Livre pensar é só pensar!

Para não desligar os neurônios

Pro dia findar feliz…

Ensinando a Preta a não ter medo de águas profundas

Ensinando a Preta a não ter medo de águas profundas

Ontem foi dia coletivo no Benvirá: a companheira, minha irmã Miroca e, logicamente, a Preta e o Num É. Tomar banho, alimentar peixes, coletar ovos, colher pimenta-doce, bebericar cachaça e contar lorota mergulhados no Laguinho do Exu. Claro que a Mariceli só colocou os pés na água, talvez para embriagar os peixinhos nativos com o chulé urbano. Miroca, apesar de nordestina, mergulhando sempre, matando as saudades das águas da fazenda Amaralina e do Velho Chico. O Num é, apesar de  paraense da gema, tem a mania nordestina de não ser chegado a banhos constantes. Só vai pro banho semanal arrastado, ao invés da Preta, que basta chamar e ela entra na água até o pescoço. Só não vai além, pois tem medo de águas profundas. Assim, cada um a seu modo, curtimos algumas horas felizes e descontraídas, rindo muito, planejando coisas e pegando sol. Pai-d’égua…

 Ao meio-dia, almoço, com direito a peixada com pirão escaldado, cerveja e açaí com tapioca, apesar dos riscos da glicemia geral. Fazer o quê? Vida só se tem uma e deve ser curtida até a última gota. Bom dia a todos…

Mariceli, a “embriagadora de peixes”…

A "turma da CEASA" bombando na Pimenta-Doce.

A “turma da CEASA” bombando na Pimenta-Doce

 

 

 

 

 

 

 

sábado, 26 julho, 2014 Posted by | Comentário, Repassando... | | 2 Comentários

Terra-do-Nunca ou do Benvirá?

DSC00936O sonho começa a tomar forma. As fruteiras plantadas em sistemas agroflorestais completaram o primeiro ano e prometem fartura para breve. As pimenteiras-do-reino trepam vigorosamente nos troncos dos bacurizeiros nativos, como as plantas ancestrais faziam na Índia da época das grandes navegações. As águas parcialmente represadas da nascente, estão cheias de peixinhos a dançar em suas águas claras, águas cortadas diariamente pelos patos e pelos banhos expontâneos da Preta e do Num É. As andirobeiras, copaibeiras, ipês e castanheiras ensaiam os primeiros galhos das copas do futuro. E eu, cada vez mais em paz e deslumbrado, mergulhado quase sempre nas águas até ao pescoço, bebericando pinga e roendo taperebás (já tive três ameaças de pneumonia).

Agora de manhã, mais uma vez, dei comida para os peixes, sentei no toco e fiquei a apreciar seus pulos e o banho dos patos, mais abaixo. E, como nunca, a perspectiva concreta do sonho original se fez presente em mim. E por assim ser, relembrei o projeto da placa que pregarei um dia na entrada do sítio: Sítio Natureza, As reticências a serem preenchidas pelo subtítulo, que deverá expressar a essência do meu espírito em resiliência: a Terra do Nunca? Ou a Terra do Benvirá? Neste dilema, perdi a noção do tempo a matutar a escolha, sentado no tronco a beira do lago. Qual dos dois?

O primeiro subtítulo pensado, há tempos atrás, foi a Terra do Nunca. Na ficção de J. M. Barrie, esta terra era a morada dos meninos perdidos, da imortalidade e da infância perene. E eu, um menino perdido por tantos anos obrigado à luta para provar que a rebeldia valia alguma coisa, apesar de ter conseguido provar o que queria, redespertei em mim o sonho de uma segunda infância, da qual nunca mais queria sair (efeitos da velhice?). Livre. Dono da minha rebeldia. Dono da minha cabeça e do meu corpo. Imortal. Feliz como um bicho-do-mato sem predadores por perto.

Mas a minha mente em resgate é um turbilhão, que não se contenta em apenas ser criança parada no tempo, por mais feliz que ele seja. E aí me veio à cabeça a música do Vandré (Terras do Benvirá), um poeta louco, rebelde e visionário que, antes de ser morto em vida, refletiu sobre os sonhos originais, o amor de sempre, o céu que nos cobre, as coisas passada que retornam para dar força e o presente que não esquece as raízes.

Pensei muito. Tenho pensado muito nestes dois subtítulos. Cheguei até a pensar em uma enquete para que vocês pudessem me ajudar a escolher. Mas me decidi hoje, ali na beira do lago, por Terra do Benvirá. O eterno vir-a-ser. A desconstrução criativa, onde o que é bom pode ser transformado no melhor. Já fui criança um dia. Criança rebelde, sonhadora, triste e teimosa. Hoje, para minha sorte, mantenho em mim o espírito da criança que fui, mas sou um adulto. Soy um viejo (como sempre digo, um quixote incorrigível). Ou como sempre disse também, um camponês metido à besta que finalmente largou as pretensões intelectuais acadêmicas e retornou à intelectualidade da vida natural. Não me arrependo das pretensões pois fui obrigado à buscá-las e também porque, se não o tivesse feito, morreria na dúvida pelo caminho não trilhado.

E agora, ainda com o coração ligado lá no lago, comunico a vocês, meus amigos: hoje surgiu, formalmente, o Sítio Natureza – A Terra do Benvirá. Ainda embrionário, mas com coisas próprias do sonho que estou perseguindo. E lembrem-se, no caso de eu partir para o outro lado do caminho antes do combinado: aqui eu encontrei paz; aqui eu me resgatei enquanto ser humano válido; aqui reconstruí meu corpo, minha alma e meu espírito. E por tudo isso, quando partir, continuarei sentado à beira do lago, para sempre e contemplando este pequeno mundo que me faz tão feliz.

Um bom domingo a todos. E para o dia continuar encantado, mando o link para vocês curtirem o Vandré, em As terras do Benvirá.

https://www.youtube.com/watch?v=P2meimIHGsE

https://www.youtube.com/watch?v=h8Eb2YECSjo

domingo, 25 maio, 2014 Posted by | Comentário, Crônica, Reflexões, Repassando... | , , | 2 Comentários

Auto-restropectiva tardia e à meia-tarde…

GERAL DA FILMADORA 689O ano que findou transcorreu em velocidade de trem-bala. Nunca havia despercebido tanto a passagem do tempo, envolvido que estava em minhas atividades profissionais, no meu quintal, com meus bichos, na construção do meu sonho agroecológico no Sítio Natureza e com minha nova rotina alimentar. Os dias voavam e chegava em casa tão cansado fisicamente que, muitas vezes, dormia algumas horas antes de tomar banho e comer alguma coisa. Nada mais prazeroso que não se preocupar com o tempo e dormir feliz ao fim de cada dia…

Desde dezembro vinha pensando em compartilhar com vocês o meu ano encerrado, talvez um dos mais felizes da minha longa labuta existencial. Mas faltava tempo, faltava o gancho emocional para iniciar, faltava aquele momento mágico em que o insight nos domina e ajuda a fluir os pensamentos. Hoje, finalmente e da forma mais inesperada, reuniram-se o tempo, a vontade e a inspiração…

GERAL DA FILMADORA 621Mergulhado até o pescoço nas águas do Laguinho do Exu, com birita à beira e a observação em alerta, curtia o companheiro que substituiu o Exu, após a sua morte, nos banhos rotineiros: um Bem-te-vi que fixou morada nos arredores e que sempre se banha no lago, em mergulhos rápidos e certeiros. Com o tempo, ele se acostumou com a minha presença, a ponto de arrumar uma companheira e fazer ninho em um arbusto acima da roda-dágua que a represa movimenta. Postei-me a menos de três metros do ninho e fiquei observando o que o casal faria, já que está com filhotes. Os dois não se deram por achados, saíam e voltavam com minhocas no bico, pousando em galho próximo. Mas, como cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, se revezavam nos processos de alimentação e vigilância. Enquanto um adentrava ao ninho, o outro me fitava em alerta… E eu lá, entorpecido de álcool e de prazer, lembrando todos os bichos que já vi no sítio e que sequer imaginava que ainda existissem por aqui: raposas, macacos, um bando de quatis, um casal NUM E 3de jacus, tatu e terminando com o veado-poca (pequeno porte) que saltitou à frente do meu carro, na chegada. Que eles permaneçam aqui por muito tempo…

Em decorrência, lembrei-me dos meus cachorros. Da Oyá, que fugiu para outras paragens ignoradas. Do Exu, que morreu estupidamente pelo meu desconhecimento sobre a gravidade da giardíase. Da pretinha, que se foi ainda novinha pelo mesmo motivo. Até que aprendi e consegui formar um trio canino razoável: o desprovido Num É, que a cada dia fica mais enjoado e neurótico, restando apenas o seu charme particular para se relacionar com os seus iguais. Da Preta, a Rottweiller, que se tornou a melhor cachorra da minha vida (entre os animais!), com sua meiguice e apego afetivo, a sua territorialidade intensa, sua vigilância incansável e sua inteligência acima da média. E, por último, a Branquinha, uma linda vira-lata legítima, pequena, levada e fugidia a banhos (detesta água e quando lhe dou banho, ela se intriga comigo o resto do dia).

GERAL DA FILMADORA 748Enfim, um universo totalmente diferente dos meus últimos 50 anos de vida, imitação da minha infância/adolescência, e que me trouxe de volta a motivação e a tranquilidade que já perdera. E neste ambiente, naturalmente, mudanças outras ocorreram…

Para economizar e investir no sítio, deixei de fumar, ampliando em 1 Salário Mínimo mensal a minha capacidade de custeio. Deixando de fumar, meu paladar voltou, livrando-me do consumo exagerado de sal, normalizando a minha pressão em 12/8 (tô garoto). Para livrar-me da glicose alta (decorrência recente da minha obesidade antiga), comecei a consumir verduras, suco de maxixe, salada de maxixe e frutas, muitos destes alimentos produzidos lá no Natureza. E o mais surpreendente: gostei! Emagreci doze quilos, sem remédios alopáticos e sem os sofrimentos históricos das dietas tradicionais. Claro que  a cabeça feliz ajudou. Claro que a motivação real do sonho rural, ajudou. Claro que os meus amigos bichos ajudaram. E claro que a companheira e os filhos, quando GE DIGITAL CAMERAaparecem ou telefonam, ajudaram.

Tudo isto, sem traumas, sem dramas, sem medos dos terrorismos médicos e sociais que nos patrulham diuturnamente. Apenas circunspecto nas minhas convicções e desejos.

Bendito 2013! Que os anos vindouros sejam iguais ou melhores, pois assim chego aos cem anos brincando.

Pronto, falei de mim naquilo que me aconteceu de mais profundo. Tô feliz, quase natureba, e espero que vocês tenham alcançado o melhor para si.

Bom fim de semana a todos…

sábado, 18 janeiro, 2014 Posted by | Comentário | , , , | 1 Comentário

Eis o NUM É, o desprovido…

NUM E 3Desde que perdi o Exu, entrei em parafuso no que concerne a cães. Principalmente cães de raça. Pô, a gente vê os vira-latas nas ruas, sem alimento, sem abrigo, sem vacinas, e os danados não morrem. Viram verdadeiros defuntos ambulantes, mas não morrem. E os nossos cães de raça, cuidados  e vacinados, bem alimentados e abrigados, morrem por qualquer larga-me-deixa. A partir desta conclusão, parti para um filhote vira-lata e interiorano, caboclo da gema. Ao recebê-lo, já fiquei meio cabreiro: o cara era o bicho dos mais desprovido de atrativos que eu já vi nesta vida, em condições de normalidade biológica e ambiental. Mas, topei a parada e fui cuidando-o e buscando um nome que tivesse a ver com aquela figura bizarra. E após longas meditações, cheguei ao nome fatal: Num É. Num é, por ser a expressão popular regional para Não É. E também por ele contradizer quase todo o perfil dos cães amados nas famílias brasileiras. Senão, vejamos:

Num É de raça, dizem ter raízes profundas no vira-latismo, com suspeitas de rastros genéticos quase imperceptíveis de Fila e Pastor Alemão. Em verdade, ele parece mais um cruzamento de Mucura com Hiena.

Num É bonito, é feio que dói, magreirão e de bucho-quebrado, pelagem indefinida entre hiena, raposa, sei lá….

Num É educado, vive se esfregando nas pernas das pessoas…

Num É enfastiado, come mais do que ferida-brava, embora não engorde, só criando barriga.

Num é bom do juízo, parece sofrer de bipolaridade ou outro desarranjo qualquer, tendo atitudes intempestivas com andar-de-ré, fazer flexões acrobáticas com o pescoço e a cabeça, e outras esquisitices…

Enfim, Num É um monte de coisas que se espera de uma cachorro de família.

Mas, apesar de tão desprovido, ele tem um charme especial: o seu jeitinho indefinível e cativante, como o personagem Silva, do Chico Anísio (“É o meu jeitinho”…) De vez em quando pula do degrau da escada (ao invés de descer cuidadosamente), se esborracha e sai fazendo alongamentos ridículos. Acaba de comer e, ao invés de dar as costas para a vasilha-de-comida, sai de ré, meio que fazendo uma reverência à mesma. Quando entro na cozinha (ele já aprendeu que não pode entrar), se debruça no degrau e fica me olhando, como se estivesse em uma janela… E por aí vai…

E assim, eu e ele vamos tocando a vida. A Mariceli acha ele liiiindo! A Miroca acha ele horroso! E eu já me acostumei. E todos gostamos dele e do seu jeito estranho de ser.  Vamos ver como esta figura se tornará um adulto…

sexta-feira, 6 setembro, 2013 Posted by | Repassando... | , | 6 Comentários

O Laguinho do Exu…

LAGUINHO EXU 2Era pra ser apenas um espaço protetor da fonte existente mais acima e que serviria para banhar o corpo e a alma em águas puras (lembram?) e se chamaria simplesmente Laguinho. Foi trabalhoso, dispendioso, mas ele ficou pronto. Só que nesta caminhada, perdi o Exu, filho de Oyá, de forma brutal: uma intoxicação não identificada e que o prostrou em vômitos de sangue, obrigando-me a praticar a eutanásia para não vê-lo sofrer tanto e inutilmente. Ele morreu mansamente, (afagado pelas minhas lágrimas e carícias na cabeça), na manhã do sábado em que iríamos nadar juntos no Laguinho, finalmente cheio e convidativo.  Não foi possível. Veterinário por aqui é como médico nos cafundós, não existe e meus parcos conhecimentos foram insuficientes. Uma semana antes, ainda construindo a represa, levei-o para passear lá e ele se esbaldou. Pulou, correu e, quando cansou, deitou-se à larga na pouca água da represa e curtiu, com aquela cara tranquila e inocente…

Por isso, passei a semana vendo  um quintal vazio, uma varanda sem ninguém a me esperar de manhã e um lago de banhos solitários…

LAGUINHO EXUE hoje, ainda há pouco, sentado à beira-dágua, deu-me um banzo desgraçado. Vaguei pela perda de Oyá, pela morte de Exu, por meu filho com saúde em recaída, por minha companheira chorosa e assoberbada de tristezas e preocupações, por minha impotências diante de tantas coisas tristes, até retornar ao ambiente próximo, contemplar as águas e seus arredores, relembrar toda a caminhada aqui realizada nestes meses e trazer à mente uma palavra: resiliência. A capacidade de renascer das cinzas, de se reconstruir, apesar de tudo e acima de tudo. Um conceito tão profundo que teve o seu uso universalizado em todas as áreas e todas as coisas do mundo, mas que traz em si o sêmen da infinitude e o pêndulo eterno que oscila da alegria à dor, da força à impotência, do prazer ao sofrimento, e vice-versa. Sempre. Indo e vindo, indo e vindo, indo e vindo. Morrendo e renascendo para morrer de novo e ressucitar para novamente morrer. A cada dia, a cada hora…

Olho a vegetação em volta abraçando as águas e penso em quantos séculos de mortes e ressureições, ela e a fonte enfrentaram: derrubadas, queimadas, açoreamentos, rasgos por ferramentas e abandonos pelos homens, mas renascendo sempre. Lembro de como era o território no início do ano e agora, com novas plantas vicejando nela, resiliando-se pouco à pouco em cada grama de esterco, em cada muda de leguminosa plantada, em cada kilo de biomassa não-incinerada. Lembro-me do Ronaldinho, o tatu que mora por aqui (pois tem driblado todos os caçadores que por aqui transitam) e que, espero, sobreviva à sanha dos predadores. Meu pensar reenxerga a pequena cotia cortando a estrada, os macacos roendo cocos de Inajá, as maracanãs cobrando sua cota na safra de milho, o casal de raposas olhando-me à beira da estrada, e o sentido de resiliência se agiganta, pois está presente ali, ao meu lado e em tudo.

Portanto, não posso fugir. Tenho que me reerguer. E tenho que acreditar que meu filho possa resiliar-se diante das fragilidades que a vida impôs à sua saúde, que minha companheira consiga resgatar o sorriso e a alegria de viver. E como o Exu era o guardião das encruzilhadas, das coisas, das casas e das pessoas (mas partiu fisicamente antes do combinado), quero crer que ele está por aqui, guardando e nos ajudando, com sua lembrança, às nossas lutas e transformações.

Por isso, estas águas serão, doravante, o Laguinho do Exu…

Nesta tarde, banhei meu corpo em suas águas refrescantes e transparentes, mas não foi o que pensava. Foi um banho saudoso…

segunda-feira, 8 julho, 2013 Posted by | Comentário | , , , | Deixe um comentário

A primeira batalha…

Há séculos, nós humanos aprendemos a ser o centro do mundo e substituímos a parceria com a Natureza pelo domínio sobre a Natureza. Deu no que deu: devastação global, crises produtivas e climáticas que nos levaram à atual crise ambiental que, em face da ganância dos mercados e das tecnologias eco-agressoras, agrava-se a cada dia, já que desaprendemos a dialogar com o ambiente.

Sitio Natura 6Felizmente, nas última décadas, surgiu um bando crescente de loucos (na opinião conservadora), capaz de lutar em várias frentes (política, científica, tecnológica e de gestão) e fazer frente ao etnocentrismo pragmático-utilitarista reinante no planeta. E, felizmente, começa a ressucitar a idéia das parcerias com a Natureza, protegendo-a,  reconstituindo-a e facilitando os seus processos naturais de produção, conservando-a ao invés de inutilizá-la.

De há muito tornei-me um destes loucos, após muitos anos cooptados pela agronomia de mercado ainda dominante. Mas, agora, tenho um território para aplicar minhas vontades e conhecimentos agroecológicos compartilhados com aqueles que sonham um ambiente diferente, resgatado e diverso.

A um mês, iniciei a labuta. Primeiramente, abri a estrada interna de que necessitava. Poderia utilizar um trator e fazê-la rápido e a um custo 30% menor. Mas, e o estrago ambiental? Preferi então fazê-la à mão, com dois cabras machos que moram na vizinhança e ela já está pronta, conforme podem ver na foto acima. Nada cortado de fundamental, apenas a trilha curvilínea poupando as plantas mais sigificativas, como o Anajazeiro da foto acima, que produz coquinhos que servem ao consumo humano e dos animais (tatus, pacas, etc.) ainda presentes na área, apesar dos caçadores clandestinos. E embora com esta aparência rústica, meu velho Renault (um carro urbano), entra e sai tranquilamente e em pleno período chuvoso. Sem erosão, sem terra e matas revolvidas. Apresento-lhes, então o Caminito, como o batizei.

Sitio natureza 3 036Na foto ao lado, está o início da construção (também manual) do primeiro lago (o Laguinho), aproveitando uma bacia natural do canyon onde correm as águas da nascente que brota 150 metros acima, por um forte declive natural. O Laguinho reforçará a fonte e a vegetação à montante, onde nada será tocado, a não ser para reforçar a vegetação terciária já existente. E lá no fundo da foto, situa-se o lugar onde construirei a casinha de pedra, quando puder. Acho que vai ficar lindo (o Laguinho e a casa em meio ao pomar agroflorestal que formarei ao fundo, na vegetação mais rala).

Nestes arredores situava-se o antigo sítio de moradia do antigo dono (já falecido) e ainda há por lá uma idosa jaqueira, alguns coqueiros maltratados, açaizeiros e murucizeiros abandonados, que recuperarei em breve.

E algo carinhoso para o meu coração socialista chegou aos meus ouvidos, através do meu escudeiro. Um dos dois trabalhadores (que desconhecia até então) foi chamado para trabalhar para o japonês ao qual prestava serviços, de vez em quando. E ele disse, ao receber o recado, através de sua mãe: _ Eu não vou. O seu Henrique é um homem bom, me arrumou serviço quando eu mais precisava e ele vai ter sempre serviço pra mim e pro meu tio, seja no sítio ou lá no quintal da casa dele.

Imaginem como ficou este meu coração de anseios solidários…

E como primeiras “curtições” no território, além do “avoado” de dias atrás, documento a Mariceli (minha Dulcinéia) e a minha mana Miroca, após uma breve chuva de verão, coletando e saboreando coquinhos nativos de Tucumã, produzidos pela pequena palmeira que preservei ao lado do Caminito. E para encerrar, o trio de La Mancha: este Quixote, ladeado de sua Dulcinéia e do seu fiel escudeiro Sancho (o Rocinante estava descansando à sombra, alhures).

“A esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe a crença. Vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança”. ( Augusto dos Anjos)

SITIO NATUREZA 4 009SITIO NATUREZA 4 005

quarta-feira, 3 abril, 2013 Posted by | Comentário | , , | Deixe um comentário

Um dia pra vadiar…

Ontem à tarde, fizemos o primeiro “avoado” no sítio, de certa forma uma celebração entre amigos da ocupação do território: eu, meu escudeiro João, o Exu (o nosso guardião, conforme a liturgia afro) e o Ivan, qua não saiu na foto por estar assando os peixes que compramos em um criatório do município. “Avoado”, para quem desconhece o termo, é uma expressão amazônica para as refeições que se improvisa no mato ou à beira dos rios, geralmente contendo alimentos assados e cachaça, além de muito riso e amizade.

SITIO NATURA 1Pois é. Alguns insetos e muito calor não atrapalharam a confraternização, expressão maior da nossa parceria na construção do que virá a ser o Sítio Natureza que sonhamos juntos.

Já aprontamos a estrada interna, iniciamos a limpeza do pequeno lago que vamos construir e a limpeza do antigo e abandonado sítio que existiu no local (tudo manualmente), onde se destaca a antiga jaqueira sob a qual fizemos a confraternização.

O pequeno Exu adorou, farejou pelos cantos próximos, talvez em busca de alguma caça (rsss) postando-se, após, quase sempre aos meus pés, como fazia sua mãe antigamente (ela ficou em casa, por falta de espaço no Rocinante).

Como não poderia deixar de ser, os dois trabalhadores que labutam na área comeram conosco e, entre uma brincadeira e outra, planejamos os próximos passos da ocupação: construir o laguinho, plantar as mudas de Açaí em meio à capoeira, manejar o bacurizal nativo e construir uma maloca de palha para os próximos “avoados”, que ninguém é de ferro.
SITIO NATURA 3SITIO NATURA 2

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Para compartilhar essa alegria com vocês, vão as fotos do peixe na brasa, o Exu babando de felicidade e este modesto blogueiro com o guardião e o escudeiro.

quinta-feira, 28 março, 2013 Posted by | Comentário | , , | 1 Comentário

Uma janela para o sonho…

Depois de deixar ema aberto a Janela Obama, na folha inicial deste blogue, por quatro longos anos, cansei… O (des) Esperança Negra não tem realmente jeito, desfez todas as expectativas que os pacifistas e socialista incautos deste planeta (como eu), depositaram na sua ação política. Em assim sendo, optei em substituí-la por uma janela para o Sítio Natureza, que comecei a construir (ou destruir criativamente, como queiram), com base na minha experiência e ideologia agroecológica. Nela, se acumularão as postagens sobre esta empreitada, para que os sonhadores como eu acompanhem a caminhada que iniciei. E, ao final de tudo, documentar o desenvolvimento concreto de uma idéia.

Aguardem notícias e fotos…

quarta-feira, 27 março, 2013 Posted by | Comentário | , | 2 Comentários

De que vale a vida sem sonhos?

SITIO 1A tão temida morte, porque inevitável, não é importante. É apenas uma passagem compulsória, imprevisível e irrevogável para o lado desconhecido do caminho e que consome inutilmente um tempo precioso que poderíamos investir do lado de cá, tornando a vida mais interessante, face aos desafios que nos impomos a enfrentar. Isto preenche a vida, isto nos dá massa crítica e espiritual para alimentar os dias, isto nos impede de “sentar no trono de um apartamento, com a boca  escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar“. Por ter sido sempre assim a minha vida, não poderia mudar, pois como o filosofou o escorpião, “não posso fugir à minha natureza”. Há cerca de três anos, assumi o desafio de transformar uma casa velha com um imenso quintal abandonado, em um esconderijo prazeroso. Ainda não cheguei aonde quero, mas ele já é um cantinho feliz e aconchegante. Mas já é quase um desafio vencido e o quixote que mora em mim não sossega. Eu quero mais, muito mais. Por isso, aos 69 anos, comprei dez hectares de terra semi-destruída pela predação histórica dos homens onde, por extrema sorte, sobrou uma nascente de água em meio a um resto de mata terciária. Encantou-me a possibilidade de resgatar este território judiado, torná-lo  ambientalmente recuperado e produtivo, com um laguinho em cujas margens farei uma casinha de pedra com varanda, para deitar-me em fins de tarde e banhar meu velho corpo em águas limpas e claras. Será como bater papo com Deus todas os dias…

Loucura? Desperdício de dinheiro? Delírio de velho? Qual nada! De que valerão meus dias se ficar descansando na varanda do cantinho que já construí, pensando na pressão alta, no ácido úrico, na glicose e nos triglicérides? Pensando na morte? Não, amigos, este velho quixote assumiu mais um combate com (talvez) um novo moinho-de-vento. E se esse combate é risível para muitos, para mim significa permanecer na luta, no bom combate. E ladeado por meu fiel escudeiro Sancho (João um amigo de verdade) e o velho Renault como meu Rocinante, já iniciei a labuta…

Precisava de uma estrada interna e, embora fosse muito mais barato utilizar um trator, estou construindo-a à mão, minimizando o impacto ambiental. Nesta contrução, descobri um bacurizal nativo em formação, que só precisa de algum manejo para dar-me frutas saborosas (estava lá, só esperando cuidados para superar a judiação dos homens). A fonte ainda tem alguma vegetação terciária às margens, mas precisa de reforço arbóreo e já planejei plantar espécies regionais nas clareiras existentes. Uma outra área, sem vegetação alguma, está pedindo vida e lá vou formar um pomar, enquanto aproveito o espaço existente para colher milho, feijão e macaxeira (pois eu também gosto de comida boa).

E vejam vocês, como as idéias loucas ainda encontram adeptos: não bastando meu amigo João (que perde horas e dias planejando e trabalhando comigo), o cara que me vendeu a terra (e que já mora na cidade), me presenteou com 40 mudas de coqueiro para o pomar e 100 mudas de açaí para reforçar a mata ciliar da nascente… Talvez ele esteja sublimando, na minha loucura, o desejo que ele não poude realizar…

Talvez meu dinheiro não seja suficiente, talvez o corpo me falhe, mas terei dias fascinantes (embora trabalhosos) pela frente…

Como disse inicialmente, a morte não é importante. Ela parece ser tão importante “porque vivemos ajoelhados” diante dos nossos medos, receios e comodismos. E para resistir a vergar os joelhos, lembro-me sempre do inesquecível Che: “Sonha e serás livre de espírito… luta e serás livre na vida“.

Bom fim-de-semana a todos…

domingo, 17 março, 2013 Posted by | Comentário | , , , | Deixe um comentário