Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Anomia social e tradição na Amazônia: contradições caboclas.

BLOGUE ALIENAÇÃO ideologia e alienaçãoManhã de domingo, fim de madrugada, quase manhã. Ruas de Curuçá, interior paraense de imenso valor histórico e de nenhuma valia econômica atual. Bebuns de uma casta imensamente diversificada (frutos da festa noturna e finda), espalhados pelas calçadas, feiras e botecos das esquinas populares. Em meio à caminhada matutina com minha companheira, inicio a longa descida longa que leva ao subúrbio, buscando como sempre o entendimento das coisas ao meu redor. Mas ao longe, no fim da reta, uma briga me captura a atenção: três jovens, nitidamente alcoolizados (e provavelmente drogados), trocavam socos e xingamentos. Era no meu trajeto e eu poderia tê-lo evitado, mas por aqueles fatalismos que me são peculiares (ou excesso de confiança em uma imortalidade que fica cada vez mais distante), não estava disposto a fazê-lo. Lembrei do Drumond (havia uma pedra no caminho, no meio do caminho havia uma pedra!) e segui viagem, já imaginando as razões daquilo: a aparente selvageria da juventude, estimulada por drogas, como expressão maior da negação de uma sociedade interiorana e pobre, cada vez mais restrita em termos de oportunidades e de referenciais éticos, suplantada pelo desenvolvimento desigual. E continuei andando e me aproximando dos brigões.

Agora já eram apenas dois (um se evadira) e a coisa parecia pior: um, extremamente agressivo, batia sistematicamente no outro, que segurava uma bicicleta e não reagia, apenas pedindo para o agressor parar. E eu, até então um observador social, diante da agressão covarde e persistente, resolvi intervir, quando cheguei às proximidades. Decidi e parti, antes que a companheira pudesse contra-argumentar e me convencer do contrário. Aproximei-me do agressor branco e tatuado, enquanto observa de viés o caboclinho agredido e que tremia dos pés à cabeça.

_ Companheiro, por favor, não faça isso!

_ Não te mete, vai curtir a tua e não te mete!

Sua voz era agressiva e descontrolada, percebi. Mas não ia deixar aquela pedra no meio do caminho.

_ Companheiro, isso não está certo! Você está agredindo uma pessoa que nem sequer está reagindo, correndo inclusive o risco de ser preso!

_ Num tô nem aí, e o senhor tem idade para ser meu pai ou meu avô, não se meta!

_ Pois é, cara, exatamente por ter idade de ser seu pai ou seu avô é que estou lhe pedindo: pare com isso. Você já não bateu nele o bastante?

_ Não, é que eu também fui batido, olha aqui (e me mostrou ferimentos nas mãos). Acho até que tô com essa mão quebrada!

O fato dele começar a me explicar as suas razões, evidenciou-me um certo respeito dele por mim (o avô ou pai) e eu, que percebera o início da briga e a fuga do terceiro brigão, achei uma brecha:

_ Mas foi ele que lhe quebrou a mão?

_ Não, foi aquele puto que ta acolá naquela casa!

_ Então, vá bater nele, não nesse aqui que parece ser seu amigo e nem está reagindo!

Até então, em algumas brechas do diálogo, eu mandava o agredido ir embora, mas ele não conseguia, por ser impedido pelo agressor ou pelo próprio medo que limitava seus esforços de fuga. A agressão parara, mas o perigo da continuidade permanecia. O agressor vacilou e eu, já com raiva pela inércia do agredido, gritei pra ele ir embora. Com muito custo, ele montou na bicicleta e se foi. Virei-me para o agressor e ele já caminhava para a casa que apontara anteriormente. Nada dissera, apenas caminhara pra lá. E eu voltei à caminhada junto com a companheira que acompanhara tudo num silêncio tenso e preocupado.

_ E se ele resolvesse lhe agredir?

_ Eu ia reagir, né? Se eu me atracasse com ele e caísse por cima, ele já era!

Ela riu, pois peso 120 quilos.

E continuei a caminhada, conversando com ela sobre a contradição do comportamento do jovem agressor: mesmo fora de si, alcoolizado e drogado, a minha idade tinha-o levado a associar-me aos seus referenciais familiares, a preocupar-se em dar explicações e, ao fim de tudo, silenciosamente abandonar o ringue suburbano. E isso para mim demonstrou que, qualquer que seja o grau de anomia social dos indivíduos, alguns valores tradicionais ainda marcam profundamente as comunidades interioranas amazônicas. E para reforçar essa convicção, ela me contou o fato antigo da proprietária de uma Lan House da cidade ter-se aproximado do nosso filho caçula (mas já com a namorada) que jogava vídeo-game em meio a acessos de tosse, e ordenado:

_Toma, menino! Toma esse xarope pra ver se passa essa tosse!

Ela não se preocupou em impedi-lo de jogar, nem ignorou o fato. Agiu apenas como uma mãe interiorana que se considera responsável também pelos filhos dos outros, independente da idade dos mesmos. E ela não conhecia a nós dois, nem ao nosso filho…

sábado, 11 julho, 2009 Posted by | Comentário, Pequenas histórias | , , | Deixe um comentário

Tristezas de caboclo

blogue-van-gogh-800px-vincent_van_gogh_1853-1890_-_wheat_field_with_crows_1890

Ser humano é bicho complicado: por mais que se sinta, nunca pode afirmar como se sentirá no momento seguinte. Pelo menos esse bicho que sou é assim, imprevisível e ansioso, racional e emotivo ao extremo, oscilante entre a esperança mais intensa e a depressão mais imobilizadora e sofrida, entre a valentia social mais desbragada e a impotência mais dolorosa diante das coisas do mundo.

Hoje está sendo um dia desses, complicado e oscilante.

Retomei a elaboração da minha dissertação de mestrado (sonho que adiei por muitas décadas), feliz ao reler o texto original e identificar nele a minha cabeça e a validade das idéias desenvolvidas. Sorrindo interiormente por ter descoberto Jürgen Habermas em sua teoria do conhecimento, por ter conseguido aglutiná-la às concepções político-sociais de Paulo Freire. Envaidecido por ter produzido um texto em que, estudando e assimilando inúmeros autores, resumia a minha visão pessoal sobre sociedade e desenvolvimento, sobre desenvolvimento e justiça social, sobre o papel da cada trabalhador social na construção de uma realidade mais justa. Enfim, tudo a ver com satisfação e alegria… E de tanta paz interior, resolvi agregar ao meu ambiente de trabalho as músicas que me tornam reflexivo, meditabundo…

Veio a primeira: Because, com os Beatles. Aquele coro quase santo que o coloca no esconderijo adequado para espiar  o mundo e a si próprio. Tudo bem, tudo legal, tudo a ver com o momento e o trabalho.

Mas a segunda já começou a esbandalhar-me a motivação inicial: The Prayer, com Bocelli e Dion. A angústia da prece por um mundo sem violência, de justiça e esperança, de mãos dadas com a vizinhança, e a sensibilidade das vozes, foram me contagiando devagarinho…

A terceira me matou: Don MClean, um jovem de hoje cantando “Starry, starry nigth” para Van Gogh, o andarilho louco que pintou marginalmente a beleza e as tristezas do mundo, que ignorou enquanto pôde a rejeição do seu tempo e que teve a coragem de dar um fim a si mesmo quando perdeu a esperança. E na minha insensata emoção (ouvindo em seguida “My Way”), imaginei-o naquele campo de trigo, com a arma na mão, olhando os corvos esvoaçantes, pensando: “o que é um homem se não ele mesmo, para dizer as coisas que sente de verdade e não as palavras que ele deveria revelar? Embora os registros mostrem que eu recebi as desgraças, eu fiz do meu jeito”…

Pronto! Estava feita a minha depressão! A minha identificação atávica com as impossibilidades do homem diante do mundo, mais uma vez atravancou a minha esperança teimosa!

Ainda tentei recuperar-me ouvindo “Amanhã” com o Guilherme Arantes, mas a visão esperançosa acima de qualquer vontade não foi suficiente. Parei de trabalhar, deitei-me e viajei nas minhas angústias. E Lucinha Bastos, com “Paupixuna”, levou-me ao mundo caboclo amazônico ao qual me escravizei, voluntariamente, há quase quarenta anos. Decolei na descrição desse universo tradicional em extinção pela modernidade, nas coisas que me aprisionaram e me tornaram um caboclo espiritual. Pretensioso intelectualmente, mas no fundo, um caboclo. Caboclo não integralmente assumido, por isso apenas um caboclo metido a besta. E pior: um caboclo metido a besta e angustiado por tentar e não conseguir fazer nada de concreto por eles, que não estão conseguindo inserir-se na modernidade de forma adequada.

Daí a ver minha dissertação como mais uma tentativa inútil, foi um passo. Durante vinte um anos, acreditei piamente nas minhas capacidades para enfrentar a vida. Nos quarenta e quatro anos seguintes, tentei mudar o pequeno universo à minha volta e, mais uma vez, ao relembrar o meu caminho, garimpei mais frustrações do que motivos de orgulho. E antes de desligar o som pra não ser tentado a ir visitar o campo de trigo com corvos, pensei no que disse o Érico Veríssimo: sou apenas um pequeno homem e quando choro por você, também choro por mim…

Decididamente, ouvir música não foi uma boa idéia… Ou foi? Ser humano é bicho complicado…

quarta-feira, 1 abril, 2009 Posted by | Comentário | , , , , , | Deixe um comentário

Um cheirinho de Alecrim…

Repassado por Carlos Germer, SC.

Há dias em que se tem a impressão de se estar dentro de um espesso nevoeiro. Tudo parece monótono e difícil e o coração fica triste. É a noite escura da alma. Era meu aniversário e justamente um destes dias estranhos, quando uma voz interior me disse:- ‘Você precisa tomar chá de alecrim!’ Fui ao jardim e lá estava nosso viçoso pé de alecrim. Interessante é que quase todos que visitam nossos jardins demonstram afeição e respeito pelo alecrim. Confesso que nunca liguei muito para ele. Mas, naquele dia, com toda reverência, colhi alguns ramos, preparei um chá e o servi em uma linda xícara. O aroma era muito agradável e, a cada gole que bebia, senti a mente ir clareando. Uma sensação de bem-estar e alegria foi se espalhando pelo corpo e senti enorme felicidade no coração. Fiquei muito impressionada com a capacidade dessa planta transmitir alegria.
Aliás, o nome alecrim já lembra alegria. Resolvi pesquisar a respeito e – veja só que maravilha! O alecrim – Rosmarinos officinalis, planta nativa da região mediterrânea, foi muito apreciado na Idade Média e no Renascimento, aparecendo em várias fórmulas, inclusive a ‘Água da Rainha da Hungria’, famosa solução rejuvenescedora. Elizabeth da Hungria recebeu, aos 72 anos, a receita de um anjo (um monge?) quando estava paralítica e sofria de gota. Com o uso do preparado, recobrou a saúde, a beleza e a alegria. O rei da Polônia chegou a pedi-la em casamento! Madame de Sévigné recomendava água de alecrim contra a tristeza, para recuperar a alegria. Rudolf Steiner afirmava que o alecrim é, acima de tudo, uma planta calorífera que fortalece o centro vital e age em todo o organismo. Além disso, equilibra a temperatura do sangue e, através dele, de todo o corpo. Por isso é recomendado contra anemia, menstruação insuficiente e problemas de irrigação sangüínea. Também atua no fígado. E uma melhor irrigação dos órgãos estimula o metabolismo. Um ex-viciado em drogas revelou que tivera uma visão de Jesus que o tornou capaz de livrar-se do vício. Jesus lhe sugeria que tomasse chá de alecrim para regenerar e limpar as células do corpo, pois o alecrim continha todas as cores do arco-íris. O alecrim é digestivo e sudorífero. Ajuda a assimilação do açúcar (no diabetes) e é indicado para recompor o sistema nervoso após uma longa atividade intelectual.
É recomendado para a queda de cabelo, caspa, cuidados com a pele, lesões e queimaduras; para curar resfriados e bronquites, para cansaço mental e estafa; ainda para perda de memória, aumentando a capacidade de aprendizado.
Existe uma graciosa lenda a respeito do alecrim: quando Maria fugiu para o Egito, levando no colo o menino Jesus, as flores do caminho iam se abrindo à medida que a sagrada família passava por elas. O lilás ergueu seus galhos orgulhosos e emplumados, o lírio abriu seu cálice. O alecrim, sem pétalas nem beleza, entristeceu lamentando não poder agradar o menino. Cansada, Maria parou à beira do Rio e, enquanto a criança dormia, lavou suas roupinhas. Em seguida, olhou a seu redor, procurando um lugar para estendê-las.
_O lírio quebrará sob o peso, e o lilás é alto demais, pensou.
Colocou-as então sobre o alecrim e ele suspirou de alegria, agradeceu de coração a nova oportunidade e as sustentou ao Sol durante toda a manhã.
_ Obrigada, gentil alecrim! – disse Maria. Daqui por diante, ostentarás flores azuis para recordarem o manto azul que estou usando. E não apenas flores te dou em agradecimento, mas todos os galhos que sustentaram as roupas do pequeno Jesus, serão aromáticos. Eu abençôo folha, caule e flor, que a partir deste instante terão aroma de santidade e emanarão alegria.

Bom chá de alecrim pra você!!!

terça-feira, 26 agosto, 2008 Posted by | Repassando... | , , | Deixe um comentário

Mais um ano sem o Rei do baião.

02 de agosto de 1989 morre o “Rei do baião”.

Ouvir as musicas de Gonzaga mostra como era boa a vida simples do sertão, mesmo com as dificuldades que existia com a seca. Até quem nunca viveu aquela época, ou nem se quer conhece o sertão nordestino, sente uma grande saudade de tudo que ele conta em suas musicas. Mostra como é o verdadeiro Brasileiro, sofrido, humilde, cheio de saudade no coração, mas sempre com muita determinação! Continue lendo

sábado, 2 agosto, 2008 Posted by | Arte e cultura, Comentário, Pequenas histórias, Reflexões, Repassando... | , , , , | Deixe um comentário