Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Lula: enfim, a unanimidade!

Lembro-me, como se fosse hoje, do terrorismo político que os partidos de centro-direita fizeram durante a campanha da primeira eleição ganha pelo Lula, em 2010: que ele não era preparado para governar; que a sua eleição colocaria em guarda a economia mundial, ampliando o risco Brasil e limitando a capacidade nacional de atrair investimentos; que ele, no poder, derrubaria todas as conquistas do período FHC; e assim por diante.

Lembro-me também das elites e da classe média ridicularizando o operário que tinha a petulância de aspirar governar o país. Lembro ainda mais da difícil situação econômica e social da nação no primeiro ano de governo Lula, em decorrência do terrorismo político praticado pela oposição durante a campanha. Lembro-me ainda das pressões contra suas políticas sociais e práticas de governo em prol dos mais pobres. E lembro-me mais ainda do escândalo do mensalão, que não puniu ninguém mas foi usado de todas as formas para derrubar o Lula, sem sucesso, pois não encontraram nada contra ele. Inclusive aqui na NET, fervilhavam comunidades orkut’s destinadas única e exclusivamente a escrachar o presidente-operário. Tudo bem. Hoje, oito anos depois, sinto-me de alma lavada e enxaguada por ver confirmadas todas as minhas expectativas em relação à sua capacidade política, sua ideologia socialista (que não significa ser anti-capitalista, embora muitos assim considerem) e sua capacidade de gestor governamental. Com índices permanentes de aprovação nacional acima dos 80%, cotado para dirigir a ONU após deixar a presidência, eleito figura mundial mais popular por pesquisas internacionais, e agora (pasmem!) considerado “acima do Bem e do Mal” por nada mais nada menos que o adversário político José Serra!

É amigos, como sempre digo, o inferno é aqui mesmo… E como dizia o colunista social Ibrahim Sued, décadas atrás: os cães ladram e a caravana passa…

Lembrei-me de tudo isso porque meu amigo Carlos Germer enviou-me o discurso feito pelo presidente na reunião do Diálogo Brasil-África, onde ele tece interessantes considerações sobre sua experiência como governante e descortina as pressões que sofreu para não trilhar o caminho escolhido. É um relato histórico-didático e de improviso (o que lhe dá mais consistência ideológica), que cada brasileiro deveria ler. Como o citado discurso é muito longo, preferi repassar os trechos mais importantes. Quem quiser ler na íntegra é só acessar o link apresentado no final.

Leiam e meditem…

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No dia 10 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a realização da reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, em Brasília, para fazer um balanço das políticas sociais implementadas pelo governo brasileiro nos últimos anos. Lula falou sobre as dificuldades, resistências e preconceitos enfrentados no início e sobre como os resultados de hoje mostram o acerto do caminho adotado. Após receber o prêmio da ONU “Campeão do Mundo na Batalha Contra a Fome”, o presidente lembrou que foi o consumo das classes menos favorecidas um dos responsáveis pelo fortalecimento da economia nacional, que se descolou do cenário internacional e sofreu menos com os efeitos da crise econômica mundial.

“A classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais que as classes A e B do Sul e Sudeste, ou seja, os pobres foram à luta para comprar. (…) O que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente. E os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média e compraram coisas que só parte da classe media podia comprar”, destacou Lula. O presidente resumiu assim as dificuldades enfrentadas no início da implementação de programas como o Bolsa Família:

“Tinha gente que falava assim para mim: “Por que o presidente Lula vai criar o programa Fome Zero, gastar R$ 12 bilhões se isso daria para fazer pontes, fazer estradas?” Na verdade, daria para fazer pontes e fazer estradas. Mas naquele momento, o mais importante do que uma ponte era colocar comida na barriga de uma criança, era colocar comida na barrida de uma mulher ou de um homem que estava fragilizado. E a gente não poderia vacilar entre os discursos daqueles que são contra e a realidade. O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à crise dos países ricos…”

“A gente pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam”.
Eu queria, antes, agradecer o prêmio que eu recebi. Eu penso que cada dirigente, no mundo, ou melhor, cada um de nós, a gente pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam. Se os dirigentes políticos do mundo não estiverem, cotidianamente, comprometidos com as pessoas que estão em pior situação no seu estado e no seu país, fica mais difícil a gente tomar decisão em benefício dos mais pobres. A verdade é que, normalmente, nós somos eleitos pelos mais pobres, mas quando a gente ganha as eleições, quem tem acesso ao gabinete dos dirigentes não são os mais pobres, são os mais ricos. E, muitas vezes, o orçamento da União é feito para aquelas pessoas na sociedade que já estão organizadas e que, portanto, fazem uma pressão sobre o governo, e o orçamento é dividido normalmente para a parte organizada da sociedade e, quando a gente vai ver, não sobra nada para a gente fazer política para aqueles que não têm sindicato, para aqueles que não vão à capital, para aqueles que não fazem passeata, para aqueles que não têm sequer o direito de protestar porque não têm como protestar.

Esse é um desafio que está colocado para as gerações de dirigentes do século XXI: é ter claro que o combate à pobreza só será vencido se houver determinação, se houver uma determinação de prioridade na política orçamentária de cada país, de tratar a questão da fome como coisa prioritária. Se a gente esperar sobrar dinheiro no orçamento para cuidar da fome, nunca vai sobrar, porque os que têm acesso ao orçamento são gananciosos e querem todo o dinheiro para eles, e não fica nada para os pobres. Essa é uma experiência muito rica que eu vivi aqui no Brasil.

A segunda coisa importante, meu caro Diouf, é que os dirigentes políticos do mundo precisam definir que não tem nada mais importante para cada país, não tem nada mais importante para cada povo do que a segurança alimentar, como a forma mais extraordinária de garantir a soberania e a autodeterminação dos povos. Se um país tiver a arma mais poderosa que tiver, mas ele não tiver a comida de cada dia, do seu povo, plantada no seu território ou comprada fora, esse país não tem soberania.

“Quem tem fome não pensa, a dor do estômago é maior do que muita gente imagina”.

Então, a segurança alimentar precisa ser vista como uma questão de soberania de cada país. Nós temos que garantir a cada cidadão do nosso país que ele possa ter o café da manhã, o almoço e a janta todos os dias, porque isso é o que permite às pessoas terem tempo de pensar no que fazer no dia seguinte. Quem tem fome não pensa, a dor do estômago é maior do que muita gente imagina. E as pessoas que têm fome não viram revolucionárias, elas viram submissas, elas viram pedintes, elas viram dependentes. Portanto, a fome não faz o guerreiro que nós gostaríamos que fizesse. A fome faz um ser humano subserviente, humilhado e sem forças para brigar contra os seus algozes, que são responsáveis pela fome.

Normalmente, a campanha é feita, todo mundo defendendo os pobres, até o rico que é candidato. O problema é que na hora de governar, o pobre sai da agenda e o rico permanece na agenda. São eles que indicam ministros, são eles que indicam assessores, ou seja, são, na maioria das vezes, eles que determinam a política que você tem que fazer.

.“Foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à chamada crise dos países ricos”.
O dado concreto é que passados alguns anos veio a crise econômica mundial e ficou provada uma coisa, para que os pesquisadores publiquem por muito tempo: foi a capacidade de consumo dos pobres que fez a economia brasileira resistir à chamada crise dos países ricos. Os pobres do Norte brasileiro e do Nordeste consumiram mais. As Classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais do que as classes A e D da região Sul e Sudeste. E os pobres foram à luta comprar coisas que, até então, eles não estavam habituados a comprar. Porque quem tem muito dinheiro, quem tem muito dinheiro dá US$ 30, US$ 40 de gorjeta, depois de tomar dez uísques no restaurante. Mas quem não tem nada e pega US$ 40, é capaz de levar comida para seus filhos comerem durante 20 dias ou 30 dias, é capaz de fazer a multiplicação dos pães, é capaz de garantir o sustento de uma família. Esse é um dos milagres que aconteceram neste país.

Neste país, eles diziam: “Nós não podemos aumentar o salário mínimo, porque o salário mínimo vai causar inflação”. Quando nós chegamos aqui, o salário mínimo – se eu não estiver enganado – comprava 1,4 cesta básica. Hoje está comprando 2,4 cestas básicas, ou seja, praticamente, o dobro, e a inflação está totalmente controlada.

O problema é simples: pouco dinheiro na mão de muitos é distribuição de riqueza; muito dinheiro na mão de poucos é concentração de riqueza. Então, o que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente, e os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média, começaram a frequentar shopping centers, começaram a comprar coisas que antes só uma parte da sociedade podia comprar.

Esse é um dos milagres das coisas que aconteceram aqui no Brasil, mediante também muitas outras políticas. Eu, hoje, sou um homem convencido de que o problema nosso não é apenas a questão de dinheiro. Dinheiro é sempre muito importante, dinheiro é sempre muito importante, mas o problema maior nosso é a falta de definição de prioridades. O problema nosso, às vezes, é a falta de projeto, e o problema nosso, às vezes, é a falta de focar aquilo que é prioridade.

O Brasil, na década de 70, tinha uma extraordinária assistência técnica na agricultura brasileira e, no final dos anos 90, toda a assistência técnica estadual tinha, praticamente, com raríssimas exceções, sido dizimada. Nós precisamos reconstruir, porque senão a agricultura familiar não sobrevive. E eu tenho verdadeira ojeriza ao discurso da agricultura de subsistência, tenho verdadeira ojeriza. Dizer para um agricultor: “Você tem que plantar a sua mandioquinha, você tem que plantar o seu milhozinho, você tem que plantar o seu arrozinho”, só para comer? Não! Nós precisamos mostrar que ele tem direito ao acesso à tecnologia, que ele tem que ter direito ao acesso a crédito para ele produzir com mais escala, para, além de comer, ele poder ter um dinheiro e ter acesso a outros bens, senão o homem não fica no campo. O velho fica, mas a juventude não fica no campo, porque as luzes da cidade são uma paixão para a juventude. Entre ficar ouvindo um grilo cantar ou a luz de um vagalume a nos clarear, na porta de um cinema no centro da cidade, com tanta coisa bonita acontecendo lá, é uma paixão a que nenhum jovem resistirá. E ele só vai ficar no campo na hora em que a gente criar as condições para que ele possa ficar no campo.

Link:
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16590&boletim_id=696&componente_id=11668

sábado, 15 maio, 2010 Posted by | Comentário, Repassando... | , , , | Deixe um comentário