repassando... | , , , | Deixe um comentário

O veneno nosso de cada dia e a impunidade cúmplice do Estado…

O Stédile, liderança intelectual e ideológica do MST, nunca foi para mim uma figura admirável, face aos seus métodos pouco democráticos de lutar por mudanças sociais, em uma época em que a luta armada já esgotou suas possibilidades históricas. Todavia, o artigo de sua autoria que repasso abaixo, é de profunda importância para a sociedade brasileira, neste momento em que se busca o desenvolvimento sustentável, com renda para todos, justiça social e meio ambiente saudável. As suas informações, se verdadeiras (e me parecem ser), representam um chute na nossa dignidade de consumidores e cidadãos, envergonha a nossa já emporcalhada classe política e achincalha o nosso judiciário já tão desmoralizado.

A imagem ao lado (mais antiga que o artigo) cita o consumo anual de 4 kg/percapita de agrotóxico pelos brasileiros, enquanto o Stédile eleva este consumo para 6 kg anuais. Pelo jeito, o grau de enveneneamento nacional parece ter acompanhado a evolução dos níveis de emprego e de renda dos últimos oito anos. Independente disso: que diferença faz se 4 ou 6 kg? Dúvidas  sobre a malignidade desta situação me remetem a uma outra dúvida, também antiga: pra que ogivas nucleares suficientes para destruir a Terra 45 vezes, se apenas uma vez é o suficiente?

Leiam e indignem-se…

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Denúncias

21 de janeiro de 2011 às 11:30

Stédile: Todos os dias o povo come veneno

29.11.10 – BRASIL
Todos os dias o povo come veneno. Quem são os responsáveis?

João Pedro Stédile *, no Adital

O Brasil se transformou desde 2007, no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. E na ultima safra as empresas produtoras venderam nada menos do que um bilhão de litros de venenos agrícolas. Isso representa uma media anual de 6 litros por pessoa ou 150 litros por hectare cultivado. Uma vergonha. Um indicador incomparável com a situação de nenhum outro país ou agricultura.

Há um oligopólio de produção por parte de algumas empresas transnacionais que controlam toda a produção e estimulam seu uso, como a Bayer, a Basf, Syngenta, Monsanto, Du Pont, Shell química etc.

O Brasil possui a terceira maior frota mundial de aviões de pulverização agrícola. Somente esse ano foram treinados 716 novos pilotos. E a pulverização aérea é a mais contaminadora e comprometedora para toda a população.

Há diversos produtos sendo usados no Brasil que já estão proibidos nos países de suas matrizes. A ANVISA conseguiu proibir o uso de um determinado veneno agrícola. Mas as empresas ganharam uma liminar no “neutral poder judiciário” brasileiro, que autorizou a retirada durante o prazo de três anos… e quem será o responsável pelas conseqüências do uso durante esses três anos? Na minha opinião é esse Juiz irresponsável que autorizou na verdade as empresas desovarem seus estoques.

Os fazendeiros do agronegócio usam e abusam dos venenos, como única forma que tem de manter sua matriz na base do monocultivo e sem usar mão-de-obra. Um dos venenos mais usados é o secante, que é aplicado no final da safra para matar as próprias plantas e assim eles podem colher com as maquinas num mesmo período. Pois bem esse veneno secante vai para atmosfera e depois retorna com a chuva, democraticamente atingindo toda população inclusive das cidades vizinhas.

O Dr. Vanderley Pignati da Universidade Federal do Mato Grosso tem várias pesquisas comprovando o aumento de aborto, e outras conseqüências na população que vive no ambiente dominado pelos venenos da soja.

Diversos pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer e da Universidade federal do Ceara já comprovaram o aumento do câncer, na população brasileira, conseqüência do aumento do uso de agrotóxicos.

A ANVISA -responsável pela vigilância sanitária de nosso país-, detectou e destruiu mais de 500 mil litros de venenos adulterados,somente esse ano, produzido por grandes empresas transnacionais. Ou seja, alem de aumentar o uso do veneno, eles falsificavam a fórmula autorizada, para deixar o veneno mais potente, e assim o agricultor se iludir ainda mais.

O Dr. Nascimento Sakano, consultor de saúde, da insuspeita revista CARAS escreveu em sua coluna, de que ocorrem anualmente ao redor de 20 mil casos de câncer de estomago no Brasil, a maioria conseqüente dos alimentos contaminados, e destes 12 mil vão a óbito.

Tudo isso vem acontecendo todos os dias. E ninguém diz nada. Talvez pelo conluio que existe das grandes empresas com o monopólio dos meios de comunicação. Ao contrário, a propaganda sistemática das empresas fabricantes que tem lucros astronômicos é de que, é impossível produzir sem venenos. Uma grande mentira. A humanidade se reproduziu ao longo de 10 milhões de anos, sem usar venenos. Estamos usando veneno, apenas depois da segunda guerra mundial, para cá, como uma adequação das fabricas de bombas químicas agora, para matar os vegetais e animais. Assim, o poder da Monsanto começou fabricando o Napalm e o agente laranja, usado largamente no Vietnam. E agora suas fabricas produzem o glifosato, que mata ervas, pequenos animais, contamina as águas e vai parar no seu estômago.

Esperamos que na próxima legislatura, com parlamentares mais progressistas e com novo governo, nos estados e a nível federal, consigamos pressão social suficiente, para proibir certos venenos, proibir o uso de aviação agrícola, proibir qualquer propaganda de veneno e responsabilizar as empresas por todas as conseqüências no meio ambiente e na saúde da população.

* Economista. Integrante da coordenação nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e da Via Campesina Brasil

Para ouvir uma entrevista imperdível do Stedile, em que ele trata deste e de muitos outros assuntos interessantes, clique aqui.

sexta-feira, 21 janeiro, 2011 Posted by | Comentário, Repassando... | , , | Deixe um comentário

Malhando em ferro frio, mas a luta tem que continuar…

Mudança climática: pouca ambição, muitas emissões

A 16ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP-16), que inicia dia 29 de novembro, terá um perfil mais baixo que o encontro de 2009 em Copenhague. Negociadores tentarão continuar trabalho realizado na conferência do ano passado, que concluiu com o não vinculante “Acordo de Copenhague”, no qual alguns dos países mais ricos se comprometeram a reduzir as emissões de gases. EUA só assinarão acordo que redução de emissão de gases por parte da China e de outras economias emergentes.
> LEIA MAIS | Meio Ambiente | 25/11/2010

quinta-feira, 25 novembro, 2010 Posted by | Repassando... | , , , | Deixe um comentário